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segunda-feira, fevereiro 23, 2026

o que dirá a História destes quatro anos da Guerra da Ucrânia

Haverá questões sempre susceptíveis de debate, como "O que é a Ucrânia?"; ou os temas operacionais estratégicos e tácticos: do erro de cálculo e excesso de confiança da Rússia no início da Operação Militar Especial, que rapidamente degenerou em guerra, ao envolvimento no teatro de operações de países terceiros. 

O que a História dirá é que esta é mais uma das várias guerras iniciadas sob falsos pretextos, mas que nunca com até aqui houvera uma avalanche de propaganda e desinformação sobre as opiniões públicas ocidentais, nomeadamente europeias, para convencê-las da necessidade do desvio de recursos para "ajudar a Ucrânia" -- e também de tropas, se preciso for --, numa guerra de desgaste que os Estados Unidos decidiram mover à Rússia, usando a população da Ucrânia, e estribando-se no acirrar do nacionalismo radical e neo-nazi local.

Uma guerra que devastou um país, comprometeu o seu futuro próximo, alegadamente liderado por um humorista judeu de língua russa, que se fez eleger presidente assegurando que iria resolver os diferendos com o país vizinho. Muitos dos que enganou e lhe deram o seu voto, estão agora mortos; outros deixaram de ter a nacionalidade ucraniana: ou são russos, ou estão espalhados pelo resto da Europa. O estado do país é catastrófico, a perda de vidas humanas, a troco de nada, ou pior ainda: a troco de menos, é e será insuportável.

A União Europeia pôs-se ao serviço da anterior administração dos Estados Unidos, herdando agora o problema, depois de a política em Washington mudar. Ainda não se sabe o que irá acontecer à UE. mas a sua fraqueza e desunião nunca foram tão visíveis como hoje. Que UE teremos no fim da década? Ainda haverá UE?

O testemunho da chusma de nulidades jornalísticas e académicos medíocres que cobriram este conflito será utilíssimo, quando alguém no futuro vier a elaborar sobre O que foi e o que não foi a Guerra da Ucrânia.

quarta-feira, dezembro 10, 2025

a vantagem de Gouveia e Melo relativamente aos seus dois concorrentes directos, Marques Mendes e Seguro

Eu vou partir do princípio de que os candidatos são honestos, e também patriotas. Num momento em que a ameaça da guerra espreita, essa honestidade e esse patriotismo importam -- mas também, tanto quanto estas qualidades, a noção da História de Portugal e de como, mercê de muitas contingências, iremos, daqui a uns meros três anos, assinalar os 900 anos de independência, no aniversário da Batalha de São Mamede, na qual D. Afonso Henriques fundou uma dinastia, um país e uma futura nação, a partir de povos de diferentes etnias: celtas, romanos, germânicos, berberes, árabes e por aí fora. Estivemos para soçobrar mais de uma vez, mas persistimos -- pela língua e pela cultura, em primeiro lugar; pela religião, também; e pela Coroa nos primeiros séculos, e o Estado a seguir. 

Portugal não resiste sem a língua e sem a cultura, mas precisa, sempre precisou, de uma visão estratégica -- e agora cada vez mais, não apenas por razões militares mas pelo progressivo domínio de um sistema financeiro transnacional que tudo subjuga -- da Economia (das sociedades, portanto) ao indivíduo.

A visão estratégica de Gouveia e Melo é incomparavelmente mais sofisticada e informada que a de Mendes e Seguro -- pelo menos é o que se retira das banalidades que têm dito. A crítica ontem, expendida pelo almirante, à lista de compras do Governo em matéria de defesa não poderia ter sido mais certeira. Onde está o Conceito Estratégico de Defesa Nacional, como já aqui perguntei, a propósito doutras eleições? Está arrumado a um canto; por isso, comprar armamento agora é, como disse o candidato, começar a "construir a casa pelo telhado". 

É isto que o distingue dos outros; o que fará com essa distinção se for eleito, não sei.


domingo, abril 06, 2025

os debates da pré-campanha e o Conceito Estratégico de Defesa Nacional

Estamos num momento raro em que a realidade se altera diante dos nossos olhos e em que tudo pode estar em causa, incluindo as próprias Nato e União Europeia. Sobreviverão? Não sabemos. E se sim, de que forma, com que relevância?

O Conceito Estratégico de Defesa Nacional, cuja última revisão data de 2013, está datado e desactualizado. Mas há duas coisas que não mudam: a Geografia, mais ou menos desde a Pangeia -- estaremos sempre no extremo ocidental do continente euro-asiático, na Península Ibérica, virados para o Oceano Atlântico --; e a História, o que passou e nos deixou vínculos extra-europeus, sem os quais a nossa identidade não se completa. Eu sou mais português quando me relaciono com angolanos, brasileiros, moçambicanos, caboverdianos, etc. e Portugal, que afirmou a sua independência em 1128, e é estado, nação, língua, cultura -- e parece querer continuar a sê-lo -- é muito mais pequeno sem esse vínculos que se organizam em torno da CPLP. Esta é tão importante para nós quanto a União Europeia -- pois se há coisa que também somos -- muito antigos e decisivos na história do Velho Continente --, se há coisa que também somos e nunca deixaremos de ser, é europeus.

Mas não basta querer, é preciso saber e poder. Por isso, numa situação tão volátil e incerta, nestes debates deve ser perguntado aos líderes partidários de que modo concebem a independência de Portugal no actual quadro e que fazer no caso de uma desagregação das organizações que integramos, nomeadamente UE e Nato.

É evidente que o país tem problemas gravíssimos -- mas nenhum interpelará tanto o país como o que se pode estar a desenhar. Portugal tem interesses permanentes, entre a Europa e o Atlântico. O que têm os líderes políticos a dizer? E que perguntas têm os jornalistas a fazer? É o que veremos, a partir desta segunda-feira nos debates.


terça-feira, fevereiro 25, 2025

atrasos de vida

Desde o início da guerra entre os EUA e a Rússia na Ucrânia que muito se tem falado em Munique '38 e o nefasto apaziguamento de Hitler, que se verificava já pelo menos desde 1936, com a reocupação do Ruhr. A equiparação é fácil de entender, Putin o novo Hitler, e, claro, associando-lhe características idiossincráticas e ideológicas do estafermo austríaco: insânia, espaço vital, superioridade rácica e todo o folclore, para sugestionar simplórios. Que pivôs feitos jornalistas à pressão ou uns quantos pobres de Cristo do direito ou das relações internacionais o digam, ao fim de três anos de estupidez começa a ser tradicional; que historiadores de meia-tigela venham com comparações fáceis mas erradas, é uma nódoa de que não poderão limpar-se. 

(Lembram-me outros historiadores que no seu activismo se esqueceram de que o eram,  contestando a palavra/expressão Descobrimentos para designar uma parte fundamental das navegações e expansão portuguesas. Que estúpidos...)

Mas... -- há sempre um mas. Se enquanto vigorar a Nato, um ataque, por exemplo, aos países do Báltico ou à Polónia seria suicidário (e para quê, o ataque?...), não se segue que, no momento, presente Estónia, Letónia e Lituânia, com uma forte minoria de nacionais russos entre a sua população (num dos países, quase chega aos 50%), não devam ter em atenção o tipo de política que a estes é dirigida, e não fazer como na Ucrânia, perseguição, proibição, massacre até -- sem dúvida o que levou as autoridades russas a falarem com merecido desprezo da necessidade de desnazificação. (Também há para lá nazis, embora os propagandistas de cá digam que não). 

Ontem ouvi o major-general Agostinho Costa referir-se a este pormaior; e seria bom que estes mini-estados resistissem à tentação fácil. Se é a guerra que eles querem -- como se fartam de gritar -- começá-la será facílimo. Imitem a Ucrânia. Destas provocações, sim, é preciso ter medo. 

segunda-feira, abril 29, 2024

indemnizações, um problema mal posto

Se vierem dizer-me que Portugal deverá reparar Angola, Guiné e Moçambique pela Guerra Colonial, matança levada a cabo entre 1961 e 1974 -- a começar pela dos próprios portugueses criminosamente arrebanhados como carne para canhão --, serei o primeiro concordar. Um crime é um crime, é um crime e é um crime, terá de haver sempre uma reparação. A este crime junto outro, ainda mais obsceno: a figura do "contrato", praticado em relação a angolanos que iam trabalhar para São Tomé e Príncipe, que, no fundo não era mais do que escravatura disfarçada em pleno século XX.

Quanto à escravatura e tráfico negreiro que praticámos com diligência entre os século XV e XIX, trata-se de uma idiotice propor indemnizações. Indemnizar quem? E quem indemniza? Portugal? E os povos africanos que negociavam com os portugueses esse torpe comércio? E o estado brasileiro, que teria de estar na primeira linha do ressarcimento, no caso de haver lugar? O esplendor do wokismo analgabeto.

O assunto interessa-me como historiador; e, já agora, como particular. Sou bisneto de uma mulata brasileira, logo, de origem escrava. Digam-me lá então qual é o pecúlio que me cabe. 

segunda-feira, abril 17, 2023

150 portugueses: 2. Egas Moniz (c. 1080-1146)

Para um futuro blogue. Rico-homem da Casa de Ribadouro, um dos grandes magnatas de Entre-Douro-e-Minho, que sustentaram a criação do reino. Crê-se que filho de Monio Ermiges e Ouroana. Foi o aio do jovem Afonso Henriques, por disposição do Conde D. Henrique, seu pai, e mais tarde mordomo-mor do reino. Por isso, de todos os nobres portucalenses, foi o que perdurou no imaginário da comunidade, muito por causa do episódio em que, num cerco a Guimarães pelas forças de Afonso VII de Leão e Castela, empenhou a palavra garantindo que Afonso Henriques lhe prestaria vassalagem, o que nunca sucedeu, cumprindo o velho aio, depositando com toda a sua prole o seu destino nas mãos do imperador. Este episódio, para alguns lendário, foi considerado «verosímil» por Oliveira Marques no respectivo verbete do Dicionário de História de Portugal, reforçado pelo facto de a mesma narrativa constar dos baixos-relevos do túmulo deste guerreiro-político.
Pressupostos aqui e aqui.

sexta-feira, abril 07, 2023

rei, estado, mar, língua e literatura -- ou o quê, quem e como se fez o povo português

É curioso verificar que o povo português é uma criação do país chamado Portugal. Ao contrário do que sucedeu com outros, que ajustaram etnia e território, os indivíduos que coabitaram no rectângulo, muito heterogéneo étnica e morfologicamente, entre o Atlântico e o Mediterrâneo (Orlando Ribeiro), que veio a chamar-se Portugal, cooperando e/ou guerreando-se eram, sucessiva ou simultaneamente, iberos, celtas, romanos, germânicos suevos e visigodos, berberes, árabes, judeus... Como escreve algures José Mattoso, portugueses designava, na Idade Média quando o reino se constituiu, os súbditos do rei de Portugal.

Não oferece dúvidas, porém, a efectiva e significante (embora actualmente nada pujante, também por inépcia dos múltiplos desgovernos) existência de um povo português, forjado ao longo dos séculos habitando maioritariamente no continente europeu num território cuja primeira parcela, até Coimbra, se tornou de facto independente desde há 900 anos, que se cumprirão daqui a um lustro, em 2028.

Este povo, que antes não existia, deve o facto de ser uma realidade não despicienda, apesar de tudo, no mundo global em que vivemos, a dois factores: a criação do estado e a codificação da língua portuguesa, não apenas como veículo, mas como arte. E a perenidade que parece ter alcançado, permitindo-lhe chegar ao milénio (espera-se, pois em História nada é imutável; e chegando lá, em que condições?...), assentou no(s) rei(s) e no exército que lhe assegurou a independência; a localização atlântica, cativando-o para um empreendimento a que não é errado caracterizar como gesta (termo usado como substantivo e não adjectivo), nas suas glórias e misérias, traduzindo-se na expansão extracontinental e na descoberta de territórios, povos e geografias insuspeitados, que tornando a tal perenidade de memória inapagável e irremovível enquanto a humanidade existir. São os séculos XV e XVI, de Henrique o Navegador e Gil Eanes, a Afonso de Albuquerque, "o Leão dos Mares" e Fernão Mendes Pinto.

Finalmente, a língua, vinda do latim e separando-se do galego pela conjuntura politica, património e identidade, que se espalhou; e através da língua, a literatura, em especial a poesia. Se nas restantes artes, não nos podemos equiparar aos grande países -- embora nomes respeitáveis não faltem, da pintura à música, na literatura só há um Camões e um só Fernando Pessoa; e em torno deles, um acervo gigantesco de literatura, dos trovadores medievais aos prosadores dos séculos XIX e XX.

O povo português, que antes de existir Portugal não existia ele próprio, é o resultado miscigenado de tudo isto.

terça-feira, abril 04, 2023

os indivíduos na História

 Uma historiografia da qual os indivíduos estão ausentes, não me interessa para nada. Se a história apologética ou mitográfica das grandes figuras já foi ultrapassada há um século, não menos falha se mostrou a historiografia que varreu o indivíduo das estruturas. O menosprezo do papel do indivíduo da história de há muito que que se revelou insuficientíssimo para a tentativa de ler o passado. A fundação de Portugal nunca se perceberia sem a figura de Afonso Henriques, primus inter pares entre a nobreza de Entre Douro e Minho, tal como Luís XIV e Versalhes não são explicáveis sem a Fronda e os passos do jovem rei nela. Nem os Descobrimentos são entendíveis sem o ouro  e a .

sexta-feira, setembro 23, 2022

sexta-feira, julho 29, 2022

Vasco Gonçalves, a História não se apaga, ou da inevitabilidade de um monumento

A única desculpa que a Direita tem para este ataque de tosse pelo projectado monumento a Vasco Gonçalves, da autoria do grande Siza Vieira, é a circunstância de tratar-se de um protagonista da história recente (tal como Salazar -- cujo centro interpretativo em Santa Comba Dão, enquadrado por historiadores insuspeitos defendo e defenderei). Uma história com feridas recentes, paixões ainda à flor da pele.

Só que... A figura de Vasco Gonçalves agigantou-se de tal forma no tempo em que lhe coube agir -- os dicionários passaram a registar o termo "gonçalvismo" -- que os meses em que governou, nos idos de 1974-1975, acabam por ser um dos períodos mais significativos dum estado e de uma nação a cumprir 900 anos em 2028.

Ainda hoje passei os olhos -- tão em diagonal que só tenho uma vaga ideia do título -- por um textículo do inefável Camilo Lourenço, a luminária que disse algures que a História não interessava para nada... (um retrato deste país básico, iletrado, primário -- parece que tem milhares de seguidores nas "redes"...), que obviamnte se manifestava e tentava condicionar Carlos Moedas -- como, de resto, é o seu direito num país livre.

Só que... (outra vez), isto ultrapassa totalmente Carlos Moedas, os proponenentes e os opositores do que está em causa. Acreditem que daqui a 200 ou 500 anos, os manuais e os livros de História de Portugal irão falar de Vasco Gonçalves e do gonçalvismo -- período charneira e apaixonante que não é para simplismo e para simplórios -- e ninguém irá saber quem foi por exemplo Mota Pinto. Ou Guterres, Ou Durão Barroso. Ou Sócrates. Ou Passos Coelho -- a não ser os eruditos que estudam o período.

 Resumindo: um monumento -- estátua, busto, memorial, o que seja -- a Vasco Gonçalves com o traço de Álvaro Siza Vieira? É como se já lá estivesse, meus caros, agora ou mais adiante. 

domingo, março 13, 2022

a historiografia woke

 Ocupado com esta miséria da Ucrânia, quase não penso em mais nada. No entanto, acabado de ler este post do historiador João Pedro Marques (o título do blogue é um dos filmes da minha vida), deixo aqui o link, como homenagem à liberdade de pensar e ao prazer de o pôr por escrito.

segunda-feira, fevereiro 22, 2021

barbarismos

(Até me custa comentar isto, dada a insignificância. Vale tudo para cair  nas bocas do mundo, não é?...)

Num artigo leviano e mal pensado , de quem detém um mestrado em Gestão e um vasto currículo em cargos públicos mas que de História não sabe nada, comecemos pela expressão hedionda "mamarracho", normalmente uma observação bárbara de ignorância de boi frente a um palácio. É muito comum ser utilizada pela vox populi quando surge no espaço público um edifício arquitectonicamente disruptivo (passe a palavra medonha), que, obviamente, depois de a ele se acostumar passará a defendê-lo com unhas e dentes. 

Ora, o mamarracho  de Ascenso Simões, o Padrão dos Descobrimentos, cujo friso de personagens é absolutamente extraordinário (é preciso não ter a mínima noção de nada e/ou andar desesperado por ser falado), apresenta a particularidade de ter autores, a saber: Cottinelli Telmo e Leopoldo de Almeida; a direcção dos trabalhos e o interior coube a Pardal Monteiro e a envolvente a Cristino da Silva; entre os responsáveis pela estrutura esteve o grande engenheiro Edgar Cardoso. Além de apagar a memória histórica, Ascenso quer deitar para o lixo as obras de cinco artistas portugueses do século XX. 

Depois dos disparates contestando um pretenso Museu dos Descobrimentos, em abaixo-assinado por activistas disfarçados de historiadores, idiotas úteis e alguns ingénuos, e na sequência da importação saloia do conceito de racismo sistémico, que faz todo o sentido nos Estados Unidos, mas não cá -- onde, repetindo-me à exaustão não há racismo sistémico nenhum para com a comunidade negra (ao contrário do que se passa com os ciganos), mas um "racismo" classista incidindo sobre quem é pobre; e se há tantos negros pobres é porque estamos a falar sobretudo de imigrantes -- havíamos de chegar aqui, e acredito que ainda não vimos a estupidez toda. Um dos nossos grandes defeitos e problemas é o complexo de inferioridade provinciano que nos leva a querer estar sempre no pelotão da frente de tudo, quando ainda estamos na cauda em tanta coisa.

E volta ainda à carga com o alegado museu do Salazar, fazendo tábua rasa de quem está à frente do projecto e da necessidade histórica de se confrontar o passado; o que ele parece querer defender no artigo, mas porque não percebe nada do que está a falar e lhe dá jeito ser populista, está-se nas tintas para o caso.

Gosto sempre de falar das minhas origens afro, a minha bisavó Ida, brasileira mulata, que vivia na Baixa durante a República, e para salvaguardar casa e família daquilo a que chamavam "revoluções", mandava hastear a bandeira brasileira na fachada e assim ver-se livre de apuros. Tenho numa estante uma estatueta de um escravo, que me faz lembrar o negro Tiago de A Selva, do Ferreira de Castro, e em homenagem a esses meus ancestrais que foram escravizados.

Para Lisboa ser decente, ao contrário do que defende o deputado, não é remover a História, mas sim tê-la por inteira. Faça-se um monumento aos escravos, um memorial, como se fez aos judeus perseguidos, e aí sim, seremos uma capital mais decente.

domingo, novembro 10, 2019

comunismo e nazismo, uma equiparação idiota, ou o Gulag não é Auschwitz

O tema já tem semanas, mas este post de Jorge Carreira Maia, em que faz muito bem o distinguo entre nazismo e comunismo, levou-me a alinhavar o que segue, na esteira do que ali ficou escrito.

Uma cabazada de eurodeputados maioritariamente de países do antigo Pacto de Varsóvia, e que hoje tão válidas lições de democracia e direitos humanos nos dão, esmagadoramente pertencentes aos grupos conservadores, com meia dúzia de liberais e quatro socialistas, entre os quais uma luminária do PS, subscreveram uma moção, aprovada por esmagadora maioria, que o nazismo / fascismo e o comunismo eram equiparáveis. (Está aqui o pastelão, para quem tiver pachorra; eu não tive, fio-me na imprensa.)

Há ali uma compreensível motivação de ajuste de contas com o passado recente e ressentimento por parte dos países que foram ocupados pelos soviéticos, boa parte deles, de resto, aliados da Alemanha nazi, o que não justifica essa ocupação disfarçada, é claro, e muito menos o esmagamento da insurreição húngara de 1956 ou da Primavera de Praga, liderada pelo eslovaco Alexander Dubceck, um dos meus heróis, secretário-geral do PC checoslovaco, e que bem caro pagou a coragem e audácia à mão dos apparatchiks do Partido.

Então, por que razão comparar nazismo e comunismo é duma estupidez crassa? Não matou o comunismo ainda mais gente que o nazismo? Sim, tal não me oferece dúvidas, atendendo ao tempo que se mantiveram no poder, do sátrapa Stálin (nem falo do megalómano Mao, no psicopata do Pol Pot ou na monarquia comunista norte-coreana, pois são realidades um bocado chinesas para nós -- não os percebemos...). Não foram (e são) o comunismo soviético um monstruoso embuste, que caiu de podre como a URSS e satélites? Sim, o comunismo soviético foi uma vergonha e um embaraço para qualquer pessoa intelectualmente honesta.

No entanto, ah, no entanto, aqui vai o diabo do pormenor: as palavras têm peso e correspondem a ideias. Na esteira do que bem escreveu Jorge Carreira Maia, em especial no segundo parágrafo, o factor da irracionalidade do nazismo, faz com que o mal seja assumido sem ambiguidade, na desumanização dos não-(ditos)arianos; enquanto que, o lastro racionalista do marxismo-leninismo, filho do iluminismo, nunca poderá acomodar qualquer espécie de opressão étnica, nem tal pode ser admitido, sob pena de autodesclassificação, mesmo quando episodicamente o tenham feito, no tempo de Stálin, sob pretextos fantasiosos (a chamada "conspiração judaica" e outras paranóias do Zé dos Bigodes).

Que são ambos regimes totalitários, é indesmentível; que um aponta para o Céu e outro para o Inferno (para os sub-homens, não "arianos"), é-o também. Não há que admirar: o marxismo-leninismo, ao tornar os cidadãos funcionários e dependentes do Estado, criou de imediato as condições para que o sistema criasse entropias que estão na base da sua futura desagregação, que só não se deu mais cedo graças à criação dum estado policial e perversamente repressivo -- a negação e repressão da liberdade como instrumento de manutenção do poder. Dessa funcionalização surgiu o que é previsível e surge sempre nestas circunstâncias: os carreiristas, os oportunistas, os desavergonhados e os alienados inofensivos completamente inseridos no sistema, que viviam a sua vida e achavam que era assim e teria de ser assim para todo o sempre. A RDA, no seu desmoronamento de há trinta anos aí está para comprovar isso e o seu contrário: andava o Muro a cair e ainda havia polícias e burocratas a tentar parar o vento com as mãos. No entanto, prometendo sempre o Sol e as bem-aventuranças neste mundo.

(Claro que no comunismo houve e há muita gente de bem; mas a sua adesão a esse ideário é do domínio da, não do racional; mas, que diabo!, não há gente a  acreditar na existência de "Deus", na imortalidade da alma e coisas assim?...)

Uma subtileza, pois, que não interessa nada, aqui no rectângulo, à direita democrática com reserva mental, saudosa do salazarismo e que à boca pequena execra a abrilada, como carinhosamente chama ao 25 de Abril, nem perdoa a descolonização, além de tudo o que cheira a esquerda (ainda ontem vi um pacóvio a torcer-se todo por causa da libertação do Lula e com vergonha de defender o Bolsonaro, que só sabe contar até 9).

Subtileza que de facto o não é; que entra pelos olhos dentro de qualquer pessoa com informação suficiente e tenha por hábito pensar, a diferença abissal entre comunismo (mesmo que soviético, pois há outros) e nazismo; e que chateia ver o PS embarcar em tão más companhias, por desleixo ou estupidez, não interessa. 

Por muito que lhes custe, e, principalmente, por muito que tenha custado ás vítimas, o Gulag não é Auschwitz; há toda uma diferença de escala na maldade e na perversidade, cuja avaliação nunca poderá ser quantitativa. Qualquer pessoa de boa-fé e com dois dedos de testa percebe isso. Quem não percebeu foram as criaturas que votaram a equiparação da pêra rocha com a pirite alentejana. Um mistela intelectual que me lembra uns turistas chineses no restaurante em que costumo almoçar, que misturam azeitonas na mousse de chocolate.

sábado, agosto 24, 2019

um elogio (e não é por causa do Salazar, embora também por isso o mereça) à Câmara de Santa Comba Dão

A pintura à esquerda integra um conjunto de seis grandes telas da autoria do enorme Columbano Bordalo Pinheiro, muitas vezes vislumbradas nos telejornais, pois está nos Passos Perdidos, na Assembleia da República, Da esquerda para a direita: Mouzinho da Silveira, Duque de Palmela, Duque de Saldanha e José da Silva Carvalho. Este, que também é natural de Santa Comba Dão, fundador do Sinédrio e um dos líderes políticos da Revolução de 1820, foi, em minha opinião, bastante mais importante para a História de Portugal do que Salazar. E a Câmara local está a celebrá-lo, culminando, no próximo ano com o bicentenário do vintismo, a mais transcendente revolução da nossa contemporaneidade, e de que o 25 de Abril representa uma espécie corolário. Um exemplo, pois, que deveria ser seguido -- o que talvez seja esperar demasiado dum país sem política cultural.

quinta-feira, agosto 22, 2019

que fazer com o Salazar? (com adenda)

O Salazar só me lembra coisas que detesto: primeiro, a manha da conservação do poder; depois: pobreza, pide, missas, bufos, censura, colonialismo e atraso, moral e mental, do povo, que ainda estamos a pagar. 
Museu sobre Salazar em Santa Comba Dão? Um museu tem critérios. Se eles se verificarem -- existem regulamentos para tal. Não faço ideia dos critérios da câmara do sítio, para além do centro interpretativo (palavras da moda, como curadoria e outras). Espero que haja massa crítica para que aquilo não seja um santuário, com venda de pagelas bentas do santinho, nem redunde na mostra do penico do Salazar numa caixa acrílica -- mas nunca se sabe.  Tem bom remédio, porém: vá à universidade, Coimbra, ali perto, ou outra, e se quer fazer coisa séria, convide-a para parceira no delinear de um projecto e coordenação, e com isso mata o assunto.
Goste-se ou não, o Salazar governou este país durante quarenta anos. Foi, portanto, um dos homens que mais o influenciou, em quase nove séculos, que é o tempo que já levamos disto. A sua terra lembrá-lo -- agora, ontem, daqui a vinte anos -- é uma inevitabilidade, e pode fazê-lo bem, criticamente, ou não. Mas nesse caso já não será um museu. O que sempre me irrita são os activistas do costume (ponho de lado os antigos presos políticos) disfarçados de historiadores e cientistas sociais (oh...) a descabelarem-se em abaixo-assinados no facebook, tudo tão pequeninamente miserável e reles...

Adenda: entretanto fiquei a saber - e já poderia sabê-lo se tivesse consultado o sítio da CM de Santa Comba Dão, que o projecto está a ser coordenado pelo Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da U. Coimbra, o que assegura toda a fiabilidade do projecto. Parabéns, pois, à CMSCD.

Adenda 2: esta conversa liga-se à "Questão dos Descobrimentos", em que mais uma vez se mostra  a farsa intelectual veiculada por ideólogos travestidos de historiadores e afins.

quinta-feira, junho 06, 2019

quarta-feira, março 13, 2019

Fernão de Magalhães, Cristiano Ronaldo, o «Bartoon» -- ou de como uma coisa é História e historiografia, outra a ideologia







O melhor comentário que vi sobre a falsa questão da viagem de Fernão de Magalhães foi o cartoon de Luís Afonso no Público de anteontem. O humor sempre foi a melhor forma de lidar com a estupidez. No entanto, mais do que estupidez, trata-se de uma contaminação ideológica de nacionalismo, sempre aldrabão, complexado e perigoso. Desta vez a aldrabice é nacionalista (tresanda a franquismo esta  españolidad ); outras vezes é alegadamente progressista, como sucedeu com o debate sobre os Descobrimentos, outra vigarice intelectualmente desonesta, como na altura caracterizei;
Ao contrário do que diz lugar-comum, a historiografia não é uma ciência, embora não dispense o recurso às ciências. Mas o facto de ser uma disciplina do domínio das humanidades, não significa que se possa  impunemente sacrificá-la às ideologias do momento; porque, repetindo-me, não se trata já da História, mas activismo, seja ele benéfico, como o combate ao racismo ou ao imperialismo, seja pernicioso, como sucede com os nacionalismos; e a História não se compadece com as paixões conjunturais; está lá sempre com o seu peso, para nos interpelar.

sábado, setembro 08, 2018

de novo os Descobrimentos, e acabando com a questão

Durante as minhas férias, Luís Filipe Thomaz publicou um artigo sobre a questão dos Descobrimentos. Como escrevera que era a sua visão do problema a que me interessava, deixo aqui o registo. 

Historiador, e não um sócio-coiso em estudos pós-coloniais -- não devo errar se disser tratar-se do maior historiador português vivo daquele período. Aliás, basta comparar o seu texto com a indigência pateta do abaixo-assinado, ou lá o que é, para ver a desproporção da qualidade e a diferente natureza de entre historiografia e activismo.

Repito que não me pronuncio sobre a pertinência de um museu (mas digo já que não sou a favor, e estou, neste particular, mais próximo da posição de João Paulo Oliveira e Costa), mas apenas sobre o acerto da palavra Descobrimentos, que remeto para aqui, verificando, com agrado, que temos posições semelhantes quanto ao fundo da questão, ressalvando as óbvias distâncias do cabedal de cada um no que respeita à História da Expansão e Descobrimentos Portugueses.

Mais do que o atrevimento da ignorância, irrita-me o sectarismo ideológico e pior, a glossolalia impostora, a vassalagem aos bonzos e o espírito de manada. 

segunda-feira, julho 16, 2018

ainda os Descobrimentos: os historiadores, os activistas e os outros

Só historiadores dum tempo relativamente longo e complexo, que compreende os séculos XIV, XV e XVI, estão habilitados a aspirar ver todo o quadro em que se processou a navegação e conquista dos portugueses, ou seja o que designamos por Descobrimentos e Expansão; são os que põem as mãos na massa dos arquivos, dos documentos, dos livros quem tem em cima da mesa as questões políticas, económicas, sociais, culturais, mentais, científicas, geopolíticas, e por aí fora. O resto é opinião.

Sobre a questão interessa-me saber o que pensa, por exemplo, Luís Filipe Thomaz (não sei se já se pronunciou sobre o assunto); já o que defende Fernando Rosas (que, aliás, fez um extraordinário programa sobre o colonialismo português, que elogiei aqui), é, para o caso, irrelevante.

Uma das tácticas dos activistas consiste em amalgamar os que se opõem ou manifestam reservas à eliminação da palavra Descobrimentos naquele período histórico como um conjunto de indivíduos que têm uma visão glorificadora da História. Daí à sugestão subliminar de nacionalismo ou protofascismo vai um passo. Ora bem, é preciso desmontar essa vigarice intelectual

A historiografia não se compadece com activismo, para o qual, o rigor é um detalhe. Por isso a embrulhada a que recorrem, uns propositadamente, outros por psitacismo, trazendo à liça o império colonial e outros anacronismos e distorções.

No fundo, trata-se de um debate desigual: por um lado, os que pensam a História; do outro, as palavras-de-ordem, a ideologia, as estruturas mentais semelhantes àqueles que procuram censurar ou reescrever os livros do Mark Twain, nos Estados Unidos, ou do Monteiro Lobato, no Brasil. Em suma, o politicamente correcto, designação que tanto os irrita.

(Acrescentando ao que já escrevi):

quinta-feira, maio 24, 2018

Descobrimentos Portugueses: o #metoo da historiografia

«Museu das Descobertas». A designação é obviamente simplória. Não pelas razões que aduzem aqueles que sacrificam ao politicamente correcto, como pela pobreza do conceito para caracterizar um complexo movimento político, social, económico, cultural, religioso, científico por detrás da expansão e dos descobrimentos portugueses. A ideia, aliás, inscrita em programa eleitoral, tem todos os contornos dum típico coelho tirado da cartola da politquice barata, para efeitos de pirotecnia de campanha, sem cuidar do como e do porquê.

Costumo dizer que graças aos Descobrimentos e à Expansão, os portugueses  garantiram a sua presença na história da Humanidade; somos uma espécie de fenícios dos tempos modernos, quando poderíamos ficar-nos pela dimensão duns quaisquer túrdulos da cultura castreja... Não vou, porém, falar da pertinência ou da oportunidade da criação de uma grande museu dos descobrimentos, quando o património cultural do país está na miséria que se sabe. Para já, interessa-me a questão levantada em torno do nome.

A discussão e o debate de ideias é sempre excelente, porém, quando, a coberto duma cientificidade de analfabetos se pretende distorcer a História, não me apetece ter grande contemplações para um texto  indigente, assinado por algumas figuras estimáveis. Felizmente, não tenho vocação de discípulo nem gosto de rebanhos. E, nessa perspectiva, também não me deixarei condicionar pelos arremedos autoritários, para não escrever 'totalitários', que lançam o labéu de fascistas ou fascizantes àqueles que deploram um embuste e um esquema mental que dá origem a idiotices como esta.

Em primeiro lugar, a haver um museu com esta temática, o seu interesse para a comunidade só se justifica se partir duma perspectiva portuguesa; caso contrário, é melhor tratar do merchadising com os americanos e pô-los a fazer uma espécie de Disneylândia inspirada nos tempos do Gama e do Albuquerque. Por que diabo um museu português não deveria ter uma perspectiva portuguesa, integrando numa visão planetária, essa mesma que contribuíram decisivamente para alcançar, gostemos ou não? Claro que uma abordagem objectiva e sem patriotinheirices, sem escamotear o horror, a pilhagem, o domínio, o tráfico de escravos -- actividade que nos distinguiu durante demasiado tempo. De resto, como é que depois de Vitorino Magalhães Godinho, de Luís de Albuquerque, de tantos historiadores, portugueses e estrangeiros, que se debruçaram sobre aqueles séculos de história portuguesa, se admite que doutra forma pudesse ser? Falamos de museu ou dum evento, entre os jogos-sem-fronteiras e o festival-da-canção?...

Ao contrário dos que escrevem os guardiões do moralismo anacrónico, a palavra não "cristaliza uma incorrecção histórica", pelo contrário. Houve, de facto, descoberta de territórios desabitados, desconhecidos de toda a Humanidade; tal como aconteceu o desvendar de rotas nunca por outros singradas; e o evidente descobrimento de um mundo mais amplo que rompia com uma percepção que remontava à Antiguidade. Se isto não é descobrimento é o quê, então? E não deve este pioneirismo ser conhecido da comunidade portuguesa, sem a basófia antihistórica dos manuais da República e do Estado Novo? 

É verdade que os outros povos não foram "descobertos", por isso se recorre, com razão, ao acoplamento da palavra "Expansão". Ao contrário dos "Descobrimentos",  que remontam à Idade Média (as "Navegações", em bom rigor, recuam ao Neolítico...), o movimento expansionista e imperial português tem uma data delimitada e uma ocorrência definida: 1415, ano da conquista de Ceuta (e mesmo assim com algumas raízes político-económicas que não há espaço para abordar). A partir daqui Expansão e Descobrimentos são duas faces duma mesma moeda. E nela está inscrita o colonialismo português, particularmente vil, cuja libertação se deveu aos povos colonizados e aos seus movimentos de libertação: PAIGC, MPLA, FRELIMO, movimentos tão de libertação que até contribuíram decisivamente para libertar os portugueses.

Obliterar a noção de descoberta não é só uma parvoíce, como a tentativa, de resto inglória, de rasurar da História um processo que nos identifica como comunidade, com um lastro cultural avassalador (como se lê e vê e sente nestes versos da Sophia de Mello Breyner Andresen e do António Pedro) ; uma espécie de #metoo da historiografia, em nome dos bons sentimentos. Ora, se a exclusividade dos bons sentimentos em arte borram a pintura, na historiografia ainda fazem pior, chama-se vigarice.