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segunda-feira, maio 10, 2021

leitura contínua: VIAGENS NA MINHA TERRA (1846) cap. I


1. incipit da Viagem à Volta do Meu Quarto (1839), de Xavier de Maistre (1763-1852), servindo como epígrafe às Viagens na Minha Terra (1846). Tom paródico, mas também a noção de uma via que Garrett abre, um arejamento na prosa nacional, brisa que chega até nós.

«Qu'il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraître tout-à-cop dans le monde savant un livre de découvertes à la main, comme une comète inattendue étincelle dans l'espace!»

2. Garret era um extraordinário bon vivant; nada do que respeitasse aos prazeres da vida lhe era alheio, o que não o inibiu de alcandorar-se a figura de primeira grandeza na vida pública e cultural do seu tempo. O legado político e literário confronta bem com as fraquezas, ou fortalezas -- depende do ponto de vista --, de João Baptista da Silva Leitão. E é isso que o capítulo inicial das Viagens evidencia em cada frase. Atente-se no sumário do capítulo I:
«De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas viagens. -- Parte para Santarém. -- Chega ao Terreira do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. -- Lord Byron e um bom charuto. -- Travam-se de razões os íhavos e os bordas-d'água: -- os da calça larga levam a melhor.» 

Todo o tom é optimista, gozoso e sadio: o prazer da partida, a literatura, a paisagem, a política, mesmo quando adversa, as pessoas, a coloquialidade e a ironia, os pequenos prazeres, o humor -- acima de tudo. O tom de alguém que agarrou a vida com as duas mãos, dela sabendo retirar recompensa estética e sensorial, permitida ou conquistada. É um estilo de alguém que se sente muito bem na sua pele.

3. Começar. «Que viaje à roda dos seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo -- entende-se.»


4. 17 de Julho de 1843: o quarto não chega. «Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.» 

5. Humor (em itálico). Depois de atribuir à intriga política de um jornal segundas intenções a esta jornada: «Pois por isso mesmo, vou: -- pronunciei-meO pronunciamento militar na primeira metade do século XIX português era o método principal de fazer política.


5. Paisagem: o vapor afasta-se.  «Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que é, vista de fora, a mais bela e grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crónicas.» 

6. O desgosto burguês e a pureza do povo. «Assim o povo, que tem sempre melhor gosto e mais puro do que essa escuma descorada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A um lado, a imensa majestade do Tejo em sua maior extensão e poder, que ali mais parece um pequeno mar mediterrâneo; do outro, a frescura das hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros, sítios consagrados todos a recordações grandes ou queridas.» Desgosto por desagrado e por estética também. O povo é são, a burguesia (e quem a apoiar) é escumalha. O povo não está degradado, a burguesia (e quem a apoiar) é degradada por natureza: veja-se o sentido de harmonia desse mesmo povo, sobre quem as excelências cavalgam ou pisam. É bonito? É... É falso? É pelo menos forçado; mas em estética tudo se permite.

7. Vila Franca de Xira (outrora "da Restauração"): depoimento de um soldado liberal. «[...] Vila Franca a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal Restauração caiu, como todas as restaurações sucede e há-de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome. / -- A questão não era de restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.»

8. Do progresso (ou do optimismo). «Este necessário e inevitável reviramento por que vai passando o mundo há-de levar muito tempo, há-de ser contrastado por muita reacção antes de completar-se...»

9. Epicurismos. «No entretanto, vamos acender os nossos charutos [...] / [...] sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água, enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo.»

10. Bairrismos: campinos e varinos. «Pois nós, que brigamos com o mar, oito e dez dias a fio numa tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes, que brigam uma tarde com um toiro, qual é que tem mais força?» 
cap. I : 9-13

domingo, novembro 01, 2020

"o rei dos bosques" - «Eurico o Presbítero» (18)

 continuar: «A hora de amanhecer aproximava-se: o crepúsculo matutino alumiava frouxamente as margens do rio mal-assombrado, que corria turvo e caudal com as torrentes do inverno.» Cap. XVI, «O castro romano», pp. 219-240 da minha edição.

Capítulo onde nada e tudo acontece nas extremidades de um grosso tronco, ponte e passagem únicos sobre um precipício, no meio do qual corre o rio Sália; em que, febril e à beira da exaustão, Hermengarda, sente a atracção do abismo, o suicídio, essa «espécie de encanto fatal». Muito boas as passagens a propósito. Capítulo, ainda, em que o Cavaleiro Negro se desvela, Eurico, para ainda mais forte comoção da irmã de Pelágio.

Uma nota para o modo como o autor põe o discurso directo mas personagens populares: os guerreiros ou o barqueiro, analfabetos e rudes, falam como Eurico, uma linguagem articulada como se fossem instruídos; e nós, leitores do século XXI, aceitamo-lo com bonomia... E, claro, o que conta é o estilo impecável e vigoroso do grande Herculano. Eis um tronco, que será passagem e salvação:

«A ponte romana, porém, se outrora aí existira, haviam-na consumido as injúrias das estações. Em lugar dela, os habitantes daqueles desvios tinham tombado através do Sália um roble gigante, que nos seus dias seculares fora enredando as raízes nos seios da pedra, até irem beber no leito do rio. A árvore monstruosa derrubada por cima da corrente, caíra sobre o alcantil fronteiro e vivia de uma vegetação moribunda, que mal podia conservar através do cepo, arrancado quase inteiramente do solo. Calva e musgosa, apenas alguma vergôntea, que lhe rompia da enrugada epiderme na primavera para morrer no estio, dava sinal de que o rei dos bosques ainda não era inteiramente cadáver. Mas essa pouca vida bastava para que a obra rude dos bárbaros montanheses durasse por mais anos que a edificação dos antigos metatores ou engenheiros das legiões romanas.  [...]»


quarta-feira, setembro 09, 2020

Cruz e Crescente - Eurico o Presbítero (12)

Continuar: «O sol ia já alto quando o grito de Allah hu Acbar! soou no centro dos esquadrões do Islame.»
Um capítulo notável pelo cheiro, pelo som, pela imagem do início da Batalha de Guadalete (31-VII-711). Duas massas humanas compactas no limiar do enfrentamento inevitável, questão de vida ou de morte: a terra treme sob «o peso daquela tempestade de homens»; os urros e a agonia, «um longo gemido, assonância horrenda de mil gemidos»; «o tinir do ferro no ferro e um concerto diabólico de blasfémias, de pragas, de injúrias em romano e em árabe»; brados desgarrados das vozes de comando…
E mais uma vez o fantasma da Guerra Civil de 1828-34 surge no choque, numa das alas da batalha, entre as forças de Teodomiro, o duque de Córdova, e Juliano, conde de Ceuta:
«O recontro dessa ala foi semelhante em tudo ao do grosso das duas hostes, salvo que aí o franquisque encontrava o franquisque, a injúria de Godos respondia à injúria proferida por bocas de Godos, e as imprecações do ódio trocavam-se com maior violência ainda.»
É neste capítulo que surgirá o cavaleiro negro, do lado cristão, que com ímpeto se lança sobre os inimigos de maior hierarquia nas hostes inimigas:
«Se combatesse pelos muçulmanos, crê-lo-iam o demónio da assolação; mas, pelejando pela Cruz, dir-se-ia que era o arcanjo das batalhas mandado por Deus para salvar Teodomiro e, com ele, os esquadrões da Bética.»
Virou a batalha a favor dos visigodos que se preparavam para derrotar os árabes, quando os filhos de Vítiza e Opas, bispo de Sevilha, seu irmão, gritam à morte do usurpador Rodrigo, com as consequências que prosseguirão no capítulo seguinte.

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844), cap. X, "Traição", pp. 91-103



segunda-feira, setembro 07, 2020

leve como um puro-sangue - «Eurico o Presbítero» (11)

Continuar: «Poucos dias haviam passado depois de o Duque de Córduba recebera a última carta do infeliz Eurico.» 

Capítulo pleno de informação, narra os preparativos e as escaramuças iniciais que iriam preceder a grande batalha junto ao rio Crissus, nome que os árabes davam ao curso de água do Guadalete. Acantonados em torno do calpe, o monte que iria tomar o nome do general invasor, Tárique -- ou seja, Gibraltar --, quero salientar a forma como o Herculano romancista se serve do Herculano historiador, e uma passagem que ilustra psicologicamente uma das figuras históricas e romanescas que o Eurico encerra, a do conde de Ceuta.

Em primeiro lugar, sendo os visigodos mais numerosos não irão conseguir fazer valer-se dessa superioridade como sabemos. O excerto seguinte dá conta da vantagem do moral dos invasores sobre a dos defensores, recordemos, dilacerados pelas lutas civis e corrompidos pelo deslaçar moral:

«[...] Sem perícia militar, estes bárbaros são todavia temerosos nas pelejas, porque os capitães experimentados da Arábia os dirigem e movem como lhes apraz, e, porque, sectários de uma religião nova, crédulos mártires do inferno, buscam os embusteiros e torpes deleites que, além da morte, lhes prometeu o profeta de Iatribe, arremessando-se com um valor que se creria de desesperados diante do ferro dos seus contrários e contentando-se de acabar, contanto que sobre os seus cadáveres se hasteie o vitorioso estandarte do Islame.»

O proselitismo fanático dos neófitos que abraçaram a recente religião, constituindo-se como um tónus para berberes e outros africanos que formaram a carne-para-canhão das hostes islâmicas, enquadradas pela cavalaria árabe, rapidíssima, contrastando com a movimentação pesada do exército visigótico, a segunda razão que Herculano dá para a vantagem islâmica no recontro que ocorrerá. O fragmento que se segue é exemplar, pela consistência do que nos é transmitido e pelo estilo, leve como um puro-sangue.

«A esta gente bruta e indomável, cujo esforço vem das crenças da outra vida, se ajuntam os esquadrões de cavaleiros sarracenos que vagueiam pelas solidões da Arábia, pela planícies do Egito e pelos vales da Síria, e que, montados nas suas éguas ligeiras, podem rir-se do pesado franquisque dos Godos, acometendo e fugindo para acometerem de novo, rápidos como o pensamento, volteando ao redor dos seus inimigos, falsando-lhes as armas pela juntura das peças, cercando-lhes os membros desguarnecidos, quase sem serem vistos, e apesar da sua incrível destreza, pelejando, quando cumpre, frente a frente, descarregando tremendos golpes de espada, topando em cheio com a lança no riste, como os guerreiros da Europa, e assaz robustos para, muitas vezes, os fazerem voar da sela nestes recontros violentos: homens, enfim, que sem orgulho, se podem crer os primeiros do mundo num campo de batalha, pelo valor e pela ciência da guerra.»

Ainda no campo da História, não resisto a transcrever a passagem que alude aos velhos lusitanos. Lusitanos na Alta Idade Média? Pois não estiveram eles sempre aqui, desde a Idade dos Metais? Por muita romanização e germanização, não se está a ver como poderia ser doutra forma. A descrição é vivíssima, desenhando os contornos dos que quase mil anos atrás defrontaram Roma, com tanto desapontamento de Júlio César em face destes verdadeiros irredutíveis, comparados também aos bascos, ambos povos alpestres. As fontes são, certamente, os historiadores da Antiguidade:

«Como os Árabes, os Godos tinham no meio de si uma nuvem de peões armados, não menos bárbaros e ferozes que os filhos da Mauritânia. Os montanheses do Hermínio na Lusitânia, aborígenes, talvez, daquele país, os quais, na época das invasões germânicas, bem como já na da conquista romana, a custo haviam submetido o colo ao jugo de estranhos, e os Vascónios, habitadores selvagens das cordilheiras dos Pirenéus, constituíam com os servos um grosso de gente a que hoje chamaríamos a infantaria do exército. […] Requeimados pelos sol ardente do estio ou pelo vento gelado dos invernos rigorosos das serranias, incapazes de conhecerem a vantagem da ordem e da disciplina, estes homens rudes combatiam meios nus e desprezavam todas as precauções de guerra. O seu grito de acometer era um rugido de tigre. Vencidos, nunca se lhes ouvia pedir compaixão; porque, vencedores, não havia a esperar deles misericórdia.»

Uma nota ainda de caracterização psicológica, a propósito r Juliano (ou Julião), conde de Ceuta, o tal que quis vingar a honra da filha Florinda (curioso nome, cheira a lenda...) desflorada pelo último rei visigodo, Rodrigo, chamando os árabes: após um conciliábulo com Tárique, de regresso ao seu acampamento:

  «[...] via-se-lhe o rosto, não radiante de contentamento que ressumbra de um coração puro quando folga, mas como sulcado por um raio de alegria feroz do criminoso que vê chegar o momento do crime há muito meditado e previsto.» 

capitulo IX, «Junto de Crissus», de Eurico o Presbítero (1844), de Alexandre Herculano,  pp. 74-90 da minha edição. 




terça-feira, setembro 01, 2020

um amor assim recalcado - «Eurico o Presbítero» (10)

continuar: «DO PRESBÍTERO DE CARTEIA AO DUQUE DE CÓRDUBA»

Três missivas entre Eurico e Teodomiro, Duque de Córdova. Herculano fê-los camaradas de armas nas campanhas vitoriosas de submissão dos bascos, aliados aos francos. Na primeira carta, o herói relembra não só esses momentos de glória como a desventura subsequente à rejeição do pedido da mão de Hermengarda ao pai, o Duque de Fávila, progenitor também de Pelágio, o primeiro rei das Astúrias, último reduto cristão após 711, a partir do qual de processará a Reconquista cristã -- termo que já ele próprio é posto em questão, suponho, pelos talibãs do costume, os mesmos certamente das quatro espécies de académicos (os activistas, os sectários, os analfabetos e os idiotas úteis) que pretendem impugnar o termo Descobrimentos.
Teodomiro levará Eurico pela senda da evasão orgiástica, mas este porém era doutra têmpera: «A embriaguez dos banquetes era para Eurico tristonha; as carícias feminis, fàcilmente compradas e profundamente mentidas, atrás das quais correra loucamente outrora, tinham-se-lhe tornado odiosas; porque o amor, com toda a sua virgindade sublime, lhe convertera em podridão asquerosa os deleites grosseiros que o mundo oferece à sensualidade do homem.»
Diante do perigo -- «Os Árabes! -- [...] esta palavra maldita é como a peste quando passa: seguem-na o susto e o desacordo.» -- a cujo desembarque assistira na véspera, do refúgio, Eurico anuncia que voltará a empunhar a espada.
É sabido que o reino visigodo estava em guerra civil, e que as instituições políticas -- embora já com sofisticada legislação -- eram frágeis. Os árabes foram chamados por Julião, Conde de Ceuta, supostamente para vingar uma afronta do rei Rodrigo sobre a filha.  Rodrigo, sobre quem há suspeitas do derrube do rei anterior,Vitiza, pelo que a causa dos dissídios poderão encontrar-se principalmente aí.  A História perde-se na lenda e sustenta-se nas crónicas, fontes escritas e vestígios arqueológicos.
A resposta de Teodomiro é muito interessante, aceitando Eurico de braços abertos não deixando de fazer-lhe uma exprobação amarga de amizade ferida: «[...] aquele que te amou tanto; aquele que poria a vida para salvar a tua; que nunca teve contentamento ou mágoa que fosse para ti segredo, trataste-o com o mesmo desprezo com que tu, no teu nobre orgulho de desgraçado, trataste o resto do mundo [...].» Ao que Eurico retorquirá com a afirmação dum sentimento não compatível com as vulgares paixões: «Medes o meu espírito pelos afectos humanos»; a dor é incompatível com a vida, retomando o sentimento suicidário, que faz saber ao Duque de Córdova: «Sabes o que faz um amor imenso assim recalcado?»  A resposta é terrivelmente soberba, notando o (aparente) alheamento divino daquele servo: «O Senhor não me escutou as preces: não me aceitou a resignação.»; e a assim, sem saída: «Que pode hoje embriagar-me, senão uma festa de sangue?»
O romance histórico não é historiografia, mesmo quando escrito por um historiador, num romance tudo é permitido, desde que o discurso seja verosímil, do anacronismo à projecção do sentimento ou da ideologia do autor nas personagens. E aqui -- terminada a Guerra Civil (1828-1834) havia apenas uma década --, Eurico volta a vestir-se de Herculano: «Dir-to-ei, Duque de Córdoba: também eu não amo Roderico subiu ao trono; porque a memória de Vítiza nunca morrerá no coração do seu antigo gardingo. [...] Mas não é a sua coroa que os filhos das Espanhas têm hoje que defender; é a liberdade da pátria; é a nossa crença [...].»

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844), Cap. VII, «O desembarque», pp. 52-73 


quarta-feira, agosto 26, 2020

premonições - «Eurico o Presbítero» (9)

continuar: «O sono ou a vigília, que me importa esta ou aquele? As horas da minha vida são quase todas dolorosas; porque a imaginação do homem não pode dormir.»

Madrugada de 8 de Abril de 711, no presbitério Eurico lança ao pergaminho a premonição que o assaltou, vinda da costa de norte de África. Mas primeiro a evidência do contraste entre a noite do povo simples, e a sua, poeta ilustrado -- uma reflexão em que Herculano entra de novo na personagem: «Para o povo ignorante e ìmpiamente crédulo, a noite é cheia de terrores; em cada folha que range na selva ele ouve um gemido de alma que vagueia na terra: [...] / Mas quando jaz no leito de repouso, o seu dormir é tranquilo. Ao cruzar os umbrais domésticos, esses terrores sumiram-se com os objectos que o geraram. A sua alma parece despir-se da fantasia grosseira, como o corpo se despe da estringe áspera que lhe resguarda os membros.» 

Depois, esse pesadelo em que da rocha do Calpe (que, ironia, viria a tomar o nome do invasor, Gibraltar, ou montanha de Tárique), vê o mar -- o elemento que tanto separava como era veículo de aproximação entre a Europa e a África -- estacar como morto: «Era horribilíssimo ver convertido em cadáver, de todo imóvel e mudo, o oceano; aquele oceano que mais de quarenta séculos nem um só dia deixou de revolver-se em torno dos continentes [...].» E de cada lado do continente nuvens formando-se em bloco, indo ao encontro umas das outras, prefigurando o recontro de dois exércitos, numa imagem portentosa e espectral:

«Então pareceu-me ouvir muito ao longe um choro sentido misturado com gritos agudos, como o do que morre violentamente, e um tinir de ferro, como o de milhares de espadas, batendo nas cimeiras de milhares de elmos.»

A premonição de um castigo divino lançado por Deus aos decadentes visigodos, tal como séculos antes os hunos -- o outro sempre visto como o anticristo, que em certa medida o era de facto: «Contam-se coisas incríveis desses povos que assolam a África, chamados os Árabes, e que, em nome dum crença nova, pretendem apagar os vestígios da Cruz.»

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844), cap. VII, «A visão», pp. 46-51 

segunda-feira, agosto 24, 2020

um homem aniquilado - «Eurico o Presbítero» (8)

Continuar: «O mar estava tranquilo, e o ar puro e diáfano. As costas de África fronteiras, lá na extremidade do horizonte, pareciam uma orla escura bordada no manto azul do firmamento.»
Abril de 711. O refúgio em si, ao largo da bacia de Algeciras, na embarcação de Ranimiro, pretexto para, mais uma vez, acentuar a diferente sensibilidade entre as almas simples, como a do barqueiro, e as inquietas, como a sua, Eurico, poeta e guerreiro feito sacerdote.
«Bem-aventurado, pensei eu comigo, aquele em que os afagos de uma tarde serena de primavera no silêncio da solidão produzem o torpor dos membros; porque nessa alma dormem profundamente as dores no meio do ruído da vida!»
Saudade de Hermengarda e do amante arrebatado e sincero que foi; revolta e despeito contra a os que lhe preteriram a pureza à linhagem e ao pecúlio; e contra a própria amada e o pai desta, que a prostitui honradamente.
«Porque mulher bárbara não entendeu o que valia o amor de Eurico; porque velho, orgulhoso e avaro sabia mais um nome de avós que eu, e porque nos seus cofres havia mais alguns punhados de oiro que nos meus.»
Desespero sem remissão: esquecer é uma impossibilidade, a escapatória é uma espécie de "suicídio": mais do que o tomar ordens, haverá outro modo de se aniquilar, nas graças de Deus.


Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero, cap. VI, «Saudade», pp. 38-45


sábado, agosto 22, 2020

o dantes e o hoje - «Eurico o Presbítero» (7)

continuar: «Mais de sete séculos são passados depois que tu, ó Cristo, vieste visitar a terra.» 
Ao contrário do que sucedia com os romanos corrompidos por séculos de domínio civilizacional, o coração dos godos estava aberto a receber, nesse século IV das Invasões Bárbaras, os ensinamentos de Cristo, como os da liberdade, do amor e respeito pela mulher, o esforço e o trabalho; agora é a vez de os mesmos visigodos, perdidas essas virtudes pelas elites, se prepararem para um novo e violento ímpeto que se avizinha, sentido nesse Dia de Natal de 748 [710]. O presente horroriza.
O tom de litania reitera o do capítulo anterior, e ao poeta, diante da triste realidade que se lhe acastela diante dos olhos, Eurico anseia pelas trevas que a ocultam: «Pela escuridão da noite, nos lugares ermos e às horas mortas do alto silêncio, a fantasia do homem é mais ardente e robusta.»
Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)
cap. V - «A meditação» (pp. 31-37)


quinta-feira, agosto 20, 2020

elegias - «Eurico o Presbítero» (6)

Continuar: «Era por uma destas noites vagarosas do inverno em que o brilho do céu sem lua é vivo e trémulo; em que o gemer das selvas é profundo e longo; em que a soledade das praias e ribas fragosas do oceano é absoluta e tétrica.»

Prostrado com a decadência goda, o império do interesse próprio em vez do bem-comum, este breve capítulo tem por epígrafe uma frase do Memorial dos Santos, de Santo Eulógio de Córdova: «Onde é que se escondeu enfraquecida a antiga fortaleza?», e evoca a glória de Teodorico I, rei dos visigodos, morto na própria batalha em que é derrotado "o flagelo de Deus", Átila o Huno  (541). Eurico escreve solitário no presbitério numa «meia-noite dos idos de Dezembro da era de 748» -- data de acordo ainda com a era de César (entre nós vigorou até ao reinado de D. João I) --, trinta e oito anos somados à actual era de Cristo. Fazendo a conversão, está-se pois no fim do ano de 710, que precederá a invasão muçulmana, cuja presença vigorará na Península Ibérica durante os setecentos anos a seguir.

Desgostoso da humanidade, Eurico remete-se ao convívio com a Natureza, expressão da criação divina: «Por cima da minha cabeça passava o norte agudo. Eu amo o sopro do vento, como o rugido do mar: / Porque o vento e o oceano são as duas únicas expressões sublimes do verbo de Deus, escritas na face da terra quando ainda ela se chamava o caos. / Depois é que surgiu o homem e a podridão, a árvore e o verme, a bonina e o emurchecer. / E o vento e o mar viram nascer o género humano, crescer a selva, florescer a primavera; -- e passaram, e sorriram-se.»

Tudo é vão ante a criação. Mas, como que adivinhando o desastre próximo, Eurico consola-se na certeza da Piedade, irmã da Esperança, aquela que «nunca morre nos céus.»

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero [1844], cap. IV, «Recordações», pp. 21-30


terça-feira, agosto 18, 2020

um ser à parte - «Eurico o Presbítero» (5)

Continuar: «Muitas vezes, pela tarde, quando o sol, transpondo a baía de Carteia, descia afogueado para a banda de Melária, doirando com os últimos esplendores os cimos da montanha piramidal do Calpe, via-se ao longo da praia vestido com a flutuante estringe o presbítero Eurico, encaminhando-se para os alcantis aprumados à beira-mar.»

Eurico, recolhido para o mundo e aberto para Deus, entregava-se à composição poética em Seu louvor, ao entardecer, ficando até altas hora nas falésias sobre a baía de Carteia, aproveitando -- como Herculano explica no corpo do texto -- a sanção de Santo Isidoro de Sevilha durante o IV Concílio de Toledo (633): «Nenhum de vós ouse reprovar os hinos compostos em louvor de Deus.» O estro de Eurico varre a Hispânia cristã. Preterido no seu amor por Hermengarda pelo pai desta, ao consagrar-se a Deus e a todos acolhendo e consolando como presbítero, servo ou nobre, rico ou pobre, a sua condição poética fê-lo entender a natureza do cristianismo, radicada no amor: «[…] Eurico percebera claramente que o Cristianismo se resume em uma palavra -- fraternidade. Sabia que o Evangelho é um protesto, ditado por Deus para os séculos, contra as vãs distinções que a força e o orgulho radicaram neste mundo de lodo, de opressão e de sangue; sabia que a única nobreza é a dos corações e dos entendimentos que procuram erguer-se para as alturas do céu, mas que essa superioridade real é exteriormente humilde e singela.»
Surge aqui o Herculano, liberal adversário da tradição no que esta tinha de manutenção ilegítima de privilégios, a começar pelos da própria Igreja, estendendo-se à restante sociedade. (Aliás o escritor recusou ser nobilitado pelo rei, seu antigo pupilo, ao contrário do que sucederia com Garrett, Castilho e mais tarde Camilo, que andou na pedincha.) Com o amor de Deus, veio «o amor da pátria [...] despedaçada pelos bandos civis» e a descrença nas elites. A ténue esperança nas qualidades do povo ainda parcialmente não corrompido não afasta a visão horrenda da «pátria cadáver», que verte para o seu canto.

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844), cap. III: «O poeta» pp. 12-20. 

domingo, agosto 16, 2020

«Os visigodos» - «Eurico o Presbítero» (3)

Cap. I: «Os visigodos». Começar: «A raça dos visigodos, conquistadora das Espanhas, subjugara toda a Península havia mais de um século.» 
Capítulo inicial, trata-se de um esquisso de enquadramento histórico (político e mental) da Ibéria, às vésperas da invasão muçulmano, tendo como epígrafe um passagem da Crónica do Monge de Silos, escrita no século XII: «A um tempo toda a raça goda, soltas as rédeas do governo, começou a inclinar o ânimo para a lascívia e soberba.». Pano de fundo sobre o qual se desenrolará a acção romanesca, o seu mais curto parágrafo exibe o tom:
«Debalde muitos homens de génio revestidos da autoridade suprema tentaram evitar a ruína que viam no futuro: debalde o clero espanhol, incomparavelmente o mais alumiado da Europa naquelas  eras tenebrosas e cuja influência nos negócios públicos era maior que a de todas as outras classes juntas, procurou nas severas leis dos concílios, que eram ao mesmo tempo verdadeiros parlamentos políticos, reter a nação que se despenhava. A podridão tinha chegado ao âmago da árvore, e ela devia secar. O próprio clero se corrompeu por fim. O vício e a degeneração corriam soltamente, rota a última barreira.»
Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844] : 6-11

história e ficção, mentira e verdade - «Eurico o Presbítero» (2)

Alexandre Herculano procurou nos romances históricos uma abordagem às mentalidades de época que não lhe dava uma heurística que relutava extravasar o dado documental. Debalde procurou suporte que lhe permitisse suprir essa lacuna na sua fundamental História de Portugal (1846-1853); e mesmo para as obras de ficção, a procura de vozes do passado que lhe transmitissem a dolorosa pena do celibato, cuja desumanidade desde a juventude o perturbava, resultou infrutífera, como assinala no prefácio do Eurico:
          «Essa crónica de amarguras procurei-a já pelos mosteiros, quando eles desabavam no meio das nossas transformações políticas. Era um buscar insensato. Nem nos códices iluminados da Idade Média, nem nos pálidos pergaminhos dos arquivos monásticos estava ela. Debaixo das lájeas que cobriam os sepulcros claustrais havia, por certo, muitos que a sabiam; mas as sepulturas dos monges acheia-as vazias.»  Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844], (ed. cit,, p.VI).

Fez, assim, apelo à idiossincrasia poética e ao escopo artístico, ciente de que o ficcionista de recursos tem a intuição que faltará ao historiador. A esta, junte-se a ideia supletiva do romancista como alguém que mede a temperatura do tempo, e por isso mais fidedigna a ficção do que obras contemporâneas, propositadamente concebidas para deixar um testemunho à posteridade. Podemos lê-lo num artigo da Panorama, cujo excerto magnífico foi transcrito por Vitorino Nemésio, na apresentação da edição crítica (1944 -- o mesmo ano em que o açoriano publica o talvez melhor romance português de sempre, Mau Tempo no Canal):

«Novela ou História, qual destas duas cousas é a mais verdadeira? Nenhuma, se o afirmarmos absolutamente de qualquer delas. Quando o carácter dos indivíduos ou das nações é suficientemente conhecido, quando os monumentos, as tradições e as crónicas desenharam esse carácter com pincel firme, o noveleiro pode ser mais verídico do que o historiador; porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que vive, o génio do povo que passou pelo do povo que passa. [...] Porque [os historiadores] recolhem e apuram monumentos que foram levantados ou exarados com o intuito de mentir à posteridade, enquanto a história da alma do homem deduzida lògicamente das suas acções incontestáveis não pode falhar, salvo se a natureza pudesse mentir e contradizer-se, como mentem e se contradizem os monumentos.» 

Este historiar da alma -- porventura a mais significante das historiografias -- remete-me para a maravilhosa Svetlana Alexievich, que assim mesmo se definiu: «historiadora da alma», aqui já não se socorrendo (exclusivamente) da intuição, mas também do testemunho vívido e vivido.

da solidão no meio dos anjos - «Eurico o Presbítero» (1)

Início da apresentação do romance: «Para as almas, não sei se diga demasiadamente positivas, se demasiadamente grosseiras, o celibato do sacerdócio não passa de uma condição, de uma fórmula social aplicada a certa classe de indivíduos cuja existência ela modifica vantajosamente por um lado e desfavoràvelmentepor outro.»

A questão do celibato dos padres interessa o Herculano (1810-1877) romancista, pelo drama que a Igreja, especialmente com o Concílio de Trento (1545-1563), impôs aos seus ministros: o sacrifício «da irremediável solidão da alma» -- assim o escreve na apresentação de Eurico, o Presbítero (1844).
No prefácio, o escritor deplora a misoginia subjacente àquele interdito, vendo a mulher como ideal salvífico e angelical de amor e bondade. A passagem seguinte dá bem a medida dessa idealidade  romântica, em contraste com uma sordidez máscula que macula muito de "nós" (é seu o recurso à englobante primeira pessoa do plural):

«Dai às paixões todo o ardor que puderdes, aos prazeres mil vezes mais intensidade, aos sentidos a máxima energia e convertei o mundo em paraíso, mas tirai dele a mulher, e o mundo será um ermo melancólico, os deleites serão apenas o prelúdio do tédio. Muitas vezes, na verdade, ela desce, arrastada por nós, ao charco imundo da extrema depravação moral; muitíssimas mais, porém, nos salva de nós mesmos e, pelo afecto e entusiasmo, nos impele a quanto há bom e generoso. Quem, ao menos uma vez, não creu na existência dos anjos revelados nos profundos vestígios dessa existência impressos num coração de mulher? E porque não seria ela na escala da criação um anel da cadeia dos entes, presa, de um lado, à humanidade pela fraqueza e pela morte e, do outro, aos espíritos puros pelo amor e pelo mistério? Porque não seria a mulher o intermédio entre o céu e a terra?»

Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844], 40.ª ed., Lisboa, Livraria Bertrand, s.d., pp. III-VII.