«-- Navio?» O incipit, e também primeiro parágrafo, do conto «Os faroleiros», que abre Urupês (1919), de Monteiro Lobato, obra fundamental de um dos grandes escritores do Brasil e da nossa língua. Discurso directo, serve a pergunta de pretexto ao narrador para contar uma história trágica passada num farol. Uma beleza de começo.
quinta-feira, maio 26, 2022
quarta-feira, maio 25, 2022
da ética do despojamento à identificação impossível
«Desta viagem do velho Arlanza até Sout'n' vou guardar uma indelével memória.» José Rodrigues Miguéis (1901-1980), «Gente da terceira classe», Gente da Terceira Classe (1962)
Texto que abre o volume com o mesmo título, publicado em 1962, e apresentado em epígrafe como "Jornal de bordo - 1935", é mais reportagem que conto. Filho de imigrante galego, e licenciado em Ciências Pedagógicas pela Universidade de Bruxelas, fartou-se certamente da parvónia que era Lisboa em 1935, e ruma aos Estados Unidos, onde viverá o resto da vida, com breves intermitências.
Comunista de há muito, os tipos que nos apresenta nesta terceira classe de que obviamente não fazia parte, merecem-lhe uma atenção em que salta à vista a vontade de idealização do povo que aqui está longe de aparecer em carne e osso, por vezes chegando à comiseração, quase à repugnância pelo primitivismo -- que já Raul Brandão, por exemplo notava, ou Ferreira de Castro também, ambos, porém com maior empatia e nunca usando de ironia. Miguéis, diria, vai além da ironia: a mordacidade por vezes quase camiliana, está muito presente. Nem as figuras que nitidamente idealiza -- o antigo marinheiro ou a velha popular do Barroso -- sobrevivem quando abrem a boca. Um marxista com vontade de ideal, numa visão benigna; um cínico diria: o povo não serve?, muda-se o povo! Também foi tentado, com o sucesso que se conhece. No entanto, a sua sinceridade é indiscutível, tal como o apurado sentido crítico, mesmo que ocasionalmente toldado pelo vezo ideológico, sempre discreto, contudo, como se impõe.
segunda-feira, maio 23, 2022
caracteres móveis
domingo, dezembro 12, 2021
na estante definitiva
«S. Frei Gil», cujo plano da obra chegou até nós, poderia ser uma das grandes narrativas queirosianas, provavelmente abandonada (e isto é um palpite; precisaria de verificar cronologias) pelo felizmente concluído A Cidade e as Serras. Várias vezes me veio à memória a dispersão e a inconsistência do Jacinto de A Cidade e as Serras, ou mesmo de Gonçalo Mendes Ramires. Em todo o caso, ficamos com pena do corte abrupto da narrativa quando o volúvel Gil a caminho de Paris, na companhia do escudeiro Pêro, para estudar Medicina, é desviado do intento por um misterioso cavaleiro...
segunda-feira, novembro 29, 2021
na estante definitiva
Grande poeta e ensaísta, além de romancista, dramaturgo, contista, epistológrafo, Jorge de Sena (Lisboa, 2 de Novembro de 1919 – Santa Bárbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978) concentra a dupla característica do criador excepcional com a excepcionalidade do juízo crítico. Pertence à classe dos cerebrais, os que reflectem sobre a própria obra como se de um recenseador terceiro se tratasse (mas nunca trata, na verdade...).
Creio que foi o primeiro livro seu que comprei, e ainda muito novo fiquei esmagado por aquela raiva frontal. Há poemas cujo tom nunca mais esquece. Livro póstumo, organizado pela mulher, Mécia de Sena, de acordo com o que o marido deixara já preparado, contém inéditos e dispersos escritos entre 1938 e 1978, agrupados por ordem cronológica, em paralelo com os títulos da obra édita. O prefácio ostenta uma comovente epígrafe extraída do Hamlet de Shakespeare, seguindo-se a tradução do próprio Sena ...Good night, sweet prince; / And flights of angels sing thee to thy rest! -- ...Boa noite, doce príncipe; / e que revoadas de anjos te conduzam / cantando ao teu repouso.
(1.ª ed., 1979; 2.ª, revista, Lisboa, Moraes Editores, 1982)
terça-feira, outubro 19, 2021
na estante definitiva
A carta de Pero Vaz de Caminha (1450-1500) é na verdade um relatório, um relato sobre o que viu e ouviu na nova terra que era já conhecida pelos portugueses antes de Pedro Álvares Cabral. Atestam-no o Tratado de Tordesilhas (1494) e a circunstância de o principal navegador desta frota ser Bartolomeu Dias, que sete anos dobrara o Cabo. A derrota para oeste serviu para oficializar a posse daquela terra que viria a chamar-se Brasil.
Há dois milagres no que respeita ao documento: um, foi o de ter chegado até nós, não ter ido ao fundo num naufrágio ou perder-se sabe-se lá onde, até ser (re)descoberto no século XVIII, no meio de papelada, sendo impresso apenas em 1817, pelo padre Manuel Aires de Casal.
O segundo milagre é o próprio Pero Vaz, a forma como escreve, reportagem pura, obedecendo à "regra dos 5 w's": what-who-when-where-how (why, se quisermos um sexteto). Fá-lo com a objectividade de um homem a terminar o século XV, talvez porque fora mestre da balança Casa da Moeda do Porto, com funções de escrivão e tesoureiro, o que exigiria qualidades de exposição prática. Talvez por isso, os editores do livro que tenho na mão, Maria Paula Caetano e Neves Águas, tenham escolhido para epígrafe da sua introdução um fragmento do Diário de Miguel Torga: «Diante da carta de Pero Vaz de Caminha até me vieram as lágrimas aos olhos.»
quarta-feira, fevereiro 03, 2021
a 'condessinha' -- «A Catedral» (2)
Continuar: «D. Francisco Diogo de Pina Coutinho, 3.º marquês de Pombeiro e 5.º conde de Linhares, cujas genealogias entroncavam na mais antiga nobreza do reino, fora um dos grandes fidalgos portugueses que entraram, em 1640, na conjuração nacional contra o jugo de Castela.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) Início do cap. II, pp. 29-39 da minha edição.
terça-feira, janeiro 26, 2021
na estante definitiva
2. Continuar: «Na história da estética portuguesa do século XIX, onde situar com mais evidência as primeiras correspondências a uma "arte útil"?» Cap. I: «Até finais de 1935: motivações e primórdios de um trajectória de inspiração marxista» (pp. 11-22).
| Roberto Nobre, A Cega Sanha do Povo (1935) - Museu de Faro |
| António Lopes, Companheiros |
| Diego Rivera, História de Cuernavaca e Morelos. Plantação de Açúcar |
Fernando Alvarenga, Afluentes Teórico-Estéticos do Neo-Realismo Visual Português, Porto, Edições Afrontamento, 1989.
domingo, janeiro 17, 2021
na estante definitiva
«De maneira nenhuma este ensaio pode ser, nem pretende ser, um estudo exaustivo dos problemas que levantou, e levanta ainda, a música destas quatro primeiras décadas do século XX.» Da «Advertência preliminar» à 1.ª edição, 1942; 2.ª ed., 1946, pp. 5-7.
Lopes-Graça era um extraordinário escritor, de primeira água e com nervo de polemista. Apresenta-se como músico que as circunstância levaram a escrever sobre música; mas, irónico, adverte «[...] não ser musicólogo -- palavra que o assusta, pelas responsabilidades que impõe a quem se adorna com ela.» E acrescenta que as circunstâncias levam-no pro vezes a escrever sobre música: quanto à primeira, diz não se para ali chamada -- e está-se a ver que a razão é política: tendo sido impedido de aceder ao lugar de professor do Conservatório, para cujo o concurso alcançara o primeiro lugar, tinha de ganhar a vida como professor de piano e escrevendo artigos aqui e ali; a segunda razão prende-se com a alegada incapacidade de dizer não aos convites que lhe dirigem a escrever sobras algo; finalmente a própria idiossincrasia, «[...] o impulso irreprimível que frequentemente nos assalta de sairmos com a pena a defender a música das mentiras, tranquibérnias e despautério com que constantemente a aviltam os próprios que se dizem seus servidores, seus sacerdotes, seus entendedores feros e esclarecidos.» E esta será sempre uma das melhores razões para alimentar uma disposição polemista notável: ideias arrumadas, convicções fortes e a ferramenta que maneja como um escritor de vastos recursos. E, conhecendo-se, avisa para um excesso de calor na prosa, «[...] um tal ou qual ardor prosélito, resulta isso de que nos é impossível escrever a sangue frio sobre um assunto que nos interessa profundamente [...]». Não sei se estava a ser sincero, que possa ser uma cortesia para com o leitor. Mas é precisamente por cause desse ardor que as páginas de Lopes-Graça se lêem como peças literárias, e hoje tão bem como há oitenta anos.
domingo, janeiro 10, 2021
na estante definitiva
1. Henrique Abranches (Lisboa, 1931 - África do Sul, 2004) foi um dos muitos portugueses que, indo crianças para Angola, cresceram assistindo à indignidade do colonialismo. É sempre um ultraje quando uma minoria, ainda para mais alienígena, se impõe pela força, subjuga, suga e domina os naturais de outro(s) país(es). Foi o seu caso, tornado angolano de armas na mão. O contributo que deu para a história, etnografia e literatura de Angola é vasto. Foi também um pioneiro da BD angolana. O desenho da capa é de sua autoria.
Este livrinho, Diálogo, publicado pela Casa dos Estudantes do Império - importante alfobre de intelectuais e políticos dos hoje PALOP's -- é uma obra de dois países. Abranches português pelo nascimento, e como português o publicou em 1962, com o jovem autor a cumprir pena de residência fixa na cidade natal. Há verdura, mas também admirável empatia; ele escreve não sobre angolanos, mas como angolano. Tem um óbvio lugar na minha lista de livros que importam. comovem e me dão prazer.
***
2. «Diálogo no tempo morto», o texto inaugural, é uma conversa meditativa a propósito da terra devastada em a seca ransfin« a seca mata o tempo, traz a fome, leva os novos, anuncia a morte, priva dos prazeres mais elementares, uma cerveja fresca, uma boa cachimbada; só o sentimento de impotência é abundante: «Olha o céu de hoje, olha-o: sem uma nuvenzinha, como que envelhecido. Ele já não é capaz de fazer nada. Tudo o que é velho e incapaz é um fardo pesado. Nós somos velhos...»
Henrique Abranches, Diálogo (1962), leitura em curso
domingo, janeiro 03, 2021
na estante definitiva
O texto introdutório é uma justificação da procura e resgate empreendidos pelo autor duma cultura e tradição varridas da narrativa historiográfica portuguesa com honrosas excepções, fruto da Reconquista e da bagagem ideológica que se lhe colou. triunfo do cristianismo, derrota do outro, que éramos também nós próprios e não sabíamos: «Conheci então o que sempre de mim fora conhecido.»
terça-feira, dezembro 29, 2020
a procura do risco primitivo -- «A Catedral» (1920) (1)
«Era a hora de Matinas. A sineta do claustro tangia, a convocar os capitulares para o coro, quando Luciano passou da sua alcova à biblioteca, entreabrindo uma pequena porta e afastando uma massa rígida dum brocado que descia do lambrequim em pregas hirtas, adornado de eucarísticos lavores de seda e oiro. Em seguida, acercando-se duma janela cujas portadas tinham ficado despreocupadamente abertas, descerrou, num gesto largo, as vidraças de par em par, e aspirou com delícia a onda do ar fresco, que inundou a casa, impregnado dos vapores que do jardim, em baixo, se evolavam.» O parágrafo inicial do romance de Manuel Ribeiro A Catedral (1920), pp. 4-28 da minha edição: Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, s.d.
O tempo. Matinas -- antes do raiar do Sol, hora de oração e leituras de textos bíblicos e hagiográficos. Tempo histórico apenas referido no segundo capítulo.
O espaço. A referência a um claustro, a capitulares e a um coro, indica estarmos numa casa religiosa, obviamente sem surpresa, atendendo ao título do romance. Uma ligação directa da alcova à biblioteca, pode indiciar um aposento privilegiado para quem tenha hábitos, necessidades e práticas do foro intelectual.
Personagem. Luciano, habita no recinto, no qual parece deambular à vontade. Sabemo-lo, quantos lemos o romance, tratar-se de pessoa decidida e com ideias firmes. O «gesto largo» com que abre as janelas e aspira o ar da rua a plenos pulmões são gestos e atitudes que prenunciam a sua assertividade.
Impressões. o som (a sineta que tangia); a visualização do peso do lambrequim; o ar madrugador e refrescante que Luciano aspira a plenos pulmões.
O modo. As referências ao brocardo revela a permanência da estética naturalista, com todas as minúcias descritivas, aliás riquíssimas.
quinta-feira, maio 28, 2020
na estante definitiva
terça-feira, maio 19, 2020
na estante definitiva
Historiografia de curtíssima duração (cinco anos), com um aparato crítico igual ao que vemos em estudos relativos a épocas recuadas, desmentindo a piada de já não me lembro quem, para o qual a História ia só até ao século XV; tudo que depois ocorreu era já do domínio do jornalismo…
Parte do projecto de investigação desenvolvido pelo autor nos Estados Unidos, «The Americans and Portugal: 1941-1976», beneficiando da recente abertura de alguns arquivos.
No limiar do capítulo I, «Política externa: um novo globalismo», temos um subcapítulo sem título, dedicado ao percurso político de Richard Nixon (1913-1994), da mercearia paterna em Yorba Linda, no condado de Orange, Califórnia até à Casa Branca, aos cinquenta e cinco anos. A presidência como obsessão, muito bem esgalhado, em menos de três páginas: «Ao longo de uma trajectória intermitente de sucessos e de ocasos, perseguira obsessivamente o supremo poder da Casa Branca: e faria desse poder o terminal trágico da sua carreira pública.»
Também muito bem escolhida foi a epígrafe de Henry Kissinger -- «esse homem fatal», como diria Eça de Pinheiro Chagas --, com muito que se lhe diga sobre as alegadas "responsabilidades" das nações, algo que, de acordo com o secretário-de-estado os Estados unidos só haviam descoberto com a II Guerra Mundial, e diz esta verdade, que o era para as velhas elites do poder, quer do Estado Novo quer da República e da Monarquia: «Hoje em dia, o país mais pobre da Europa Ocidental -- Portugal -- tem os mais pesados compromissos fora da Europa porque a imagem histórica de si mesmo está ligada às suas possessões ultramarinas.»
José Freire Antunes, Os Americanos e Portugal -- vol. I -- Os Anos de Richard Nixon (1969-1974), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1986.
sexta-feira, abril 24, 2020
na estante definitiva
Aliás, é assim que o narrador inicia o proémio: «Essa história de amor -- […]», como que desintoxicando-se dos três volumes de Os Subterrâneos da Liberdade…
A introdução do narrador define o tempo e o espaço -- Ilhéus, 1925 --, trazendo ao proscénio um acontecimento de disrupção (palavra horrível…), o assassínio a tiro, em flagrante delito de adultério, do dentista Osmundo Pimentel e Sinhàzinha Guedes Mendonça pelo marido desta, o fazendeiro encornado Jesuíno Guedes Mendonça.
Escândalo público comentado na capital do cacau por algumas figuras gradas a que somos apresentados:João Fulgêncio, dono da papelaria Modelo, «centro da vida intelectual» da cidade; o político Mundinho Falcão; o advogado e publicista Ezequiel Prado, homem de verbo fácil; e, obviamente, Nacib, dono de um restaurante, a braços com a saída da cozinheira.
«Assim era em Ilhéus, naqueles idos de 1925, quando floresciam as roças nas terras adubadas com cadáveres e sangue e multiplicavam-se as fortunas, quando o progresso se estabelecia e transformava a fisionomia da cidade.»
quarta-feira, abril 08, 2020
na estante definitiva
Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela [1958], 15.ª edição portuguesa, prefácio de Ferreira de Castro, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1978.
Colecção: «Obras de Jorge Amado» #7
Data de posse: Outubro de 1983
segunda-feira, março 23, 2020
na estante definitiva
A acção decorre provavelmente no tempo presente da narrativa, na Fazenda Fraternidade, município de Ilhéus, estado da Baía.
A insistência na palavra "homens", a dar substrato ao desejo, em dúvida manifestada pelo autor: «Será um romance proletário?» Já não heróis individuais e povo como motivo pitoresco, mas homens, neste caso trabalhadores da fazenda de cacau: Colodino, Antônio Barriguinha, Honório... mais à frente João Grilo. "Fraternidade" o irónico nome da fazenda, tal como o seringal em A Selva , de Ferreira de Castro -- que Jorge Amado lera --, tinha por crisma "Paraíso", como um dichote.
O antagonismo de classes é-nos dado pelas variações sobre o nome do patrão, Manoel Misael de Souza Telles, o "Mané Frajelo" (flagelo), "Mané Miserave Saqueia Tudo", "Merda Mexida Sem Tempero"; pelo confronto entre a casa opulenta do coronel, onde viviam mulher, filha e filho estudante no Rio, «elegante e estúpido», que destratava os trabalhadores; e as choças de barro cobertas de palha -- «Deus também é pelos ricos...», observa um; e pela extorsão que Mané Frajelo exerce contra os homens que trabalham para si, com a cumplicidade do despenseiro João Vermelho. E depois as contas, três mil e quinhentos (réis?) por dia era a paga a cada um, retirada dos mil contos anuais que Frajelo ganhava com o trabalho destes homens.
E uma personagem sobre a qual cai um mistério, Honório, «Preto, forte, alto, brigão», que o patrão não despedia, apesar da grande dívida contraída no armazém.«Bebia cachaça pelo gargalo da garrafa e jamais foi visto embriagado. Mané Frajelo respeitava-o.»
Jorge Amado, Cacau (1933), ibidem, capítulo I, «Fazenda Fraternidade», pp. 19-23.
quarta-feira, fevereiro 26, 2020
na estante definitiva
Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher, (1985 - 1ª edição na União Soviética)
sábado, fevereiro 15, 2020
na estante definitiva
segunda-feira, fevereiro 10, 2020
na estante definitiva
Jorge Amado, Cacau [1933], Lisboa, Planeta DeAgostini, s.d.
ilustrações: Santa Rosa