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quinta-feira, junho 19, 2025

o que está a acontecer

«I-I - Quem, de longe, remire Alfamar, cada renque horizontal das suas casas brancas como a escalar os dois regaços do cerro intonso e altaneiro  que um castelo de traça mourisca ainda hoje simula proteger -- ajuizará sobre o desafogo de vistas dessa vila algarvia, a várzea, que ostenta à ilharga, engalanada com a vegetação das hortas bem cultivadas e sortidas.» Assis Esperança, Pão Incerto (1964)

«1. Empurrados do interior, os povos buscavam o litoral na esperança de uma mandioquinha, de um caldinho de peixe, de um cana para chupar, ou de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrasados pelos ventos da miséria.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«A SEARA  - A festa -- 1. O vento arrastou as nuvens, a chuva cessou e sob o céu novamente limpo as crianças começaram a brincar. As aves de criação saíram dos seus refúgios e voltaram a ciscar no capim molhado. Um cheiro de terra, poderoso, invadia, tudo, entrava pelas casas, subia pelo ar.» Jorge Amado, Seara Vermelha (1944)

«Escolhera o mestre do barco aquela noite negra, para que a Lua não assistisse à largada. Também não compareceram as estrelas, com grande contentamento do velho João Frade, posto lhes quisesse muito, mas no alto, em plena derrota, para conversar com elas  sobre coisas noutros tempos acontecidas, já que sem idade para sonhar com vida nova.» Joaquim Lagoeiro, Viúvas de Vivos (1947)

quarta-feira, outubro 04, 2023

caracteres móveis

«A milhã, rapineira de energia dos arrozais, pouco lá entrara; a brança só invadira um ou outro pé; e o limo e a sarna tinham ficado cá por baixo, a enfeitar a água, e a verem crescer a sua seara; sua, pois então; ninguém lhe dera tanta canseira e apaparicos.» Alves Redol, Gaibéus (1939) / «E pela porta do quintal entravam, com o sol moribundo, que vinha pintar de branco o ocre do cântaro da água, os grunhidos do cevado.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) / «E quando uma vaga maior, uma vaga de respeito fez gingar o veleiro de bombordo a estibordo, Chico Afonso, o moço do barco, teve um gracejo sem eco em almas tão desconfortadas.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

quinta-feira, maio 25, 2023

uma acha resinosa & outros caracteres móveis

 «Ao fundo, sob a chaminé que a fuligem vestira de luto, o fogo esmorecera e só uma acha, resinosa na extremidade ainda intacta, teimava em arder.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) -  «Ele pertencia à família dos Milhanos de Marinhais, sempre famosos no Ribatejo como arrozeiros sabidos e safos de mândria.» Alves Redol, Gaibéus (1939) - «O veleiro a largar a ilha e já todos se deixavam contaminar dum vento de afago que, de mansinho, lhes soprava na alma.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962) 

quarta-feira, janeiro 18, 2023

à deriva, povo e país - caracteres móveis

«Alguns, no entanto, adoçando o mando do capitão, ou subtraindo-se à vigilância dos seus homens, não conseguiram acoitar-se no veleiro, remoçando os sonhos, na secreta convicção de que aportariam a São Vicente, onde a caridade havia de acolhê-los.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«Pormenor importante: enfrento a janela de guilhotina que dá para o único café da povoação, do outro lado da rua, e, mais para diante, vejo o largo, a estrada de asfalto e um horizonte de pinhais dominado por uma coroa de nuvens: a lagoa.» José Cardoso Pires, O Delfim (1968)

«Vestiam os seus trinta e quatro anos feitos e vividos sempre ali, entre a agressividade dos elementos, um casaco e colete velhos, enodoados, a camisa sem gravata.» Ferreira de Castro, Terra Fria (1934)

quarta-feira, dezembro 28, 2022

caracteres móveis

«E na confusão uns tantos, de exaustos, se deixaram ficar no cais, a ver o barco sumir-se pelo mar dentro, como se deles se houvesse despegado a derradeira fé na vida.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«É uma terra ainda assim grande, se formos comparar, primeiro em corcovas, alguma água de ribeira, que a do céu tanto lhe dá para faltar como para sobejar, e para baixo desmaia-se em terra fita, lisa como a palma de qualquer mão, ainda que muitas destas, por fado de vida, tendam com o tempo a fechar-se, feitas ao cabo da enxada e da foice ou gadanha.» José Saramago, Levantado do Chão (1980) 

«Perturbavam-se de prazer a trepidação da partida, o halo da novidade e sobretudo o apelo intrínseco e doce de todas as pequenas coisas que ficavam mais perto de mim, como o fato novo, estreado esse dia, e o farnel da merenda para comer no comboio.»  Vergílio Ferreira Manhã Submersa (1954)

sábado, junho 15, 2019

vozes da biblioteca

«Para o humilde autor deste relato, os casos tiveram o seu berço foi mesmo nesse esquecido ano de mil oitocentos e oitenta, aquando da chegada a Luanda de um moço benguelense, de sua graça Jerónimo Caninguili.» José Eduardo Agualusa, A Conjura (1998)

«Respondiam três, respondiam quatro, sabia-se lá, e abriam caminho a disputar a primazia, procurando iludir o sobrenome de baptismo.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«Sempre de nariz no ar e olhos investigadores ao lado dos operários, que a detestavam porque ele intervinha em todos os pormenores -- olhe isto, olhe aquilo, assim não está bem, faça assim, faça assado -- de tal forma se portara que, durante semanas e mais semanas, a vida tivera um incómodo sentido provisório no meio do movimento e da desordem em que tudo aquilo andava.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

terça-feira, fevereiro 19, 2019

vozes da biblioteca

«A mesma expressão apavorada, mas agora baça e fria, abria-lhe os olhos para o tecto.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Ali estava no que dava uma vida daquelas: Lourenção, o senhor das terras, dos poisios e da gente do Covão, morto a cacete como um cachorro danado!» Carlos de Oliveira, Alcateia (1944)

«Fascinados pela presença do lugre, partir, não interessava de que modo, eis o último recurso a que poderiam deitar mão.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

sábado, outubro 13, 2018

«"Bem", disse Austin, "tinham vindo do Museu de Arte Moderna, onde viram os seus Matisse e os seus Miró, acabaram por encontrar-se no Louvre, diante de um quadro neutro, talvez a inevitável Gioconda, Molero diz que vastas multidões de peregrinos solitários se encontram, a dois, diante da tela da Gioconda, cedendo ao apelo publicitário do mais enigmático de todos os sorrisos, bem, conheceram-se no Louvre".» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

«Ervas, rebentos, raízes, tudo sumido na voragem da sede e do calor.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«"Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou.lhe cama; só não lhe dou moça."» Machado de Assis, D. Casmuurro (1901)

domingo, junho 10, 2018

«Seja velório rico, seja pobre, exige-se, porém, constante e necessária, a boa cachacinha; tudo pode faltar, mesmo café, só ela é indispensável; sem seu conforto não há velório que se preze.» Jorge Amado, Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966)

De ponta a ponta, um pesadelo perpassava pelas aldeias e casalejos galgando pela amarelidão da terra nua e requeimada.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos interstícios das pedras e delas extrai suco e vida.» Raul Brandão, Húmus (1917)

quinta-feira, maio 24, 2018

«Toda a gente foi domingo / alguma vez.» A. M. Pires Cabral, «Degradação», Arado (2009)*

«Têm as mão brancas de sal / E os ombro vermelhos de sol.» Sophia de Mello Breyner Andresen, «Os navegadores», Mar Novo (1958)**

«Nas ondas sozinhas / Nem um navegante / Nem aves marinhas...» António Pedro, «Canção dum mar ao largo», Ledo Encanto (1927)***

* Resumo -- A Poesia em 2009 (edição de José Alberto oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, 2010)
** Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa (ed. Ana Hatherly, 1960)
*** No Reino de Caliban I (ed. Manuel Ferreira, 1977)

sexta-feira, abril 06, 2018

«Nem a sopa da Assistência o evitava, bem se pode dizer: as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«Mal sentem esse cheiro a terra que todos os anos desce dos contrafortes dos Gates e percorre o mesmo caminho dos rios e das pequenas cordilheiras até chegar às planícies mais baixas, os búfalos sabem que novamente a terra os espera.» Orlando da Costa, O Signo da Ira (1962)

«Já o passado fica muito longe, já as figuras de apagadas mal se distinguem e ainda a poeira de sonho teima lá no fundo...» Raul Brandão, A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore (1926)

segunda-feira, abril 13, 2015

um sopro na alma

«O veleiro a largar a ilha e já todos se deixavam contagiar dum vento de afago que, de mansinho, lhes soprava na alma.»

Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

segunda-feira, janeiro 05, 2015

partir, não interessava de que modo

«Nem um arredou pé. Fascinados pela presença do lugre, partir, não interessava de que modo, eis o último recurso a que poderiam deitar mão. Para os famintos, São Vicente era a terra sonhada. E o Senhor das Areias, velho amigo do Arquipélago, o mensageiro da vida. Iam então deixá-lo perder, ali, tão juntinho a eles, a sorrir-lhes de esperança?»

Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

segunda-feira, julho 14, 2014

mandado por Deus

«Era o veleiro mandado por Deus Nosso Senhor. Que levaria aquele povo à outra ilha distante e abençoada onde todos encontrariam abrigo e protecção. Lá não havia fome. Lá a catchupa chegava para os mais necessitados e perseguidos pela estiagem. Gente, São Vicente tinha Porto Grande, tinha navios de todas as partes do mundo trazendo trabalho e comida. Soncente tinha tropa que enchia a barriga a todos nós.»

Manuel Ferreira, Hora di Bai [1962]

terça-feira, agosto 06, 2013

Manuel Ferreira: "as bocas famintas, senhor"

Empurrados do interior, os povos buscavam o litoral na esperança de uma mandioquinha, de um caldinho de peixe, de um cana para chupar, ou de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrasados pelos ventos da miséria. Nem a sopa da Assistência evitava que no alvor da madrugada a carroça da Câmara levasse os que haviam tombado, de noite, na rua, inteiriçados, frios. Nem a sopa da Assistência o evitava, bem se pode dizer: as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar. 

início de Hora de Bai (1962), de Manuel Ferreira

sábado, junho 04, 2011

Antologia Improvável #474 - Francisco de Sousa Neves

ODE À ÁFRICA

Eu sei das matas onde o pé humano
É como um espanto para a terra nunca semeada
E sei dos bosques sagrados onde o latim
Jamais penetra para dar um nome às árvores.
Esta é a terra prometida à derradeira
Estação dos deuses no nosso planeta
Terra do início da era da máquina
Ainda fresca do húmido sopro da criação
Com rios e afluentes da palavra fácil
E nervação abertamente fecunda.
Floresce o raciocínio como um olfacto
Mais apurado a expensas do instinto
Esbanjam os espaços seu pródigo rasgo
No grito sem luxo das orquídeas selvagens
Talvez de novo as palavras eu desperte
Limpas de barro e enxutas de antigo.
Meu passo busca não a ária dos pastores
Com poemas ao bom-senso dos rouxinóis
Mas esta luz lançada como um harpão
À misteriosa substância do futuro.
Minha poesia é aqui: onde o espaço
Ainda não se cansou do rosto humano
Onde as palavras antes da moeda inventada
São a permuta da água pelo ouro.

No Reino de Caliban III
(edição de Manuel Ferreira)

sexta-feira, março 25, 2011

Antologia Improvável #466 - Marcelino dos Santos

A TERRA TREME

IV

A terra toda tremendo
na primeira explosão

os homens
sentindo o mundo fechar-se

correndo
buscando o sol

e não encontrando senão
a Companhia

corvo enorme lançando sua sombra

cobrindo o sol com suas asas

na voz repetindo

Continuem
É necessário continuar
É necessário
regressar ao fundo da mina

Depois

Outra explosão

Os homens correndo
a terra tremendo

Os homens caindo
nas galerias a desmoronar-se
os corpos torcendo-se
nos gases e nas pedras de carvão

esperanças
de um mundo onde viver
perdidas na poeira da mina

Homens morrendo

Homens negros

No Reino de Caliban III
(edição de Manuel Ferreira)

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Antologia Improvável #463 - José Craveirinha (5)

PRIMAVERA DE BALAS

Agarro
Na minha última humilhação
E sem ir embora da minha terra
Emigro para o Norte de moçambique
Com uma primavera de balas ao ombro.

E lá
No Norte almoço raízes
Bebo restos de chuva onde bebem os bichos
No descanso em vez da minha primavera de balas
Pego no cabo da minha primavera de milhos
e faço machamba ou se for preciso
Rastejar sobre os cotovelos
E os joelhos 
Rastejo.

Depois

Escondido em posição no meio do mato
Com a minha primavera de balas apontada
Faço desabrochar no dólman do sr. Capitão
As mais vermelhas flores florindo
O duro preço da nossa bela
Liberdade reconquistada
Aos tiros!

in No Reino de Caliban III
(edição de Manuel Ferreira)