«Palavras não as profiro / sem que antes as tenha encantado»
O Corpo de Atena (1984) - «Metodologia»
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«Palavras não as profiro / sem que antes as tenha encantado»
O Corpo de Atena (1984) - «Metodologia»
«Fluida, indecisa, volátil, / inconcreta, a ideia não / se submete facilmente / ao cerco insidioso / da palavra.»
O Corpo de Atena (1984) - «Ideia do Poema»
«Que, transformando-as enfim, o amor das palavras / não corrompa e destrua o amor da verdade.»
O Corpo de Atena (1984)
«Para lá do court de tennis, meu pai / assobia do outro lado da infância. Irei / mais tarde, agora desço à margem do rio. / Já vai a sepultar. Espanto as rolas / que esvoaçam. Chegarei a tempo?»
O Escriba Acocorado (1978) - «Encantações e exorcismos»
«Detém-se da alegria o brando rumor; / apaziguados os gestos, serena a erva. / Entre lodo e sol, devagar, cristaliza a luz.»
O Escriba Acocorado (1978) - «Ao lume da água»
«O buril colheu o veio da madeira / e feriu-a, da cunha até ao encaixe, / levando no fio o fio do destino.»
O Escriba Acocorado (1978) - «O mesteiral de Ilium»
«Servidor incorruptível da verdade e da memória / escrevo sentado e obscuro palavras terríveis»
«Proposição», O Escriba Acocorado (1978)
«nesta tranquilidade de soneto antigo / e verdades falsas, / insinua-se o teu canto apenas sussurrado.»
«Em toda a parte», O País dos Outros (1959)
«Atiramos pedras pr'além do muro / e escutamos o som opaco da queda.»
«Tédio», O País dos Outros (1959)
«Os pássaros passam de largo / e recusam-se ao cimento e ao asfalto da cidade hostil.»
«Kwela para amanhã», O País dos Outros (1959)
«Das sombras, das solidões / dos recantos recônditos / da noite e da chuva / saem homens.»
«Dawn», O País dos Outros (1959)
«Vinte e tantos anos de idade / e outros tantos de medo.»
«A quinta década», O País dos Outros (1959)
«Amo-te cidade da infância, / com girassóis e casas de madeira e zinco / a dormir na neblina da memória.»
«Carta para um amor», O País dos Outros (1959)
«A minha infância é um cão malhado. / Chama-se Foxie e ladra aos passantes.»
«Tempo morto», O País dos Outros (1959)
«Dizem-me bom dia como quem fecha / uma janela sobre o nevoeiro,»
«Princípio do dia», O País dos Outros (1959)
«escuta o arranhar da vassoura / no passeio, / ouve a blandícia tónica das vozes / que sobem da rua, / atenta na canção que o negro chora / nas cordas da viola e na lonjura.»
«Espreita o inescrutável», O País dos Outros (1959)
«Chamais-me europeu? Pronto, calo-me. / Mas dentro de mim há savanas de aridez / e planuras sem fim»
O País dos Outros (1959)
«Tudo entre nós foi dito, / olhamos o apodrecer do parque, / o vento, o crepitar leve das folhas / e, sem ressentimentos, dizemos adeus.» O País dos Outros (1959)
ILHA DOURADA
A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na
voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade.
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te versos
de sal e esquecimento.
O País dos Outros (1959)
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.