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domingo, outubro 01, 2023

1001 livros do Século XX - tópicos para outro livro, 1901

Eça de Queirós
1. João Lúcio de Azevedo, Os Jesuítas no Grão-Pará. 2Abel Botelho, Amanhã3. Raul Brandão, O Padre4. D. João da Câmara, A Rosa Enjeitada.  5. Eugénio de Castro, Depois da Ceifa.  6. Júlio Dantas, A Severa. 7. Carlos Malheiro Dias, Os Teles de Albergaria8. Augusto GilVersos. 9. Jaime de Magalhães Lima, Sonho de Perfeição 10. João Lúcio, Descendo. 11. Teixeira de Pascoais, À Ventura. 12. Teixeira de Queirós, A Caridade em Lisboa. 13. Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póstumo)

Brasil: Machado de Assis, Poesias Completas. Coelho Neto, Tormenta.

 Confronto: Sigmund Freud, Psicopatologia da Vida Quotidiana. Rudyard Kipling, Kim. Thomas Mann, Os BuddenbrookBeatrix Potter, A História de Pedrito Coelho. August Strindberg, O Sonho. Anton Tchékov, As Três Irmãs. Émile Zola, Trabalho. 

Prémio Nobel  Sully Prudhomme (1839-1907).


Columbano Bordalo Pinheiro

Contexto. Governo de Hintze Ribeiro legaliza a generalidade das ordens religiosas. João Franco forma o Partido Regenerador Liberal, cisão do Partido Regenerador. Desfile do 1.º de Maio em Lisboa. Congresso operário galaico-português em Tui. Fundação do Centro Académico da Democracia Cristã, Coimbra. Criação da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Imprensa: Serões (Adrião de Seixas). Pintura. Columbano Bordalo Pinheiro, A Luva Branca. José Malhoa, Retrato do Fotógrafo António Novais. Sousa Lopes, Engano de Alma, Ledo e CegoMúsica. Óscar da Silva, Dona Mécia.


Giuseppe Pellizza da Volpedo


Confronto. Paz de Pequim, indemnizações da China às potências ocidentais. Morte da rainha Vitória assinala fim de uma época. Assassínio do presidente americano William McKinley, pelo anarquista Leon Czolgoz ; ascensão do vice, Theodore Roosevelt.  Pintura: Giuseppe Pellizza da Volpedo, O Quarto EstadoPaul Gauguin, E o Ouro dos Seus CorposGustav Klimt, Judite e a Cabeça de HolofernesPablo Picasso, Yo, PicassoQuarto Azul. Ilya Repin, Retrato de Tolstói Descalço. Música: Edward Elgar, Marchas de Pompa e Circunstância #1 e #2. Gustav Mahler, Sinfonia#4. Serguei Rachmaninov, Concerto para piano #2. Ciência e tecnologia:  Santos Dumont contorna a Torre Eiffel em dirigível.

Bib: Fernando de Castro Brandão, Da Monarquia Constitucional à República -- 1834-1910. Uma Cronologia, Lisboa, Europress, 2003. Pedro Cardoso, As Informações em Portugal, Lisboa, Instituto de Defesa Nacional, s.d. Jean Delorme, As Grandes Datas do Século XIX [1985], Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d. Carlos da Fonseca, História do Movimento Operário e das Ideias Socialistas em Portugal -- I. Cronologia, Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d. Eugénio Lisboa (dir.), Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vold. I-III, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1990-94. José Calvet de Magalhães, Breve História Diplomática de Portugal, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1990. Philippe Mellot e Claude Moliterni, Chronologie de la Bande Dessinée, Paris, Flammarion, 1996; César Oliveira, Salazar e o Seu Tempo, Lisboa, O Jornal, 1991, António Machado Pires, O Século XIX em Portugal -- Cronologia e Quadro de Gerações, Amadora, Livraria Bertrand, 1975. Daniel Pires, Dicionário Cronológico da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1900-1940), Lisboa, Grifo, s.d. Rui Ramos (coord.) História de Portugal, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2009. Maria de Lourdes Rosa, «Cronologia», in José Mattoso, História de Portugal, Lisboa, Editorial Estampa, vol. 8, s.d. Vítor de Sá, Roteiro da Imprensa Operária e Sindical -- 1836-1986, Lisboa, Caminho, 1991; Joel Serrão, «Cronologia Geral da História de Portugal», Dicionário de História de Portugal, vol. VI, s.ed., Porto, Livraria Figuerinhas, 1984. Neville Williams, Cronologia Enciclopédica do Mundo Moderno [1966], Vols. II-IV, Lisboa, Círculo de Leitores, 1989.





segunda-feira, maio 08, 2023

uma 'voltigeuse' banal e outros caracteres móveis

«Depois de uma voltigeuse  banal furando arcos de papel de seda, um intermédio cómico pelo primeiro clown, prodígios de equilíbrio duma criança sobre um arame, cães sábios, barras fixas, um salafrário num cavalo em pelo.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891) - «E enquanto as notas lhe passam para a mão, mergulha os olhos abstractos nos olhos da mulher.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932) - «Como antes se disse: é completamente impossível conhecer-se inteira uma árvore genealógica; o que pode é cada um possuí-la toda no seu carácter.» José de Almada Negreiros, Nome de Guerra (1938)

segunda-feira, janeiro 30, 2023

"um repelão de remorso" e outros caracteres móveis

 O Barão de Lavos (1891): «A súbita aparição daquele par honesto e simples, caíndo de chofre com toda a galhardia e lúcida expansão duma vida exemplarmente calma no torvelinhante mistério da alucinação do seu vício, envergonhou-o, aclarou-lhe a razão, deu-lhe a medida do próprio aviltamento, e, como um raio de luz faiscando nas estalactites duma caverna, acordou-lhe na consciência um repelão de remorso.» Abel Botelho

Lilias Fraser (2001): «Acabaria por acostumar-se e quando, anos depois, em Portugal, viu abater-se uma cidade inteira, levantou-se em silêncio do enxergão, fechou a trouxa e foi dormir para o jardim, sem avisar ninguém daquilo que iria passar-se.» Hélia Correia

A Catedral (1920). «Agora, porém, fremindo nos estos do amor aceso, arrebatado por toque místico, com a visão experimentada e novo sentido das formas, o arquitecto adivinhara, sob o invólucro sacrílego de estuques e argamassas, a envergadura, o corpo esplêndido e branco duma catedral da Idade Média.» Manuel Ribeiro

quinta-feira, agosto 25, 2022

101 livros na mochila imaginária - parte II: 51-101

(a continuação desta lista)*


51. Rebelo da Silva (1822-1871), Contos e Lendas (1866) - 44 anos

52. Bulhão Pato (1828-1912), Memórias (1894-1907) - 66 anos

53. João de Deus (1830-1896), Campo de Flores (1893) - 63 anos 

54. Conde de Ficalho (1837-1903), Uma Eleição Perdida (1888) - 51 anos

55. Abel Botelho (1854-1917), Amanhã (1901) - 47 anos

56. Fialho de Almeida (1857-1911), Figuras de Destaque (1923)

57. Antero de Figueiredo (1866-1953), Além (1895) - 29 anos

58. Camilo Pessanha (1867-1926), Clepsidra (1920) - 53 anos

59. Carlos Malheiro Dias (1875-1941), Em Redor de um Grande Drama (1913) - 38 anos

60. José Duro (1875-1899), Fel (1898) - 23 anos

61. Júlio Dantas (1876-1962), Nada (1896) - 20 anos

62. António Patrício (1878-1930), Pedro, o Cru (1918) - 40 anos

63. Sarah Beirão (1880-1974), Triunfo (década de 1950)

64. João de Barros (1881-1960), Algas (1900) - 19 anos

65. João Sarmento Pimentel (1888-1987), Memórias do Capitão (1963) - 75 anos

66. Reinaldo Ferreira (Repórter X) (1897-1935), Memórias de um Ex-Morfinómano (1933) - 36 anos

67. João da Silva Correia (1896-1973), Farândola (1944) - 48 anos

68. João de Araújo Correia (1899-1985), Noite de Fogo (1974) - 75 anos

69. Maria Archer (1899-1982), Ida e Volta duma Caixa de Cigarros (1938) - 39 anos

70. Fernanda de Castro (1900-1994), Cartas para Além do Tempo (1990) - 90 anos

71. João Gaspar Simões (1903-1987),  Elói ou Romance numa Cabeça (1932) - 29 anos

72. Soeiro Pereira Gomes (1909-1949), Esteiros (1941) - 32 anos

73. Castro Soromenho (1910-1968), Terra Morta (1949) - 39 anos

74. Manuel Tiago / Álvarfo Cunhal (1913-2005), Cinco Dias, Cinco Noites (1975) - 62 anos

77. Mário Dionísio (1916-1993), Terceira Idade (1982) - 66 anos

75. António José Saraiva (1917-1993), Maio e a Crise da Civilização Burguesa (1970) - 53 anos

76. Romeu Correia (1917-1996) , Calamento (1950) - 33 anos

77. Bernardo Santareno (1920-1980), O Pecado de João Agonia (1961) - 41 anos

78. Antunes da Silva (1921-1997), Suão (1960) - 39 anos

79. Carlos de Oliveira (1921-1981), Trabalho Poético (1976) - 55 anos

80. Francisco José Tenreiro (1921-1963), Ilha de Nome Santo (1942) - 21 anos

81. Agustina Bessa Luís (1922-2019), A Sibila (1954) - 32 anos

82. Eduardo Lourenço (1923-2020), O Labirinto da Saudade (1978) - 55 anos

83. Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), Roteiro de Emergência (1966) - 43 anos

84. Alexandre O'Neill (1924-1996), No Reino da Dinamarca (1958) - 34 anos

85. José Cardoso Pires (1925-1998), Balada da Praia dos Cães (1982) - 57 anos

86. Jorge Reis (1926-2006), A Memória Resguardada (1990) - 64 anos

87. Luís de Sttau Monteiro (1926-1993), Angústia para o Jantar (1961) - 35 anos

88. António Alçada Baptista (1927-2008), Uma Vida Melhor (1984) - 57 anos

89. David Mourão-Ferreira (1927-1996), Um Amor Feliz (1986) - 59 anos

90. Alberto de Lacerda (1928-2007), Oferenda I (1984) - 56 anos

91. Herberto Helder (1930-2015), Ou o Poema Contínuo (2001) - 71 anos

92. Mário António (1934-1989), Amor (1960) - 26 anos

93. Pedro Tamen (1934-2021), Guião de Caronte (1997) - 63 anos

94. Álvaro Guerra (1936-2002), Café República (1982) - 46 anos

95. Artur Portela Filho (1937-2020), A Funda (1972-1977) - 35 anos

96. Fernando Assis Pacheco (1937-1995), Respiração Assistida (2003)

97. Armando Silva Carvalho (1938-2017),  Alexandre Bissexto (1983) - 46 anos

98. Vasco Pulido Valente (1941-2020), Às Avessas (1990)-- 49 anos

99. Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004), A Noiva das Astúrias (2001) - 59 anos

100. José Bação Leal (1942-1965), Poesias e Cartas (1971)

101. Vasco Graça Moura (1942-2014) , Laocoonte -- Rimas Várias, Andamentos Graves (2005) - 63 anos


* Enquanto que a primeira metade é provavelmente definitiva, ou próximo disso, esta não é tal: faltam-lhe autores importantes, que ainda não li, ou não li o suficiente para que possam aqui figurar. Enquanto que na primeira, os escritores são mesmo aqueles, sem tirar nem pôr, e os livros sofreriam poucas alterações se daqui a uns anos a revisse, a mesma segurança não a tenho quanto a esta outra metade, 

domingo, julho 11, 2021

caracteres móveis

«Enquanto lavava os dentes, o espelho da casa de banho mostrou-me cruelmente os estragos, de capela abandonada, dos anos.»*

«Numa mercearia ao lado, a gente da geral comia pão com queijo e decilitrava.»**

«Os meus amigos já lá não estavam, as pessoas que eu amara tinham morrido, a idade não me permitia voltar aos lugares queridos -- a escola primária, o parque, o campo de futebol, a varanda da minha casa fustigada pelo sol das três da tarde --  sem sentir que o meu corpo era demasiado grande para o tamanho desses espaços na memória, que eu era demasiado novo para o conforto da nostalgia, demasiado velho para reviver sem culpa certas alegrias da infância.»***


* António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

** Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

*** Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

sexta-feira, maio 07, 2021

caracteres móveis

«A súbita aparição daquele par honesto e simples, caindo de chofre, com toda a galharda e lúcida expansão duma vida exemplarmente calma no torvelinhante mistério da alucinação do seu vício, envergonhou-o, aclarou-lhe a razão, deu-lhe a medida do próprio aviltamento, e, como um raio de luz faiscando  nas estalactites duma caverna, acordou-lhe na consciência um repelão de remorso.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«Ela tinha o espírito de parecer vulgar.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954) 

«Este necessário e inevitável reviramento por que vai passando o mundo há-de levar muito tempo, há-de ser contrastado por muita reacção antes de completar-se...» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

sábado, fevereiro 20, 2021

a arte de começar

 «Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto. Quinta-feira, -- noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual colados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadam. Tudo queria bilhete. Havia chapéus tombados, ombros que penetravam à cunha, braços arpoando vigorosamente os alisares castanhos  dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento.» 

Abel Botelho (1854-1917), O Barão de Lavos (1891)

segunda-feira, dezembro 09, 2019

um parágrafo de Abel Botelho

«Dali o barão, um pouco à vontade, mais fora do alcance de encontros inoportunos, continuava a perscrutar com exclusivismo ardente as imediações do Circo fronteiro. Ao descortinar na sombra dos extremos da rua qualquer escorço vago de adolescente que viesse a crescer, aproximando-se, o seu olhar piscante de míope contraía-se numa crispação de expectativa angustiada, e seguia-lhe vorazmente os movimentos, até poder analisá-lo, adivinhá-lo bem na conformação, no tipo, na plástica, no modo de vida provável, nas predilecções sensuais do temperamento, quando o rapaz entrava na zona duramente iluminada pelo renque de bicos de gás tremebrilhando sobre o portal do Circo.» O Barão de Lavos (1891)

terça-feira, abril 16, 2019

vozes da biblioteca

«À porta dois contratadores apenas, um polícia, e, sentada no último degrau sobre a rua, uma velhota, de tabuleiro à frente, coalhado de quanto há de mais pelintramente indigesto em matéria de doçura, com uma vela protegida por um cartucho de papel cor-de-rosa.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«Afeito à nudez sebosa das repartições, o recém-chegado abafou uma voz de espanto ao passar a uma saleta cujo requinte no arranjo descondizia com tudo o que vira em tão ingracioso edifício: era uma dependência fofa, não grande, toda de veludos vermelhos, lambris dourados, cristais e móveis reluzentes, onde, pelos reposteiros entreabertos, a luz, que do céu azul ferrete se derramava a jorros sobre a vila, vinha molemente esparrinhar-se num tapete de Arraiolos...» Jorge Reis, Matai-vos uns aos Outros (1961)

«Léguas e léguas andaram, como se fossem retirantes, de fazenda em fazenda, a pedir a um e a outro uma tigela de farinha que lhes matasse a fome, e pés roídos pelos espinhos e olhos fundos de sofrimento.» José Lins do Rego, Cangaceiros (1953)

domingo, março 10, 2019

vozes da biblioteca

«Na estação havia apenas um passageiro, esperando o comboio: era um mocetão do campo, que não se movia, encostado à parede, com as mãos nos bolsos, os olhos inchados de ter chorado duramente cravados no chão e ao lado sentadas sobre uma arca de pinho nova, estavam duas mulheres, uma velha, e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito desconsoladas, tendo aos pés entre si, um saco de chita e um pequeno farnel de onde saía o gargalo negro duma garrafa.» Eça de Queirós, A Capital! (póst., 1925)

«O barão circunvagou rápido em torno com a vista, a ver se alguém tinha ouvido, e rodou viscoso para longe, infiltrando-se, anulando-se na massa anónima daquela multidão turbulenta.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«O escritório do Medeiros, director da Comarca, era escuro e desconfortável; uma vulgar secretária de pinho, dois ou três cadeirões com almofadas de palha, um quebra-luz de missanga na lâmpada do tecto e montes de jornais aos cantos; cheirava a pó como num caminho de estio.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)

segunda-feira, dezembro 24, 2018

vozes da biblioteca

«Contra a parede negra da lareira, a meio da frouxa claridade, a curva das costas de Júlia, muito magras, aumenta mais o seu ar de desalento.» Manuel da Fonseca, Seara de Vento (1958)

«Germana, sua prima, era, por seu lado, um tipo fatídico das degenerescências, o artista, o produto mais gratuito da natureza e que se pode definir como uma inutilidade imediata.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954)

«Pele morena, olho aveludado, tipo insinuante de marnoto, camisolita de xadrez azul e preto, calça branca muito justa, , à frente uma grande cesta vestida de oleado, em cujo interior destacavam duma alvura de toalha várias gulodices.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

quarta-feira, dezembro 05, 2018

vozes da biblioteca

«A felicidade é uma resultante directa dos nossos sentimentos, da nossa tranquilidade, da satisfação plena de praticarmos o bem, -- portanto não existe.» Assis Esperança, Viver! (1921)

«E de cada vez que o moço interpelado se afastava, aborrecido ou indiferente, este noctívago caçador de efebos lá seguia em cata de outro, cortando os grupos, atravessando a rua, numa incoerência de vertigem, não se sabia bem se tiranizado por um vício secreto, se esmagado por uma feroz melancolia.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«Nesta casa enorme e deserta, nesta noite ofegante, neste silêncio de estalactites, a lua sabe a minha voz primordial.» Vergílio Ferreira, Aparição (1959)

quarta-feira, maio 02, 2018

«No olhar, dilatado e teimoso, duma secura inflamada e vítrea, fulgurava a obstinação dum desejo; ao passo que na boca a brasa do charuto, numa febre de pequeninos movimentos bruscos, denotava que os lábios e as maxilas eram nervosamente sacudidos por uma forte preocupação animal.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891).

«Ouvi chamarem-lhe santo homem, com unção e humildade; mas ouvi também minha avó, de lágrimas nos olhos e ódio na boca, amaldiçoá-lo por mais de uma vez, como se dum tirano falasse.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Os acontecimentos se amarrariam uns aos outros -- uns puxando os outros -- através do confuso turbilhão das noites e dos dias.» José Eduardo Agualusa, A Conjura (1998)

segunda-feira, março 26, 2018

«Não sei que dolorido impudor, que canalha impulsão, que martirizante impudência me arrasta assim ao registo público do meu aviltamento, à insolente estadeação da própria indignidade.» Abel Botelho, O Livro de Alda (1898)

«Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracíssima província começa já a ressentir-se, senão ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Num sobressalto, o rapaz ergueu-se da sonolência em que jazia sobre a tarimba e foi até às grades.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

domingo, março 25, 2018

A seguir, foi à chaminé, tornou, e fitando agora firme o Serafim, inquiria, com significativo ar, quando na frente lhe punha sobre a gorduragem gretada das tábuas ressequidas, o tacho fumegante.» Abel Botelho, Amanhã (1901)

«O Sol, já quase horizontal, com seus raios a morrerem no gume das montanhas, recortava-lhe a figura, sobre a pileca.» Ferreira de Castro, Terra Fria (1934)

«Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessário ela fosse, porque abunda no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça.» José Saramago, Memorial do Convento (1982) 

domingo, fevereiro 25, 2018

«Rodopiava no ar, a cada estocada de vento, um cheiro pelintra a iscas e a refogado.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«A podridão tinha chegado ao âmago da árvore, e ela devia secar.» Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero (1844)

«Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846) 

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

«Dum primeiro andar, com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas convidavam: -- Psiu! não sobes, ó catitinha? -- aos janotas que passavam.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«De mansinho (estou a vê-lo!), abriu a porta da rua, subiu no escuro os três degraus da entrada onde o próprio mau cheiro lhe agradava, e apalpando à esquerda, meteu sem ruído a chave na fechadura.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949).

«Já lá vão quase cinquenta anos, tempo suficiente para que um lago se torne num pântano ou uma estrela distante e misteriosa se transforme num mundo corriqueiro, ambos possíveis por obra dos homens.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

sexta-feira, maio 12, 2017

começar

Qualquer dos três incipit é bom: Abel Botelho  faz com que queiramos saber de imediato de que  justeza se trata; Raul Brandão já nos sobressaltou antes de chegarmos ao segundo ponto de exclamação; por sua vez, Nuno Bragança deixa-nos logo com um sorriso, até porque já se sabe que a forma como ele pega nas palavras nunca mais nos dará descanso até ao fim do livro

1898: «[15 de Fevereiro de 1893.] É justo.» Abel Botelho, O Livro de Alda

1903: «-- Ai que ma levam!, ai que ma levam!» Raul Brandão, A Farsa

1970: «Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços.» Nuno Bragança, A Noite e o Riso 

terça-feira, maio 09, 2017

começar

Fica-se mais fatigado a ler o incipit  de Abel Botelho (aliás, um romance importante) do que o de António Lobo Antunes, uns furos abaixo do livro de estreia. António Alçada Baptista com um livro interessante, por uma vez (comparar este início com os anteriores). O vento de Filomena Marona Beja tresanda a Antiguidade.
O título: O Eléctrico 16.

1901: «-- Essa ceia está pronta? -- perguntou enfastiado o Serafim, cuja figura esgalgada e curva, tendo vencido o último degrau da escada, assomava oscilando à porta da cozinha.» Abel Botelho, Amanhã

1979: «O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante:» António Lobo Antunes, Memória de Elefante

1989: «Quando, há muitos anos, o Sr. Trocato me contou as razões por que não acreditava na história que corria sobre a morte do Dr. Júlio Fernandes da Silva e da mulher, eu não tive dúvida de que aquilo foi um crime porque me lembrei logo da minha tia Suzana.» António Alçada Baptista, Tia Suzana, Meu Amor

2013: «Ali, o vento emprenhava as éguas.» Filomena Marona Beja, O Eléctrico 16

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

uma comoção galvânica

«Ao ver assim de improviso, diante de si, o cobiçado, o imprescindível licor, o derreado tanoeiro aprumou-se, mordido duma comoção galvânica. Logo as mãos avançaram a tactear a garrafa, numa desconfiança, enquanto os olhos se lhe esbugalhavam, muito secos do prazer, os olhos, e com a língua a crescer dentro dos beiços ávidos, mal conseguia entaramelar:»

Abel Botelho, Amanhã (1901)