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sexta-feira, maio 01, 2026

nota sobre «As Velas Ardem até ao Fim», de Sándor Márai

Um tratado em tom elegíaco sobre a amizade, o amor e o sentido da vida. Em paralelo: uma demasiado humana nostalgia de um mundo morto e em vias de ser sepultado pelos escombros da guerra (o livro saiu em 1942). Não diria nostalgia do Império Áustro-Húngaro  -- bizarro em quem fora, em tempos, comunista, e depois dissidente -- mas de uma circulação, e até mistura, de povos e línguas, hábitos e indumentárias, dentro de fronteiras reconhecíveis; dir-se-ia o núcleo primevo de O Mundo de Ontem, do Stefan Zweig.

quarta-feira, junho 04, 2014

da amargura

Um póstumo de Zweig, livro negro, como negra foi a fase final da sua vida. Judeu austríaco autoexilado em 1934 (Adolfo, o Hitler, conquistara o poder na vizinha Alemanha no ano anterior...), empreendeu um calvário inimaginável para quem não o viveu. Não que tivesse problemas materiais; mas Zweig era uma figura da cultura europeia, um escritor celebrado e cosmopolita, e ver-se impedido de regressar, posto na condição de apátrida (naturalizou-se inglês, mais tarde), era uma degradação que abalaria qualquer espírito requintado. O duplo suicídio de Petrópolis será um desenlace lógico para esse desespero.
     Escrito em dois momentos bem distintos (1930 e c. 1938) -- e publicado apenas em 1982 -- A Embriaguez da Metamorfose conta-nos a história de Christine, uma modesta funcionária dos correios austríacos, vivendo na província no pós-I Guerra, no rescaldo da derrota e desmembramento do Império Austro-Húngaro. A convite de uns tios ricos, há longos anos emigrados nos Estados Unidos, onde fizeram fortuna, passou uma curta temporada de nove dias numa estância de luxo suíça.
     Os vestidos caros, o arranjo de beleza que a tia lhe proporciona, realçaram o seu aspecto exterior, tornando-a alvo da atenção da beautiful people em vilegiatura. Ao fim da primeira noite, Christine já era tu-cá-tu-lá com todos os espécimes da alta sociedade que pululavam no hotel, num mimetismo irreal que demora mais de uma semana a ser desvelado -- para mim o maior senão: Zweig força à corência do tempo narrativo uma metamorfose súbita de insustentável verosimilhança. Quando cai em si, quando fazem com que caia em si, Christine abandona abruptamente a estância, foge -- pois que a própria tia, temerosa que viesse à tona um duvidoso passado vienense, se mostra desconfortável --, regressando à vida de funcionária dos correios na província austríaca, depois de ter provado o mel dum mundo de aparente facilidade e prazer.
     É quando conhece Ferdinand, em casa da irmã em Viena, que a sua vida mudará, no sentido da libertação. Ferdinand é um despojo de guerra, em todos os sentidos, combatente e posteriormente prisioneiro dos russos, semi-inutilizado para o trabalho, devido a um ferimento que lhe incapacitou um mão, desprovido do património fundiário familiar com o rearranjo das fronteiras europeias, que criou estados onde antes havia impérios, é um inadaptado que sacrificou a flor da juventude aos caprichos do estado imperial áustro-húngaro, carne para canhão jogada fora quando deixou de ser precisa.
     A libertação de ambos da vida de pobreza mesquinha e sem sentido que levam só poderá fazer-se de duas maneiras: pela marginalidade, pelo suicídio. A mestria de Stefan Zweig revela-se aqui eloquentemente, e Christine e Ferdinad são dois inesquecíveis pares trágicos da história da literatura (a cena do bordel é antológica).
     Análise de uma frustração, recusa da insignificância, A Embriaguez da Metamorfose é, repetindo-me, um livro amargo; mas livro de mestre.


sábado, outubro 15, 2005

Castro em Vila Franca (4)

Seguiu-se A Selva (1930). Livro intenso, poderoso, escrito com as entranhas, fruto da vivência dramática do seu autor, A Selva, aborda também um gravíssimo problema económico e social, o dos «retirantes» fugidos à seca no Ceará e no Maranhão em demanda de outros lugares que lhes permitissem viver, mas que no fundo só conheceriam um quotidiano de exploração e miséria. Tratando este assunto, Castro acabou porém por consagrar a floresta virgem como verdadeira e principal personagem, a realidade totalitária que esmaga o indivíduo, tornado um mero títere ao sabor do relacionamento imprevisível que os elementos vegetais estabelecem entre si naquele universo.
Narrativa única na nossa literatura, intensa, veio confirmar um notável escritor que com Emigrantes se houvera destacado da nulidade de um certo meio literato de jornalismo e cafés em que Lisboa era fértil. Ao mesmo tempo, começava a sucessão inusitada de edições d'A Selva noutros idiomas. Só para referir os anos trinta, aqui ao lado, Espanha, em 1931, uma casa de Barcelona lança a primeira versão castelhana. No ano aziago de 1933 sairia a edição alemã, com tradução de Richard A. Bermann, pseudónimo do escritor judeu austríaco Arnold Höllriegell, amigo de Stefan Zweig, que viria a evadir-se do seu país natal já após a anexação, vindo a morrer tuberculoso em Nova Iorque, em 1939, poucas semanas antes da data que combinara com Ferreira de Castro para ambos se reencontrarem ali, a salvo, na grande maçã... Esta tradução alemã foi fundamental para a difusão internacional do romance e do seu autor. Em 1934 temos edições no Brasil, na Checoslováquia (em checo) e em Itália; em 1935, no Estados Unidos e em Inglaterra; no ano seguinte, na Holanda e na Suécia, e até ao fim da década, uma tradução em servo-croata e a versão francesa de Blaise Cendrars, de 1938. É impressionante como um livro dum jovem autor de 32 anos, publicado numa editora de província de um país pobre e periférico, em 1930, conseguiu de forma tão rápida e tão incontestável um estatuto internacional.
Castro é um romancista consagrado. Os seus livros continuaram a granjear uma larga audiência e foram publicados no estrangeiro, com várias edições, sob várias formas (edições de bolso e clubes do livro): Eternidade (1933), Terra Fria (1934), A Tempestade (1940), A Lã e a Neve (1947), A Curva da Estrada (1950) A Missão (1954) e O Instinto Supremo (1968) foram as restantes ficções que publicou em vida.
As narrativas de viagens Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) e A Volta ao Mundo (1940-44) surgiram pela impossibilidade criadora a que Ferreira de Castro esteve sujeito pela Censura do Estado Novo. Impedido de escrever sobre o que lhe interessava, teve de enveredar por um género de tradição na literatura nacional. Também As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63) acabaram por participar desse périplo planetário do escritor, constituindo-se agora como uma viagem interior pela progressão do Homem através da arte.
Há textos abundantes de Ferreira de Castro sobre a Censura, declarações e entrevistas em que se lhe opõe veementemente. Os seus livros póstumos testemunham-no: Os Fragmentos (1974), incluem o romance O Intervalo, escrito cerca de 1936, parte de um projecto mais vasto intitulado «Biografia do Século XX» e que Castro se viu forçado a abandonar pela impraticabilidade de publicação, uma vez que essa biografia mais não era que o relato ficcionado das ideias de emancipação dos homens seus contemporâneos. Outro texto castriano censurado, tendo ficado inédito durante quase sessenta anos, foi a peça Sim, Uma Dúvida Basta, que aborda o tema, ainda hoje actualíssimo, da pena de morte.
(continua)

sábado, julho 16, 2005

Zweig

Posted by Picasa

Caracteres móveis #26 - Stefan Zweig

Setenta mil pessoas da região do Ceará que, por causa de uma seca repentina, têm de abandonar os seus domínios, são engajadas ou, falando-se com mais sinceridade, compradas pelas companhias, e de Belém enviadas rio acima, em embarcações, para aqueles ermos. É que vai começar um terrível sistema de exploração naquelas regiões, que distam tanto das leis e da vigilância quanto outrora os vales auríferos de Minas Gerais. Embora não sejam escravos, esses seringueiros praticamente são mantidos em escravidão, por contratos de trabalho e pelo facto de os empresários, ainda não satisfeitos com o lucro obtido na borracha, venderem a esses infelizes trabalhadores, presos no «cárcere verde» da floresta virgem, os artigos e os víveres de que eles precisam, por preços quatro a cinco vezes superiores ao seu valor. Quem quiser conhecer todos os pormenores do horror desse período, leia o admirável romance de Ferreira de Castro, que, com grandioso realismo, descreve essa vergonhosa época.
Brasil, País do Futuro
(tradução de Oldilon Galotti)

A SELVA como expressão das ideias libertárias deFerreira de Castro (11)

Quando o seringueiro tinha «saldo», vendia-lhe tudo quanto ele desejasse; fosse loucura rematada ou objecto inútil [...]. Mas se o trabalhador, por curta estada ali, por doença ou preguiça não conseguira solver a dívida inicial, que rebentasse de fome, pescasse ou caçasse, pois não lhe forneceria nada para além do valor da sua produção. «De sem-vergonhas que tinham morrido antes de liquidar o débito ou que fugiram como cães, sem que ninguém os apanhasse, havia largo cadastro no seringal, a demonstrar quanto eram perigosas as transigências impostas por dó do coração.»
[...]
Mas com os «brabos», ignorantes do que era e não era indispensável, Juca Tristão procedia de maneira diferente. Ele próprio organizava a lista do aviamento: o boião a defumar, a bacia para o látex, o galão, o machadinho, as tigelinhas de folha, todos os utensílios que a extracção da borracha exigia -- e mais um quilo de pirarucu e uns litros de farinha, pois nos primeiros dias nunca um «brabo» sabe como se caça a paca e a cotia ou se pesca o tambaqui.
Aquele era sempre o «talão grande», ao qual se juntavam posteriormente as despesas da viagem e mais empréstimos que prendiam por muitos anos ao seringal, em trabalho de pagamento, o sertanejo ingénuo.
Alberto viu-se com o seu na mão -- setecentos e vinte-mil réis parcelados por seis ou oito linhas -- e depois sobre o balcão, meia dúzia de coisas que lhe pareceram não valer um pataco. [...]
Cap. IV, 32ª ed., pp. 91.92.
Nota: Chamo a atenção para o que escreveu sobre isto Stefan Zweig, um ou dois posts acima.