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terça-feira, julho 11, 2023

o tempo da idiotia triunfante

Enquanto as notícias fazem por enganar os pategos, noticiando a conquista de uma horta pelas forças ucranianas na região de Bakhmut  (nada mal, os russos, que até tinham de fazer crowdfunding para comprar botas, para além de já terem gasto as munições ao "Ocidente Alargado") -- enquanto a propaganda faz de nós atrasados mentais, e o ministro da Administração Interna protesta junto da RTP por causa de um cartoon sobre os tumultos em França (ainda não foi demitido, o ministro?), ouço de manhã no carro que em municípios espanhóis que têm o Vox no governo, já houve mil e uma tropelias anti-LGBTQIA+ (que sigla....), incluindo a proibição de livros da Virginia Woolf, autora de tendência lesbiana, como diria o Diácono Remédios.

Aqui há gato, porém... A Virginia Woolf?... Se o eleitorado do Vox for parecido com o do Chega -- um vasto lumpen social e cultural, com uns pós de ressabiados do franquismo e do salazarismo (ámen), sabe lá o eleitorado dele quem ela foi, quanto mais tê-la lido. Mesmo se olharmos para o grupo parlamentar doméstico, acredito que três deles saibam de quem se trata, e apenas um -- Pacheco Amorim, que é ali o único tipo com piada -- a tenha lido.  A "notícia" parece pois suspeita.

Mas a idiotia tem largo espectro, indo da extrema-direita tosca à esquerda woke ignorante e activista, igualmente analfabeta. Não foi no Canadá que proibiram os álbuns do Lucky Luke do grande Morris (Maurice de Bévère), entre outros? Ou nos Estados Unidos, pátria do wokismo triunfante, que se quis reescrever o Huckleberry Finn, e que A Canção do Sul, um esplêndido filme de animação e imagem real, de 1946, está censurado há anos (tenho a cassete, e não empresto); no Reino Unido, reescrevendo a Enid Blyton, ou retirando pintura do século XIX das paredes de um museu, porque representavam ninfas; o Brasil, e os livros do Monteiro Lobato. Por cá também há disto.

Se a extrema-direita não lê, a não ser panfletos manhosos como se fossem missais, a esquerda woke e tonta (passe o pleonasmo) treslê. Quem se lembra do caso do alegado e caricato "racismo" do Eça de Queirós?

Os tempos não são interessantes, mas de idiotia triunfante.


sábado, março 23, 2019

livros que me apetecem

1945 -- Estado Novo e Oposição, Mário Matos e Lemos (Palimage)
A Noiva do Tradutor, João Reis (Elsinore)
Alguns Humanos, Gustavo Pacheco (Tinta-da-China)
As Trevas e Outros Contos, Leonid Andréev (Antígona)
As Velhas, Hugo Mezena (Planeta)
Breviário Mediterrânico, Predrag Matvjevitch (Quetzal)
Coração Duplo, Marcel Schwob (Cavalo de Ferro)
Estranhezas, Maria Teresa Horta (D. Quixote)
Jorge Amado: Uma Biografia, Joselia Aguiar (Todavia)
Medula, Manuel Silva-Terra (Licorne)
O Grande Bazar Ferroviário, Paul Theroux (Quetzal)
Oleana, David Mamet (Tinta-da-China)
Olhar de Editor, Serafim Ferreira (Montag)
Pavese no Café Ceuta, Francisco Duarte Mangas (Teodolito)
Tess dos D'Urbervilles, Thomas Hardy (Relógio d'Água)

no papo:

A Guerra dos Mundos, H. G. Wells (Sextante)
Diário, Virginia Woolf (Bertrand)
Os Três Seios de Novélia, Manuel da Silva Ramos (Parsifal)

quarta-feira, outubro 22, 2014

a responsabilidade do dom

Rui Chafes, Entre o Céu e a Terra (2013). O livro reúne duas intervenções do escultor, reflectindo sobre a Arte em geral, e a sua em particular. E executa-o com grande profundidade e uma solidez de escrita que encarreira ambos os textos para a categoria de obras literárias, que irrefutavelmente (também) são.
Em «A história da minha vida», Chafes concebe um escultor nascido na Francónia medieval do século XIII e que, sem limitações de tempo e de espaço, deambula entre o Norte e o Sul da Europa ao longo de mais de meio milénio, trabalhando e aprendendo com os mestres de cada época -- dos artistas das catedrais  francesas aos pré-românticos alemães. Trata-se de uma autobiografia estética, em que as inquietações e os desígnios de Chafes enquanto artista são equacionados. Como exercício estético, associo-o a Orlando, romance de Virginia Woolf e a A Arca Russa, filme de Alexander Sokurov.
O segundo texto, «O perfume das buganvíleas» é constituído por 46 fragmentos, cada um susceptível de comentário desenvolvido. Direi apenas que encontro uma marca estóica no encarar, no apreender e no justificar da morte ("A beleza é impossível sem as marcas da morte", p. 40); a consciência do dom e a responsabilidade ética que implica, acompanhada de nostalgia por uma pretensa época dourada, com o inevitável questionamento da desumanização da sociedade mercantilizada que nos coube viver, e em que o consumo se estende à arte. 
Prezo ainda a consequência que é retirada: a do artista (só não escrevo verdadeiro artista porque me lembra o Serafim Saudade) como elemento de resistência e sanidade em face da poluição mercantil que nos condiciona.  

quinta-feira, março 07, 2013

ORLANDO, dois ou três tweets


* Com livros assim, com tanta ponta por onde se pegar, e sem tempo nem engenho para o fazer, cinjo-me a dois ou três tweets a propósito de Orlando -- Uma Biografia, de Virginia Woolf, que debatemos na última sessão do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro.
* O modernismo da obra, rejeitando as evidências realistas (o romance vitoriano é ironicamente caracterizado);
* Um humor refinadamente impiedoso, um wit muito Grupo de Bloomsbury (ou do imaginário que dele persiste);
* As implicações psicanalíticas do dualismo sexual da personagem central, o Orlando / a Orlando -- cuja dualidade, aliás, parece cingir-se apenas aos órgãos reprodutores;
* A rarefacção do tempo da narrativa, um longo período que vai da época isabelina ao próprio dia em que o livro saiu do prelo, 11 de Outubro de 1928.
* O génio literário de Virginia Woolf, em que a vida ("o que é a Vida?", pergunta-se em várias ocasiões) é literatura; a escrita como apaziguamento de pulsões interiores e conhecimento de si; o estilo precioso, filigranado, rigorosamente medido: «Devemos moldar as nossas palavras até que sejam o mais fino invólucro dos nossos pensamentos.» (p. 123).
* Génio literário que a tradução de Ana Luísa Faria me parece servir exemplarmente, a ponto de ficarmos com a vontade de ir a correr buscar o texto original.