O AMOR, A POESIA, AS VIAGENS
Atirei um céu aberto
Na janela do meu bem:
Caí na Lapa -- um deserto...
-- Pará, capital Belém!...
Berimbau e Outros Poemas
(antologia por Elias José)
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
O AMOR, A POESIA, AS VIAGENS
Atirei um céu aberto
Na janela do meu bem:
Caí na Lapa -- um deserto...
-- Pará, capital Belém!...
Berimbau e Outros Poemas
(antologia por Elias José)
SARABANDA DE AMOR
Sarabanda de amor
Em tudo quanto é trigo e quanto é flor
Morte e vida repartida
Em cada migalha em cada suor
16/4/984
OBRAR, CARMINA
Quem vê o vate gabar nas vielas do Bairro
Que come, Bodas de Canaã, assim por alto, uma e outra e mais, à grosa,
Como naquela versalhada latina (Carmina)
E que ainda na retrete revê as dedicatórias,
Sabe que com a idade, saciado, o alarve, acabará
Por melhor obrar, obrar melhor.
A Festa do Asno (2005)
Brilhavam três sóis
no fundo da noite
julguei que era o espelho
as luzes do carro
brilhando no gelo
mas estavam lá
suspensos da noite
até que um caiu
o outro apagou
ficou só um sol
ficou só a lua
ficaste só tu
luzindo suspensa
no gelo da noite.
Viagem de Inverno (1994)
ÀS QUINTAS-FEIRAS
Leio um poeta do Facebook:
A tua pele cor de canela
com sabor a gengibre e cardamomo.
Gosto de canela nos pastéis de nata,
de gengibre em certos pratos,
mas não conheço o sabor do cardamomo.
Talvez o poeta do Facebook
me possa dizer. Vou perguntar-lhe
pelo Messenger e fico à espera da resposta.
Quanto à tua pele, minha amiga,
podes vir mostrá-la às quintas-feiras
e se quiseres ser gentil ficar para jantar.
Tudo do melhor possível, assim espero,
mas escusas de trazer
canela. gengibre ou cardamomo.
Nada adiantava ao nosso caso,
além de que, se necessário,
há uma mercearia aqui mesmo ao pé da porta.
Insolúvel Flautim (2023)
EVIDÊNCIA
Poderão dizer que minto,
mas no dia em que a gente sabe
que peso era este
a pesar nos braços,
e se acorda a infância
que neles dormia,
nesse dia começa-se a morrer
mais depressa
e a assistir à morte
em cada instante recomeçada.
A infância foge dos braços
mas o peso continua:
é a vida que pergunta quando acaba.
Fernando Namora, Marketing (1969)
Sou um humilde vedor:
procuro os veios de água
o ouro iluminado
Novembro é um mês alto
penso como a infância
é uma ilha absoluta
Abro um caminho e escrevo: o sol do teu olhar
é uma candeia acesa na minha vida
Uma rosa pensativa
Nascente da Sede (2000)
3:
e vá-se-me dos dedos toda a agilidade escrevente
que eu já possa ditar só metade de versos
e que ao oitavo dia se me fujam
as referências do mundo visível
que eu dure sem préstimo lá ao canto
ao pé da telefonia, "o da manta de lã"
e as filhas venham casadas e com filhos
tentar amar esse madeiro podre
se a maldição for tanta que na morte
do entendimento se me vá teu cheiro
Memórias do Contencioso (1976)
PURO ACASO
Um texto não é uma casa.
Um poema não te protege de nada.
Não serve para nada.
Existe só porque sim --
como eu, como nós,
os construtores de coisas inúteis.
Que mistério é a vida.
Ou isso, ou puro acaso.
Livro da Perfeita Alegria (2021)
DESAPARECIDO
VIVALDI, AS QUATRO ESTAÇÕES
Quando as estações
são música
não há alterações climáticas
que perturbem
as previsões meteorológicas da terra.
Palavras, Músicas e Blasfémias que Envelheço na Cidade (1986)
UMA QUADRA
Que dos céus as estrelas desçam esculpidas em mármore
E se abatam em mim na dureza pétrea e existente;
E do chão abafado e maldito onde não desponta árvore
Crescerá num volume duro meu canto humano e quente.
Poemas (1961)
CÍRCULO
Do sonho a mão
Da mão a pá
Da pá o cabo
Do cabo a força
Da força a seiva
Da seiva a flor
Da flor o chão
Do chão o espaço
Do espaço o ângulo
Do cabo
Da pá
Do sonho
1/4/981
Poemas Intermitentes (1987)
SANGUE
Venho da rua cansado de exibir
o perfil que me deu hoje a inquietação.
Venho da mentira,
mas, entrando em casa, não entro na verdade.
Que vida existirá que me não fira?
77 Poemas (1955) / Oferenda I (1984)
SILÊNCIO
Há momentos em que tudo o que desejo
é o silêncio e seu bálsamo. Momentos
que a própria música conspurcaria.
Mas há silêncio e silêncio. O que apeteço
não é o silêncio que alguma autoridade
decreta, seja direcção-geral, escola, igreja.
O silêncio que ambiciono há-de ser
sereno como nuvens e ervas bravas
e água em repouso e asas imóveis
de borboleta.
Há-de ser como o doce cansaço
que, depois que o vento tem passado,
fica a cintilar sobre as coisas
que o vento alvoroçou.
Caderneta de Lembranças (2021)
Enquanto os cães ladravam um ladrar
ralo de sono
que não chegou para acordar os donos
na noite doutros sonhos sem luar
e sem retorno
também cruzei por mim sem me chamar.
Viagem de Inverno (1994)
É TUDO QUESTÃO DE TEMPO
Rio abaixo
Na toada invisível dos seixos
Vai o dongo a palha a folha.
Poliedro chispante e duro
Refracta-se oblíquo o sol.
E num marulhar longínquo afável
Sente-se mais que se ouve
A praia a ambicionada praia
No doce e borbulhante
Abrir dos dedos das águas.
É tudo questão de tempo.
Poesia Intermitente (1987)
ESCAVAÇÃO
Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E minh'alma perdida não repousa!
Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...
Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...
Onde existo, que não existo em mim?
.............................................................
..............................................................
Um cemitério falso sem ossadas,
Noite d'amor sem bocas esmagadas --
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...
Dispersão (1914) / Poemas Escolhidos (ed. Clara Rocha)
PRESÉPIO
Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho -- e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino, te pintaram!
O calor do seu corpo
pra que o quer tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Senhora!)
Só a vaca e a mula
com seu bafo te aquecem...
-- Quem as pôs na pintura?
Pelo Sonho É que Vamos, (post., 1953)
AUTOBIOGRAFIA
O teu sorriso
espelhado em meus olhos, Mãe;
Um pouco de Poesia
a ilimitar todo o presente;
E a Vida sorrindo também
ao futuro humano que se pressente.
Poemas (1961)
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.