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sexta-feira, abril 11, 2025

«"presença": esboço para uma antologia pessoal»


Um divertimento com barbas, que a generosidade e bonomia de Isabel Cadete Novais e Manuel Matos Nunes acolheram no #31 do Boletim do Centro de Estudos Regianos -- que me encontra em leituras regalada (há Régio, sempre, Régio e Camões, o grande Júlio / Saul Dias, a presença, claro. Pode e deve ser comprado aqui.
 

segunda-feira, setembro 09, 2024

o menino Ferreira de Castro

As terras têm o seu património, natural, etnográfico, arquitectónico. O legado literário em geral dá-lhes, porém, mais densidade. Amarante, com Pascoais, Vila do Conde tem Régio e o irmão Júlio/Saul Dias, Rio Maior e Ruy Belo, a Vila Franca de Xira de Alves Redol. Oliveira de Azeméis tem Ferreira de Castro, e a autarquia editou, no ano seguinte ao centenário do seu nascimento, uma BD para as crianças, da autoria do conterrâneo Manuel Matos Barbosa (1935), um nome do cinema de animação e do documentalismo.

Castro tem excesso de biografia: aos 12 anos emigrou sozinho para o Brasil, sendo enviado para um seringal na Amazónia. Dessas experiências extrairá matéria para dois extraordinários livros, que irão renovar o romance português, abrindo portas ao neo-realismo: Emigrantes (1928) e A Selva (1930). Porém, verdadeiro escritor, não se ficaria por aqui: Eternidade (1933) encerra um fundo existencialista numa narrativa de cunho social; A Lã e a Neve (1947), friso romanesco que é talvez o seu romance mais perfeito; ou A Missão (1954), uma novela que é uma jóia de problematização psicológica.

Como se fosse pouco, este autodidacta, foi durante décadas o escritor português mais traduzido, duas vezes proposto para o Nobel da Literatura, entre muitos outros factos que aqui não cabem. Mas o cerne dessa vocação está na primeira infância, na aldeia natal de Ossela, e Matos Barbosa, com um traço límpido e tons suaves, foi feliz em mostrá-lo.

O José Vai à Escola

texto e desenhos: Matos Barbosa

edição: Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, 1999

(Novembro, 2019)




segunda-feira, fevereiro 14, 2022

versos do dia

 «Do baile / alado / só ficou ela;»

[...]

Saul Dias, «Baile», Tanto (1934)

sexta-feira, fevereiro 04, 2022

versos do dia

 [...]

«Quando morrer, a sua pele / tomará a cor dos tremoços:»

Saul Dias, ...Mais e Mais... (1932)

quarta-feira, outubro 21, 2020

"O Cânone" de quem? - do que falta numa lista (4)

(Continuação do comentário à lista de O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen).

Quarenta e quatro nomes, 66% da lista para os escritores do século XX, em que os três primeiros começam a publicar ainda no século anterior, e a antepenútlima, em data de nascimento, felizmente ainda viva e a publicar:Camilo Pessanha (1867-1926), Raul Brandão (1867-1930),Teixeira de Pascoais (1877-1952),Aquilino Ribeiro (1885-1963),Fernando Pessoa (1888-1935),Mário de Sá‑Carneiro (1890-1916),Irene Lisboa (1892-1958),José de Almada Negreiros (1893-1970), Florbela Espanca (1894-1930),José Régio (1901-1969),José Rodrigues Miguéis (1901-1980),Vitorino Nemésio (1901-1978) Miguel Torga (1907-1995), Jorge de Sena (1919-1978),Ruben A. (1920-1975), Carlos de Oliveira (1921-1981),Maria Judite de Carvalho (1921-1988), Agustina Bessa‑Luís (1922-2019),José Saramago (1922-2010), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986), Herberto Helder (1930-2015),Ruy Belo (1933-1978),Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Luiza Neto Jorge (1939-1969),  Ruy Belo (1933-1978), "As Três Marias": Maria Teresa Horta (1937), Maria Velho da Costa (1938-2020) e Maria Isabel Barreno (1939-2016). Não discuto nenhum: mesmo os poucos que aqui estão que dificilmente podem ser considerados grandes terão o seu lugar no cânone literário português. Estranho algumas ausências, como as do António Botto (1897-1959) ou Vergílio Ferreira (1916-1996), sem grande escândalo, porém: eu sei que daqui a cem anos o Aquilino será lido, não sei se com o V.F. sucederá o mesmo, quem saberá dizê-lo?...

Continuando a ser restritivo -- poderiam estar aqui dezenas de nomes, não atirados a esmo, em especial na poesia --, avanço com nove escritores, cuja ausência dir-se-ia escandalosa se houvesse lugar a escândalos, num livro que se apresenta como o cânone. A constatação dessa ausência significa que o livro, com título pomposo e definitivo, serve para pouco, relativamente àquilo a que se propõe: M. Teixeira-Gomes (1860-1941), ou o primado da estética, sem par. Ninguém tem a mesma elegância informada, desassombrada, cultíssima. Manuel Laranjeira (1877-1912), uma escavação interior desapiedada, que vim a encontrar num Cioran; o tal que levou o Unamuno nos qualificasse como povo de suicidas. Jaime Cortesão (1884-1960), porventura o maior historiador português do século (está para ele como Herculano para o anterior), portador de uma ideia de país que foi confirmá-la nas fontes. Ferreira de Castro (1898-1974), o romance português era uma coisa antes dele e foi outra depois; ninguém falara do país da maneira como o fez. Foi o pai do neo-realismo. A partir de Emigrantes (1928) não tem um só romance menor.  Tomaz de Figueiredo (1902-1970) é uma outra estética, não cosmopolita à maneira do Teixeira-Gomes, mas castiça. É o nosso Lampedusa antes de O Leopardo, como se dos olhos de um príncipe criança. Saul Dias -- o pintor Júlio [Maria dos Reis Pereira], irmão de Régio, poeta da palavra essencial, justa e definitiva. Alves Redol (1911-1969), ficcionista de sangue quente, duma têmpera  de romancista como poucos, de longe um dos grandes do século, como o século fará questão de registar. Manuel da Fonseca (1911-1993,) tão neo-realista e tão singular, ele é o Alentejo profundo e dramático, por vezes trágico, no romance, no conto, na poesia. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), como não?, a palavra decantada, o canto dos tópicos nacionais, o mar, as navegações, mas também a liberdade, a dignidade, que é o contrário da servidão e do aviltamento. E Rui Knopfli (1932-1997), uma expressão eloquente e desafiante, que se faz também de uma interpelação ao cânone. Poderia continuar, mas creio que será suficiente.

Em conclusão: um título desastroso dum livro que certamente terá as suas virtualidades. Mas um título é o mais importante de um livro, depois de tudo o que está lá dentro. 

O organizador Miguel Tamen, em declarações ao Obervador: sustentou«Quem acha que certos nomes deviam estar lá, tem bom remédio, escreva um livro. É disso que precisamos.» Como não concordar?

em tempo: vou passar a limpo e postar o texto completo



sexta-feira, julho 20, 2018

«Quem tem janelas / que fique a espiar o mundo» Francisco Alvim, «Com ansiedade», in Heloisa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1975)

«Ela, a pequenina infância, andará aí sentada com / um velho nas nádegas e / o crucifixo saltando no pescoço, a negra mão do talismã / buscando o brinquedo na vitrina / já contemplado.» José Emílio-Nelson , O Anjo Relicário (1999).

«Um torpe e estafado gramofone / cansou os meus ouvidos que queriam / agudezas de vértice de cone / ou maciezas de novelo de lã.» Saul Dias, ...Mais e Mais... (1932)

quarta-feira, junho 27, 2018

«Um fio de mar, parece-me, inclinava a terra / num poço de luz silenciosa.» José Emílio-Nelson, O Anjo Relicário (1999)

«Vou cair e ficar no chão horas e horas / até que o frio da noite -- esse pássaro sonâmbulo -- / venha, com suas asas metálicas, acordar-me / ou roçar-me de morte...»  Saul Dias, ...Mais e Mais... (1932)

«Paixão puríssima ou devassa, / Triste ou feliz, pena ou prazer, / Amor -- chama, e, depois, fumaça...» Manuel Bandeira, A Cinza das Horas (1917) / Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira (1984)

quarta-feira, março 01, 2006

Antologia Improvável #107 - Saul Dias (4)

AFECTO

Tanto afecto disperso pelo mundo!

Um cão que não nos deixa.

Uma madeixa
de cabelo emoldurada.

O olhar fundo
de uma criança pobre.

Versos de António Nobre
guardados numa estante.

E um Poeta, sem idade,
sentado num bar,
tentando fixar
em castigados versos
um fugidio instante
de felicidade.

Essência / Obra Poética
(edição de Luis Adriano Carlos)

quarta-feira, setembro 21, 2005

Antologia Improvável #54 - Saul Dias (3)

MENINO I

A folha de árvore
que rola.
A névoa fria
que se evola.

O veio de água
fino e verde.
A cantilena
que se perde.

O cão vadio
que nos olha
e nos entende...

A isto o menino,
sério, atende
ao ir p'ra escola.

Tanto / Obra Poética

(edição de Luis Adriano Carlos)

quarta-feira, agosto 10, 2005

Antologia Improvável #40 - Saul Dias (2)

A PALAVRA

Só conheço, talvez, uma palavra.

Só quero dizer uma palavra.

A vida inteira para dizer uma palavra!

Felizes os que chegam a dizer uma palavra!

Vislumbre / Obra Poética

Júlio / Saul Dias

Posted by Picasa Desenho de João Abel Manta

domingo, julho 03, 2005

Antologia Improvável #24 - Saul Dias

NESSE TEMPO

Nesse tempo
eu faltava às aulas.

A música do jazz
vibrava no café.

À noite,
o velho «High-Life»
era o tempo magnífico
onde Chaplin,
como o Deus da Sistina,
erguia o braço
condenando e perdoando...
(Desengonçado
o piano
acompanhava
com notas de Beethoven
«O Peregrino», «A quimera»...)

E numa tarde
em Paris
ajoelhei, em plena rua,
diante dum quadro de Pascin...

Nesse tempo
eu faltava às aulas.

Gérmen / Obra Poética

(edição de Luís Adriano Carlos)