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quinta-feira, outubro 09, 2025

zonas de conforto

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1925): «Paris, 14/10 // Meu caro Castro, // Como vai isso? Bem? Não sei se já lhe escrevi ou não. Ando arrasado das viagens, hábitos alterados... o diabo. O M. Domingues já veio? / Estou na R. Richer, 26 Pension Home. Se  for necessário qualquer coisa escreva até ao dia 20. / Recomende-me à "Tertúlia". Abraça-o o am.º e camarada / Jaime» Cartas a Ferreira de Castro (2006) - ed. Ricardo António Alves § Vergílio Ferreira: «Fomos a Fontanelas, levámos o Lúcio, de Bolembre. Lúcio cresce, distancia-se. Não decerto no afecto -- no que no-lo marcou como criança. Com ele, também, a fuga do tempo. A casa do Rogério -- o jardim. Súbita melancolia, o espectro do passado, ou seja da morte.» Conta-Corrente 1 (1980) § José Duarte: «Em nome do Pai... / e do Filho... / e de John Coltrane» Cinco Minutos de Jazz (2000) § Machado de Assis: «É  preciso dizer que ele padecia do coração: -- moléstia grave e crônica. Pai José ficou aterrado, quando viu que o incômodo não cedera ao remédio, nem ao repouso, e quis chamar o médico. / -- Para quê? disse o mestre. Isto passa.» «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) § Manuel Tiago: «Mas em todo o seu físico, na rigidez do tronco e no dispor das pernas, nos gestos e olhares, transparecia qualquer coisa que o distinguia de um vulgar lavrador, qualquer coisa de arrogante, ousado e impertinente. Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § José Bacelar: «E pontos de vista todos eles igualmente admissíveis, todos eles dignos de atenção, todos eles justos. Assim, que, na complicada construção dum edifício, o carpinteiro considere tudo sob o ponto de vista da carpintaria, o pedreiro sob o ponto de vista da alvenaria, o pintor sob o ponto de vista da pintura, são realidades contra as quais o espírito livre nada tem que dizer. Nada mais natural -- e nada talvez mais necessário.» Arte, Política e Liberdade (1941) § Fialho de Almeida: «Duma ocasião, sozinho no meu quarto, eu considerava uma rosa branca que emurchecia num copo, tão triste! Disse-lhe assim: "Tu sofres!" Ela curvou-se mais sobre a haste, aquiescendo, e vi-lhe duas lágrimas nas pétalas. Nunca pude saber quem fosse esta mulher.»  O País da Uvas (1893) - «Pelos campos»

segunda-feira, março 10, 2025

por aí


Mário Domingues

 

sexta-feira, fevereiro 09, 2024

vermelho e negro

«Desgraçados os países que caem nos excessos industriais, que consagram aquela teoria política pela qual um governo despreza as necessidades espirituais para só se ocupar dos interesses materiais e positivos!» Eça de Queirós, in Distrito de Évora (1867) / «Hoje para continuares a ser republicano tens que te matricular num partido, tens que te guiar por um programa, tens inevitavelmente que pôr-te em contradição com o teu correligionário de ontem, opondo as tuas ideias às ideias dele -- talvez mesmo a tua browning ao seu revólver.» Manuel Ribeiro, «A um herói da Rotunda», O Sindicalista (1910-11) / «Os governos dum país civilizado, a título de exportarem a civilização, levam-lhes o canhão que os mata e o comércio que os rouba.» Mário Domingues, «Colonização», A Batalha (1919)

Prosas Esquecidas, ed. Alberto Machado da Rosa (1965); ** Na Linha de Fogo (1920) *** A Liberdade não se Concede, Conquista-se. Que a Conquistem os Negros!, ed. António Baião (2023); 

segunda-feira, janeiro 29, 2024

vermelho e negro

«Nenhuma ideia justa -- como nenhuma semente -- se perde; e todas elas vão ter a sua repercussão na consciência geral; essa repercussão, mais cedo ou mais tarde, transforma-se em facto.» Eça de Queirós, «Revista crítica dos jornais», Distrito de Évora (1867) / «Os governos dum país civilizado, a título de exportarem a civilização para os povos selvagens, levam-lhes o canhão que os mata e o comércio que os rouba.» Mário Domingues, «Colonização», A Batalha (1919) / «Rigorosamente não era um sistema de ideias que te determinava, era um feixe de cólera que te galvanizava.» Manuel Ribeiro, «A um herói da Rotunda», O Sindicalista (1911-12)

* Prosas Esquecidas, ed. Alberto Machado da Rosa (1965); ** A Liberdade não se Concede, Conquista-se. Que a Conquistem os Negros!, ed. António Baião (2023); *** Na Linha de Fogo (1920)

terça-feira, janeiro 09, 2024

vermelho e negro

 «Por esse conduto de crimes, toda a rixa acaba numa facada, toda a ambição num furto, toda a carícia numa violação.» Jaime Brasil, «Carta do Povo sobre a loucura do Carnaval», A Batalha (1924)* «Quem quiser compreender profundamente a situação dos negros americanos que repare na analogia tremenda da luta dos pretos espoliados dos seus direitos contra os brancos que lhos negam e a luta dos trabalhadores enganados contra a burguesia que os engana.» Mário Domingues, «Colonização», A Batalha (1919)** «Tu rugias quando a Ordem te maltratava a república nas pessoas sagradas dos seus caudilhos, e o que te levou à Rotunda, hás-de concordar, não foi o programa do partido republicano -- conheceste-lo tu mesmo? -- o que te levou lá foi a ânsia de desagravar uma amante dos ultrajes dum bêbedo.» Manuel Ribeiro, «A um herói da Rotunda», O Sindicalista (1911-12) ***


* Voz que Clama no Deserto (edição de Elisa Areias e Luís Garcia e Silva, 2007)  ** / A Liberdade não se Concede, Conquista- se. Que a Conquistem os Negros!, edição de António Baião (2023) / *** Na Linha de Fogo  Crónicas Subversivas (1920)

terça-feira, dezembro 26, 2023

vermelho e negro

«Enquanto pela triste força dos factos, pela influência da tradição, pela obediência inerte dos espíritos, pelo adormecimento das consciências, pelo amedrontamento das almas, pelas predominâncias estéreis, pela força dos interesses pequenos, pelo afrouxamento dos sentimentos livres, pelo abaixamento moral, por tudo isto, os interesses deste território foram desprezados, os desenvolvimentos impedidos, as livres consciências esmagadas, a acção abafada, as administrações descuradas, todos os elementos fecundos sufocados, um jornal que procure representar o Direito, a Justiça, a Razão, o Princípio, a consciência Moral, não será por certo inútil.» Eça de Queirós, O Distrito de Évora (1867)*«Ex-escravos, lançados em plena evolução da ciência que neste último século tem tomado um desenvolvimento colossal, os negros educaram-se, viram quão iníqua era para eles a sociedade americana, compreenderam os seus direitos, que são iguais aos dos brancos, e enquanto os não alcançarem , os motins não cessarão e o sangue não deixará de correr pelas ruas.» Mário Domingues, «Colonização», A Batalha (1919)** /  «Que tu fosses republicano até o cinco de Outubro vá; mas é lá possível que ames hoje a república como a amavas danes?» Manuel Ribeiro, «A um herói da Rotunda», O Sindicalista (1911-12)***

* Prosas Esquecidas, edição de Alberto Machado da Rosa (1965) ** / A Liberdade não se Concede, Conquista- se.Que a Conquistem os Negros!, edição de António Baião (2023) / *** Na Linha de Fogo  Crónicas Subversivas (1920)

domingo, agosto 27, 2006

Correspondências #57 - Ferreira de Castro a Roberto Nobre

S/c R. Dº Notícias 44-1º
Lisboa 23/3/925
Meu caro Roberto:
Como vai V.? Louvo-lhe a coragem por uma tão grande ausência... Noutra carta e mais de vagar hei-de increpá-lo por isso. V. não tem o direito de afastar-se assim do campo da luta. Enfim, falaremos mais pausadamente para outra vez.
Por agora quero dizer-lhe que só ontem tomei conhecimento da s/ carta para o Assis. Tratei do caso que nos dizia respeito. Falei com Anahory do A.B.C. Ele aceitou a sua colaboração. E parece-me que V. vai ficar -- fica certamente -- como colaborador efectivo e com muito trabalho. Aí vão agora dois trabalhos meus, que V. devolverá com os desenhos o mais depressa possível. (O Julião Quintinha, entrando ontem no meu gabinete, levou-me a interromper esta carta...)
Portanto, como lhe dizia há 24 horas, V. fica como coalborador do A.B.C., a não ser que a fatalidade se coloque de permeio... O Anahory, a quem mostrei o livro pª crianças que V. ilustrou, ficou bem impressionado. Para sossego da sua sensibilidade, devo dizer-lhe que isto não foi devido à minha retórica ou à minha amizade por si -- mas pelo seu próprio valor e pelo Anahory -- cá para nós -- precisar de mais um desenhador... Logo tratarei com ele sobre preços.
Falei também com o Mário Domingues, que está dirigindo a edição da Batalha (diária). Aceita com muito prazer um boneco seu, para os domingos. Exige-se apenas uma condição: que o boneco seja de acordo com o carácter do jornal, é dizer, que seja de crítica a qualquer facto da burguesia. Para isso talvez você se inspirasse lendo a própria Batalha... Legenda e assunto ao seu critério. Pagam quinze escudos por cada desenho. Agrada-lhe Roberto? Eu escuso de dizer que a mim agradava muito que V. principiasse a surgir nos jornais de Lisboa. Quanto ao Suplemento ainda não falei com o Pinto Quartim, que o dirige. Mas estou certo que ele aceitará também a sua colaboração.
Adeus, meu amigo. Escreva-me, mande-me os desenhos do A.B.C. -- depois, v. tratará directamente com o secretário da redacção, que lhe enviará os trabalhos e a «massa» -- e diga-me coisas... Um grande abraço do amigo, que tem que lhe dar uma grande sova por esse isolamento que é quase um renúncia (ou não?)
JM Fereira de Castro
Correspondência (1922-1969)
(edição de Ricardo António Alves)

domingo, outubro 16, 2005

Castro em Vila Franca (5)

Tendo, em parte dos seus livros, o povo como tema, não o povo pitoresco, mas indivíduos pertencentes a determinados grupos sociais desfavorecidos, do emigrante ao seringueiro, da bordadeira ao contrabandista, passando pelo marçano, o pastor ou o operário têxtil, Ferreira de Castro foi o primeiro grande escritor içado do proletariado a operar uma transformação na perspectiva ideológica duma cultura, conseguindo, dessa forma, inscrever o seu nome individual no património literário nacional comum -- o que, convenhamos, não é pequeno feito.
António José Saraiva sustentou que ele «é o primeiro escritor português que não usa gravata.» (Iniciação na Literatura Portuguesa, Mem Martins, p. 158). Isto, que é um altíssimo elogio num país de literatos amanuenses, não significa a ausência de um apuro formal mais do que apropriado à intenção que ele tinha de comunicar-se intensamente. Tal como Régio, ele sentia-se acima de tudo escritor, e via as suas ideias veiculadas pelos livros como formas de servir a arte, e não o contrário... Lembremos as passagens avassaladoras sobre a floresta amazónica em A Selva, as cumeeiras do Barroso em Terra Fria, a tempestade, em A Lã e a Neve, os intensos diálogos interiores em A Curva da Estrada ou em A Missão, a investida dos índios ao acampamento de Nimuendaju em O Instinto Supremo, o primor dos textos memorialísticos, entre outros. Como escreveu Manuel Rodrigues Lapa, na sua clássica Estilística da Língua Portuguesa (4ª ed., Coimbra, p. 124), Castro é «um dos nossos mais elegantes prosadores».
Façamos também aqui um parênteses a propósito de um qualificativo que se tem colado a Ferreira de Castro, que de tão repetido se tornou num lugar-comum. A designação costumeira de «precursor do neo-realismo». No contexto nacional ela é imprecisa e irrelevante. Porque ou há várias maneiras de entender o neo-realismo, em que está sempre subjacente um conflito, um desajustamento social, a luta de classes, uma «tensão de devir», como diria Mario Sacramento, ou o neo-realismo tem de ser visto como a expressão artística de um desígnio político, que é o estar pelo menos de acordo com as posições do PCP sobre os diversos domínios em que a vida se exerce. Num contexto lato, direi, então, que Castro foi talvez o primeiro escritor neo-realista português , e não apenas um precursor; se o entendimento for restritivo, Castro que sendo um comunista libertário, um anarquista kropotkiniano, nunca quis pertencer ao PCP, não é neo-realista, nem precursor do neo-realismo, nem o seu romance A Lã e a Neve, que muitos costumam referir como uma das obras referenciais desta corrente, a começar pelo próprio Álvaro Cunhal, pode, desta forma emparceirar com Fanga, de Alves Redol, ou os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes.
Claro que isto se prende com a matriz ideológica do escritor, essencial para o percebermos, e aos seus livros.
Como disse inicialmente, Castro foi um libertário, um anarquista. O que distingue os anarquistas de outros sectores revolucionários da esquerda é a sua resistência a tudo o que possa restringir a condição livre do ser humano, a única que lhe é natural. E esse tudo manifesta-se nas formas corecivas de organização social, cuja expressão última é o Estado, mas também nas organizações «adjacentes»: igrejas, forças armadas, partidos políticos, tudo enfim, que de alguma forma possa coarctar a expressão da individualidade. Daí que, regra geral, os anarquista se associem por grupos de interesses sócio-profissionais, tendo sido precisamente na área sindical que registaram maior êxito organizativo.
Mas culturalmente também, o anarquismo foi muito forte entre nós, durante a I República. Está ainda por conhecer por dentro o grupo de intelectuais que se exprimia em jornais como o Suplemento Literário Ilustrado do diário A Batalha, a revista Renovação e também o histórico semanário O Diabo, escrito e dirigido pelos anarquistas do grupo de Ferreira de Castro: Julião Quintinha, Jaime Brasil, Assis Esperança, Roberto Nobre, Mário Domingues, Nogueira de Brito, Pinto Quartim e vários outros.
(continua)


(rectificado em 18-X-2005)