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domingo, abril 05, 2026

zonas de conforto

Machado de Assis: «Pela janela viu na janela dos fundos de outra casa dous casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos ombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza. / -- Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos este canto que eles poderão tocar...» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» António Ferro: «Os vestidos são os cartazes do corpo.» Teoria da Indiferença (1920) § Fialho de Almeida: «Nenhum canto de natureza infecundo!, o mesmo amor que sobe da terra, a revigorentar os arvoredos, comunica-se aos ninhos, cinge os casais de pássaros, extravasa no ar como nafta de bodas bíblicas, e comunica-se, aspira-se, vai-se infiltrando em toda a parte. Eu bem na sinto! Eu bem na sinto!» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos» § Maria Gabriela Llansol: «["] É o instante físico, dilacerante, em que subo a um monte, e desço um declive. / É um sentimento incrível, o que estás a viver -- diz-me Eckhart, acusando-me com um sorriso. / Mas a sua companhia é doce, ágil, vai dando voltas ou descrevendo curvas à altura do meu sofrimento.»  Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Branquinho da Fonseca: «É até, talvez, a única coisa sobre que tenho ideias firmes e uma experiência suficiente. Mas não vou filosofar; vou contar a minha viagem à serra do Barroso. / Ia fazer um sindicância à escola primária de V...» O Barão (1942) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../...  «Dizem-me que se suspeita de uma ligação entre a iniciativa que conduziu aos actos efectuados na capela e a deflagração de explosivos, acompanhada da divulgação de panfletos, ocorrida no dia 31 de Dezembro. Gostaria, porém, de assegurar a V. Ex.ª que, conhecendo de muito perto, como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura, com quem tenho muito contacto, estou talvez melhor colocado que ninguém para poder considerar completamente absurdo que acerca dele se possa pôr a hipótese de ter qualquer relação com organizações cujos meios de acção sejam dessa natureza.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes

quarta-feira, março 11, 2026

zonas de conforto

Machado de Assis: «O princípio do canto rematava em um certo ; este , que lhe caía bem no lugar, era a nota derradeiramente escrita. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar.»  Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de Esponsais» § Maria Gabriela Llansol: «Lembro-me de uma tarde sob o sol e sobre o mar; a intensidade amorosa era tão grande que peguei num papel qualquer que ali se encontrava à mão e, mal lhe toquei, veio-me -- digamos à memória -- a presença estática e vibrante de alguém, e escrevi: "Eu tenho o corpo com dores, atraído pelo feminino e pelo masculino, pela memória antiquíssima da variedade dos géneros.»  Sintra em Passo de  Pensamento (póst., s.d.) - «Escrita e viagem» § Aquilino Ribeiro: «Mas rei a valer, e nenhum rei de copas, ali... de ceptro em punho, todos ajoelhados diante de mim a lamber-me os butes, sabendo que o era, pois rei era eu sem o saber. Que menos, com o rapariguedo à volta: Antoninho, cravo roxo! saúde de cavalo, açafate o que se chama farto, caminhos desimpedidos?! / Que o mundo é outro -- apregoa para aí o mestre-régio. -- Virou para melhor...» O Malhadinhas (1922) § Fialho de Almeida: «-- Eu bem na sinto!, eu bem na sinto! / E os dias lúcidos vão inundar de tonalidades esses subsolos de florestas da província. Uma virgindade cerra as espessuras e imacula as sombras das árvores, cuja cúpula, por cima, estrela o azul impecabilíssimo do céu. E pelas ramas que se engalfinham, se enlaçam, procuram frémitos de asas num mistério de núpcias.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos».§ Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Aliás, o Prof. Moura esteve ausente do País nos dias que os precederam e não teve deles conhecimento até ao momento em que as pessoas já preocupadas com a direcção que os mesmos estariam a seguir lhe pediram para comparecer. Chegou à capela cerca de uma hora e meia antes da intervenção policial e durante esse período limitou-se a assistir em silêncio ao que se estava passando.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. João Freire Antunes § António Ferro: «A Vida é o atelier  do Artista.» Teoria da Indiferença (1920)

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

zonas de conforto

Jorge Amado: «Nasci empelicado, a vida foi pródiga para comigo, deu-me mais do que pedi e mereci. Não quero erguer um monumento nem posar para a História cavalgando a glória. Que glória? Puf! Quero apenas contar algumas coisas, umas divertidas, outras melancólicas, iguais à vida. A vida, ai, quão breve navegação de cabotagem!» Navegação de Cabotagem (1992) § Machado de Assis: «E então teve uma ideia singular: -- rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra. / -- Quem sabe? Em 1880 talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...»  Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Desde que fui informado da detenção do Prof. Moura, procurei inteirar-me de todos os acontecimentos com ela relacionados. É-me assim possível afirmar ser totalmente infundada qualquer acusação ou suspeita de que o Prof. Moura haja sido organizador ou tenha desempenhado qualquer papel na orientação dos actos levados a cabo na capela do Rato.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (ed. José Freire Antunes) § Maria Gabriela Llansol: «________________ a viagem que até hoje me trouxe mais paisagens foi o corpo a escrever. Não só mais. Sobretudo indeléveis. / À partida há a folha branca. Na realidade, quando esta se introduz na viagem, há muito que a viagem começou na percepção. Este o seu princípio de real.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Aquilino Ribeiro: «A gente não era falsa a bródios e funções, não só pelo preito que nos mereciam os santos como porque ninguém seria mais amigo de espairecer e folgar. / Ah, velha Barrelas dum sino! Tomara-me eu outra vez com vinte anos e saber o que hoje sei! Diabos me levem se não fosse rei.» O Malhadinhas (1922) § António Ferro: «A Arte é a mentira da vida. / A Vida é a mentira da Arte. / A mentira é a Arte da Vida.» Teoria da Indiferença (1920)

terça-feira, janeiro 27, 2026

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Vida em superfícies lisas, desinfectadas, vida no instantâneo presente. Vi há dias um filme: Le Viol. Interiores brancos, ou seja, sem cor, móveis sintéticos. E nas paredes, quadros à Mondrian -- a estéril geometria. O tempo -- criação do nosso abandono. O futuro deve inventar uma eternidade à rebours. O instante neutro.» Conta-Corrente 1 (1980) § António Ferro: «Não sou um discípulo de Óscar Wilde. Quando o li pela primeira vez, tive a impressão de que tinha sido plagiado.» Teoria da Indiferença (1920) § Jorge Amado: «Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Menino grapiúna, cidadão da cidade pobre da Bahia, onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua.» Navegação de Cabotagem (1992) § Aquilino Ribeiro: «Ia-se à Senhora da lapa, à Senhora da Penha do Vouga, de cruz, estandarte e borracha à tiracolo, no bornal o pão amarelo de azeite e ovos, no merendeiro as trutas do Paiva. Em toda a parte punha ramo a nossa mocidade -- rapazes capazes de arremeter contra uma baioneta, moças a puxar para loirinhas, que por aqui não correu sangue africante.» O Malhadinhas (1922) § Machado de Assis: «Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluídas.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano: «4/I/73 // Exmo Senhor Prof. Doutor Marcello Caetano, / Ilustre Presidente do Conselho // Senhor Presidente, // Como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura encontra-se detido pela DGS em Caxias desde a noite de 31 de Dezembro.  A este respeito permita-me V. Ex.ª que leve ao seu conhecimento o seguinte.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. José Freire Antunes 

sexta-feira, janeiro 02, 2026

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Uma melancolia suave. Não desesperante. suave Compreende-se a "vontade de chorar por nada". É o súbito espaço vazio, a vertigem. A solidão. A solidão de não se estar sempre connosco. As gerações futuras deverão desembaraçar-se do tempo. Parece que já o tentam.» Conta-Corrente 1 (1980) § Machado de Assis: «Um dia de manhã, cinco depois da festa, o médico achou-o realmente mal; e foi isso que ele lhe viu na fisionomia por trás das palavras enganadoras: / -- Isto não é nada; é preciso não pensar em músicas...» Histórias sem Data (1884) -- «Cantiga de esponsais» § Aquilino Ribeiro: «Seroava-se nas lojas das vacas e aos sábados batia-se a ribaldeira até as Três Marias empalidecerem no céu. Invernos inteiriços como os dos lagartos. Mas, ah, logo que se ouvia a corcolher: tem-te lá, tem-te lá, Barrelas vazava-se por esses caminhos de Cristo em votos e romarias.»  O Malhadinhas (1922) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867): «Relativamente aos abatimentos, que o meu amigo faz aos livros que por aí tenho, são eles tamanhos que não os aceitaria eu. É certo que autorizei o Eduardo a abater, mas também com abatimento da percentagem que lhe designei. Sem isso não terão eles tão desgraçado fim. Prefiro recolhê-los porque merecem mais alguma estima. Do seu muito amigo // C. C. Branco // 30 de Julho 67.» in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947) § António Ferro: «OBRAS DO AUTOR - Alguns papéis ao vento e muitos na gaveta...» Teoria da Indiferença (1920§ Jorge Amado: «Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale a pena escrevê-las, não lhes encontro a graça.»  Navegação de Cabotagem (1992)

segunda-feira, setembro 09, 2024

tempo de reportagem

«Com seu sorriso sardónico e o olhar enviesado, não hesitou em responder-me: / -- Eu cá só lá vi pedras, carros, automóveis, cavalgaduras e gente!» Avelino de Almeida, «Como o sol bailou ao meio-dia em Fátima», O Século, 15-IV-1917 § «Sinto-me perdido num cortejo de sombras. Stelio, Foscarina, Francesca de Rimini, as virgens, a Gioconda, aglomeram-se, à minha volta, em multidão. Sinto em mim, de mãos postas, todas as imagens do poeta. Esta hora silenciosa é, para mim, a cidade morta de Gabriel... / Abre-se uma porta.» António Ferro, «O"Século" ouve Gabriel D'Annunzio», O Século, 7-XII-1920 § «Levanto-me, envergo pela primeira vez o meu uniforme de soldado português e em menos de meia hora fico pronto para a primeira viagem ao front. Toma-se à pressa uma pequena refeição matutina. Depois, é a abalada rápida, sob a chuva miúda e fria que não deixa de cair, para o campo de batalha do Somme -- esse cemitério imenso onde foram sepultadas pela artilharia britânica vilas e aldeias, das quais não existe nada hoje, absolutamente nada.»  Adelino Mendes, «A cidade d'Albert», A Capital, 29-III-1917

sábado, agosto 03, 2024

tempo de reportagem

«Uma noite fria, cortante. Há espadas no luar... Na larga praça, o palácio do governo, branco, tumular espectral, ergue-se, nos meus olhos como uma esfinge. Subo a escadaria, subo, subo muito, subo até D'Annunzio. Corrado Zoli -- o amigo do poeta -- acompanha-me. Eu não o vejo, porém.» António Ferro, O «Século» ouve Gabriel D'Annunzio», O Século, 7-XII-1920) § «Ourém, 13 de Outubro / Ao saltar, após demorada viagem, pelas dezasseis horas de ontem, na estação do Chão de Maçãs, onde se apearam também pessoas religiosas vindas de longes terras para assistir ao "milagre", perguntei, de chofre, a um rapazote do "char-à-bancs" da carreira se já tinha visto a Senhora.» Avelino de Almeida, «Como o sol bailou ao meio-dia em Fátima», O Século, 15-X-1917 § «16 de Março -- Às 7 horas da manhã, a ordenança do capitão I... bate à porta do meu quarto e obriga-me a interromper o sono que principiara meia dúzia de horas antes. Tenho a impressão de que chove. Da rua vem uma luz quase lúgubre -- a luz frouxa e polida das grandes madrugadas de inverno.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert», A Capital, 29-III-1917 

In jacinto Baptista e António Valdemar, Repórteres e Reportagens de Primeira Página, vol. II, 1910-1926, Lisboa, Assembleia da República, s.d.

sexta-feira, junho 30, 2017

começar

Um Camilo é sempre um Camilo, mesmo quando participa da categoria de literatura alimentar, ou seja, da que o bruxo de Seide lançava mão para, profissional das letras, se sustentar. Por isso, O Judeu será sempre um romance de visita recomendável, também pelas leituras de época, António José da Silva, dito 'o Judeu', Cavaleiro de Oliveira, a quem A. Gonçalves Rodrigues chamou 'o protestante lusitano', ambos ardido no fogo da Santa Inquisição, um em carne e espírito, o outro em efígie.
Emigrantes é um dos textos históricos do romance português do século XX. A ficção mudou com ele. Neste incipit, Ferreira de Castro põe-nos no ponto de observação do protagonista, Manuel da Bouça, esse pobre de espírito que irá acabar mal, o que se perceberá aqui, e confirmará uns romances depois, em A Lã e a Neve (1947). 
O 'Antero' de A Calçada da Glória é uma caricatura, aliás impiedosa, de António Ferro, com quem Tomás Ribeiro Colaço -- um nome com pedigree  nas letras portuguesas -- ajusta contas nesta narrativa terminada em 1940, porém só publicada no exílio brasileiro anos mais tarde. Creio, aliás, que nunca teve edição portuguesa.
1866 - «Há um fenómeno moral, muitas vezes repetido, e todavia inexplicável: é a esquivança desamorosa de mãe a um filho excluído da ternura com que estremece os outros, filhos todos do mesmo abençoado amor e do mesmo pai que ela, em todo o tempo, amara com igual veemência.» Camilo Castelo Branco, O Judeu

1928 - «Preta e branca, preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.» Ferreira de Castro, Emigrantes

1947 - «Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória

sexta-feira, outubro 14, 2005

Castro em Vila Franca (3)

Sem qualquer conhecimento no meio jornalístico, resolveu permanecer em Lisboa, recomeçando do zero. Durante anos free lancer, condição em que foi eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa, colaborou incessantemente com reportagens, crónicas, contos, entrevistas nos principais órgãos da imprensa portuguesa dos anos vinte. Esta fase da sua vida, Ferreira de Castro evocou-a algumas vezes, uma das no texto em que recordou o grande amigo Reinaldo Ferreira, o célebre «Repórter X»:
«Sem honorários fixos, mal retribuídos os trabalhos avulsos, tínhamos de escrever por mês, para vivermos, dezenas e dezenas, mais, muito mais duma centena de artigos, novelas, contos e crónicas, que publicávamos em numerosíssimas revistas e jornais de Lisboa, ilhas, colónias e Brasil.» (O Livro do Repórter X, Lx., 1936)
Ao mesmo tempo ia editando uma série de títulos que viria a eliminar da sua tábua bibliográfica, por terem deixado de representar a sua maneira de se exprimir. Mas... (1921), Carne Faminta (1922), O Êxito Fácil, Sangue Negro (1923), A Boca da Esfinge (com Eduardo Frias, 1924), A Morte Redimida, Sendas de Lirismo e de Amor (1925), A Epopeia do Trabalho, O Drama da Sombra, A Peregrina do Mundo Novo (1926), A Casa dos Móveis Dourados e O Voo nas Trevas (1927) são os livros desta primeira fase, hoje só encontráveis em alfarrabistas, com raridade.
Estes livros reflectiam, por um lado a contemporaneidade conturbada da década, os anos da velocidade, a idade do jazz-band, como lhe chamou António Ferro, outro dos seus grandes amigos de então, um frisson magazinesco que corria em paralelo com temas que hoje classificaríamos como «fracturantes»: feminismo, racismo, eutanásia... Por outro lado, assistimos a uma motivação ideológica que se manifesta principalmente em jornais como A Batalha e revistas como Renovação, ambos da central sindical anarco-sindicalista CGT.
Esta tensão virá a desembocar no final da década (1928) no romance Emigrantes, em que o autor pretende dar voz aos que não têm voz, historiar aqueles que não têm lugar nas crónicas oficiais. Daí o nome colectivo do romance e da personagem principal,Manuel da Bouça, uma personagem arquetípica. No prefácio da 4ª edição escreverá:
«Biógrafos que somos das personagens que não têm lugar no Mundo, imprimimos neste livro despretensiosa história de homens que, sujeitos a todas as vicissitudes provenientes da sua própria condição, transitam de uma banda a outra dos oceanos, na mira de poderem também, um dia, saborear aqueles frutos de oiro que outros homens, muitas vezes sem esforço de maior, colhem às mãos cheias.» [Emigrantes, 24ªed., Lx, pp. 14-15.]

(continua)

quarta-feira, outubro 12, 2005

Castro em Vila Franca (1)

Na primeira metade do século XX houve um nome que se destacou por uma atitude cultural, cívica e moral, tornando-se num ponto de referência sem paralelo duma ética libertária entre nós. E por diversas razões:
Em primeiro lugar, a circunstância de este nome, que é o de Ferreira de Castro, ser simultaneamente um autor de larguíssima audiência interna, e também o mais lido o mais traduzido do seu tempo, proeminente durante cerca de quarenta anos -- um tempo imenso. Esta difusão dos seus livros, além dos seus textos de ocasião, das suas entrevistas, dos seus depoimentos amplificavam a mensagem essencial de liberdade que perfilhou.
Outro aspecto que contribuiu para tornar Ferreira de Castro num caso à parte foi a circunstância de ele, anarquista e escritor, aparecer, senão isolado, pelo menos muito minoritário na cena cultural portuguesa, em que dominavam, por um lado, a acção oficial e oficiosa do Estado Novo, em especial através de António Ferro e do Secretariado da Propaganda Nacional, e por outro uma cultura de oposição em que se procurava hegemonizar um cânone neo-realista, configurado pelos jovens intelectuais ligados ao PCP. Após o 28 de Maio de 1926, o anarquismo e a sua vertente sindicalista, muito forte entre nós, definha inexoravelmente; na década de trinta, o atentado contra Salazar, protagonizado por Emídio Santana, e a greve-geral da Marinha Grande, já com o concurso de militantes comunistas, são uma espécie de canto do cisne do libertarismo organizado. Isto sem embargo das correntes minoritárias, com maior ou menor importância cultural e literária, dos republicanos históricos aos antigos integralistas, e de gente que circulava entre um e outro lado. E havia ainda os que não se misturavam, não por sobranceria mas por razões de princípio. Lembremos o caso de José Régio, um caso exemplar, um dos mais notáveis escritores portugueses do seu tempo e a forma como ele teve de lidar com as pressões de um e de outro lado, pese embora os protestos da maior admiração e respeito que ambos os lados faziam, o que, ironicamente, por vezes era até verdade...

José Maria Ferreira de Castro nasceu a 24 de Maio de 1898 nos Salgueiros, uma aldeia da freguesia de Ossela, concelho de Oliveira de Azeméis, filho de caseiros humildes.
A infância, marcada pela morte do pai, decorreria, contudo, com uma previsível normalidade, até à altura em que, engrossando a tradicional corrente migratória para o Brasil, se decide pela ida para a antiga colónia, corria o ano de 1911. Ao que parece, uma paixoneta juvenil não correspondida por uma rapariga muito mais velha, Margarida, levaram-no à audácia duma decisão inusitada para uma criança ainda imberbe de doze anos incompletos.
Chegado a Belém do Pará já no período da crise da borracha, recomendado a um vago parente que não o amparou como seria de esperar, foi o pequeno Zeca mandado para o seringal «Paraíso», em plena floresta virgem, nas margens do rio Madeira, braço do Amazonas. Nesse magnífico texto de memórias que é a «Pequena história de "A Selva"», Castro lembrou, dolorosamente:

(continua)

terça-feira, outubro 04, 2005

Ferro

Figuras de estilo #12 - António Ferro

A Europa, assustada pela sirène lúgubre, no pavor dos aviões inimigos, viveu na treva, durante a guerra. O jazz-band foi a sirène da Paz. A América, minhas Senhoras e meus Senhores, é, neste momento, a luz eléctrica do Mundo!
A Idade do Jazz-Band