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quinta-feira, fevereiro 15, 2024

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«Então reproduz de cór a paisagem que se vê da janela, cria os seres primordiais, mistura verão e inverno, atenua a cegueira (o excesso) do sol incidindo sobre a sílica, mica esmigalhada, vidro moído num almofariz (sabe-se lá), aumenta os grãos de areia até ao tamanho que parecem ter, de noite, quando o vento atira contra as vidraças as suas enormes pedradas.» Carlos de Oliveira, Finisterra (1978)

«O fervor com que ela falava de Alighieri acendia-lhe o cinzento dos olhos, habitualmente muito frio, e os movimentos da cabeça, virando-se para ele enquanto caminhavam pela Quinta da Saudade, captavam o sol do entardecer e revelavam reflexos, até aí insuspeitados, de mogno antigo ou malvasia velho.» Helena Marques, O Último Cais (1992)

«Tristes hortejos manifestavam a presença daquela gente em tão ermas paragens.» Romeu Correia, Calamento (1950)

quarta-feira, julho 19, 2023

150 portugueses #12. Pedro Hispano / João XXI (Lisboa, c. 1215 - Viterbo, 1276)

 

Para um futuro blogue. Único papa português, foi um grande nome da medicina, da filosofia e da teologia do seu tempo. Filho de um médico da corte e também chanceler de D. Sancho I, Pedro Julião Rebolo, nascido em Lisboa, terá estudado na Sé, desde muito jovem, seguindo depois para Paris ou Montpellier, onde foi discípulo de S. Alberto Magno, e condiscípulo de S. Tomás de Aquino e São Boaventura, tendo Pedro Hispano escrito comentários em primeira mão a Aristóteles -- o primeiro a comentar De Anima -- a partir dos filósofos árabes, como Averróis, Avicena e outros. Dento da escolástica medieval, como informa João Ferreira no verbete do Dicionário de História de Portugal, a especulação filosófica de Pedro Hispano, dava-se em torno das potenciais relações alma/corpo. Enquanto médico, foi autor de vários tratados, dos quais se destaca o Thesarus Pauperum, com mais de oitenta edições e traduções nas principais línguas europeias. Se Santo António foi o primeiro português a firmar o nome na história da cultura ocidental -- palavras de Francisco Fernando Lopes, que já citei --, seguiu-se-lhe Pedro Hispano. Eleito papa em Setembro de 1276, os seus oito meses de pontificado são intensíssimos, até que a morte sobrevém, atingido por uma pedra durante uma visita às obras da catedral de Viterbo, o que deu origem às especulações do costume. Na Divina Comédia, Dante situa-o no Paraíso, pois claro.

Uma edição do séc. XVI do Thesaurus Pauperum


domingo, agosto 22, 2021

A. J. Saraiva (4), «De Alfonso X, o Sábio a D. Dinis»

 


«De Alfonso X, o Sábio, a D. Dinis», o capítulo inicial, pp. 15-22 ocupa 6,5% do total. O primeiro subcapítulo versa sobre "Os cancioneiros e a lírica jogralesca" (16-22). A poesia trovadoresca, uma adaptação em boa parte do lirismo provençal casado com o cancioneiro primitivo galaico-português, de que resultaram as célebres "cantigas" (de amigo, de amor, de escárnio e de mal-dizer), realçando os três níveis, consoante a densidade: do ambiente rural ao cortês, passando pelo doméstico; ou da "tradição oral" ingénua e campesina à "invenção literária" propriamente dita, à "dialéctica dos sentimentos" em meio palaciano.

Os autores referidos: Afonso X o Sábio, D. Dinis, Airas Nunes de Santiago. Os títulos: Cantigas de Santa Maria, Cancioneiro da AjudaConexões: Dante, Petrarca, Bernardim Ribeiro (Menina e Moça).  

"A épica jogralesca" (16-23). Trata das façanhas de Afonso Henriques, gesta vertida para prosa na 3.ª Crónica Breve de Santa Cruz de Coimbra e a Crónica General de Espanha de 1344, cujo original, perdido, foi escrito em português: «O ciclo épico em torno de Afonso Henriques apresenta-nos um herói bravio e instintivo, verdadeira encarnação da nobreza guerreira do século XII, em luta com os Leoneses, o clero e com os Árabes.»

Conexões: Cantar de Mío Cid e Lendas e Narrativas (Alexandre Herculano).

"O romance de cavalaria" (23-25). As traduções do Ciclo da Bretanha, Demanda do Santo Graal, O Livro de José de Arimateia, (séc. XIII) ou a História de Barlão e Josafate, baseado na vida de Buda, cuja tradução portuguesa se fez em Alcobaça, abrem caminho para um romance como o Amadis de Gaula, cujo original em português se perdeu, cuja autoria foi atribuída por Zurara ao trovador Vasco de Lobeira [entretanto, a atribuição já passou para um outro, chamado João Pires de Lobeira].

Conexões: Cervantes, Dom Quixote.

domingo, abril 27, 2014

Vasco Graça Moura

Portugal perdeu hoje um dos seus maiores. Como poeta, foi um dos mais significativos do seu tempo, cujo estro era suficientemente intenso para impedir que a cultura vasta e sólida afogasse a poética em eruditismo estéril. Será sempre um autor a ter em conta em qualquer antologia do tempo que lhe coube. Enquanto crítico e ensaísta, ombreia com os grandes, sendo também um respeitadíssimo camonista. Acresce uma contínua actividade de tradutor, aclamado pelas versões que realizou de Shakespeare e Dante, entre muitas outras.
Do maior relevo, dentre as muitas funções públicas que desempenhou, foram a direcção editorial exemplar da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, e o brilho com que presidiu à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Num e noutro lugar, o seu desempenho foi reconhecido e louvado por todos os quadrantes politico-ideológicos, e a acção que aí realizou deixou frutos, prolongando-se pelo tempo futuro. E foi, como se sabe, o mais combativo adversário do famigerado Acordo Ortográfico, contra o qual se bateu inteligente e denodadamente, sem que o tolhesse a pesada e desesperante inércia duma sociedade que passava tranquilamente ao largo das preocupações e dos interesses duma vida: a literatura e a história de Portugal.