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sexta-feira, março 15, 2024

antologia improvável #529 - Manuel Bandeira

 

O AMOR, A POESIA, AS VIAGENS


Atirei um céu aberto

Na janela do meu bem:

Caí na Lapa -- um deserto...

-- Pará, capital Belém!...

Berimbau e Outros Poemas

(antologia por Elias José)

quinta-feira, março 07, 2024

antologia improvável #528 - Antero Abreu


SARABANDA DE AMOR


Sarabanda de amor

Em tudo quanto é trigo e quanto é flor

Morte e vida repartida

Em cada migalha em cada suor


16/4/984

quarta-feira, novembro 15, 2023

antologia improvável #527 - José-Emílio Nelson

 

OBRAR, CARMINA


Quem vê o vate gabar nas vielas do Bairro

Que come, Bodas de Canaã, assim por alto, uma e outra e mais, à grosa,

Como naquela versalhada latina (Carmina)

E que ainda na retrete revê as dedicatórias,

Sabe que com a idade, saciado, o alarve, acabará

Por melhor obrar, obrar melhor.


A Festa do Asno (2005)


terça-feira, novembro 14, 2023

antologia improvável #526 - Helder Macedo


Brilhavam três sóis

no fundo da noite

julguei que era o espelho

as luzes do carro

brilhando no gelo

mas estavam lá

suspensos da noite

até que um caiu

o outro apagou

ficou só um sol

ficou só a lua

ficaste só tu

luzindo suspensa

no gelo da noite.


                                                         Viagem de Inverno (1994)



domingo, novembro 12, 2023

antologia improvável #525 - Manuel Matos Nunes

 ÀS QUINTAS-FEIRAS


Leio um poeta do Facebook:

A tua pele cor de canela

com sabor a gengibre e cardamomo.


Gosto de canela nos pastéis de nata,

de gengibre em certos pratos,

mas não conheço o sabor do cardamomo.


Talvez o poeta do Facebook

me possa dizer. Vou perguntar-lhe

pelo Messenger e fico à espera da resposta.


Quanto à tua pele, minha amiga,

podes vir mostrá-la às quintas-feiras

e se quiseres ser gentil ficar para jantar.


Tudo do melhor possível, assim espero,

mas escusas de trazer

canela. gengibre ou cardamomo.


Nada adiantava ao nosso caso,

além de que, se necessário,

há uma mercearia aqui mesmo ao pé da porta.


Insolúvel Flautim (2023)

sábado, novembro 04, 2023

antologia improvável #524 - Fernando Namora


EVIDÊNCIA


Poderão dizer que minto,

mas no dia em que a gente sabe

que peso era este

a pesar nos braços,

e se acorda a infância

que neles dormia,

nesse dia começa-se a morrer

mais depressa

e a assistir à morte

em cada instante recomeçada.

A infância foge dos braços

mas o peso continua:

é a vida que pergunta quando acaba.


Fernando Namora, Marketing (1969)

quinta-feira, novembro 02, 2023

antologia improvável #523 - Fernando Jorge Fabião


Sou um humilde vedor:

procuro os veios de água

          o ouro iluminado


Novembro é um mês alto

penso como a infância

é uma ilha absoluta


Abro um caminho e escrevo: o sol do teu olhar

é uma candeia acesa na minha vida

Uma rosa pensativa


Nascente da Sede (2000)

terça-feira, outubro 31, 2023

antologia improvável #522 - Fernando Assis Pacheco

 

3:


e vá-se-me dos dedos toda a agilidade escrevente

que eu já possa ditar só metade de versos


e que ao oitavo dia se me fujam

as referências do mundo visível


que eu dure sem préstimo lá ao canto

ao pé da telefonia, "o da manta de lã"


e as filhas venham casadas e com filhos

tentar amar esse madeiro podre


se a maldição for tanta que na morte

do entendimento se me vá teu cheiro


Memórias do Contencioso (1976)

domingo, outubro 29, 2023

antologia improvável #521 - Eugénia de Vasconcellos


PURO ACASO


Um texto não é uma casa.

Um poema não te protege de nada.

Não serve para nada.

Existe só porque sim --

como eu, como nós,

os construtores de coisas inúteis.

Que mistério é a vida.

Ou isso, ou puro acaso.

Livro da Perfeita Alegria (2021)



sábado, outubro 28, 2023

antologia improvável #520 - Carlos Queirós


DESAPARECIDO


Sempre que leio nos jornais:
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto do arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
-- Livre o instinto, em vez de coagido.
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Eu, o feliz desapar'cido!

Desaparecido (1935)

quarta-feira, outubro 25, 2023

antologia improvável #519 - Armando Taborda


VIVALDI, AS QUATRO ESTAÇÕES


Quando as estações

são música

não há alterações climáticas

que perturbem

as previsões meteorológicas da terra. 


Palavras, Músicas e Blasfémias que Envelheço na Cidade (1986)

sábado, outubro 21, 2023

antologia improvável #518 - António Jacinto


 UMA QUADRA


Que dos céus as estrelas desçam esculpidas em mármore

E se abatam em mim na dureza pétrea e existente;

E do chão abafado e maldito onde não desponta árvore

Crescerá num volume duro meu canto humano e quente.


Poemas (1961)

quarta-feira, outubro 18, 2023

antologia improvável #517 - ANTERO ABREU

 

CÍRCULO


Do sonho a mão

Da mão a pá

Da pá o cabo

Do cabo a força

Da força a seiva

Da seiva a flor

Da flor o chão

Do chão o espaço

Do espaço o ângulo

Do cabo

Da pá

Do sonho

                                                                                                     1/4/981


Poemas Intermitentes (1987)

terça-feira, outubro 17, 2023

antologia improvável #516 - Alberto de Lacerda

 SANGUE


Venho da rua cansado de exibir

o perfil que me deu hoje a inquietação.

Venho da mentira,

mas, entrando em casa, não entro na verdade.


Que vida existirá que me não fira?

77 Poemas (1955) / Oferenda I (1984) 

terça-feira, outubro 10, 2023

antologia improvável #515 - A. M. Pires Cabral

 

SILÊNCIO


Há momentos em que tudo o que desejo

é o silêncio e seu bálsamo. Momentos

que a própria música conspurcaria.


Mas há silêncio e silêncio. O que apeteço

não é o silêncio que alguma autoridade

decreta, seja direcção-geral, escola, igreja.


O silêncio que ambiciono há-de ser

sereno como nuvens e ervas bravas

e água em repouso e asas imóveis

de borboleta.


Há-de ser como o doce cansaço

que, depois que o vento tem passado, 

fica a cintilar sobre as coisas

que o vento alvoroçou.


Caderneta de Lembranças (2021)

quarta-feira, outubro 04, 2023

antologia improvável #514 - Helder Macedo

 Enquanto os cães ladravam um ladrar 

ralo de sono

que não chegou para acordar os donos

na noite doutros sonhos sem luar

e sem retorno

também cruzei por mim sem me chamar.

Viagem de Inverno (1994)

sábado, setembro 30, 2023

antologia improvável #513 - Antero Abreu

 

É TUDO QUESTÃO DE TEMPO


Rio abaixo

Na toada invisível dos seixos

Vai o dongo a palha a folha.

Poliedro chispante e duro

Refracta-se oblíquo o sol.

E num marulhar longínquo afável

Sente-se mais que se ouve

A praia a ambicionada praia

No doce e borbulhante

Abrir dos dedos das águas.

É tudo questão de tempo.


Poesia Intermitente (1987)

quarta-feira, setembro 27, 2023

antologia improvável #512 - Mário de Sá-Carneiro


ESCAVAÇÃO


Numa ânsia de ter alguma cousa,

Divago por mim mesmo a procurar,

Desço-me todo, em vão, sem nada achar,

E minh'alma perdida não repousa!


Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa

E chama genial que tudo ousa

Unicamente à força de sonhar...


Mas a vitória fulva esvai-se logo...

E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...

Onde existo, que não existo em mim?


.............................................................

..............................................................


Um cemitério falso sem ossadas,

Noite d'amor sem bocas esmagadas --

Tudo outro espasmo que princípio ou fim...


Dispersão (1914) / Poemas Escolhidos (ed. Clara Rocha) 

segunda-feira, setembro 25, 2023

antologia improvável #511 - Sebastião da Gama


PRESÉPIO


Nuzinho sobre as palhas,

nuzinho -- e em Dezembro!

Que pintores tão cruéis,

Menino, te pintaram!


O calor do seu corpo

pra que o quer tua Mãe?

Tão cruéis os pintores!

(Tão injustos contigo, 

Senhora!)


Só a vaca e a mula

com seu bafo te aquecem...


-- Quem as pôs na pintura?

Pelo Sonho É que Vamos, (post., 1953)

sábado, setembro 23, 2023

antologia improvável #510 - António Jacinto


AUTOBIOGRAFIA


O teu sorriso

espelhado em meus olhos, Mãe;

Um pouco de Poesia

a ilimitar todo o presente;

E a Vida sorrindo também

ao futuro humano que se pressente.


Poemas (1961)