Jorge Amado: «Nasci empelicado, a vida foi pródiga para comigo, deu-me mais do que pedi e mereci. Não quero erguer um monumento nem posar para a História cavalgando a glória. Que glória? Puf! Quero apenas contar algumas coisas, umas divertidas, outras melancólicas, iguais à vida. A vida, ai, quão breve navegação de cabotagem!» Navegação de Cabotagem (1992) § Machado de Assis: «E então teve uma ideia singular: -- rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra. / -- Quem sabe? Em 1880 talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Desde que fui informado da detenção do Prof. Moura, procurei inteirar-me de todos os acontecimentos com ela relacionados. É-me assim possível afirmar ser totalmente infundada qualquer acusação ou suspeita de que o Prof. Moura haja sido organizador ou tenha desempenhado qualquer papel na orientação dos actos levados a cabo na capela do Rato.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (ed. José Freire Antunes) § Maria Gabriela Llansol: «________________ a viagem que até hoje me trouxe mais paisagens foi o corpo a escrever. Não só mais. Sobretudo indeléveis. / À partida há a folha branca. Na realidade, quando esta se introduz na viagem, há muito que a viagem começou na percepção. Este o seu princípio de real.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Aquilino Ribeiro: «A gente não era falsa a bródios e funções, não só pelo preito que nos mereciam os santos como porque ninguém seria mais amigo de espairecer e folgar. / Ah, velha Barrelas dum sino! Tomara-me eu outra vez com vinte anos e saber o que hoje sei! Diabos me levem se não fosse rei.» O Malhadinhas (1922) § António Ferro: «A Arte é a mentira da vida. / A Vida é a mentira da Arte. / A mentira é a Arte da Vida.» Teoria da Indiferença (1920)
quarta-feira, fevereiro 18, 2026
terça-feira, janeiro 27, 2026
zonas de conforto
Vergílio Ferreira: «Vida em superfícies lisas, desinfectadas, vida no instantâneo presente. Vi há dias um filme: Le Viol. Interiores brancos, ou seja, sem cor, móveis sintéticos. E nas paredes, quadros à Mondrian -- a estéril geometria. O tempo -- criação do nosso abandono. O futuro deve inventar uma eternidade à rebours. O instante neutro.» Conta-Corrente 1 (1980) § António Ferro: «Não sou um discípulo de Óscar Wilde. Quando o li pela primeira vez, tive a impressão de que tinha sido plagiado.» Teoria da Indiferença (1920) § Jorge Amado: «Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Menino grapiúna, cidadão da cidade pobre da Bahia, onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua.» Navegação de Cabotagem (1992) § Aquilino Ribeiro: «Ia-se à Senhora da lapa, à Senhora da Penha do Vouga, de cruz, estandarte e borracha à tiracolo, no bornal o pão amarelo de azeite e ovos, no merendeiro as trutas do Paiva. Em toda a parte punha ramo a nossa mocidade -- rapazes capazes de arremeter contra uma baioneta, moças a puxar para loirinhas, que por aqui não correu sangue africante.» O Malhadinhas (1922) § Machado de Assis: «Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluídas.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano: «4/I/73 // Exmo Senhor Prof. Doutor Marcello Caetano, / Ilustre Presidente do Conselho // Senhor Presidente, // Como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura encontra-se detido pela DGS em Caxias desde a noite de 31 de Dezembro. A este respeito permita-me V. Ex.ª que leve ao seu conhecimento o seguinte.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. José Freire Antunes
sexta-feira, janeiro 02, 2026
zonas de conforto
Vergílio Ferreira: «Uma melancolia suave. Não desesperante. suave Compreende-se a "vontade de chorar por nada". É o súbito espaço vazio, a vertigem. A solidão. A solidão de não se estar sempre connosco. As gerações futuras deverão desembaraçar-se do tempo. Parece que já o tentam.» Conta-Corrente 1 (1980) § Machado de Assis: «Um dia de manhã, cinco depois da festa, o médico achou-o realmente mal; e foi isso que ele lhe viu na fisionomia por trás das palavras enganadoras: / -- Isto não é nada; é preciso não pensar em músicas...» Histórias sem Data (1884) -- «Cantiga de esponsais» § Aquilino Ribeiro: «Seroava-se nas lojas das vacas e aos sábados batia-se a ribaldeira até as Três Marias empalidecerem no céu. Invernos inteiriços como os dos lagartos. Mas, ah, logo que se ouvia a corcolher: tem-te lá, tem-te lá, Barrelas vazava-se por esses caminhos de Cristo em votos e romarias.» O Malhadinhas (1922) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867): «Relativamente aos abatimentos, que o meu amigo faz aos livros que por aí tenho, são eles tamanhos que não os aceitaria eu. É certo que autorizei o Eduardo a abater, mas também com abatimento da percentagem que lhe designei. Sem isso não terão eles tão desgraçado fim. Prefiro recolhê-los porque merecem mais alguma estima. Do seu muito amigo // C. C. Branco // 30 de Julho 67.» in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947) § António Ferro: «OBRAS DO AUTOR - Alguns papéis ao vento e muitos na gaveta...» Teoria da Indiferença (1920) § Jorge Amado: «Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale a pena escrevê-las, não lhes encontro a graça.» Navegação de Cabotagem (1992)
sábado, dezembro 13, 2025
zonas de conforto
Vergílio Ferreira: «Vejo as ervas no jardim abandonado, uma cadeira desmantelada no terraço do pavilhão. Ao longe, o mar de um tempo muito antigo. Há só dez anos que ali vou, e todavia tudo recuou já muito. Assim, em momentos bruscos, estampa-se-me a visão flagrante do irremediável.» § Jorge Amado: «Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar idéia do como e do porquê. Trata-se, em verdade, da liquidação a preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida.» Navegação de Cabotagem (1992) § José Duarte: «Não acham que é muita... / Música... / para tão poucos minutos?» Cinco Minutos de Jazz (2000) § Machado de Assis: «E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticário lhe dava no gamão, -- outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas consigo mesmo dizia que era o final. / "Está acabado", pensava ele.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Manuel Tiago: «Ao Lambaça, que julgava ter de fazer passar a fronteira a algum importante dirigente, André parecia uma criança insignificante e inofensiva, diminuindo, quase ao ridículo, a incumbência. A André, o aspecto e a expressão de Lambaça avivavam desconfiança e prevenções acerca do seu carácter.» Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867) .../... «A maior parte dos livros que me propõe em troca, a tenho nas Memórias da Academia. Outros, afora aqueles, já os possuo, e alguns não interessam ao género dos meus estudos.» .../... in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947)
domingo, novembro 16, 2025
zonas de conforto
Vergílio Ferreira: «Penso pouco na morte, hoje, começa a ser-me um fenómeno natural. Um certo cansaço? Uma fadiga de tudo. Estar. Ser, olhando erradiamente, ler talvez. A sensação de que tudo está feito.» Conta-Corrente 1 (1980). § José Bacelar: «Ora a Vida, todos o sabem, é uma coisa infinitamente complexa. Os lados, as facetas das coisas (facetas umas habituais, outras raramente apontadas) são em número infinito. Por outro lado, em número infinito (porque o homem é vário) são também os pontos de vista. E o espírito livre não pode por isso admirar-se de que as coisas sejam olhadas pelos homens de maneiras quase sempre muito diferentes.» Arte, Política e Liberdade (1941) § Machado de Assis: «O dia não acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A vizinhança apenas soube do incômodo, não quis outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visitá-lo. «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867): «Meu amigo: // D. Ana e eu lhe agradecemos mui cordialmente a oferta de um laborioso e utilíssimo trabalho. Na 2.ª edição do "Cavar em Ruínas", se se fizer em minha vida, farei menção da nota do meu amigo» .../... in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947) § Jorge Amado: «Consciente e contente que assim seja, reúno nesta Navegação de Cabotagem lembranças de alguém que teve o privilégio de assistir, e de por vezes participar, de acontecimentos em certa medida consideráveis, de ter conhecido e por vezes privado com figuras determinantes.» Navegação de Cabotagem (1992) § Manuel Tiago: «André era também baixo, magro e moreno. De cabeça descoberta, os cabelos tombavam sobre a testa. A expressão contraída mais destacava a sua juventude. / Desagradaram nitidamente um ao outro.» Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § José Duarte: «Amanhã... / Billie cantará para vocês... / e para mim aqui sozinho». Cinco Minutos de Jazz (2000)
quinta-feira, junho 19, 2025
o que está a acontecer
«I-I - Quem, de longe, remire Alfamar, cada renque horizontal das suas casas brancas como a escalar os dois regaços do cerro intonso e altaneiro que um castelo de traça mourisca ainda hoje simula proteger -- ajuizará sobre o desafogo de vistas dessa vila algarvia, a várzea, que ostenta à ilharga, engalanada com a vegetação das hortas bem cultivadas e sortidas.» Assis Esperança, Pão Incerto (1964)
«1. Empurrados do interior, os povos buscavam o litoral na esperança de uma mandioquinha, de um caldinho de peixe, de um cana para chupar, ou de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrasados pelos ventos da miséria.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)
«A SEARA - A festa -- 1. O vento arrastou as nuvens, a chuva cessou e sob o céu novamente limpo as crianças começaram a brincar. As aves de criação saíram dos seus refúgios e voltaram a ciscar no capim molhado. Um cheiro de terra, poderoso, invadia, tudo, entrava pelas casas, subia pelo ar.» Jorge Amado, Seara Vermelha (1944)
«Escolhera o mestre do barco aquela noite negra, para que a Lua não assistisse à largada. Também não compareceram as estrelas, com grande contentamento do velho João Frade, posto lhes quisesse muito, mas no alto, em plena derrota, para conversar com elas sobre coisas noutros tempos acontecidas, já que sem idade para sonhar com vida nova.» Joaquim Lagoeiro, Viúvas de Vivos (1947)
terça-feira, fevereiro 25, 2025
vária
«Sem boas estradas não se pode fazer a guerra, tão grande é a influência que o motor exerce nesta luta devastadora e gigantesca. Se a gasolina desaparecesse, a guerra não poderia continuar. Faltava-lhe o camion, e sem camions não há, no nosso tempo, possibilidade de alimentar exércitos com rapidez.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert», (A Capital, 29-III-1917), Repórteres e Reportagens de Primeira Página (s.d.)
«Só tenho pena de não me restar o tempo necessário para ver em que tudo isso vai dar. Bem que gostaria. / Oitenta anos vividos intensa, ardentemente, de face para a vida, em plenitude. Minha criação romanesca decorre da intimidade, da cumplicidade com o povo. Aprendi com o povo e com a vida, sou um escritor e não um literato, em verdade sou um obá -- em língua iorubá da Bahia obá significa ministro, velho, sábio: sábio da sabedoria do povo.» Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)
«E os olhos delas perecem dizer-me: "Recordas-te", trémulos, querendo falar... Disse-me um dia Henri Heine, prosseguindo no meu espírito esta identificação perturbadora, entre as floritas mudas e a alma errante dos mortos que nos foram caros: "Os perfumes, meu filho, são os sentimentos das flores. Assim como as emoções do coração são mais profundas de noite, se estamos sós e sem testemunhas, assim as flores parecem esperar que escureça, para no espaço exalarem seus perfumes, almas nostálgicas de noivas!, numa fantástica ronda de divagações emotivas."» Fialho de Almeida, «Pelos Campos», O País das Uvas (1893)
quinta-feira, janeiro 23, 2025
vária
«O exército ocupa tudo, tomou conta de tudo, instalou-se por toda a parte. É ele quem domina, porque é ele, afinal, quem terá de arrancar das mãos dos alemães a terra sagrada que eles violaram e que há quase três anos geme sob a sua pata selvagem.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert» (A Capital, 29-III-1917), Repórteres e Reportagens de Primeira Página (s.d.)
«É o que eu digo do grosseiro pilriteiro campónio, o dos espinhos hirsutos, que, destinado a não ter filhos, provavelmente adoptou as deliciosas flores de que se veste. / Elas são bem singulares, na verdade!» Olhando-as, por vezes, sinto que uma reminiscência longínqua me turba, acordada não sei como, e vinda não sei donde, a qual se esgarça em brumas de legenda, reminiscência dalguém que amei num tempo, sob outra forma, noutras idades, países...» Fialho de Almeida, «Pelos campos», O País das Uvas (1893)
«Proletários de todos os países, perdoai-nos!, lia-se na faixa conduzida pelos moscovitas na Praça Vermelha durante o desfile de um 7 de Novembro recente. / O que parecia definitivo se desintegra, deixa simplesmente de existir. A História acontece diante de nós, nos vídeos de televisão, transformações espantosas, mudanças inimagináveis, num ritmo tão rápido, tão absurdamente rápido que um dia vale anos, a semana tem a medida de um século.» Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)
terça-feira, janeiro 21, 2025
'Tempos Interessantes'
Tempos Interessantes (2002) é o título da autobiografia de Eric Hobsbawm, à qual me lancei depois de ter arrastado penosamente a leitura duma porcaria de um livro, que era forçoso terminar. Como escrevia aqui o Jorge Amado, a propósito da implosão da União Soviética, é a História a desenrolar-se diante dos nossos olhos, desde ontem, com a tomada de posse de Donald Trump, a História a acelerar-se debaixo dos nossos narizes. A América assume o seu imperialismo (monroviano, para começar) e vai procurar, tant bien que mal, fazer as suas ententes com a China e com a Rússia.
A UE, a continuar com uma nulidade política como a Ursula -- espelhos doutras nulidades várias --, não sei como sairá daqui cinco anos, quando a senhora se reformar -- se é que ela se aguenta até lá. As outras flores da cúpula europeia são pau para toda a colher, fazem o que lhes mandam; como de costume, não contam. Porém, não estou a ver a UE aguentar-se na nova ordem mundial que se desenha sem uma profunda reformulação política e institucional, que será sempre impossível, creio, com a quantidade de estados que a compõem. A única solução para que a UE não acabe ou retroceda ao estádio de uma espécie de antiga CEE, é a do confederalismo (falo de algo sério, não de simulacros para inglês ver); mas os tempos não estão para isso. Ou estarão?... De qualquer modo, tratar-se-á de uma impossibilidade no actual quadro institucional.
No meio disto tudo, a grotesca vassalagem da Dinamarca (país tão estimável) diante da América, vai ter como paga a Gronelândia, a que de uma maneira ou de outra vai ter que dizer farewell (em dinamarquês). Mais uma vez: seria para rir, não fora trágico para a Europa, como se estava a ver desde o início, quando a UE aceitou subordinar-se à estratégia americana de confrontação com a Rússia -- estúpida estratégia delineada por estúpidos, com derrota certa.
segunda-feira, dezembro 30, 2024
vária
«As grandes tabuletas por toda a parte, com indicações breves e terminantes. Os pesados "lorries" só podem rodar pelas estradas principais. As outras estão quase todas fechadas a veículos que não pertençam à Cruz Vermelha. Até uma certa altura do caminho, há ainda um ou outro civil que calca a lama da estrada e arrasta, por esta região devastada, a sua desgraçada amargura. Depois não se vêem senão militares.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert» (A Capital, 29-III-1917), Repórteres e Reportagens de Primeira Página (s.d.)
«--Eu bem na sinto!, eu bem na sinto! É impossível que certas flores sejam filhas das grosseiras plantas de que brotam. Há no colorido delas, na delicadeza, no espírito e no perfume umas elegâncias de tipo, umas aristocracias de carácter, feições por tal forma pur-sang, que a idealização de artista de logo nega graus de parentesco entre flor e planta, mal-grado a evidência das ligações estruturais.» Fialho de Almeida, «Pelos campos», O País das Uvas (1893)
«Fragmentos do Muro de Berlim são vendidos como brinde por espertos negociantes norte-americanos, / Teorias, ideologias -- teorias ditas científicas, ideologias consideradas de pureza incontestável -- que seduziram intelectuais, mobilizaram multidões, massas populares, comandaram lutas, revoltas, guerras em nome da felicidade do homem, dividiram o mundo em dois, um bom, um ruim, se revelam falsas, pérfidas, limitadoras: conduziram à opressão e não à liberdade e à fartura.» Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)
segunda-feira, dezembro 09, 2024
vária
«Tinha eu seis anos de idade ao término da Primeira Grande Guerra, a de 1914/1918, quando o impacte da Revolução de Outubro, do estabelecimento do Congresso dos Sovietes em nome dos trabalhadores, chego aos oitenta anos quando o mundo nascido de duas guerras mundiais e da revolução socialista se esboroa e nas ruas se discute e se planeia uma nova carta geográfica e política, quando o impossível acontece, ruem muros, nações, impérios.» Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)
«Qualquer ramito conta por milhares as florações e dá em pleno país do sol a fresca sensação duma neve caída em flocos sobre cada proeminência de haste. Quantas vezes, folheando Madame Chrisanthème, que Myrbach e Claudius Popelin vêm de ilustrar, eu pensei nesta esquecida floração do pilriteiro, que não figura nos álbuns, nem inspira os desenhistas, e todavia resume, na sua pureza, o que de mais belo possa haver, como motivo ornamental, para a ilustração de livros e jornais!» Fialho de Almeida, «Pelos campos», O País da Uvas (1893)
«Fora das trincheiras, antes de irem para a linha de fogo ou antes de virem de lá, não deixam nem um dia de praticar a guerra, para não perderem o treino deste sport sinistro, a que toda a nação inglesa se entregou com um ardor nunca visto.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert» (A Capital, 29-III-1917), Repórteres e Reportagens de primeira Página (s.d.)
domingo, dezembro 08, 2024
o que está a acontecer
«Estou em crer que a rádio passava uma peça da Suite Bergamasque, embora não o possa jurar. A memória trai-me. A sorte dos que lá ficavam era-me indiferente. Cresci com a ideia de que só os derrotados, os vagabundos e os infelizes não saíam de lá, pessoas que se confundiam com a paisagem, os candeeiros de globos partidos, as balizas ferrugentas do Arregaça, as paredes encardidas, os bancos lascados dos parques.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)
«Ainda hoje, era de ciência e de tecnologia sem par, desvendados mistérios, esclarecidas superstições, há largos milhões de homens e de mulheres que sentem o crânio encharcado pela barrela de Jerusalém e se humilham, cada ano, reacendida a braseira absurda e macabra de uma culpa colectiva, no roxo pungente dos lutos pascais!» António Victorino de Almeida, Coca-Cola Killer (1981)
«Lá no fundo, namorando o mistério das águas, uma francesa linda como as coisas mais lindas, aventureira viajada, da qual se fazia conhecer todos os países e todas as raças, o que equivale a dizer que conhecia toda espécie de homem, tolera, com um sorriso condescendente, o galanteio juliodantesco de uma dúzia de filhos-família brasileiros e argentinos: / -- A senhorita é linda... / -- Minha vida pela sua vida... / -- Faça um sinal e me atirarei n'água! / -- Eu queria que o navio naufragasse para poder provar quanto a amo...» Jorge Amado, O País do Carnaval (1931)
quarta-feira, dezembro 04, 2024
o que está a acontecer
«Quando, em finais dos anos noventa, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida. Naquele dia final, enquanto olhava pela janela do carro, senti uma onda de orgulho a alastrar pelo meu peito, uma sensação de triunfo. Dava um belo travelling.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)
«Fazendeiros ricos de volta da Europa, onde correram igrejas e museus. Diplomatas a dar a ideia de manequins de uma casa de modas masculinas... Políticos imbecis e gordos, suas magras e imbecis filhas e seus imbecis filhos doutores.» Jorge Amado, O País do Carnaval (1931)
«A quem imputar, todavia, as reais responsabilidades de tais actos: ao inocente ou às abomináveis gravuras de um pequeno livrinho de catecismo, estendal de horror, medo e violência, pesadelo da minha meninice? / Essa mórbida tradição religiosa, impregnada de brutalidade ancestral, iniciou-se há cerca de dois mil anos, quando um romano venal e astuto, de nome Pilatos, lavou as suas mãos de uma atitude de transigência ante os clamores da canalha assassina e despejou a água da bacia sobre a cabeça de quem calhou.» António Victorino de Almeida, Coca-Cola Killer (1981)
sexta-feira, novembro 29, 2024
o que está a acontecer
«I. Entre o azul do céu e o verde do mar o navio ruma o verde-amarelo pátrio. Três horas da tarde. Ar parado. Calor. No tombadilho, entre franceses, ingleses, argentinos e ianques está todo o Brasil (Evoé, Carnaval!)» Jorge Amado, O País do Carnaval (1931)
«Tempos depois, já mais crescidito, débil mancha de buço precoce, anunciadora da virilidade futura, encontrar-me-ia a enterrar coroas de espinhos na cabeça dos cães vadios que vinham esperar as crianças à saída do liceu. Inadvertidamente, apliquei esse mau trato à cadela de um professor de latim, bicha de raça, estimada, e fui denunciado, repreendido pelo reitor, castigado em casa, proibido de brincar durante um mês com o comboio eléctrico.» António Victorino de Almeida, Coca-Cola Killer (1981)
«É o fumo desses fogos que vejo espalhar-se na planície, ao sabor do vento fresco e forte. / Também a fogueira que me protege contra o frio se verga ao ímpeto do vento, mas quando olho em frente posso distinguir, no interior do templo, cuja porta está aberta, a chama sagrada ardendo erecta e impassível, sem que um sopro a perturbe. Mais perto de mim, ao ar livre, as flores que cobrem a ara dos sacrifícios são varridas para o chão.» João Aguiar, A Voz dos Deuses (1984)
segunda-feira, novembro 18, 2024
vária
«Nesta navegação de cabotagem nomes de mulheres foram, por um motivo ou outro, substituídos pelo nome único de Maria. Nenhum mais belo: Maria cada uma, todas elas, passageiras embarcadas nas escalas, sombras fugidias no cais do porto, de porto em porto, ciranda do velho marinheiro.» Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)
«Pelo campo, patinando na terra aboborada de água, sucedem-se os regimentos, fazendo exercício, principalmente exercícios de assaltos às trincheiras. As tropas inglesas não descansam nunca. Nas trincheiras, batem-se sempre que é preciso e com uma coragem a que os alemães não sabem resistir.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert» (29-III-1927), Repórteres e Reportagens de Primeira Página (s.d.)
«Transplantado, não produz flor. Tem uma folhagem pequena, curta, verde retinto, mui recortada nos bordos, e agora, na Primavera, esbracejando sobre as barreiras, tolda os pegos com caramanchéis duma vaporosidade incomparável. A sua flor é o que há de mais mimoso, mais pequenino, mais aéreo: uma joiazinha coquete, que antes diríeis insecto, pela vivacidade e esbelteza da figura.» Fialho de Almeida, «Pelos campos», O País das Uvas (1893)
quarta-feira, novembro 13, 2024
em que se parecem o sionismo expansionista e o proselitismo 'woke'?
...Na profunda desonestidade intelectual e no exercício de amalgamar alhos e bugalhos, lançando a confusão nos incautos,
O sionismo expansionista racista no poder em Israel procura confundir com antissemitismo as críticas à brutalidade, selvajaria e prática de crimes contra a Humanidade perpetrados pela tropa israelita contra todos os palestinos da Faixa de Gaza. Estes agentes do massacre, da limpeza étnica -- e porque não dizê-lo, mesmo se juridicamente possa ser controverso? -- do genocídio, são os primeiros a desonrar os seus compatriotas e antepassados exterminados pela perversão nazi, maligna, patológica e cobarde -- basta ver a ignomínia da utilização da estrela de David à lapela pelo embaixador israelita na ONU. Para eles, o sagrado, a honra, a memória não existe, ou é cinicamente instrumental, intimidando os críticos com espúrias conexões entre quem os critica e presumíveis tendências ou cumplicidades neonazis. Um embuste que colhe entre os ingénuos e os burros do costume.
O proselitismo woke sempre que é criticado ou atacado na sua insanidade evangelizadora (v.g. a chamada "linguagem inclusiva"), que além de incrivelmente tonta é formalmente, ou seja, gramaticalmente errada (todes, presidenta, etc), procura proteger as suas orientações de manicómio com manobras de confusão, sempre para os mesmos ingénuos, ou apenas burros, com vénia para o quadrúpede, recorrendo a várias formas de desarmar os opositores, entre a mistificação e a intimidação, a saber:
a) misturar causas nobres, como o antirracismo, com as suas aberrações: ao associar um combate nunca terminado à discriminação racial com a promoção de idiotices como a chamada "identidade de género", procura limitar os críticos, pois ninguém bem formado quer ver-se associado a mínima tolerância para com a desigualdade em função do género, etnia, religião ou orientação sexual -- que é outra coisa, dando desta forma cobertura a obscenidades como a que sucedeu numa prova de boxe nos últimos Jogos Olímpicos , em que um homem apresentado como mulher massacrou a atleta que se lhe opunha, com justificada revolta desta, a contemporização cobarde dos dirigentes olímpicos e federativos, e o furor censório-inquisitorial dos evangelistas do costume;
b) diminuir os opositores com a classificação dos críticos como pertencentes à extrema-direita -- como há dias fez uma das irmãs Mortágua, já não me lembro qual. Truque velho que funciona com os medrosos e os videirinhos do costume, que nunca se comprometem.
c) a defesa do relativismo cultural, até onde eles próprios tiverem coragem de o fazer. Não conheço wokes que defendam a burka (talvez exceptuando uma espécie de fato de banho que deu que falar há uns anos) ou a excisão genital feminina. A tal eles não se atrevem, mas pouco escapa, em nome de um falso respeito pela identidade cultural desta ou daquela etnia, marimbando-se para o facto de em várias circunstâncias essa pseudo-assunção identitária ser uma imposição brutal, machista e aqui sim, patriarcal. Por exemplo, a obrigatoriedade do uso do véu islâmico, que todas as verdadeiras feministas contestam (aí está a corajosa e brava Narges Mohamadi), para vergonha destes activistas de pacotilha. E nunca me esquecerei, a propósito, de, num momento de grande infelicidade, numa entrevista ou programa da Antena 1, Miguel Portas referir-se a como o chador realçava a sensualidade da mulher muçulmana... deve ser por essa razão que as mulheres iranianas -- das mais belas que a Humanidade criou --, quando se apanham fora do jugo dos aiatolas mandam às malvas essa pretensa sensualidade...
Como dizia o velho Jorge Amado, a ideologia falsifica (posso dar a referência bibliográfica, com indicação do número de página, onde este romancista e verdeiro activista anti-racista sustentou o que acaba de ser referido).
sábado, outubro 19, 2024
vária
«A vida militar palpita por toda a parte. A estrada vai cheia de camions, que giram com a lentidão com que se arrastam monstros. De quando em quando, desfilam a nosso lado grandes forças de infantaria inglesa. Os acampamentos sucedem-se, ora de lona, quase da cor da terra, ora de madeira, pintados de várias cores, para não serem descobertos pelos aeroplanos..» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert», A Capital, 29-III-1917.
«Quanto aos apontamentos não datados, traduzem a experiência adquirida no correr dos anos: sentimentos, emoções, conjeturas. Se alguém desejar as lembranças da infância do autor deve recorrer a um texto datado de 1980, publicado em livro sob o título de O Menino Grapiúna -- as ilustrações de Floriano Teixeira compensam o preço do volume.» Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1990)
«E por esses pomares, entre sebes de silvados e canaviais, que florações simpáticas, feitas com gotinhas de néctar e salpicos de sangue arterial! / Conhecem talvez o pilriteiro? É um arbusto dos valados, peculiar às regiões montanhosas do Alentejo, que se defende com os espinhos de que se arma e não gosta de habitar jardins.» Fialho de Almeida, «Pelos campos», O País das Uvas (1893)
terça-feira, outubro 01, 2024
toda a escrita
«De logo quero avisar que não assumo qualquer responsabilidade pela precisão das datas, sempre fui ruim para as datas, elas me perseguem desde os tempos de colégio interno. Estudante de história, interessado nas figuras e nos feitos, esquecia as datas e eram as datas que os professores exigiam. A referência a ano e a local destina-se apenas a situar no tempo e no espaço o acontecido, a recordação.» Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)
«Os murmúrios da água, que pelos regatos vai, como um sangue robusto, espalhando juventudes na cultura, dizem às velhas árvores histórias duma suavíssima poesia; e pelos ramos tufados de verdura húmida, tenra, tamisada de cintilas solares, entra a repovoar-se a cidade dos ninhos, grande cidade moderna, com avenidas, concertos, five o'clock e toilettes de plumas, e exibições de caudas roçagantes. Ontem me dizia na Tapada um velho pintassilgo.» Fialho de Almeida, «Pelos campos», O País das Uvas (1893)
«Nessa manhã hostil toda a campesina está deserta. À beira da estrada, as duas filas de altas e esbeltas árvores, martirizadas pelo frio, parecem sentinelas que não se fatigam nunca, guardando e vigiando este pedaço de terra francesa... / O automóvel roda apressado, galgando covas, trepidando, queixando-se da aspereza do caminho.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert» (A Capital, 29-III-1917), Repórteres e Reportagens de Primeira Página (s.d.)
quarta-feira, setembro 11, 2024
vária
«Viajáramos a Nova Iorque para participar do Congresso Internacional do Pen Club, não comparecemos a nenhuma sessão, tampouco às festividades, não ouvimos um único discurso, relatório, comunicação, não soubemos dos debates. O que, na opinião de nosso compadre João Ubaldo Ribeiro, também ele convidado e presente ao Congresso, foi vantagem que tirámos da dupla pneumonia. Vantagem e das boas -- afirmou o romancista ao nos visitar.» Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1990) § «Tomamos pela grande estrada d'Albert, uma recta sem fim, que corta uma planície vastíssima, por onde as searas, nos distantes tempos da paz, espalhavam com volúpia a alegria sussurrante das espigas gradas, fontes de felicidade e de fartura.» Adelino Mendes, «A cidade d'Albert», A Capital, 29-III-1917, Repórters e Reportagens de Primeira Página, II § «A esta hora, por esses campos, nem vocês imaginam o que os melros dizem de alegre e o que as borboletas vivem de contentes.» Fialho de Almeida, «Pelos campos», O País das Uvas (1893)
domingo, setembro 08, 2024
vária
«Janeiro de 1918 / Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo; não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida.» Raul Brandão, Memórias I (1919) § «Estava no Funchal havia quinze dias. Levara um encargo fácil. Entrevistar Norton de Matos, que vinha pela primeira vez à metrópole depois de ter exercido o cargo de Alto Comissário de Angola. O antigo ministro da União Sagrada era, nesse tempo, uma figura discutidíssima.» Artur Portela, «Como se perde uma "reportagem"», Uma Hora de Jornalismo (1928) § «Regressado do Brasil pela quinta vez, aqui trago de novo o meu testemunho de observador imparcial mas, tanto quanto sei e posso, compreensivo, perante o incansável ritmo de progresso que a esse grande país deu a sua posição hegemónica na América do Sul.» João de Barros, «Brasil de hoje», Diário de Lisboa, 21-VI-1946, Adeus ao Brasil (póst.) § «Eu bem na sinto! Eu bem na sinto!, apesar das fuligens do céu mal-humorado e da ventania que me apupa, através das frinchas das janelas. Uma pulsação vigora as alamedas, nas ascendências inexauríveis da seiva, rebentando em folhagens de contextura fina, por forma que já não é ficção o caso do homem que ouvia crescer erva nos campos, visto que eu há quinze dias ouço, no recanto onde vivo, sob uma umbela vermelha de paisagista, o burburinho da natureza que se revigora e emplumesce, numa dessas orgias de cor que faziam rir o olho azul de Rousseau e punham emoções na palidez fatigada de Huet, o paisagista da ilha verde de Seguin.» Fialho de Almeida, «Pelos campos», O País das Uvas (1893) § «As notas que compõem esta navegação de cabotagem (ai quão breve a navegação dos curtos anos de vida!), à proporção que me vinham à memória, começaram a ser postas no papel a partir de Janeiro de 1986. Zélia e eu nos encontrávamos num quarto de hotel em Nova Iorque, ambos com pneumonia -- os dois, parece incrível --, febre alta, ameaça de hospital.» Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1990)