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terça-feira, novembro 11, 2025

o que está a acontecer

«Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos? // 1/3/71» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)

«"O quê?", perguntou Mister DeLuxe. "É curioso pensar", disse Austin, passando por cima da pergunta directa, "que o rapaz tirava burriés do nariz quando era pequeno, mas não os comia logo". "Hã?", fez Mister DeLuxe. "Não os comia logo", acentuou Austin, "colava-os à parede para os comer no dia seguinte".  Houve uma pausa. "Gostava deles secos", explicou.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

«Ele retomará o seu desabafo, avivando detalhes, corrigindo versões. Por vezes, a certificar-se de que o sigo ou precisado de cumplicidade, faz de mim testemunha, cada frase torna-se um pedido de compreensão. E porque eu digo que compreendo, para ele é como se eu também tivesse estado presente.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

quarta-feira, novembro 05, 2025

o que está a acontecer

«"Teve uma infância estranha", disse Austin. "Em última análise, todas as infâncias o são", disse Mister DeLuxe. "Molero diz", disse Austin, "que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

«Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício do seu sentido.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)

«Ao fim da tarde acabo o meu passeio pelos montes e desço até ao ribeiro. Ele vem pela encosta fronteira, devagar, travado pelas ovelhas que só se mexem depois da boca cheia. Vemo-nos a uma boa hora de caminho um do outro, dois pontos longínquos, e mesmo sem nunca o termos confessado, sabemos que esse momento é para ambos um conforto, a revivência da camaradagem que de crianças nos levava a procurarmo-nos.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

sábado, novembro 01, 2025

o que está a acontecer

«Tinham acabado de almoçar. / A sala esteirada alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em Julho, um domingo; fazia um grande calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silêncio recolhido e sonolento de manhã de missa; uma vaga quebreira amolentava, trazia desejos de sestas, ou de sombras fofas debaixo de arvoredos, no campo, ao pé da água; nas duas gaiolas, entre bambinelas de cretone azulado, os canários dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chávenas sobre o açúcar mal derretido, enchia toda a sala de um rumor dormente.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

«-- Olhava em torno de esguelha, com lumes de esperteza no canto do olho. / -- Lá vem o Chumbo. Aquele é o Antero Chumbo. / Eram baforadinhas sonoras que ele saboreava como um perfume. Sorvia o comentário, seduzindo-o, provocando-o.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

«Não será portanto necessário perguntarmo-nos se o que nos junta é a paixão comum de exercícios diferentes, ou o exercício comum de paixões diferentes. Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia se vingança.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)

quarta-feira, outubro 29, 2025

o que está a acontecer

«Ficara sentada à mesa a ler o "Diário de Notícias". Roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soustache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras: com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis e rubis miudinhos davam cintilações escarlates.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

«Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes os seu exercício.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972) 

«Havia certa imponência no seu jeito de segurar com os dedos claros, de unhas roídas, uma pasta acorcodilada e sempre pletórica. O andar, cuja morosidade provinha de infidelidades ao pedicuro, convertia-o ele numa altiva pachorra ao singrar entre mesas a caminho do seu cenáculo, como lanchão bojudo coleando no porto em demanda do cais.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

terça-feira, fevereiro 04, 2025

Maria Teresa Horta (1937-2025) uma aristocrata do espírito que pairou sobre as elites que não prestam e um povo embrutecido que ela gostaria de ver elevar-se


 
Poeta do amor, do corpo, do sexo, foi uma das pasionarias da nossa literatura, num país que nem sequer teve a categoria de honrar-se dando-lhe o mais que merecido e justificado Prémio Camões. Uma das nossas grandes escritoras, como a sua tetravó, a Marquesa de Alorna, extraordinária mulher, como o foi a sua descendente, grande poeta que recebia no seu salão Bocage e Alexandre Herculano. A obra de Maria Teresa Horta aí está, para a História e para o Futuro -- de que faz parte um dos melhores e maiores livros de toda a nossa literatura, as Novas Cartas Portuguesas, escrito com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa.

quarta-feira, novembro 22, 2023

caracteres móveis

«A alma do gafanhoto, naquele dia, aproximou-nos dele.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979) / «Se você procurar bem na sua infância, Austin, há-de encontrar nela um gato sarnento que lhe roçou o lombo nas pernas cinquenta ou sessenta vezes, e isto, segundo Molero, marcou a sua vida.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977) /   «Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)

terça-feira, julho 12, 2022

a arte de começar

«Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes os seu exercício.»

Maria Isabel Barreno (1939-2016), Maria Teresa Horta (1937) e Maria Velho da Costa (1938-2020), Novas Cartas Portuguesas (1972) 

segunda-feira, novembro 19, 2018

vozes da biblioteca

«Os ricos e elegantes foram para Sintra, ou para uma praia qualquer, continuar a vida de Lisboa: as carruagens conhecidas cruzam-se no passeio da tarde, como se cruzavam durante o inverno na Avenida; e à noite, as mesmas soirées reúnem as mesmas pessoas, com os mesmos flirts, e a mesma ponta de má língua -- que, no fim de contas, sempre é uma consolaçãozita na vida.» Conde de Ficalho, «Cartas do Campo - O Repórter, 4 de Setembro de 1888), Dispersos, edição de João Forjaz Vieira (1998)

«Para mim, que conheço a inutilidade dos exércitos, que os considero perniciosos, indignos da nossa época, o gesto do capitão Sadoul, quando há anos demandou a Rússia, mereceu a simpatia do meu espírito.» Ferreira de Castro, «Ecos da Semana -- A Batalha, 15 de Dezembro de 1924), Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, edição de Luís Garcia e Silva, 2004

«Toda, toda a escrita é compensatória de um silêncio.» Maria Velho da Costa, O Mapa Cor de Rosa (1984)