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quarta-feira, abril 22, 2015

domingo, agosto 06, 2006

Correspondências #54 - Luís Cardim a Rodrigues Lapa

Porto, 13 de Abril de 1933
Meu Ex.mo e presado Amigo e Colega
Não sei como pedir-lhe desculpa de só agora lhe responder. O seu antigo professor, que, embora sempre fraco, se deu largamente aos seus alunos durante longos anos -- ensino desde os 16, e tenho 54 -- encontra-se agora bastante esgotado de forças, que mal lhe chegam para arrastar a grilheta de ganhar o pão, e, sobretudo, de prover à educação dum filho. Depois de 27 anos de serviço dedicado, o Estado lança-o à margem, e até já lhe negou, com grande injustiça, a reforma. Mas o mundo é assim, e tudo isto só vem como desabafo e para justificar a deplorável demora desta carta.
Transmiti a minha filha os seus agradecimentos, e, sem desconhecer que ela foi zelosa em lhe prestar esse pequeno serviço, concordo com ela que as manifestações de reconhecimento por parte de V. Ex.ª já excedem bastante a importância do que ela fez.
Muito e muito lhe agradeço a oferta dos seus trabalhos, alguns dos quais já conhecia um pouco, e apenas não mais por saírem da minha especialidade. Alem do seu valor intrinseco, constituem uma boa semente de labor caracterizadamente europeu, que, esperemo-lo, ha-de germinar um dia em farta e redentora seara. Por agora são ainda as hervas ruins, de enganosa florescência estéril, que abafam, entre nós, as obras sérias. Nem ha crítica nem opinião culta que saiba e seja capaz de distinguir o trigo do joio. Mas isto de procurar fazer obra séria é um vício que se adquire e perdura, embora só nos seja nefasto...
Senti sinceramente as últimas e grandes contrariedades da sua vida. O caso é de todos os tempos, e consubstancia-se no símbolo cristão: quem diz verdades, sofre perseguições. Ou, numa comparação mais actual: o medico radiologista sofre por ver amputações, mas pode consolar-se pensando que o rádio ou os raios X sempre fizeram bem aos doentes...
Ainda V. Ex.ª, segundo creio, tem saude e vigor, e está relativamente novo; agora veja o meu caso, embora a minha obra seja modesta: cerca de 50 anos, e quando eu julgava sentir que certas qualidades de professor e de investigador estavam justamente amadurecendo; quando o meu pequeno nome, sem reclamos para que não tenho geito, já ia sendo registado no estrangeiro -- cortam-me a carreira, brutalmente, e vão-me assassinando a fogo lento...
Deseja-lhe todas as prosperidades -- aquelas que mais presa -- o seu
antigo professor, e colega amigo e muito grato
Luiz Cardim
Correspondência de Rodrigues Lapa
(edição de Maria Alegria Marques, Ana Paula Figueira Santos, Nuno Rosmaninho, António Breda Carvalho e Rui Godinho)

quinta-feira, julho 07, 2005

Antologia Improvável #27 - Luís Cardim

TRADUÇÃO DO SONETO XXX DE SHAKESPEARE

Quando ao foro subtil do pensamento
eu convoco as memórias desta vida
cheia de sonhos vãos, e, revivida,
a velha dor se faz novo tormento;

Então meus olhos baços, num momento,
a mil fontes amigas dão guarida:
volto a sofrer a mágoa já cumprida,
volto a chorar os mortos que avivento...

Então meus olhos duros embrandecem,
passo de pena em pena, e vou somando
a triste soma dos quenão me esquecem,
e da noite sem fim me estão fitando:

Mas se entretanto me lembrar de ti,
perdas não tive, mágoas não sofri.

Horas de Fuga


When to the sessions of sweet silent thought
I summon of rememberance of things past,
I sigh the lack of many a thing I sought,
And with old woes now wail my dear times' waste:
Then can I drown an eye unus'd to flow,
Four precious friends hid in death's dateless woe,
And weep a fresh love's long-since cancell'd
And moan the expense of many a vanish'd sight.
Then can I grieve at grievances foregone,
And heavily from woe to woe tell o'er
The sad account of fore-bemoaned moan,
Wich I new pay as if not paid before.

But if the while I think on thee, dear friend,
All losses are restor'd, and sorrows end.

The Works of William Shakspeare