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sexta-feira, julho 29, 2022

Vasco Gonçalves, a História não se apaga, ou da inevitabilidade de um monumento

A única desculpa que a Direita tem para este ataque de tosse pelo projectado monumento a Vasco Gonçalves, da autoria do grande Siza Vieira, é a circunstância de tratar-se de um protagonista da história recente (tal como Salazar -- cujo centro interpretativo em Santa Comba Dão, enquadrado por historiadores insuspeitos defendo e defenderei). Uma história com feridas recentes, paixões ainda à flor da pele.

Só que... A figura de Vasco Gonçalves agigantou-se de tal forma no tempo em que lhe coube agir -- os dicionários passaram a registar o termo "gonçalvismo" -- que os meses em que governou, nos idos de 1974-1975, acabam por ser um dos períodos mais significativos dum estado e de uma nação a cumprir 900 anos em 2028.

Ainda hoje passei os olhos -- tão em diagonal que só tenho uma vaga ideia do título -- por um textículo do inefável Camilo Lourenço, a luminária que disse algures que a História não interessava para nada... (um retrato deste país básico, iletrado, primário -- parece que tem milhares de seguidores nas "redes"...), que obviamnte se manifestava e tentava condicionar Carlos Moedas -- como, de resto, é o seu direito num país livre.

Só que... (outra vez), isto ultrapassa totalmente Carlos Moedas, os proponenentes e os opositores do que está em causa. Acreditem que daqui a 200 ou 500 anos, os manuais e os livros de História de Portugal irão falar de Vasco Gonçalves e do gonçalvismo -- período charneira e apaixonante que não é para simplismo e para simplórios -- e ninguém irá saber quem foi por exemplo Mota Pinto. Ou Guterres, Ou Durão Barroso. Ou Sócrates. Ou Passos Coelho -- a não ser os eruditos que estudam o período.

 Resumindo: um monumento -- estátua, busto, memorial, o que seja -- a Vasco Gonçalves com o traço de Álvaro Siza Vieira? É como se já lá estivesse, meus caros, agora ou mais adiante. 

segunda-feira, outubro 14, 2013

Paul De Grauwe, ao contrário do homem do caldo entornado, com passagem por Marine Le Pen

Os cadernos de Economia dos jornais provocaram-me sempre um interminável bocejo, só de lhes ler as gordas da primeira página. O seu destino era o caixote do lixo (ou, mais tarde, da reciclagem), normalmente com as páginas por abrir. A crise mudou tudo. Se  a maioria daqueles artigos de opinião persiste intragável -- ou porque escrevem com os pés, os economistas-publicistas; ou porque, além de escreverem com os pés (há excepções; houve excepções: Leonardo Ferraz de Carvalho, por exemplo), não passam, boa parte deles, de debitadores da vulgata que está a deixar a Europa neste lindo estado. (Preparem-se: a Frente Nacional da Marine Le Pen vai ganhar o poder em França -- é uma questão de tempo, pouco -- e depois é que eu gostaria de me rir, se não tivesse todas as razões para chorar...) A coluna de Daniel Bessa, no Expresso, é exemplo dessa conformação baça à ortodoxia do pensamento económico-político dominante.
Não assim com o belga Paul De Grauwe, professor da Universidade Católica de Lovaina e na London School of Economics, na esplêndida coluna "Torre de Marfim", que o mesmo Expresso publica mensalmente, creio. Entre outras coisas, percebe-se que ele não tem mentalidade de funcionário cumpridor sem rasgo, como Vítor Gaspar, e muito menos da sua boca se soltariam cacarejos imbecis  à Camilo Lourenço. Não, De Grauwe é inteligente, é culto e sabe pensar. Vale a pena ler o que Paul Krugman diz a este respeito, num post brilhantemente titulado, nada a ver com os bois que escrevem o economês rarefeito na imprensa.
Na "Torre de Marfim" deste sábado, com clareza meridiana, explica porque é que a imposição da política austeritária a países do sul só servirá para os empobrecer, não resolvendo, pelo contrário, agravando, as respectivas economias: quando os vários países desenvolvem políticas recessivas para controlo do défice, o bloqueio torna-se um facto e um fardo pesado. Se eu e o meu vizinho estamos a poupar mais, nem eu lhe compro nem ele me compra a mim, logo ambos estagnamos ou ambos vamos ao fundo.
De Grauwe é demolidor para com a Comissão Europeia, que acusa de estar ao serviço dos países credores do Norte, em vez de equilibrar a sua acção relativamente a todos os países da Zona Euro. E transcrevo o final da sua crónica: «É tempo de a Comissão  agarrar o seu papel de defensora dos países devedores com o mesmo vigor com que defende os interesses dos credores. [...] As nações devedoras do sul enfrentam hoje um legado de níveis insustentáveis de dívida que continuará a arrastá-las para baixo durante muitos anos, se não décadas. A incapacidade das nações credoras e da Comissão Europeia que as representa de pensarem em termos dos interesses de todo o sistema cairá sobre eles como uma vingança quando os credores tiverem de aceitar a restruturação da dívida dos países do sul da zona euro.»