segunda-feira, fevereiro 24, 2025
sexta-feira, dezembro 06, 2024
o pior de Soares sempre foram os soaristas
Nunca simpatizei com a personagem, por razões muito diversas do ódio que lhe votava a grande massa dos chamados retornados ou da aversão que tinha por ele o PCP, partido a que pertenceu na juventude.
Uma das muitas coisas de que Portugal se deve orgulhar (um orgulho bem tardio, é verdade) é a Descolonização -- com todas as suas imperfeições --; a passagem do poder ao MPLA, ao PAIGC e à FRELIMO. Deveria ter sido outro o modo? Sim, mas a responsabilidade de como a descolonização foi feita deve-se apenas ao Salazar e entourage. Importante era descolonizar, em nome da decência; Soares foi um dos que esteve na Descolonização, por isso, viva Soares!
Soares liderou a contestação na rua aos que se preparavam para instaurar no país uma ditadura mais cruel e mais estúpida (parafraseio as palavras do sapateiro Manuel Joaquim de Sousa, antigo secretário-geral da CGT). Claro que Soares se aliou ao Diabo (Kissinger, CIA) e beneficiou do apoio da pequena burguesia assustada e da grande, defenestrada. É a vida.
E depois, foi o líder da nossa adesão à CEE. Não é sua a responsabilidade de a UE ser hoje uma entidade agónica e sem autonomia, dirigida por pequenos e habilidosos funcionários, da Úrsula ao Costa (neste último caso, é um vaticínio; gostava de me enganar, mas não creio). Ideia extraordinária a União Europeia, que talvez ainda possa ser salva. Não perguntem como, porque não sei, a não ser que a UE nunca o poderá ser enquanto as suas instituições não forem reformadas, com a obrigatória criação de uma segunda câmara que dê peso igual aos países, e com poderes reforçados, possivelmente numa perspectiva confederal.
Voltando a Soares, que não foi nenhum génio, mas um homem singular com qualidades e defeitos de sobra. Não admiro a pessoa, embora reconheça o seu lugar na História recente de Portugal -- uma obviedade, de resto. Mas o que sempre me causou particular repulsa foram os soaristas, coevos e póstumos, basbaques e engraxadores. Um horror.
quinta-feira, maio 26, 2022
um princípio. mas ainda não sabemos o fim (ucranianas C)
Está-lhes tudo a correr mal: é o Kissinger, é o Scholz, é a imprensa norte-americana, a inflação, os cereais, as televisões que já nem conseguem aldrabar mais, como se previa. E isto é só o princípio.
O princípio de quê?: do desfecho da guerra a breve prazo, com a previsível vitória militar da Rússia (se Deus quiser e for justo); ou da passagem ao patamar seguinte, o da escalada com o envolvimento de países da Nato (o rumor de que dois batalhões de voluntários (?) polacos terão sido fortemente atingidos pelos russos, não augura nada de bom a confirmar-se, dado o jaez sempre insidioso e traiçoeiros dos Estados Unidos e a miséria do energúmeno polaco, aliado dos líderes de Kiev, os homens de mão dos americanos -- é preciso dizê-lo sempre.)?...
Quem se lembra daquelas "notícias" dejectadas pelas televisões que envenenaram as opiniões públicas europeias, de que a Rússia, ao fim de duas semanas de guerra, já andava a pedir armamento à China? É claro que os porcalhões que andaram a fazer os telejornais e a pôr os meninos a debitar "notícias" nunca terão vergonha na cara sequer para demitir-se, quanto mais pintar a cara de preto e virem, como nos tempos da Revolução Cultural, a público fazer a autocrítica: "não semos mais que umas putas, e baratuchas".
terça-feira, maio 19, 2020
na estante definitiva
Historiografia de curtíssima duração (cinco anos), com um aparato crítico igual ao que vemos em estudos relativos a épocas recuadas, desmentindo a piada de já não me lembro quem, para o qual a História ia só até ao século XV; tudo que depois ocorreu era já do domínio do jornalismo…
Parte do projecto de investigação desenvolvido pelo autor nos Estados Unidos, «The Americans and Portugal: 1941-1976», beneficiando da recente abertura de alguns arquivos.
No limiar do capítulo I, «Política externa: um novo globalismo», temos um subcapítulo sem título, dedicado ao percurso político de Richard Nixon (1913-1994), da mercearia paterna em Yorba Linda, no condado de Orange, Califórnia até à Casa Branca, aos cinquenta e cinco anos. A presidência como obsessão, muito bem esgalhado, em menos de três páginas: «Ao longo de uma trajectória intermitente de sucessos e de ocasos, perseguira obsessivamente o supremo poder da Casa Branca: e faria desse poder o terminal trágico da sua carreira pública.»
Também muito bem escolhida foi a epígrafe de Henry Kissinger -- «esse homem fatal», como diria Eça de Pinheiro Chagas --, com muito que se lhe diga sobre as alegadas "responsabilidades" das nações, algo que, de acordo com o secretário-de-estado os Estados unidos só haviam descoberto com a II Guerra Mundial, e diz esta verdade, que o era para as velhas elites do poder, quer do Estado Novo quer da República e da Monarquia: «Hoje em dia, o país mais pobre da Europa Ocidental -- Portugal -- tem os mais pesados compromissos fora da Europa porque a imagem histórica de si mesmo está ligada às suas possessões ultramarinas.»
José Freire Antunes, Os Americanos e Portugal -- vol. I -- Os Anos de Richard Nixon (1969-1974), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1986.