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quarta-feira, julho 05, 2023

"O Bosque Harmonioso"

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982) Um manuscrito alegadamente do século XVI, de Cristóvão Borralho, desconhecido navegador, companheiro de Fernão Mendes Pinto, amigo de Leonardo da Vinci. Trata-se de «O Bosque Harmonioso«, relato de viagens pelo Oriente e não só: Borralho relata também uma ida à Lua, apanhando os ventos favoráveis do cimo das cordilheiras do Tibete para alcançar o planeta satélite, onde encontrará uma outra humanidade. O pouco que se sabe dele vem noutro manuscrito de um seu panegirista, Gaspar Barbosa, com anotações anónimas em caligrafia do século XVIII,vindo ambos parar às mãos do protagonista deste breve romance, Arnaldo Cunha. E a partir daqui, ganhamos uma trama cheia de alçapões muito bem e abelairianamente explorada  (qual morte do autor, qual carapuça! -- o único autor morto aqui é o pobre Arnaldo Cunha, também narrador --; o autor Abelaira, mesmo post mortem, assiste e convive, tem de conviver!, com o leitor, que se apropria do texto como bem entende, sem o trair, claro). A dúvida sobre a autoria do «Bosque Harmonioso» quinhentista instala-se (a Inquisição a operar benemèritamente, ámen.): será Borralho, ou este uma criação de Barbosa -- ou, ainda, tudo não passará de um monumental embuste do anónimo de Setecentos?

Estas as cogitações que no último quartel do século XX se põem ao protagonista -- a ele e à amante, além de um amigo comuno-esquerdista, divergente de Arnaldo / Abelaira da esquerda realista, que hoje, 2023 acredito seria a esquerda desencantada --, num pano de fundo político de retoma da direita, com o triunfo da AD, de Sá Carneiro.

* O incipit é um excerto do manuscrito inicial: «Embarquei-me enfim com a minha fazenda numa nau que ia com muitos cavalos e pimenta em que era capitão Dias de Almeida, de alcunha o Tigre, filho do conde de Alcântara, o qual carregava a ossada do pai para Goa, donde seguiria para Coimbra, dando cumprimento a uma ordem de El-Rei Dom Manuel.» (Situado no Oriente, no século XVI, tendo como narrador Cristóvão Borralho -- Que nome se dá a um falso incipit?)

É no segundo capítulo que entra em cena Arnaldo Cunha -- «Devo prosseguir?» -- o narrador coetâneo, angustiosa personagem, duvidosa do seu lugar no mundo, enquanto homem, profissional e autor: «Sim, não sou nada e não sei nada, limito-me a dar as minhas aulas menos mal, consigo (talvez) interessar os alunos inteligentes (alguns alunos inteligentes). Mas não vou muito além. E, preguiçoso, nunca pude aprofundar nada, jamais nas minhas leitura levo um assunto até ao fim.» Os manuscritos do romance desconhecido e a biografia coeva do autor ignoto pode ser uma oportunidade para sair da irrelevância existencial, pelo apuro e aprumo da obra. Não só culto e muito lido -- Ovídio, Boccaccio, quem sabe Santo Anselmo?... --, suscita paralelismos com Rabelais e parece antecipar, pelo espírito ricamente intuitivo, Pascal, Leibniz, Montesquieu, Voltaire, Swift, e até Proust, e até Henry Miller... Para não falar da teoria da deriva continental, de Wegener. Não um exímio estilista, antes um encorpado mas subtil escritor: «A intenção de dizer certas coisas como se não as dissesse, uma indiscutível arte da entrelinha, uma aguda inteligência de dizer o não dito.» Arnaldo não é intelectualmente coxo, como se vê, mas um calaceiro da pior espécie, que bem gostaria de medir-se neste estudo biográfico com o Huizinga (que Abelaira traduziu) de Erasmo ou o Lucien Febvre de Lutero, mas não tem ilusões; e ademais, de que vale o esforço? No findo, nada parece valer a pena, em momentos de desânimo. 

Por outro lado, em colóquio regular com Irene, relação recente fora do casamento, alvitra-se que tanto romance como biografia podem ser uma falsificação desse anónimo do século XVIII, disfarçando o papel; e o que era uma intuição ou inteligência aceradas, não passaria em várias situações, de plágio. O desafio é, porém, tentador: «Uma obra (O Bosque Harmonioso), um comentário dela (o manuscrito de Barbosa), as anotações do século XVIII. Como -- a comparação parece-me justa -- uma catedral a enriquecer-se progressivamente com as idades, com os estilos diferentes. Um edifício vivo, um todo trabalhado pelo tempo.» 

* Tempo tal como a História, tantas vezes enganosa, fugidia e aldrabada, mesmo que por bem: «[...] assim procederam os monges de Alcobaça quando forjaram as cortes de Lamego. Ao tornarem-se reais, as cortes de Lamego produziram um futuro diferente daquele que existiu sem elas. E criando outro futuro, cimentaram a independência de Portugal com novos e dinâmicos argumentos.» É exacta e esplendidamente isto. E, num assomo genial, uma pergunta de verdadeiro leitor, trazendo à superfície a preocupação de autor, que gostariam uns tantos estivesse morto, mas aqui vivinho da costa, Abelaira aos saltos transmudado em: «-- Estranha coisa -- digo. -- Se O Bosque Harmonioso datar do século XVI consideramo-lo. Escrito posteriormente, não. [...] Preciso de conhecer a data de O Bosque para saber se devo ou não emocionar-me?»

*Ainda: um humor e pensamento ginasticados e muito abelairianos, o Abelaira de «Escrever na Água» e «Ao Pé das Letras», crónicas políticas e literárias, que aqui se encontra; algum brejeirismo remetido a Borralho. mas não só. Se O Bosque Deleitoso (século XVI) é uma obra de celebração mística, O Bosque Harmonioso  ganha evidentes conotações eróticas: «Que é o desejo? A blusa transparente, os bicos escuros... Borralho desaparece do campo da minha consciência, desaparece a blusa da Irene, tiro-lhe a saia. Eis o bosque harmonioso, as aves cantam docemente.»

* Frouxo na vida, frouxo no amor. Alguma lamechice sentimental, que se prende com a insegurança amorosa de Arnaldo é o pior deste breve romance; a forma como é resolvida, porém, redime-o; tal como a conclusão retirada pelo narrador no explicit, apaziguando o porquê e o para quê: «Saber que a vida não tem sentido e no entanto continuar a procurá-lo. / A amargura. A serenidade.»   

* Uma excelente análise, por Carlos Machado pode ser lida no suculento Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa, dirigido por Carlos Reis; texto que propositadamente li depois de terminado este.

sexta-feira, abril 07, 2023

rei, estado, mar, língua e literatura -- ou o quê, quem e como se fez o povo português

É curioso verificar que o povo português é uma criação do país chamado Portugal. Ao contrário do que sucedeu com outros, que ajustaram etnia e território, os indivíduos que coabitaram no rectângulo, muito heterogéneo étnica e morfologicamente, entre o Atlântico e o Mediterrâneo (Orlando Ribeiro), que veio a chamar-se Portugal, cooperando e/ou guerreando-se eram, sucessiva ou simultaneamente, iberos, celtas, romanos, germânicos suevos e visigodos, berberes, árabes, judeus... Como escreve algures José Mattoso, portugueses designava, na Idade Média quando o reino se constituiu, os súbditos do rei de Portugal.

Não oferece dúvidas, porém, a efectiva e significante (embora actualmente nada pujante, também por inépcia dos múltiplos desgovernos) existência de um povo português, forjado ao longo dos séculos habitando maioritariamente no continente europeu num território cuja primeira parcela, até Coimbra, se tornou de facto independente desde há 900 anos, que se cumprirão daqui a um lustro, em 2028.

Este povo, que antes não existia, deve o facto de ser uma realidade não despicienda, apesar de tudo, no mundo global em que vivemos, a dois factores: a criação do estado e a codificação da língua portuguesa, não apenas como veículo, mas como arte. E a perenidade que parece ter alcançado, permitindo-lhe chegar ao milénio (espera-se, pois em História nada é imutável; e chegando lá, em que condições?...), assentou no(s) rei(s) e no exército que lhe assegurou a independência; a localização atlântica, cativando-o para um empreendimento a que não é errado caracterizar como gesta (termo usado como substantivo e não adjectivo), nas suas glórias e misérias, traduzindo-se na expansão extracontinental e na descoberta de territórios, povos e geografias insuspeitados, que tornando a tal perenidade de memória inapagável e irremovível enquanto a humanidade existir. São os séculos XV e XVI, de Henrique o Navegador e Gil Eanes, a Afonso de Albuquerque, "o Leão dos Mares" e Fernão Mendes Pinto.

Finalmente, a língua, vinda do latim e separando-se do galego pela conjuntura politica, património e identidade, que se espalhou; e através da língua, a literatura, em especial a poesia. Se nas restantes artes, não nos podemos equiparar aos grande países -- embora nomes respeitáveis não faltem, da pintura à música, na literatura só há um Camões e um só Fernando Pessoa; e em torno deles, um acervo gigantesco de literatura, dos trovadores medievais aos prosadores dos séculos XIX e XX.

O povo português, que antes de existir Portugal não existia ele próprio, é o resultado miscigenado de tudo isto.

domingo, outubro 02, 2022

'crowdwritting'

Quando atravessamos talvez o melhor momento de sempre da BD portuguesa, pela profusão e qualidade de desenhadores e argumentistas, é de elementar justiça lembrar aqui o último abencerragem dos tempos heróicos das histórias aos quadradinhos nacionais: José Ruy (Amadora, 1930), das páginas de O Papagaio, O Mosquito, Cavaleiro Andante, Tintin, Spirou – até hoje. Apaixonado pela História e pela sua divulgação, não por acaso, a principal personagem que criou é o navegador Porto Bomvento, a singrar pelos cinco cantos do globo; e dois dos seus trabalhos mais marcantes resultem das adaptações em banda desenhada da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto e Os Lusíadas, de Luís de Camões, a que podemos acrescentar as muitas monografias sobre cidades e vilas do país, sem esquecer as várias biografias, de Charles Chaplin a Dimitrov, reveladoras desse interesse. No campo humorístico, o artista deu o seu contributo na que foi talvez a melhor revista que por cá se publicou, o semanário Tintin. Quem lhe percorreu as páginas, decerto não esquece a dupla de repórteres Clique e Flash deambulando pela redacção do hebdomadário, caricaturando com imensa graça quem a produzia semanalmente, em especial Dinis Machado e Vasco Granja, que nela tiveram influência decisiva.

Se o crowdfunding é uma prática normalizada pela comunicação das redes sociais, com A Ilha do Corvo que Venceu os Piratas (Âncora Editora, 2018), José Ruy tornou-se pioneiro do que poderemos chamar croudwriting, uma vez que a narrativa teve a participação activa dos corvinos, na composição deste relato de história antiga. No século XVII, aquela população isolada fez frente, com êxito, a um ataque duma frota de dez embarcações de piratas barbarescos – assim eram chamados os salteadores marítimos baseados em Argel e em Túnis –, que frequentemente empreendiam razias nas ilhas e no continente, em especial no Algarve, saqueando e fazendo cativos, vendidos nos mercados de escravos do Norte de África.

A narrativa parece seguir de perto as fontes documentais de que o autor lançou mão, por vezes com excesso de didactismo. Trata-se, porém, duma BD clássica de autor histórico, que à História e aos clássicos consagrou uma boa parte do seu labor.  O traço ágil de José Ruy conserva-se inalterado. As vinhetas iniciais da primeira prancha são esplêndidas em movimento e cor, dando em cheio a solidão da pequena ilha, exposta à inconstância dos elementos naturais no meio do Atlântico, e o insulamento daquela população entregue a si própria e a Deus, apenas lembrada pelo donatário, quando este exigia o tributo anual.

A Ilha do Corvo que Venceu os Piratas (Âncora Editora, 2018)

Texto e desenhos: José Ruy

(2019)

quinta-feira, dezembro 11, 2014

pobres mercadores, que lhes ficaram com os açúcares e a escravaria

«Era este navio uma fermosa nau de um mercador de Vila de Conde, que se chamava Silvestre Godinho, que outros mercadores de Lisboa traziam fretada de S. Tomé, com muitos açúcares e escravaria, a qual os pobres roubados, que lamentavam sua desaventura, punham em valia de quarenta mil cruzados. Tanto que estes cossairos se viram com presa tão rica, mudando o propósito que antes traziam, se fizeram na volta de França e levaram consigo alguns dos nossos para serviço da mareação da nau que tinham tomada.»

Fernão Mendes Pinto, Peregrinação (póstumo, 1614)