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sábado, fevereiro 15, 2025

o que vai acontecer

«E uma ideia nasceu no cérebro velho do pastor esfaimado. Tosas as ovelhas eram iguais, feitas por Deus: então, porque baliam as suas de fome e as do vizinho de fartura? E não achava resposta boa para mistério tamanho. Não pensava em si, na sua fome; se os homens eram também iguais, por as ter a todos feito o mesmo Deus, não sabia ele, nem isso o preocupava.» Mário Braga, «Balada», Serranos (1948)

«A lavadeira voltou para a realidade ao meter as mãos na água. O Inverno só agora começava e o riacho gelara já nalguns sítios. O frio, excitado como um animal selvagem que se apanha finalmente à solta, rasgava-lhe a pele e mordia-lhe os ossos. Escurecia, mas a Alice não podia parar. A roupa era muita.» Miguel Barbosa, «A dança», Retalhos da Vida (1955)

«Parece que há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que a não têm. As primeiras realizam-se; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens. Romão era destas.» Machado de Assis, «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884)

domingo, janeiro 19, 2025

o que vai acontecer

«Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo., onde o mestre Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papéis de música; nenhuma dele... / Ah! se mestre Romão pudesse seria um grande compositor.» Machado de Assis, «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884)

«Definhavam as ovelhas do pastor pobre; engordavam a recato as do pastor rico. E mais sofria Melo Bichão: "Cala-te, Negra, cala-te, Nina..." A neve não parava no correr das semanas. Gemia o filho doido de Melo Bichão. Gemia, gemia. E secava-se o leite das fêmeas, morrendo os cordeiros.» Mário Braga, «Balada», Serranos (1949)

«O Alfredo não era coxo. Fingia, para mendigar. Era uma vida horrível. Chegava ao fim do dia com uma perna dormente de tanto a ter dobrada, para ninguém a ver, e Alice tinha de lhe fazer massagens com vinagre. / Às vezes, quando aparecia bêbado, tirava a perna e dava com ela nas costas da pobre Alice. Foi por essa razão que ela, um dia, o abandonou.» Miguel Barbosa, «A dança», Retalhos da Vida (1955) 

terça-feira, dezembro 24, 2024

o que vai acontecer

«-- Mestre Romão lá vem, pai José, disse a vizinha. / -- Eh! eh! adeus, sinhá, até logo. / Pai José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que daí a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor vestígio de mulher, velha ou moça, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jucundas.» Machado de Assis, «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884)

«A casa grande de Manel Libório quase se encostava à toca negra de Melo Bichão. Saía-se à porta, dobrava-se a esquina, e ficava-se de caras para o aprisco. Um aprisco que nem palácio, amplo e todo coberto, onde as ovelhas felizes do vizinho rico baliam alegres da fartura, que Manel Libório tinha pasto seu e muitos braços para lho juntarem em casa.» Mário Braga, «A balada», Serranos (1949)

«Chamava-se Alfredo e usava uma perna de pau. A Alice tivera curiosidade em ver como um homem daqueles amava. Porém até nisso a sua vida foi um erro. Ele, à noite, tirava a perna de pau e guardava-a debaixo da cama.» Miguel Barbosa, «A dança», Retalhos da Vida (1955)

segunda-feira, dezembro 02, 2024

o que vai acontecer

«E sofria no seu amor por elas: "Cala-te, Marrafa, cala-te, Nina..." Mas o céu não parava de abrir-se em neve, e a neve em frio, e o frio a picar a carne velha de Melo Bichão. Choramingava o filho maluco, baliam os animais famintos na verde saudade dos pastos. E mais sofria o pastor velho com a fome das sete ovelhas.» Mário Braga, «Balada», Serranos (1949)

«Nascera num bairro miserável, fora de portas. A mãe vinha todos os dias à cidade buscar roupa e deixava-a só. Cresceu como um bicho, sem moral, nem beleza. / Atingida a puberdade entregou-se ao primeiro que apareceu. Romance? Nenhum. Prazer, sensualidade, vício mesmo? Nada. Só sensaboria, fatalismo e alguma curiosidade.» Miguel Barbosa, «A dança», Retalhos da Vida (1955)

«Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto apenas alumiado da luz ordinária. Ei-lo que desce o coro, apoiado na bengala; vai à sacristia beijar a mão aos padres e aceita um lugar à mesa do jantar. Tudo isso indiferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a Rua da Mãe dos Homens, onde reside, com um preto velho, pai José, que é a sua verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma vizinha.» Machado de Assis, «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884)

sábado, novembro 09, 2024

o que vai acontecer

«Aquelas outras meias de seda, cinzentas, fascinavam-na. Levantou as saias e calçou-as. Olhou-se na água do riacho. Tirou-as com um suspiro. Se tivesse, como aquela porca, um idiota que lhe desse meias destas? / Procurou relembrar a sua vida. As memórias metiam sempre água e sabão.» Miguel Barbosa, «A dança», Retalhos da Vida (1955)

«Nesse ano, o Inverno chegou cedo. Duas semanas de nevão cobriram a serra de branco e queimaram o pastio. E foi então que começou a tragédia dos pastor velho e cansado, pai de um filho doido e dono de sete ovelhas famintas. / Dias e noites a fio baliram os animais com fome. Dias e noites, sem dormir, escutou Melo Bichão o triste balir das ovelhas.» Mário Braga, «Balada», Serranos (1949)

«Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia Mestre Romão, com o seu ar circunspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desaparecia à frente da orquestra; então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar acendia-se, o riso iluminava-se: era outro. Não que a missa fosse dele; este, por exemplo, que ele rege agora no Carmo é de José Maurício; mas ele rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.» Machado de Assis, «Cantiga de esponsais» Histórias sem Data (1884)

quinta-feira, outubro 17, 2024

o que vai acontecer

«Manel Libório vivia em casa de bom conchego, rodeado de família. Melo Bichão dormia quase na rua e apenas tinha um filho amalucado. Manel Libório e o seu rebanho passavam vida farta. Melo Bichão, o filho e as suas sete ovelhas curtiam fome como danados. E ambos eram criaturas de Deus, naturais de Sequeiros.» Mário Braga, «Balada», Serranos (1949)

«Que velho malandro não era aquele respeitável senhor que lhe dava sempre a roupa suja de bâton? E quem melhor do que ela sabia que o senhor Sousa, um dos banqueiros mais reputados do país, estava, apesar das festas e do luxo, completamente arruinado? Bastava olhar para as meias e camisas passajadas.» Miguel Barbosa, «A dança», Retalhos da Vida (1955)

«Mestre Romão é o nome familiar; e dizer familiar e público era a mesma cousa em tal matéria e naquele tempo. "Quem rege a missa é mestre Romão", -- equivalia a esta outra forma de anúncio, anos depois: "Entra em cena o ator João Caetano"; -- ou então: "O ator Martinho cantará uma de suas melhores árias". Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular.» Machado de Assis, «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884)

quinta-feira, outubro 03, 2024

o que vai acontecer

«Não falo sequer da orquestra, que é excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orquestra, com alma e devoção. / Chama-se Romão Pires; terá sessenta anos, não menos, nasceu no Valongo, ou por esses lados. É bom músico e bom homem; todos os músicos gostam dele.» Machado de Assis, «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884)

«Depois, morre a erva, já pouca, queimada pelo gelo, seca o leite das fêmeas, e cresce a fome dos pastores. / Manuel Libório era homem rico, senhor de terras e de muitas cabeças. Melo Bichão era pastor velho e pobre, a quem já ninguém confiava o gado.» Mário Braga, «Balada», Serranos (1949)

«Agarrou numa camisinha de seda, diáfana, com rendas. Quem diria que aquela senhora, sempre de preto, ar inconsolável de viúva, usava por dentro coisas tão supérfluas? / Começou a lavar. A Alice conhecia pelas manchas da roupa a vida do freguês e o seu carácter.» Miguel Barbosa, «A dança»Retalhos da Vida (1955)

sábado, setembro 21, 2024

o que vai acontecer

«Mas que ganhara com a profissão de lavadeira, além desses conhecimentos de cultura geral? Unicamente as mãos encardidas de lixívia e os dedos vermelhos, cheios de calos, mortos à sensibilidade. / A Alice poisou a trouxa de roupa suja, que trazia à cabeça, junto do riacho. As pernas tinham varizes de tanto andar.» Miguel Barbosa, «A dança», Retalhos da Vida (1955) § «O gado é a vida da gente de Sequeiros; a lã, o seu trigo e o seu pão. Só nos escassos meses de veraneio a terra fica nua e pode gerar. No Inverno veste-se de branco e adormece. Pastores e rebanhos pernoitam no quente dos currais, e o dia é da serra, na pista do verde.. Semanas e semanas, o gado no coberto, por culpa dos nevões, sem poder emigrar para o vale.» Mário Braga, «Balada», Serranos (1949) § «Não lhe chamo a atenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada.» machado de Assis, «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) 

domingo, setembro 08, 2024

o que vai acontecer

«A Alice lavara toneladas de camisas, uma pequena montanha de cuecas e sabia segredos curiosos: as ceroulas do presidente eram cor de rosa com uma fitinha preta e podia provar que, quando se dera a revolta para mudar o regime, S. Ex.ª, apesar do calmo sorriso que ostentava, tinha-se assustado.» Miguel Barbosa, «A dança», Retalhos da Vida (1955) § «O lugar de Sequeiros planta-se no alto da Serra de Queiró, arriba de Zebrais. É terra de pastores, encravada entre penedos. Os homens vivem ali, esquecidos dos outros homens, a cuidar dos rebanhos e a ver crescer os pastos.» Mário Braga, «Balada», Serranos (1948) § «Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos.» Machado de Assis, «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884)

sábado, junho 29, 2024

2 versos de Miguel Barbosa

«tudo o que se possa pensar / já foi pensamento socrático» 

Um Mensalão É Urgente no Meu País (2014)

terça-feira, junho 11, 2024

2 versos de Miguel Barbosa

«iremos de bosão em bosão / buscar o nosso estatuto de deuses» Um Mensalão É Urgente no Meu País (2014)

domingo, janeiro 24, 2021

a arte de começar

 «O rio, a árvore e o rouxinol tinham razão de existir idêntica à do dia arrastado pelas metamorfoses sombrias da noite e pelo vento frio do norte. Na fragilidade quebradiça da palavra gasta pelo uso, Luísa encontrava o respirar mágico e ofegante do sonho. Todos no bosque a conheciam e a aceitavam por igual até quando a viam embriagada de fantasia.»

Miguel Barbosa (1925-2019), Anatomia de um Sonho (2008)

sábado, janeiro 02, 2021

a arte de começar

«Eu tinha chupado a vida por uma palhinha e o que restava dela e de mim era um monte de ossos com algum sebo! Acabara de ter uma desilusão de amor com uma cadastrada e estava a reaprender a amar na altura em que estes sinistros crimes se passaram. Vivia sem grande futuro e pior presente numa mansarda perto das Portas do Sol na Rua da Judiaria. Por companhia tinha um lavatório de ferro com tantos gatos como os que passavam miando pelo telhado  e um desenho a lápis do Hogan preso na parede por um adesivo onde se viam os dedos impressos pela fome. A única divisão servia-me também de escritório e, pendurado na porta da rua, tinha porto um letreiro com uma letra gorda dizendo "Agência Privada de Detectives". E para disfarçar a crise e enganar os clientes, com uma opulência fictícia, comprara um telefone a fingir e uma velha máquina de escrever na Feira da Ladra. Luxos que não podiam esconder o prédio, um pardieiro quase a cair, , alcunhado o "P.I.B. de Alfama", porque estava tão deficiente como a situação do país. De tal modo a casa se tornara popular no bairro que na taberna em frente se apostava, entre dois copos de tinto, quem ia dar primeiro com as trombas no chão: o prédio, o governo ou eu, vítima do meu arriscado ofício de impoluto investigador.» 

Rusty Brown (Miguel Barbosa, 1925-2019), Os Crimes do Buraco da Fechadura (2010)

domingo, maio 07, 2017

começar

Da deliciosa simplicidade ingénua de Sarah Beirão, de que a narrativa não se desviará, à fábula onírica de Miguel Barbosa, passando pela literatura marie-claire de António Alçada Baptista. Um despojamento directo e seco num grande romance de António Lobo Antunes e, finalmente, aquele «uma velhice tão antiga» que é elemento perturbador e toque de grande arte do livro de Baptista-Bastos. Dos títulos, balanço entre Cão Velho Entre Flores e Auto dos Danados.

1952 [?]: «Vivia-se com muitas dificuldades naquela pequena aldeia da Beira Alta.» Sarah Beirão, Triunfo

1974: «Quem vem do palácio real e desce a calçada vê à direita um carvalho com as raízes expostas e uma velhice tão antiga que nem a Primavera rejuvenesce.» Baptista-Bastos, Cão Velho Entre Flores

1985: «Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco comecei a trabalhar às nove e dez.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados

1988: «Temos dificuldade em compreender nos outros aquilo que não somos capazes de viver.» António Alçada Baptista, Catarina ou o Sabor da Maçã

2008: «O rio, a árvore e o rouxinol tinham a razão de existir idêntica à do dia arrastado pelas metamorfoses sombrias da noite e pelo vento frio do norte.» Miguel Barbosa, Anatomia de um Sonho

sexta-feira, maio 05, 2017

começar

Em João Pedro de Andrade o interdito vela-se por detrás da frase anódina -- o título da novela, aliás excelente, põe-nos de sobreaviso.  Do livro de estreia, que não o primeiro, de António Lobo Antunes, uma torrente, contrário ao que pareceria desejável. A mestria é, porém, tanta, que é o longo incipit que nos fica à maneira de fim de rebuçado. Augusto Abelaira, em maré de XVIIª (1983), põe-nos a bordo de uma nau quinhentista. Não se trata, contudo, de um romance histórico, antes um afloramento da reconhecível faceta irónica e crítica do autor -- tanto quanto me lembro da leitura, com décadas. O incipit de António Alçada Baptista dá a medida do catolicismo light do romance, aliás intragável. Finalmente, o de Miguel Barbosa reitera um coloquialismo que em tempos deu frutos.

1942: «Desde o inverno que Jaime andava a falar na visita do seu sobrinho Luís.» João Pedro de Andrade, A Hora Secreta

1979: «Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.» António Lobo Antunes, Os Cus de Judas

1982: «Embarquei-me enfim com a minha fazenda numa nau que ia com muitos cavalos e pimenta em que era capitão Dias de Almeida, de alcunha o Tigre, filho do conde de Alcântara, o qual carregava a ossada do pai para Goa, donde seguiria para Coimbra, dando cumprimento a uma ordem de El-Rei Dom Manuel.» Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso

1994: «A letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana.» António Alçada Baptista, O Riso de Deus

2010: «Eu tinha chupado a vida por uma palhinha e o que restava dela e de mim era um monte de ossos de algum sebo!» Rusty Brown (aliás, Miguel Barbosa), Os Crimes do Buraco da Fechadura

(o título: Os Cus de Judas)