«Resta um pano da fachada, onde / entre as heras que comem do granito / a pedra-de-armas ainda sobrevive»
Douro: Pizzicato e Chula (2004) - «Solar em ruínas»
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«Resta um pano da fachada, onde / entre as heras que comem do granito / a pedra-de-armas ainda sobrevive»
Douro: Pizzicato e Chula (2004) - «Solar em ruínas»
«Lastimável como um cão extraviado / do aconchego dos donos.»
Douro: Pizzicato e Chula (2004) - «Solar em ruínas»
«Sigo no barco que sobe o rio. Porém / não sinto que subo o rio: sinto, em vez disso, / que o rio me sobe a mim»
Douro: Pizzicato e Chula (2004) - «Um barco sobe o rio»
«Um rio refém / das memória de outra geração: / quando era um ímpeto de ira / como um punhal tirado da bainha / ou pedra arremessada contra o vidro.»
«Rio refém», Douro: Pizzicato e Chula, 2004
«Contentes no seu charco, carregando nos erres, / rãs aos milhares erguem louvores / ao criador das libelinhas que voam por perto»
«As rãs e as libelinhas», Caderneta de Lembranças (2021)
«Tivesse eu umas pernas tão altas como as tuas / e travaria contigo o ardoroso combate / -- velha guerra amistosa e sem quartel --, / para meu e teu contentamento.»
«Fala de um cão basset a uma cadela são-bernardo com cio», Caderneta de Lembranças (2022)
«Alguma coisa se há-de fazer quando / não há nada que fazer e o tempo se desdobra / até um ponto em que deixa de haver ontem / ou amanhã, e muito menos hoje.»
«Carreiro de formigas», Caderneta de Lembranças (2021)
«O Outono avança cauto, como se / não conhecesse bem o território que pisa.»
«E uma cotovia», Caderneta de Lembranças (2021)
«Que voz interior as traz para o solo, / de asa retraída, renunciando ao voo, / negando-se, traindo a vocação original?»
«Andorinhas no chão», Caderneta de Lembranças (2021)
«O lento, exasperante rolar do tempo é / a única moeda que circula / nessas brumosas paragens.»
«Em torno duma litografia em papel couché», Caderneta de Lembranças (2021)
«Aceitará sem rancor o que o destino / quiser fazer dele.»
Caderneta de Lembranças (2021)
«É assim o granito: perdurar / está-lhe na massa do sangue»
«Compareceu de coração apertado, o chapéu a passar-lhe inquieto de mão para mão, defronte de um funcionário de ar severo e compenetrado, que lhe leu uma lenga-lenga qualquer de que ele não entendeu rato.» A. M. Pires Cabral, «O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984) / «Em Fafe há sempre umas quadrilhas que dão febra e grandeza ao quadriculado do baixo Minho.» Ruben A., «Branca», Cores (1960) / «O Luisinho chegou ao portão e o senhor Joaquim não o podia mandar afastar porque o tratava por menino Luisinho.» António Alçada Baptista, Uma Vida Melhor (1984)
«Mas ainda é tão cedo. Ainda estou / a meio do banquete de viver.» Caderneta de Lembranças (2021)
«Há dias tão descidos ao fundo da furna, / que nem sequer com a minha própria / indulgência posso contar.» Caderneta de Lembranças (2021)
«A notícia correu célere, deu três pancadas nas portas (era assim que corriam as notícias), as putas vieram ver o turista, os chulos quedaram-se, inquietos, a trinta metros, o Franciú pintou os lábios, as gaivotas suspenderam momentaneamente o voo, cristalizadas no ar, e o Pintor aproveitou para fixar na tela o que nunca mais voltaria a acontecer: o homem de preto tirou a harpa do ombro e dedilhou nela sons prateados que deslizaram ao longo da pedra do cais e se espalharam no dorso das ondas, tornando-as mais oleosas.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) / «Não foi à escola; ao invés, ainda não teria os doze anos, ganhava o pão que comia como paquete da casa Miranda, a mais fidalga da aldeia, com casa apalaçada e vastos domínios em vinha, horta, olival, mata e lameiro.» A. M. Pires Cabral, «O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984) / «Nenhum dos parentes ou amigos que emigrassem, se esquecia de lhes descrever os locais onde cada um trabalhava: granjas com estábulos para centenas de vacas, e mencionar as comodidades e gozos que desfrutavam: casas tão confortáveis que não havia uma sem cortinas nas janelas, e restaurantes e dancings onde uma pessoa se divertia até se esquecer de quem era.» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932)
«A tarde estava quase no fim, uma tarde espessa e abafada.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) / «Lágrimas, gritos, lenços brancos, e ódio, ódio contra si próprios por haverem ficado, sabiam lá até quando, apegados àquela terra misérrima e àquela vida que criara odiosas raízes:» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932) / «Nasceu quase com o século, filho, como já vimos, de pai incógnito e de uma dessas heróicas mães solteiras, resignada à sua sorte e senhora do brio bastante para criar o filho de cara levantada.» A. M. Pires Cabral, »O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984)
«Acontecimento único a abalada, para terras longínquas, da meia dúzia de homens que anualmente emigrava, era também ali, comoção única, o momento da largada do navio.» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932) / «Mas sobretudo os olhos, aquelas duas contas reluzentes, coisa mínima e tão alerta sempre, maliciosos ou compungidos, consoante o que conta é digno de riso ou de lamento.» A. M. Pires Cabral, «O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984) / «No fim ficava tudo identificado: o rapaz, a gaja, o pai da gaja, o cínico, o amigo do rapaz e o bandido.» António Alçada Baptista, Uma Vida Melhor (1984)
«A boca nua de dentes, salvo o tal canino e os restos do outro, chupada para dentro, sarcástica o mais das vezes, comovida outras, com uma língua que vem frequentemente humedecer os beiços, numa passagem rápida, como a que certos batráquios disparam para capturar insectos.» A. M. Pires Cabral, «O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984) / «O Norberto nunca se chateava, desenrolar espaço era o seu passatempo favorito (o seu olhar levíssimo partia amiúde nas asas das gaivotas oblíquas), afiava mastros por conta dos donos das embarcações que iam ao cais falar com ele e cuspir para as ondas, agitando o braço direito (o esquerdo, conforme rezam as crónicas da época, era paralítico de nascença).» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) / «Os colos eram todos gordos menos o da tia Augusta que tinha dois ossos -- um em cada perna, mas também não era mau.» António Alçada Baptista, Uma Vida Melhor (1984)
"Chama o saci: -- Si si si si!"
"Forma-se a onda e depois outra e outra"
"Lembra um daqueles briosos cães-pastores"
1. Manuel Bandeira, "Berimbau"
2. Antero Abreu, "Onda vai onda vem"
3. A. M. Pires Cabral, "A um comprimido hytacand"
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.