«"Pare, escute e olhe", lê-se nelas em letras desvanecidas. Precaução que agora parece absurda, mas que também antes já o era, pois por dia passavam ali apenas dois comboios: o que "subia" até Duas Igrejas e o que "descia" até ao Pocinho, onde entroncava na linha do Douro.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
quinta-feira, maio 21, 2026
quarta-feira, maio 13, 2026
o que está a acontecer
«O apeadeiro desapareceu. Um padre pediu à CP que lhe desse as belas pedras de granito das paredes e do cais, levou-as para a vila e fez com elas uma casa para a terceira idade. O local foi arrasado, mas por desleixo ou esquecimento deixaram as placas que avisavam do perigo de atravessar desatento a linha.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)
«["] Há passagens do relatório que esclarecem o problema, passagens aparentemente insignificantes, mas que talvez sejam efectivamente outra coisa, como o facto de o pai jogar bowling com garrafas, quando lá no bairro ainda ninguém sequer sabia o que era o bowling, isto depois de beber o conteúdo das garrafas, eram garrafas de vinho, cerveja, aguardente e o mais que viesse, ele ficava bêbado e depois jogava bowling e partia as garrafas com uma grande bola de prata de chocolates, e o rapaz ficou sempre com o som nos ouvidos, o som de garrafas partidas enchendo a noite, um perpétuo estilhaçar de nervos."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
sábado, novembro 29, 2025
o que está a acontecer
«Uma vez, numa aula de filosofia (o professor era um pobre diabo, muito lendário pela degradação intelectual a que chegara, e a quem, certo dia, na indisciplina ruidosa que eram essas aulas, demonstrámos o argumento de Diógenes arrastando todas as carteiras, sentados nelas, para os vários cantos da sala), D. Ramon levantou-se, e objectou que todos os seres vivos tinham alma, o que, segundo as regras da ciência, era uma verdade, e não um ponto controverso da especulação filosófica.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979)
«Os atalhos velhos, abandonados, encheram-se de mato. Vai-se agora pela estrada, ou corta-se pelos caminhos abertos nos baldios pelos tractores da Câmara. Da linha do comboio de via estreita, abandonada, ficaram os carris a marcar a presença, e um ou outro poste donde pendem ainda os fios do telégrafo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Abro a porta devagar, ela range para o espaço do jardim. É um jardim morto, as plantas secas, os canteiros arrasados nas pedras que os limitavam. Alguns têm só terra ou hastes secas de roseiras. Vejo-as do portão, o carro à entrada a trabalhar. Depois meto-o na garagem, que é um barracão ao lado de casa.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
domingo, novembro 23, 2025
o que está a acontecer
«Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre, quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6.º ano dos liceus. As suas calmas e sonhadoras extravagâncias, o seu ar de senhor de idade, o mistério de adulto de que rodeava a sua figura pequena e atlética, a sua profunda convicção de que, desde o século XII ou XIII, a Espanha devia à sua família o condado de Barcelona, as perguntas absurdas feitas com o ar mais convicto e ingénuo do mundo, com que ele era o terror dos professores inseguros, e o seu famoso sistema filosófico que tudo explicava e o dispensava, "graças ao controle das energias do cérebro", de estudar as lições (salvo em casos de última emergência), tudo isto não fazia dele um ídolo nem um chefe, mas um ente respeitadíssimo, apesar da ironia com que todos o apontavam.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst. 1979)
«Por estes lados, o viajante só vê montes. Desertos, amarelados, pedregosos, às vezes com uma ermida no alto, outros coroados de espinhos. Nalgumas encostas os sulcos dos campos lavrados. Aqui e além bocados de vinha, casebres perdidos, rochedos cobertos de musgo, aldeias tão longínquas que são apenas manchas brancas na paisagem.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«E a que foi acontecendo aos outros -- é a História que se diz? abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que aqui não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
terça-feira, novembro 18, 2025
o que está a acontecer
«Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta -- sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás de aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)
«No desânimo da sua mágoa, posso ser tudo: participante, juiz, padre confessor, irmão mais velho. Enquanto eu apenas oiço ecos. Uns dele, outros do meu íntimo, alguns que não sei o que os causa, nem de que fundos aparecem.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«"É óbvio", disse Mister DeLuxe, "não estou a falar dos burriés, estou a falar das idiossincrasias de Molero". Debruçou-se sobre a secretária e virou uma folha do calendário de mesa. "Ainda estávamos no dia de ontem", disse ele. "Temos várias pistas", disse Austin, "um tabique, uma casca de banana, uma sina, um escarrador, uma tela de Miró, uma mancha negra debruada a vermelho.["]» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
terça-feira, novembro 11, 2025
o que está a acontecer
«Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos? // 1/3/71» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)
«"O quê?", perguntou Mister DeLuxe. "É curioso pensar", disse Austin, passando por cima da pergunta directa, "que o rapaz tirava burriés do nariz quando era pequeno, mas não os comia logo". "Hã?", fez Mister DeLuxe. "Não os comia logo", acentuou Austin, "colava-os à parede para os comer no dia seguinte". Houve uma pausa. "Gostava deles secos", explicou.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
«Ele retomará o seu desabafo, avivando detalhes, corrigindo versões. Por vezes, a certificar-se de que o sigo ou precisado de cumplicidade, faz de mim testemunha, cada frase torna-se um pedido de compreensão. E porque eu digo que compreendo, para ele é como se eu também tivesse estado presente.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
quarta-feira, novembro 05, 2025
o que está a acontecer
«"Teve uma infância estranha", disse Austin. "Em última análise, todas as infâncias o são", disse Mister DeLuxe. "Molero diz", disse Austin, "que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
«Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício do seu sentido.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)
«Ao fim da tarde acabo o meu passeio pelos montes e desço até ao ribeiro. Ele vem pela encosta fronteira, devagar, travado pelas ovelhas que só se mexem depois da boca cheia. Vemo-nos a uma boa hora de caminho um do outro, dois pontos longínquos, e mesmo sem nunca o termos confessado, sabemos que esse momento é para ambos um conforto, a revivência da camaradagem que de crianças nos levava a procurarmo-nos.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
sábado, janeiro 04, 2025
o que está a acontecer
«1. O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Voltou a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se.» Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães (1957)
«Ao Revm. padre Ambrósio Coriolano d'Anunciação Lousada, vigário em Tamanduá, como humilde testemunho de gratidão, pelos severos conselhos com que fortaleceu o meu espírito e pelos cascudos com que me abriu a cabeça para que nela entrassem as regras de concordância e os versos de Virgílio, ofereço este livro. // Tamanduá, em Minas -- Janeiro, 93» Coelho Neto, A Capital Federal (1893)
«Dia de calor. Paz à nossa volta. Encontrámo-nos ali sem combinar, um daqueles hábitos que nunca se sabe bem porque começam, talvez por acaso ou pelas razões ocultas que umas vezes nos levam a buscar companhia e doutras nos empurram para a solidão.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
terça-feira, dezembro 31, 2024
o que está a acontecer
«Jantava sempre pouco, e acabava fumando tabaco de onça. Reparava extraordinariamente para as pessoas que estavam, não suspeitosamente, mas com um interesse especial; mas não as observava como que perscrutando-as, mas como que interessando-se por elas sem querer fixar-lhes as feições ou detalhar-lhes as manifestações de feitio. Foi esse traço curioso que primeiro me deu interesse por ele.» Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)
«Sob estas capas de vulgaridade há talvez sonho e dor que a ninharia e o hábito não deixam vir à superfície. Afigura-se-me que estes seres estão encerrados num invólucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.» Raul Brandão, Húmus (2017)
«Muito seu continua o jeito de como ao falar cerra os olhos em duas fendas chinesas, antes risonhas, agora insondáveis. / Sentado na relva à sombra dos castanheiros, o cajado entre as pernas, os cães dum lado, eu do outro, o rebanho espalhado pela ladeira, o murmúrio da água, o tilintar dos chocalhos.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
sábado, dezembro 28, 2024
o que está a acontecer
«Vi não sei onde, num jardim abandonado -- Inverno e folhas secas -- entre buxos do tamanho de árvores, estátuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puíra-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem à pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro; aqui se enterraram todos os nossos sonhos...» Raul Brandão, Húmus (1917)
«Com meias frases, outras que ficam pendentes -- Há dias que pouco falta para que faça uma asneira -- eu à espera de detalhes que não vêm, ele assombrado pelas recordações, entre nós um silêncio incómodo. / Malgrado os anos continua ágil, desempenado, mas o rosto tornou-se-lhe papudo, roxo do vinho.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava -- parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)
quinta-feira, dezembro 26, 2024
o que está a acontecer
«-- Compreende? / Digo que sim, que compreendo, intrigado pela confidência e aquele olhar que mostra o desespero de quem anseia por absolvição. Mas custa a acompanhá-lo no emaranhado de casos e pensamentos, de mágoas, o comezinho misturado ao trágico, a indiferença de tornar simultâneos o passado e o presente.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (1903)
«A torre -- a porta da Sé com os santos nos seus nichos --, a praça com árvores raquíticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem imutáveis teias de silêncio e tédio e uma cinza invisível, manias, regras, hábitos, vai lentamente soterrando tudo.» Raul Brandão, Húmus (1917)
«Nessas sobrelojas, salvo ao domingo pouco frequentadas, é frequente encontrarem-se tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de apartes na vida. / O desejo de sossego e a conveniência de preços levaram-me, em um período da minha vida, a ser frequente em uma sobreloja dessas. Sucedia que quando calhava jantar pelas sete horas quase sempre encontrava um indivíduo cujo aspecto, não me interessando a princípio, pouco a pouco passou a interessar-me.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)
quarta-feira, janeiro 10, 2024
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«De manhã, enquanto faço o café e me sento depois a tomá-lo defronte da janela que dá para o vale, pergunto-me às vezes porque me casei.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«E ele próprio adoptara uma máscara de orgulho: os lábios mais franzidos, o bigode mais retorcido e mais sóbrios os gestos.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)
«Os miúdos que passeavam na rua ainda não eram nascidos quando eu saí do bairro, algumas lojas tinham fechado, outras mudado de gerência, tinham asfaltado ruas e inaugurado um moderno e funcional mercado, quase todas as varandas tinham sido fechadas com marquises de alumínio.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)
sábado, janeiro 06, 2024
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«Deram as onze na Sé, depois no relógio aguitarrado da casa de entrada, e as duas mãos param um instante na toalha branca, sob o comando da reflexão.» José Rodrigues Miguéis, A Escola do Paraíso (1960)
«Porque se sei o que não tive, não sei o que perdi, nem do que precisaria para me preencher o vazio que se me criou no íntimo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Raras famílias, mesmo coevas, poderiam traçar a sua ascendência, por linha varonil e sempre pura, até aos vagos senhores que Entre Douro e Minho mantinham castelo e terra murada, quando os barões francos desceram, com pendão e caldeira, na hoste do "Borguinhão".» Eça de Queirós, A Ilustra Casa de Ramires (1900)
terça-feira, janeiro 02, 2024
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«A aldeia era terra sem futuro e o exemplo dos que enriqueciam no Brasil mostravam-se mais numerosos do que barbos em pego onde se deita dinamite.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)
«Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o morgado de Cidadelhe, era certamente o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900)
«Por carácter não sou dado a fazer balanços ou a repisar as ocasiões falhadas, mas durante longas caminhadas pela serra acontece às vezes que os olhos se me param numa vista, e antes de me dar conta o espírito se perde a divagar..» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
sexta-feira, dezembro 29, 2023
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«Algumas noites, repetindo o costume da infância, sentávamo-nos no banco à porta da casa da minha avó, vazia desde que ela faleceu.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Aos sete anos, sem o saber, era um milenarista, deslumbrado pela ideia do fim do mundo.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)
«Tão bem quanto sei isto agora, sabia-o ontem quando entrei na venda do judas e pedi o primeiro copo e pedi o segundo e pedi o terceiro.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)
segunda-feira, outubro 16, 2023
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«Contou-me um dia, envergonhado da ingenuidade, que tinha chegado a andar pelas ruas da cidade atrás dos carteiros, sem coragem de perguntar, a ver se descobria onde era a sede dos Correios, com a esperança de que lá com certeza tinham ouvido falar dele -- "O Gato da Linha do Sabor» -- e lhe dariam emprego.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003) / «E quando fechou sobre mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de sepultura, eu quase solucei -- com saudades minhas.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901) / «Gostava de se meter no escritório, depois do jantar, gostava de ficar ali sozinho e de ler tranquilamente no silêncio da casa.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
segunda-feira, junho 26, 2023
simulacros & outros caracteres móveis
«Nestas curvas das estradas sorri sempre de longe ao viajante. cansado e aborrecido, que pela primeira vez as trilha, uma prometedora esperança.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
«Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era arbusto desarreigado que não reviverá. A mágoa com que me acompanhou ao comboio, conviria excelentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de sepultura, eu quase solucei -- com saudades minhas.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro.» Raul Brandão, Húmus (1917)
«-- Eu tinha pensado... É que está aí um seringueiro -- o Balbino, aquele que anda sempre com um charuto na boca -- que foi ao Ceará buscar pessoal para o rio Madeira. Mas, ontem, fugiram-lhe três homens... Ora, eu pensei... Sim, talvez falando com ele, tu pudesses...» Ferreira de Castro, A Selva (1930)
«Ele rebolou os olhos num semblante de agonia, bateu furiosamente umas quantas vezes com o cajado contra os bancos do apeadeiro, e ao ver como aumentava o meu medo rebolou-se de gozo pelo chão.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
terça-feira, maio 30, 2023
em "pudica torção de virgem" & outros caracteres móveis
Aquilino Ribeiro: «Obedeceu a moça intimidada, quedando a meio da sala, nua como a mãe a deitou ao mundo, na pudica torção de virgem, surpreendida pelos olhos dum deslavado.» Andam Faunos pelos Bosques (1926) - Ferreira de Castro: «Nos ombros, luzia manta cromática, das que se fabricam em Barroso, e de um lado e outro do bucéfalo dançavam, ao sabor da marcha, as peles compradas nesse dia.» Terra Fria (1934) - Carlos de Oliveira: «Eu, Álvaro Rodrigues Silvestre, comerciante e lavrador no Montouro, freguesia de S. Caetano, concelho de Corgos, juro por minha honra que tenho passado a vida a roubar os homens na terra e a Deus no céu, porque até quando fui mordomo da Senhora do Montouro sobrou um milho das esmolas dos festeiros que despejei nas minhas tulhas» Uma Abelha na Chuva (1953) - José Luís Peixoto: «De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento, hão-de tornar-se pedra.» Nenhum Olhar (2000) - J. Rentes de Carvalho: «Quando cheguei ao apeadeiro o comboio não tinha ainda passado, mas não havia de estar longe, porque o seu arfar e o seu ranger ecoavam pelos montes.» A Amante Holandesa (2003)
domingo, abril 23, 2023
caracteres móveis
«A princípio, esse novo cenário, todo fofo e confortável, perturbava-o; em breve, porém, Soriano se adaptara, que nem por mudar de leito os rios deixam de correr.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950) «Cálido também, despiu a loba, arremessou o cabeção, descalçou os sapatos de fivela e refocilou os amplos pés vermelhos nos propícios chinelos do escarlate mercador de panos.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854) «Marcha! Ele recomeçou o andamento, mas os seus olhos volviam, teimosos, ilegais, à fachada e à praça, como ao horizonte onde se espera que uma terra se defina sob o nevoeiro do litoral.« Ferreira de Castro, A Experiência (1954) «O que eu, sem saber explicá-lo, não compreendia e invejava, não era o que ele queria ser, mas a constância do seu desejo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2002) «O Taveira, com todo o seu génio, era um advogado pobre no fundo de Trás-os-Montes, e o Chouriço, proprietário, ia em primeira classe ouvir Meyerbeer...» Eça de Queirós, A Capital! (póstumo, 1925)
segunda-feira, março 13, 2023
o começo do dia
«A sua primeira tarefa era a ordenha. Tirar o leite a mais de duzentas ovelhas e arrastar para fora da corte os cântaros cheios, é trabalho que estafa um adulto. Para ele, aos onze anos, era o começo do dia. E antes de o sol romper pegava no cajado, deitava o surrão ao ombro, assobiava um silvo de comando e abria a grade.»
«Essa era a vida do Gato, desde o romper do dia até à hora do comboio. Deixava então os rebanhos entregues aos cães, e corria à taberna da aldeia, a buscar o saco do correio. Em seguida, formiga apressada, ia encosta abaixo, encosta acima, até desaparecer do cume que esconde a planura que levava ao apeadeiro.»
«Calado, esforçava-se por encontrar um superlativo, mas incapaz de o descobrir fazia comparações: ser correio era melhor do que ser guarda, melhor que caçador, taberneiro, feirante, sacristão...»
J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)