Balzac: «Nelas a vida e o movimento são tão tranquilos, que um estranho as julgaria desabitadas, se não encontrasse de súbito o olhar pálido e frio duma pessoa imóvel, cujo rosto meio monástico assoma a um parapeito, ao ruído de um passo desconhecido.» Eugénia Grandet (1833) - trad. Jorge Reis § Woody Allen: «Finalmente, em 1929, fomos juntos a Espanha, onde Hemingway nos apresentou a Manolete, que era tão sensível que quase parecia efeminado. Usava calças justas de toureiro ou, às vezes, de ciclista. Manolete era um grande, grande artista. Se não tivesse sido toureiro, a sua cortesia era tamanha que poderia ter sido um contabilista mundialmente famoso.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966), «Memórias do Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «E se a submetermos a um exame sério, compreendemos que não conseguiria satisfazer: é apenas por preguiça que tanta gente recorre a ela. / Da mesma forma. não se pode culpar a estética existencialista em nome de princípios absolutos; essa estética não existe, uma vez que a literatura é aquilo que o homem faz que ela seja.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Génesis: «Deus disse: "Que a terra produza verdura, erva com semente, árvores frutíferas que dêem fruto sobre a terra segundo as suas espécies, e contendo sementes. E assim aconteceu. A terra produziu verdura, erva com semente, segundo a sua espécie, e árvores de fruto, segundo as suas espécies, com a respectiva semente. Deus viu que isto era bom.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Jane Austen: «Primeira Carta // De Isabel para Laura // Quão frequentemente, em resposta às minhas incessantes e repetidas súplicas de que daria à minha filha um ror regular das desventuras e venturas da sua vida, me declarou: "Não, cara amiga, jamais irei concordar com o seu pedido até que esteja longe do perigo de uma vez mais experimentar tais horrores."» Amor e Amizade (1790) - trad. Inês Fraga
terça-feira, abril 21, 2026
quinta-feira, abril 02, 2026
zonas de confronto
Woody Allen: «Scott estava com uma grande problema de disciplina e, apesar de todos gostarem muito de Zelda, concordávamos que ela tinha um efeito adverso na sua obra, reduzindo a sua produção de uma novela por ano a uma esporádica receita de mariscos e a uma série de aspas.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «Por exemplo, não é verdade que a massa dos opositores do existencialismo olhe o mundo com olhos ingénuos; apreendem-no através desses lugares-comuns que constituem a Sabedoria das Nações, incoerente, contraditória; essa sabedoria é, entretanto, uma visão do mundo que convém pôr em causa.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Leonid Andreiev: «Nos dias de festa e bem assim todos os domingos, o Director mandava içar a bandeira nacional pra reozijo dos doentes. O facto provocava uma sensação estranha e feliz a que chamaríamos garridice na demência.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Balzac: «Há em certas cidades da província casas cuja visão inspira uma melancolia igual à que nos causam os claustros mais sombrios, as charnecas mais estéreis ou as ruínas mais lúgubres. Talvez haja nessas casas, ao mesmo tempo, o silêncio do claustro, a aridez das charnecas e a desolação das ruínas.» Eugénia Grandet (1833) - trad. Jorge Reis § Génesis: «Deus chamou céus ao firmamento. Assim, surgiu a tarde, e, em seguida, a manhã; foi o segundo dia. / Deus disse: "Reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus num único lugar, a fim de aparecer a terra seca". Deus, à parte sólida, chamou terra, e, mar, ao conjunto das águas. E Deus viu que isto era bom.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Geneviève de Gaulle Anthonioz: «De súbito, passou a haver apenas o feixe de uma lanterna, o rosto assustado da nossa chefe de barracão, a ordem rouca para me levantar e a sombra de dois SS. Pesadelo ou realidade? Baty e Félicité, as minhas vizinhas de enxerga, despertaram. Juntaram alguns objectos, entre os quais o meu púcaro e a minha gamela, ajudaram-me a descer do beliche, beijaram-me. Que sorte me espera?» A Travessia da Noite (1998) - trad. Artur Lopes Cardoso
quarta-feira, outubro 17, 2018
os amores inúteis #34
A casa do Balzac, em Paris, longa caminhada à beira-Sena para lá chegar.
sábado, setembro 01, 2018
«Amo os lobos, nascidos para a solidão e para a fome.» Raymond Léopold Bruckberger, O Lobo Milagreiro (1971) (trad. Jorge de Sena)
«Nas enormes camaratas, junto às janelas abarrotadas, por onde entrava o ar fresco da manhã renovando o ambiente carregado pelo respirar do amontoado de carne, formavam-se os grupos, as tertúlias da desgraça, procurando-se os homens pela identidade dos seus feitos: os delinquentes por crimes de sangue eram os mais numerosos, inspirando confiança e simpatia com os seus rostos enérgicos, os seus gestos resolutos e a sua expressão de selvagem pundonor; os ladrões, receosos e assolapados, com sorriso hipócrita; e entre uns e outros, cabeças com todos os sinais de loucura ou imbecilidade, criminosos instintivos, de olhar vago e incerto, fronte deprimida e lábios delgados, franzidos por certa expressão de desdém; testas de labrego extremamente rapadas, com as enormes orelhas despegadas do crânio; madeixas sebosas com com caracóis até às sobrancelhas; enormes mandíbulas, dessas que só se encontram nas espécies inferiores ao homem; blusas rotas e remendadas; calças no fio, e muitos pés, gastando a pele dura nos ladrilhos vermelhos.» Vicente Blasco Ibañez, «Casa de correcção», Contos Valencianos (1896) (tradução de Manuel do Nascimento)
quinta-feira, junho 28, 2018
terça-feira, junho 19, 2018
quinta-feira, maio 03, 2018
«Vou começar pela estátua: a de cima, a permanente, a sem estilo, a que chora lágrimas de cobre, a que lega à posteridade a imagem circunspecta de um homem com um laço desajeitado, colete quadrado, calças largas como sacos, bigode em desalinho.» Julian Barnes, O Papagaio de Flaubert (1984) - (tradução de Ana Maria Amador)
«Seja qual for o descrédito em que tenha caído a palavra drama, devido à maneira abusiva e intolerável com que tem sido prodigalizada nestes tempos de literatura pungente, é necessário empregá-la aqui.» Honoré de Balzac, O Tio Goriot (1835) - (tradução de Adelino dos Santos Rodrigues)
terça-feira, maio 01, 2018
quinta-feira, dezembro 31, 2015
Lucien de Rubempré
quarta-feira, novembro 25, 2015
ter Balzac por aí
sexta-feira, setembro 29, 2006
Antologia Improvável #165 - Fernando Grade (2)
"Sinto-me um cientista a quem um admirador
remeteu uma carta que dizia: concordo consigo:
dois mais dois são cinco."
(Bertolt Brecht)
"Se não esperas o inesperado, nunca o alcançarás."
(Heraclito)
"Faço sempre outra coisa."
(o Autor, in "Museu das Formigas", 1980)
Para lá de todas as estradas de pó
percorridas pelo carro velho a caminho de
Montana onde os pistoleiros sempre estiveram escondidos
-- os dois jovens que fomos (eu e tu, Rebecca)
estavam à solta em todas as pradarias. Ao tempo,
Portugal fora fechado dentro de um dedo a corroer-se,
poço de vespas perversas.
Passámos por Indiana e os beijos não estavam doentes,
e em Chicago havia pistolas nos olhos de quem sorria.
Tive a liberdade de dançar contigo
o tango dos últimos bêbedos. Bêbedos cultos
apaixonados por licores ou vinhos desastrados quase música.
Em Pierre, conhecemos um jovem anoitecido por sustos
que era mestre a deitar fogo a bares.
Então soubemos d'outros que fugiam para o pé do mar
vinham montados num automóvel em pedaços
eram perseguidos por uma mentira redonda e
perfeita: os dois vão ser presos mas esfumam-se
porque o seu sangue é bom e ninguém sabe:
escondem-se assim para os lados das ondas e das ostras
procuram a salsugem -- o mar! E depois num povoado
perdido na noite, casas sem nome, descobrimos
a mãe da América fumava papoilas.
Não me lembro das tuas últimas lágrimas, mas
sei que choravas por um coração esvaziado por granadas.
O teu filho caíra na Ásia e não viera mais
-- desaparecera para sempre numa guerra errada.
Traiçoeiro como sempre esqueci (por momentos) Rebecca
e fui caçar outros olhos.
Por três tardes, luziu Herbie: passeava pelo seu corpo
eu atravessava-o como quem passeia pelas páginas de Balzac
como se as cidades bucólicas estivessem sitiadas.
E voltaram as labaredas altas a lamber os campos
regressei aos gestos fogosos de Rebecca
que ajudava as plantas a crescer,
não tinha medo delas. Faltava pouco para chegarmos
a Helena, onde os amigos tinham bons livros
à nossa espera. O ruído da seda a rasgar-se,
o jogo das pessoas brincadas, o ruído da água
o barulho sinistro que vem das chamas.
Era no chão o vestígio dos venenos.
Um Beethoven adulado por coiotes.
E os beijos à volta, os sôfregos beijos latinos
a crescerem: do pó em fúria até ao musgo.
Sempre tive um vinho muito ciumento.
Sempre Tive um Vinho Muito Ciumento