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segunda-feira, novembro 09, 2020

a organização da espera: «Eurico o Presbítero» (19)

 Continuar: «O espectáculo que oferecia a caverna de Covadonga na noite imediata àquela que se despediu com os sucessos das margens do Sália era mui semelhante ao dessa outra noite em que Pelágio recebera a nova do cativeiro de Hermengarda; -- espectáculo semelhante, mas personagens, em parte diversas.» Capítulko XVII, «A aurora da redenção», pp. 241-245 da minha edição.

Capítulo que se organiza em torno da táctica de enfrentamento das forças muçulmanas e aliados visigodos. Recordemos que a invasão de 711 ocorre no âmbito de uma guerra civil no reino visigótico, com os árabes e berberes chamados por uma das partes. Covadonga está situada nos Picos da Europa, lugar azado para emboscadas, como, séculos antes, os Montes Hermínios, a Serra da Estrela, os lusitanos iam massacrando os romanos. (Herculano faz reaparecer Gustislo, semi-selvagem e mais lusitanos -- «Os quase selvagens filhos do Munda, vestidos de peles de alimárias [...]», que se preparam para a espera na companhia dos cântabros, que também custaram a Roma um preço elevado).

Enquanto a febril Hermengarda repousa sob o efeito dos curativos do monge Baquiário, junto dos quais Eurico permanece, docemente intimado pelo irmão daquela, Pelágio, que organiza, mais do que a resistência, a cilada no âmago daquelas montanhas, enftrenta protesto dos seus guerreiros, nomeadamente Sanción, pela falta de nobreza no enfrntamento do inimigo, numa galhardia guerreira talvez extemporânea.



quinta-feira, outubro 08, 2020

balbúrdia no acampamento mouro - «Eurico o Presbítero» (16)

continuar: «Era o cair do dia.» Cap. XIV, «A noite do amir», pp. 175-199 da minha ediçãoO acampamento de Abdalaziz Ibn Muça assentara nos arredores de Segisamon (a actual Sasamón, no município de Burgos, ao norte de Castela-Leão, já no limiar das Astúrias). O espectáculo da povoação a arder, o banquete dos vitoriosos, muçulmanos e cristãos "renegados", vinho e mulheres, será palco de uma acção de resgate que Holywood não desdenharia. Hermengarda, ainda sem revelar a identidade, é conduzida à tenda do emir, que após prometer mundos e fundos, inclusivamente avultados privilégios a Pelágio, quando aquele revelou serem irmãos, não demoveu a altiva dama. O que era exercício de sedução passa, com a recusa, a prelúdio de vioação, não fora «uma figura negra» cujo vulto fora visto a passar na direcção da tenda do emir, e confundido com um guerreiro do Sudão, irrompe silenciosamente pela tenda de Abdalzize, à maneiro do Batman: «à entrada principal da tenda uma figura humana se estampou negra sobre o chão brilhante da tapeçaria.» Como se não soubéssemos, era o Cavaleiro Negro ou seja, Eurico -- o que ainda ninguém sabe -- que com os cúmplices larga o acampamento, após ferir o emir, deixando mais do que em polvorosa, em chamas. Esta acção suscita a Herculano uma dezena de linhas cheias algazarra, de tumulto: «Por entre as chamas, ferido e semi-morto, a custo puderam salvá-lo. Pouco a pouco, o tumulto alongou-se pelo arraial: os xeques árabes e os capitães de Juliano acorriam para o lugar onde brilhava o incêndio, e, dentro em pouco, as vozes desentoadas, o tocar das trombetas, o rufar dos tambores, o tropear dos cavalos naquela vasta planície, fariam crer a quem olhasse para ali dos montes vizinhos que no arraial se pelejava uma batalha nocturna.» Em fuga, quando se vislumbram os cumes da Astúrias, dois guerreiros escoltarão Hermengarda até Covadonga, para os braços do irmão, enquanto que o Cavaleiro Negro e os restantes se preparam para enfrentar os perseguidores.

terça-feira, outubro 06, 2020

uma gruta nos Picos da Europa - «Eurico o Presbítero (15)

1. Continuar:  «A vitória do Críssus assegurara aos Árabes a conquista da Espanha inteira, porque o desalento entrara em todos os corações, e o terror quebrara todos os brios.» Cap. XIII - «Covadonga», pp. 155-176 da minha edição).


2. 
O recuo de Pelágio com os seus soldados até aos inóspitos e inacessíveis Picos da Europa, levando uma prática de guerrilha e rapina. E Covadonga era «Uma caverna [que] servia de paço ao jovem reia das montanhas e de templo ao Crucificado.» Não assim Teodomiro, que apesar de vencido era demasiado poderoso para deixar-se manietar totalmente, estabelecendo um pacto com Abdalazize Ibn Muça, o primeiro váli do Andaluz, o que lhe permitiu gozar de alguma autonomia nos seus domínio. Algo que foi radicalmente rejeitado pelo Cavaleiro Negro: «Paz com o infiel? Ao cristão só cabe fazê-la quando dormir ao lado dele sono perpétuo no campo da batalha.» A única alternativa é juntar-se no Norte a Pelágio, que lhe aparece sem de início se identificar enquanto tal.

3. Eurico é um homem dilacerado, um espectro, um homem que desafia a morte. E assim continua, mesmo quando chega à caverna de Covadonga a notícia de que Hermengarda foi aprisionada, e que possivelmente aguarda-a a última degradação de ver-se vendida como escrava, é ele quem impede Pelágio de avançar, com o argumento de que o irmão de Hermengarda é precioso para a luta dos Godos, a sobrevivência da pátria -- anacronismo proibido ao historiador mas aceite ao romancista. Eurico, o Cavaleiro Negro, embora ninguém saiba a causa da sua ocultação e da dor funda que sente, reclama-se como um «desterrado no meio do género humano», cuja vida a ninguém importa, a começar pelo próprio. Com ele seguirão doze guerreiros.

4. Herculano faz aparecer um lusitano -- como já antes, na batalha de Guadalete, um homenzarrão guarda da caverna, que dá pelo simpático nome de Gutislo... «Velho lobo do Hermínio», chamou-lhe Pelágio...

5. E o estilo de Herculano, esplêndido, cheio de recursos visuais, como nete parágrafo: «Tarde, já bem tarde, uma luz baça e duvidosa bruxuleava sem brilho adiante dos cavaleiros, que haviam rodado as montanhas, fazendo um largo semi-círculo. Naquele momento transpunham uma garganta medonha. Pelo contrário de outros lugares que tinham atravessado, aqui as serras erguia-se quase a prumo de uma e de outra parte da estreita passagem. Por meio dela sentia-se o ruído da torrente caudal, que parecia vir da banda da luz que se via em distância, e o nevoeiro, cada vez mais cerrado, pendurava-se em orvalho na barba espessa dos guerreiros e nos cabelos que lhes ondeavam pelos ombros, saindo de sobre os elmos.»

terça-feira, setembro 01, 2020

um amor assim recalcado - «Eurico o Presbítero» (10)

continuar: «DO PRESBÍTERO DE CARTEIA AO DUQUE DE CÓRDUBA»

Três missivas entre Eurico e Teodomiro, Duque de Córdova. Herculano fê-los camaradas de armas nas campanhas vitoriosas de submissão dos bascos, aliados aos francos. Na primeira carta, o herói relembra não só esses momentos de glória como a desventura subsequente à rejeição do pedido da mão de Hermengarda ao pai, o Duque de Fávila, progenitor também de Pelágio, o primeiro rei das Astúrias, último reduto cristão após 711, a partir do qual de processará a Reconquista cristã -- termo que já ele próprio é posto em questão, suponho, pelos talibãs do costume, os mesmos certamente das quatro espécies de académicos (os activistas, os sectários, os analfabetos e os idiotas úteis) que pretendem impugnar o termo Descobrimentos.
Teodomiro levará Eurico pela senda da evasão orgiástica, mas este porém era doutra têmpera: «A embriaguez dos banquetes era para Eurico tristonha; as carícias feminis, fàcilmente compradas e profundamente mentidas, atrás das quais correra loucamente outrora, tinham-se-lhe tornado odiosas; porque o amor, com toda a sua virgindade sublime, lhe convertera em podridão asquerosa os deleites grosseiros que o mundo oferece à sensualidade do homem.»
Diante do perigo -- «Os Árabes! -- [...] esta palavra maldita é como a peste quando passa: seguem-na o susto e o desacordo.» -- a cujo desembarque assistira na véspera, do refúgio, Eurico anuncia que voltará a empunhar a espada.
É sabido que o reino visigodo estava em guerra civil, e que as instituições políticas -- embora já com sofisticada legislação -- eram frágeis. Os árabes foram chamados por Julião, Conde de Ceuta, supostamente para vingar uma afronta do rei Rodrigo sobre a filha.  Rodrigo, sobre quem há suspeitas do derrube do rei anterior,Vitiza, pelo que a causa dos dissídios poderão encontrar-se principalmente aí.  A História perde-se na lenda e sustenta-se nas crónicas, fontes escritas e vestígios arqueológicos.
A resposta de Teodomiro é muito interessante, aceitando Eurico de braços abertos não deixando de fazer-lhe uma exprobação amarga de amizade ferida: «[...] aquele que te amou tanto; aquele que poria a vida para salvar a tua; que nunca teve contentamento ou mágoa que fosse para ti segredo, trataste-o com o mesmo desprezo com que tu, no teu nobre orgulho de desgraçado, trataste o resto do mundo [...].» Ao que Eurico retorquirá com a afirmação dum sentimento não compatível com as vulgares paixões: «Medes o meu espírito pelos afectos humanos»; a dor é incompatível com a vida, retomando o sentimento suicidário, que faz saber ao Duque de Córdova: «Sabes o que faz um amor imenso assim recalcado?»  A resposta é terrivelmente soberba, notando o (aparente) alheamento divino daquele servo: «O Senhor não me escutou as preces: não me aceitou a resignação.»; e a assim, sem saída: «Que pode hoje embriagar-me, senão uma festa de sangue?»
O romance histórico não é historiografia, mesmo quando escrito por um historiador, num romance tudo é permitido, desde que o discurso seja verosímil, do anacronismo à projecção do sentimento ou da ideologia do autor nas personagens. E aqui -- terminada a Guerra Civil (1828-1834) havia apenas uma década --, Eurico volta a vestir-se de Herculano: «Dir-to-ei, Duque de Córdoba: também eu não amo Roderico subiu ao trono; porque a memória de Vítiza nunca morrerá no coração do seu antigo gardingo. [...] Mas não é a sua coroa que os filhos das Espanhas têm hoje que defender; é a liberdade da pátria; é a nossa crença [...].»

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844), Cap. VII, «O desembarque», pp. 52-73 


segunda-feira, agosto 17, 2020

o indivíduo na História - «Eurico o Presbítero» (4)

Cap. II, «O Presbítero». Continuar: «No recôncavo da baía que se encurva ao oeste do Calpe, Carteia, a filha dos Fenícios, mira ao longe as correntes rápidas do estreito que divide a Europa da África.»

1. Apresentação do protagonista e da sua história, até à condição de presbítero de Carteia -- antigo povoado fenício na baía de Gibraltar. Os amores contrariados com Hermengarda, por Favila, duque da Cantábria, seu pai e também do grande Pelágio, o primeiro rei das Astúrias, entre 718 e 737 -- uma vez que Eurico pertencia à nobreza baixa --, deixam-no prostrado. «O orgulhoso Favila não consentira que o menos nobre gardingo pusesse tão alto a mira dos seus desejos.» Esta recusa, a que se junta a percepção de uma resignada aceitação por parte da amada leva a um estado depressivo, melancólico e de renúncia. Eurico toma ordens e torna-se sacerdote da pequena povoação.

2. Romantismo. O gardingo é caracterizado como um emotivo a quem «a melancolia […] devorava», e por isso detentor de uma personalidade diferente dos demais: «Eurico era uma destas almas ricas de sublime poesia a que o mundo deu o nome de imaginações desregradas, porque não é para o mundo entendê-las.» E na renúncia ao mundo transfere-se o entusiasmo guerreiro, o estro e o amor por Hermengarda numa outra devoção: «[...] o entusiasmo [pela mulher, entenda-se] em entusiasmo pela virtude; o amor em amor dos homens.» A epígrafe, retirada da Vida de Eulógio, de Álvaro de Córdova (c.800-861): «Sublimado ao grau de presbítero… quanta brandura, qual caridade fosse a sua o amor de todos lho demonstrava.» 

3. O narrador é-o no tempo presente (1844) -- «O presbitério, situado no meio da povoação, era um edifício humilde, como todos os que ainda subsistem alevantados pelos Godos sobre o solo da Espanha.» --; aspecto relevante para ficarmos cientes de que os juízos de valor que traz ao papel se aplicam também (sobretudo?) à circunstância do agora.

Ou seja: a História exposta e também a sua (dele, Herculano) individualidade: o poeta, o homem de acção, fé e convicções.

(Cap. II, «O presbítero», : 6-11)