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quarta-feira, setembro 02, 2026

o que está a acontecer

«São estes casos -- espaçados e altos numa existência de bacharel como, em campo de erva ceifada, fortes e ramalhosos sobreiros cheios de sol e murmúrio -- que quero traçar, com sobriedade e com sinceridade, enquanto no meu telhado voam as andorinhas, e as moitas de cravos vermelhos perfumam o meu pomar.» Eça de Queirós, A Relíquia (1887)

«Mas Henrique de Souselas -- que era esse o nome do cavaleiro -- fora educado e passara da infância à plena juventude, em Lisboa, levantando-se por avançada manhã, frequentando o teatro, o Grémio, as câmaras, parolando no Chiado ou no Rossio, e indo alguns dias do ano a Sintra, ou a qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia da capital.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868) 

«Chorava, chorava! Assim eu lhe soubesse dizer o doloroso sobressalto que me causaram aquelas linhas, de propósito procuradas, e lidas com amargura e respeito e, ao mesmo tempo, ódio. Ódio, sim...» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

quarta-feira, agosto 26, 2026

o que está a acontecer

«Também Juvenal nunca a contemplara com tanta opressão e tristeza. Das outras vezes que a Madeira lhe surgira da face verde do oceano, todo ele era alvoroço perante os cenários da meninice já longínqua. Mas, agora, doze anos esgotados sobre a última visita, os valores espirituais de então tinham-se alterado e tudo perdera a razão de ser, tudo adquiria um só sentido: Ela.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Eu ia a cismar nisto, quando me deu na vista um homem, companheiro de carruagem, o qual estava pendurando o chapéu no arame, e vestia a veneranda calva com seu barrete de troçal preto.» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

«Provas da capacidade administrativa do Coronel e de sua dedicação no exercício do poder ainda hoje são vistas e admiradas no perímetro urbano, inclusive a rua calçada com paralelepípedos ingleses -- importados da Inglaterra, sim senhores! --, orgulho da população irisopolense, enquanto as acusações de desvio dos dinheiros públicos desvaneceram-se no passar do tempo.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984)

segunda-feira, agosto 24, 2026

o que está a acontecer

«A partir do revertério da situação política, com o fim do domínio da laia que assumira o mando após a morte dos Andrade, o pai e o filho, o fazendeiro mandou e desmandou na Intendência durante lustros, Intendente ele próprio ou preposto de sua escolha, parente ou compadre.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984) 

«A corrida ao último táxi, o nome do hotel dito apressadamente no meu cantonês já esquecido, esperando acertar com o tom correcto dentre os nove. Se a tempestade chegar ao sinal oito, o mundo ficará suspenso. Urge encontrar um porto seguro, uma cama onde amalhar o jet lag de um corpo amassado por tantas horas de voo.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençois de Linho? (2026)

«Jusqu'à ce que la Mort, ouvrant son aile immense, / Engloutisse à jamais dans l'éternel silence / L'éternelle douleur! // E Petrarca, tanto ano a chorar sonetos, aposentado num palácio dum doge, rodeado de servos, e de amigos, e de admiradores, naquela feiticeira Veneza, tudo a expensas da República! / E todos os outros mestres de bardos melancólicos? Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimejantes!» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861) 

domingo, agosto 16, 2026

o que está a acontecer

«O rio que acabei de cruzar no último ferry apanhado no aeroporto de Hong Kong, nesta tarde de tufão, já com o sinal três de tempestade tropical hasteado. Viagem de enjoo, sobressalto constante, a surfar as vagas, numa alucinada vertigem.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? (2026) 

«Que requintes de luxo para o corpo, e anelos de glória para a felicidade do espírito lhe não infloravam ao poeta de Elvira a dupla existência, quando ele escrevia: Héritiers des douleurs, victimes de la vie, / Non, non, n'espérez pas que sa rage assouvie / Endorme le Malheur,» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

«Ele olhava, bestificado, as camas de ferro, os armários a pedir cadeado, as lajes frias e os colegas a despirem-se com ares de condenados. / -- Qual Cavalaria? -- perguntou com um ar imbecil -- Isto até me parece muito asseado. / -- A gente depois conversa. -- rosnou o Zé puxando a manta até aos olhos.» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984) 

terça-feira, agosto 11, 2026

o que está a acontecer

«Naquele tempo, a freguesia de Nossa Senhora do Rozário da Achadinha não era mais do que uma caganita de mosca, à qual se apontasse um dedo acima do dorso quase sempre verdoso do Atlântico, e a memória dos povoadores escorria ainda do basalto das calçadas e dos musgos marinhos.» João de Melo, O Meu Mundo não É Deste Reino» (1983)

«O "Avelona Star", de boa singradura, trouxera para a direita do seu casco o vulto negrusco que até aí apresentava pela linha de proa. Porto Santo avolumara-se, perdendo em mistério o que dava em relevo orográfico.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Entrei numa das mais flácidas carruagens do comboio. / Vejam a egoísta e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma padecia tanto, se dispensou a ignóbil matéria dos regalos das almofadas! A angústia lamentosa; creio: mas em que recâmaras de asiática opulência se lamentava ele!» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

domingo, agosto 02, 2026

correspondências

Camilo Castelo Branco a José Barbosa e Silva: «Meu caro José Barbosa // Mr. Óscar, pianista de grande merecimento, tenciona tocar em Viana. É escusado falar-te ao amor da arte, para o mover em coadjuvá-lo em tudo que estiver ao teu alcance. O cavalheiro, portador desta carta, é de si tão modesto, que, se o não auxiliarem, terá uma casa vazia. Esta carta vale para todos os nossos amigos -- // Teu do C / Camilo Cast.º Br.º» Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (1984) - ed. Alexandre Cabral  

sábado, agosto 01, 2026

o que está a acontecer

«Apertava-se o coração do pobre pai, ao lembrar-se que os sóis ardentes de Julho ou os tufões regelados de Dezembro haviam de encontrar sem abrigo aquele débil criança, que mais se dissera nascida e criada em berços almofadados e sob cortinados de cambraia, do que no leito de pinho e na grosseira enxerga da aldeia.» Júlio Dinis, As Pupilas de Senhor Reitor (1867)

«Quase dois contos atirados por água abaixo! / No topo da escada, esbatendo-se na penumbra, surgiu o abdome e logo o rosto avermelhado de Macedo, proprietário da "Flor da Amazónia". / Então, senhor Balbino? / -- Nada!» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Quatro anos antes, o arcediago de Barroso, padre Leonardo Taveira, amigo velho do Sr. Silva, em expansiva conversa com o seu amigo, num domingo de tarde, nas hortas de Campanhã (onde semanalmente saturavam as respectivas massas adiposas com o excelente vinho verde de Cabeceiras de Basto), quatro anos antes, vinha eu dizendo, falava assim, com o seu amigo, o rubicundo arcediago: / -- Sabes tu, Silva, que me está dando bastante cuidado o futuro de Rosa!» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

domingo, julho 26, 2026

zonas de conforto

Millôr Fernandes: «Nada é mais falso do que uma verdade estabelecida.» Pif-Paf (2004) § Camilo Castelo Branco: «-- Eu não sou da tua família, ouviste, jacobino? -- replicou a velha; e, fazendo-lhe duas figas, acrescentou: -- Toma, que te dou eu, hereje! / -- Ó tio Luís! -- perguntou o pegureiro -- Vossemecê viu aí na Agra da Cruz uma cabra?» Maria Moisés (1876-77) § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «De facto, além de dar sinais muito visíveis de contacto físico e moral, o Prof. Moura apresentou-se no parlatório com o cabelo cortado (!) e queixando-se de frio, sono e isolamento. Das suas palavras parece inferir-se que se encontra numa cela onde não entra a luz do sol. / Queira aceitar, Senhor Presidente, com as expressões da minha mais elevada consideração, os melhores cumprimentos do // A. Sedas Nunes» Cartas Particulares a Marcello Caetano, ed. José Freire Antunes (1985) 

domingo, julho 12, 2026

o que está a acontecer

«Que diria Juca Tristão, que o tinha por esperto e exemplar, quando ele lhe aparecesse com três homens a menos no rebanho que vinha pastoreando desde Fortaleza? E o Caetano, que ambicionara aquele passeio por conta do seringal e assistira, roído de inveja, à sua partida? Rir-se-iam dele...» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Bêbedos  extraordinários falam de tudo e descrevem parábolas no solo, com a sombra de seus corpos embrutecidos. Dois ou três embirram com a sombra./-- Mete-te comigo, cai nessa, minha tirana! / -- A velhaca, comentam, tem agora a mania de ir adiante de mim. Esta manhã era atrás. Mas não me larga! Bêbeda! / -- Era o que me faltava! Súcia de marmanjos!» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878)

«Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moça, e desculparemos a paixão fatal do infeliz negociante, que, no andar de baixo, está fumegando por todos os orifícios e destilando por todos os poros. / Como veio esta menina para a casa do negociante? / Da seguinte maneira.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854) 

domingo, julho 05, 2026

o que está a acontecer

«Ter andado de Herodes para Pilatos, batendo todo o sertão do Ceará no recrutamento dos tabaréus receosos das febres amazonenses e tranquilos sobre o presente, porque há anos não havia secas, e afinal, depois de tanto trabalho, de tantas palavras e canseiras, fugirem-lhe nada menos de três!» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do seminário. O seu nome era Amaro Vieira. Atribuía-se a sua escolha a influências políticas, e o jornal de Leiria, «A Voz do Distrito», que estava na oposição, falou com amargura, citando o Gólgota, no favoritismo da corte e na reacção clericalEça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/1880)

«O papagaio salta-lhe à mão, e esta mão não é pequena, dedos longos, rosados na extremidades, transparentes como o colo de sua dona, onde o próprio Lúcifer de Gautier choraria uma segunda lágrima, por se ver impossibilitado de armar às boas mulheres (quando é de supor que lhe não vão lá ter as piores.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854) 

terça-feira, junho 23, 2026

zonas de conforto

Camilo Castelo Branco: «-- P'ra pintassilgo estás muito fanhoso, ó Luís! -- disse galhofando a Brites do Eirô. / -- Olá, sua bruxa, que feitiços está você a fazer aí? -- respondeu o veterano do 2.º Regimento do Porto. -- Não me meta medo aos burros que eles já estão estacados a olhar p'ra você. Deixe passar os parentes.» Maria Moisés (1876-77) § Maria Gabriela Llansol: «Vejo aqui que a viagem começa no corpo quando este desliza de um real para outro real-não-existente. Não desliza para a fantasia: o nosso olhar vê uma parte da paisagem e, da outra, dá testemunho. / A esta situação de travessia, ou paisagens, habituei-me a chamar cenas fulgor.»  Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Adérito Sedas Nunes (1973): .../... «Ora, é-me doloroso ter de comunicar a V. Ex.ª que, através de informações recebidas da família, que ontem foi autorizada a visitá-lo, tenho de concluir que o Prof. Moura não tem sido efectivamente tratado com a atenção e consideração que lhe são devidas.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano, ed. José Freire Antunes (1985) § Machado de Assis: «Não exigia uma peça profundamente original, mas enfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado. Voltava ao princípio, repetia as notas, buscava reaver um retalho da sensação extinta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar a ilusão, deitava os olhos pela janela, para o lado dos casadinhos.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Millôr Fernandes: « -- É verdade que a história sempre se repete. Mas eu quero ver é depois da bomba atômica.» Pif-Paf (2004) - «Confúcio disse». § Fialho de Almeida: «As águas, murmurantes por essas ravinas e barrancos; nas grandes relvas picadas da vivacidade das corolas, as calhandras fartas agacham-se para dormir, ao fundo a cordilheira distante, idealizada, incorpórea, é como uma nuvem rarefeita que se apaga.» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos»

segunda-feira, junho 22, 2026

o que está a acontecer

«É uma bonita menina, para quem gosta dum rosto oval, olhos azuis, leite e rosas na face, lábios acerejados e pequenos, dentes como pérolas, olhar alegre e penetrante. Conversa com o papagaio, e o metal da sua voz tem aquele timbre sonoro e puro que nos faz jurar na beleza de quem fala, sem lhe vermos as feições.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854) 

«Uma longa paz com as outras nações tinha convertido a antiga energia dos Godos em alimento das dissensões intestinas, e a guerra civil, gastando essa energia, havia posto em lugar dela o hábito das traições covardes, das vinganças mesquinhas, dos enredos infames e das abjecções ambiciosas.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«Também são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate. Partimos. / Numa regata  de vapores, o nosso barco não ganhava decerto o prémio. E se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns ístmicos ou olímpicos para este género de carreiras -- e se para elas houver algum Píndaro ansioso de correr, em estrofes e antístrofes, atrás do vencedor que vai coroar de seus hinos imortais --, não cabe nem um triste minguado epodo a este cansado corredor de Vila Nova. »  Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

terça-feira, junho 02, 2026

cabaz de 1/4 de feira

A Oeste, João Amaral (Escorpião Azul)

As Novas Aventuras de Lapinot -- Por Tutatis!, Lewis Trondheim (Ala dos Livros)

Diários (1933-1943), Ruy Cinatti (Universidade Católica Editora)

Existe uma Cultura Europeia, Julia Kristeva (Universidade Católica Editora)

Névoa na Sala, Mélio Tinga (The Poets and Dragons Society)

O Penitente (Camilo Castelo Branco), Teixeira de Pascoais (Assírio & Alvim)

Porquê Ler os Clássicos, Jorge Vaz de Carvalho (Universidade Católica Editora)

Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho, Dora Gago (The Poets and Dragons Society)

Verdade e Erro em História, José Miguel Sardica (Universidade Católica Editora)

]e ainda uma gentil oferta da Constituição da República Portuguesa - 7.ª Revisão, edição liliputiana pela Assembleia da República)

quarta-feira, abril 01, 2026

Vitorino Nemésio, escrever como se respira

Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o  mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.

Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico. 

sábado, janeiro 24, 2026

o que está a acontecer

«Moram as Teles, e as Teles odeiam as Sousas. Moram as Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer cortesias. Moram as Albergarias, e as Albergarias só têm um fim na existência: estrear todos os semestres um vestido no jardim.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Eu vou à frente, que esse aí está às escuras, tem as janelas de dentro trancadas. Dá como este para o caminho. A cama é alta. É um leito. Antiga, sim. A senhora conhece que é de cana! Pois será, será. Deitaram-lhe esse verniz, também mo disseram.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«E a história. E história assim poderá ouvi-la a olhos enxutos a mulher, a criatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por vezes traz consigo do céu um reflexo da divina misericórdia: essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdera honra, reabilitação, pátria, liberdade, irmãs, mãe, vida, tudo, por amor da mulher  que o despertou do seu dormir de inocentes desejos?!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

domingo, janeiro 18, 2026

o que está a acontecer

«Mora a qui a insignificância, e até à insignificância o tempo imprime carácter. Mora aqui, paredes meias com a colegiada, o Santo, que de quando em quando sai do torpor e clama: -- O inferno! O inferno!. Mora um chapéu, uma saia, o interesse e plumas.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Este quarto não valerá a pena a senhora vê-lo, é interior, tem duas camas de leito. A senhora não gostará dele, pois não? Este aqui é um bom quarto. Cama de casal. Que às vezes já se tem deitado aí uma pessoa só. Com licença.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«Dezoito anos!... E degredado da pátria, do amor e da família! Nunca mais o céu de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem reabilitação, nem dignidade, nem um amigo!... É triste! / O leitor decerto se compungia; e a leitora, se lhe dissessem em menos de uma linha a história daqueles dezoito anos, choraria! / Amou, perdeu-se, e morreu amando.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

segunda-feira, janeiro 12, 2026

o que está a acontecer

«Paciência... paciência... Já a mentira é de outra casta, faz-se de mil cores e toda a gente a acha agradável -- Pois sim... pois sim... / Cabem aqui seres que fazem da vida um hábito e que conseguem olhar o céu com indiferença e a vida sem sobressalto, e esta mixórdia de ridículo e de figuras somíticas.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As louçanias do coração que ainda não sonha em frutos, e todo se embalsama no perfume das flores! Dezoito anos! O amor daquela idade!  A passagem do seio de família, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as carícias mais doces da virgem, que se lhe abra ao lado como flor da mesma sazão e dos mesmos aromas, e à mesma hora da vida!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

«A senhora está a olhar pra esta sala? É grande, é, e tem esta mobília toda, e tão alta que quase chega ao tecto. Comprámo-la com a casa. Foi quando chegámos da Alemanha, já fez agora um ano. Entre por aqui, entre. Cuidado com o degrau.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

sexta-feira, janeiro 02, 2026

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Uma melancolia suave. Não desesperante. suave Compreende-se a "vontade de chorar por nada". É o súbito espaço vazio, a vertigem. A solidão. A solidão de não se estar sempre connosco. As gerações futuras deverão desembaraçar-se do tempo. Parece que já o tentam.» Conta-Corrente 1 (1980) § Machado de Assis: «Um dia de manhã, cinco depois da festa, o médico achou-o realmente mal; e foi isso que ele lhe viu na fisionomia por trás das palavras enganadoras: / -- Isto não é nada; é preciso não pensar em músicas...» Histórias sem Data (1884) -- «Cantiga de esponsais» § Aquilino Ribeiro: «Seroava-se nas lojas das vacas e aos sábados batia-se a ribaldeira até as Três Marias empalidecerem no céu. Invernos inteiriços como os dos lagartos. Mas, ah, logo que se ouvia a corcolher: tem-te lá, tem-te lá, Barrelas vazava-se por esses caminhos de Cristo em votos e romarias.»  O Malhadinhas (1922) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867): «Relativamente aos abatimentos, que o meu amigo faz aos livros que por aí tenho, são eles tamanhos que não os aceitaria eu. É certo que autorizei o Eduardo a abater, mas também com abatimento da percentagem que lhe designei. Sem isso não terão eles tão desgraçado fim. Prefiro recolhê-los porque merecem mais alguma estima. Do seu muito amigo // C. C. Branco // 30 de Julho 67.» in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947) § António Ferro: «OBRAS DO AUTOR - Alguns papéis ao vento e muitos na gaveta...» Teoria da Indiferença (1920§ Jorge Amado: «Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale a pena escrevê-las, não lhes encontro a graça.»  Navegação de Cabotagem (1992)

quinta-feira, janeiro 01, 2026

as minhas melhores leituras e releituras de 2025 (tanto quanto consigo lembrar-me...)

leituras:

As Mãos Sujas, Jean-Paul Sartre

Camilo Visto por José Régio (ed. Manuel Matos Nunes)

Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke

Chiquinho, Baltasar Lopes

Lições da História, Edgar Morin

Na Senda da Poesia, Ruy Belo

O Essencial sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage, Daniel Pires

O Príncipe com Orelhas de Burro, José Régio

Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen

O Livro dos Cavaleiros, Augusto Casimiro

Sonetos, Bocage (edição de M. Pinheiro Chagas)

Tempos Interessantes, Eric Hobsbawm


releituras:

Aquele Grande Rio Eufrates, Ruy Belo

Cardoso Pires por Cardoso Pires, José Cardoso Pires com Artur Portela, Filho

Cartas Portuguesas, Sóror Mariana Alcoforado

Frango com Ameixas, Marjane Satrapi

Homem de Palavras[s], Ruy Belo

Novas Cartas Portuguesas, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa

O Delfim, José Cardoso Pires

Sonho de uma Noite de Verão, William Shakespeare

Terra Fria, de Ferreira de Castro

Transporte no Tempo, Ruy Belo

o que está a acontecer

«São 17 deste mês de Julho, ano de graça de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«E, assim que a noite se fechava, e a lâmpada do altar vasquejava os lampejos finais, ninguém se afoitava a transitar naquelas ruas de encruzilhada, desde que se divulgou que os demónios, a horas mortas, marinhavam, como bugios, pelo barrote onde a cabeça do regicida apodrecia.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«A ambição não avança um pé sem ter o outro assente. a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos. Na aparência é a insignificância a lei da vida: é a insignificância que governa a vila.» Raul Brandão, Húmus (1917)