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segunda-feira, junho 15, 2026

o que está a acontecer

«Tira as mãos detrás das costas e coloca-as nas fundas algibeiras das calças de cotim. Finca os pés no chão de cimento e dá um suspiro tão grande, tão fundo, que todo o seu corpo oscila.» Antunes da Silva, Suão (1960)

«Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

«Chegará. Hei-de distingui-lo no horizonte. Tão bem quanto sei isto agora, sabia-o ontem quando entrei na venda do judas e pedi o primeiro copo e pedi o segundo e pedi o terceiro. Mais, sabia que por toda a planície se calarão as cigarras e os grilos. De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento hão-de tornar-se pedra.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

quinta-feira, junho 04, 2026

o que está a acontecer

«Um açude sem peixes, sem fundo, este céu. Nuvens, veios ténues. E o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis. Suspenso, como um homem cansado, ar. // Há-de ser um instante em que não se veja nenhum pardal, em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observar-nos.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000) 

«Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

«minha cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o voo fugaz dos cílios;» Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)

terça-feira, maio 19, 2026

o que está a acontecer

«Para ele, sim, é que os campos estavam mesmo a jeito: ali à mão, bastava prolongar o muro junto ao renque dos pinheiros, pois do lado de baixo o Caima constituía vedação natural. E o senhor Esteves, bem falado e com um presente de trutas, devia estar pelos ajustes, porque, feitas as contas, sempre era melhor ganhar dez duma só vez do que cinco em toda a vida.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Que há[-de alguém] confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre do sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

«"O pai foi o inventor do bowling, é isso?", perguntou Mister DeLuxe. "O pai estava sempre bêbado e jogava bowling com as garrafas vazias", insistiu Austin, "Molero fixa-se nisto como no elo de uma cadeia, é o que ele diz."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

quinta-feira, maio 07, 2026

o que está a acontecer

«Até parecia injustiça de Deus que aqueles campos tão férteis, tão vastos, estivessem quase ao abandono, porque o senhor Esteves, sendo rico, morava na vila, nunca vinha ali e o rendeiro, velho e sovina, preferia deixar a terra sem cultivo a pagar a alguém que o auxiliasse.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Invejo -- mas não sei se invejo -- aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho a dizer.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (póst., 1982)

«No meio, porém, da decadência dos Godos, algumas almas conservavam ainda a têmpera robusta dos antigos homens da Germânia. Da civilização romana elas não haviam aceitado senão a cultura intelectual e as sublimes teorias morais do cristianismo. » Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

quinta-feira, abril 30, 2026

notas sobre «O Banqueiro Anarquista», de Fernando Pessoa

I

Conto publicado na Contemporânea n.º 1 (1922) – revista para gente civilizada e para civilizar gente

Literariamente é uma novela de raciocínio em que se trabalha a destreza argumentativa; politicamente é uma blague, uma vez que o banqueiro não é efectivamente anarquista, embora queira convencer o interlocutor de que o é.

Posicionamento político de Fernando Pessoa: uma direita não alinhada, embebida de um nacionalismo místico, mas também mítico, contrastando com a decadência do país, que vem do século anterior.

Era um admirador contido do fascismo de Mussolini – também ele evocador de um passado mítico, brutal, vigoroso e tecnicamente progressivo (Marinetti, um futuro fascista) – e detestava Salazar pelo que este representava de passadismo, ruralismo, seminarismo…

E detestava ainda mais todas as ideias democráticas, revolucionárias e de esquerda, socialistas, anarquistas ou bolchevistas.

Talvez seja por isso que ele caracteriza os “falsos” anarquistas como “esses parvos dos sindicatos e das bombas” (p. 23)

 

II 

Senão, vejamos:

a glorificação ultra individualista do salvar-se a si próprio deixando de ser dominado pelo dinheiro, possuindo-o – nunca seria libertação, uma vez que se escravizou a esse desígnio: ter dinheiro para não ser dominado por ele e, naturalmente, todo esse capital acumulado na banca e nos negócios, se preciso de uma forma desleal, como confessa o banqueiro (p. 54), são incompatíveis com a ética e a moral anarquistas – até porque tal só seria conseguido, mais do que pelo engano, pela exploração dos outros.

Pessoa era suficientemente informado, embora pudesse detestar o anarquismo, de que nem este é incompatível com a actividade bancária ou comercial – previstas por Proudhon pelas mutualidades e pelas cooperativas. Mas isso já lhe estragaria o argumentário.

Outra fraqueza conceptual deste conto ou novela de raciocínio, reveladora aliás do preconceito do autor é a caracterização do anarquismo como algo que se concentra «nos tipos dos sindicatos e das bombas» (p. 22). Esta é uma expressão parcelar, incompleta e distorcida, no fundo a visão do vulgo burguês, pouco condizente, de resto, com as pretensões de uma revista de elite ou para as elites.

Sim, há um anarquismo individualista ou ultra-individualista, que põe o Eu em primeiro lugar, não caindo na imoralidade cínica do banqueiro pessoano que para se livrar a si escraviza forçosamente os outros, com a pobre desculpa que essa tirania já existiria, e que portanto ele limitou-se a utiliza-la, garantindo assim o anarquismo de um, o seu próprio.

Em segundo lugar, “os tipos das bombas” são uma corrente ultraminoritária do movimento anarquista, que provocou muitos estragos à própria ideia, entre finais do século XIX e o princípio do XX, execrada pela larguíssima maioria das correntes e equiparadas a puro banditismo e marginalidade. Foi o que ficou no imaginário.

Também a ideia de que o anarquismo é uma corrente que provém do lúmpen social e proletário faz sorrir, se pensarmos nos nomes de algumas das suas maiores figuras: um conde Tolstói, um príncipe Kropótkin, um Malatesta, filho de um latifundiário pertencente a uma das grandes famílias nobres italianas desde a Idade Média. E só falo em aristocratas, podia falar doutros casos como o geógrafo Reclus, filho de um pastor protestante ou do nosso Neno Vasco, ou seja Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, jurista e revolucionário, filho de um abastado comerciante do Norte. Não foi Francisco de Assis, esse anarquista avant la lettre, um jovem rico que se despojou dos seus bens?


III

A construção é/parece perfeita; os pressupostos estão errados; logo, a conclusão é falsa.  

domingo, setembro 28, 2025

o que está a acontecer

«I- Quem o diria, Berenice?... Sim, porque quando tu nasceste eu já não era um adolescente: -- já tinha realizado aspirações, sofrido desilusões... / Mário d'Albuquerque calou-se por momentos: -- como se o sufocassem as recordações da sua mocidade já longínqua: -- dessa mocidade que já se perdia num céu de olvido e tristeza.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«Permiti-me observar-lhe que estranhava, porque a arte dos que escrevem em "Orpheu" sói ser para poucos. Ele disse-me que talvez fosse dos poucos. De resto, acrescentou, essa arte não lhe trouxera propriamente novidade: e timidamente observou que, não tendo para onde ir nem que fazer, nem amigos que visitasse, nem interesse em ler livros, soía gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982) 

« -- Demoro-me pouco... palavra! Cursos de milicianos... Moeda fraca! Para a infantaria, três meses. Se não fecharem os concursos para secretários-gerais, então aproveito. Bem sei que há só três vagas mais de cem bacharéis à boa vida... Mas não tenho medo das provas. Bastam algumas semanas para me preparar a fundo... rever a legislação.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944) 

terça-feira, setembro 23, 2025

o que está a acontecer

«Um dia qualquer, que nos aproximara talvez a circunstância absurda de coincidir virmos ambos jantar às nove e meia, entrámos em uma conversa casual. A certa altura ele perguntou-me se eu escrevia. Respondi que sim. Falei-lhe da revista "Orpheu", que havia pouco aparecera. Ele elogiou-a, elogiou-a bastante, e eu então pasmei deveras.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

«Pegávamos nos cocharros, abaixávamo-nos e, fincadas no desembaraço de gente do Monte, atestávamos as quartas com toda a ligeireza, que a arranchada, impacientada pelas sequidões do amanho do alqueive, não nos consentia molezas -- a tal indolência que os cá de cima, com a língua afiada de desdém, afiançam ser jeiteira da gente lá de baixo.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016) 

«I- A Serpente Cega / -- Mas não voltas tão cedo... / João Garcia garantiu que sim, que voltava. / Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua hora. Eram fundos e azuis, debaixo de arcadas fortes. Baixou-os um instante e tornou: / -- Quem sabe...?» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

sábado, setembro 20, 2025

o que está a acontecer

«Um caldo parelho a esse mas sem o bacalhau a enricá-lo; açorda singela, já se vê, que os tempos eram outros. Era um migalho de gente, para aí desta altura, mais ou menos. Acudia ao chamamento da mãe, à espera, junto ao poial das bilhas, alcançava a mais tamaninha, à medida dos meus quatro, cinco anitos de gaiata, assentava-ma na cabeça e abalávamos, caminho do pego, até à barroca para onde escorria, pelas frinchas das penedias, a água.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016)   

«E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e servida de paisagem. Se no mato morreu animal de pouco, certo que cheirará ao podre do que morto está. Quando calha estar quieto o vento, ninguém dá por nada, mesmo passando perto. Depois os ossos ficam limpos, tanto lhes faz, de chuva lavados, de sol cozidos, e se era pequeno o bicho nem a tal chega porque vieram os vermes e os insectos coveiros e enterraram-no.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)

«A sua voz era baça e trémula, como a das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar. Mas era porventura absurdo dar esse relevo ao meu colega vespertino de restaurante. / Não sei porquê, passámos a cumprimentarmo-nos desde esse dia.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

segunda-feira, setembro 15, 2025

o que está a acontecer

«Soube incidentalmente, por um criado do restaurante, que era empregado de comércio, numa casa ali perto. / Um dia houve um acontecimento na rua, por baixo das janelas -- uma cena de pugilato entre dois indivíduos. Os que estavam na sobreloja correram às janelas, e eu também, e também o indivíduo de quem falo. Troquei com ele uma frase casual, e ele respondeu no mesmo tom.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (1982) 

«Não havia, por esses corgos abaixo, tamanha fartura: arriávamos as quartas. afundávamos os pés no chão barrento e, num instantinho, apanhávamos uma arregaçada para engrossar as sopas d'alho, onde, calhando as pitas terem sido generosas, até o luxo de uns ovos apareciam a boiar na fervura em cima da trempe ao borralho.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016)

«Não faltam cores a esta paisagem. Porém, nem só de cores. Há dias tão duros como o frio deles, outros em que não se sabe de ar para tanto calor; o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a morte.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)

sexta-feira, setembro 12, 2025

o que está a acontecer

«Passei a vê-lo melhor. Verifiquei que um certo ar de inteligência animava de certo modo incerto as suas feições. Mas o abatimento, a estagnação da angústia fria, cobria tão regularmente o seu aspecto que era difícil descortinar outro traço além desse.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

«Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim. Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)

«Gente do monte - Colhíamo-las ao rés da vereda que sobe do Barranco do Campaniço, do lado em que entesta com a chapada, já ao endireito do Monte. Logo ali, onde uns palmos de atasqueiro conservam a fresquidão e se tapam de beldroegas pela primavera.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016)

domingo, março 16, 2025

Camilo Castelo Branco, no dia do bicentenário

Rafael Bordalo Pinheiro
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (Bairro Alto, Lisboa, 1825 – São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, 1890).

Escritor completo, cultivou todos os géneros literários: é o efabulador romântico de Romance de um Homem Rico (1861) e Amor de Perdição (1862), o escritor realista de A Queda dum Anjo (1866) ou O Retrato de Ricardina (1868), o romancista “histórico” de A Filha do Regicida (1875), o autor ironicamente à la page com o naturalismo em Eusébio Macário (1879) e A Corja (1880); é o poeta de Nas Trevas (1890); o dramaturgo de O Morgado de Fafe em Lisboa (1861); o folhetinista de cordel de Maria! Não me Mates que Sou Tua Mãe (1841); o polemista de O Clero e o Sr. Alexandre Herculano (1850) ou Vaidades Irritadas e Irritantes (1866); o memorialista das Memórias do Cárcere (1862); o crítico de Esboços e Apreciações Literárias (1865); o biógrafo de D. António Alves Martins – Bispo de Viseu (1870); o epistológrafo da Correspondência com Vieira de Castro (1874); o antologiador do Cancioneiro Alegre (1879); o historiador comprometido do Perfil do Marquês de Pombal (1882); o publicista de O Vinho do Porto (1884)…

Entre as convulsões da Guerra Civil e a agonia do Ultimato, o Portugal do século XIX, dos Cabrais à Regeneração, espelha-se na obra de Camilo. Mas, erudito, vem de trás, das crónicas vigiadas de Fernão Lopes aos cartapácios fantasiosos de Frei Bernardo de Brito; prosador exímio e mestre da língua, é herdeiro do Padre António Vieira e está também na génese de Aquilino Ribeiro; instável, sarcástico, violento e ao mesmo tempo lírico, encerra uma verdade envolta em fingimento que não deixa indiferente o leitor do século XXI.  

É um dos génios tutelares da cultura portuguesa. O seu nome próprio, Camilo, tem dimensão idêntica aos de Camões, Vieira, Bocage, Garrett, Antero, Eça, Cesário ou Pessoa. Amor de Perdição emparceira em peso e relevância canónicos com Os Lusíadas, Menina e Moça, Viagens na Minha Terra, Os Maias, O Livro de Cesário Verde, , Clepsidra, Mensagem, Andam Faunos pelos Bosques, A Selva, Mau Tempo no Canal, Sinais de Fogo, Para Sempre – clássicos absolutos. Escritores como Teixeira de Pascoais, Aquilino, Vitorino Nemésio, José Régio, João de Araújo Correia, entre muitos outros de primeira água, sentiram-se interpelados pelo génio do «colosso de Seide», dedicando-lhe estudos de amplitudes várias; também artistas plásticos como Roque Gameiro, Stuart Carvalhais, Francisco Valença, Leal da Câmara, Diogo de Macedo, Tom, João Abel Manta ou Mário Botas não lhe ficaram indiferentes.

O tempo, ele próprio – em boa parte graças aos jornais e às bibliotecas itinerantes, primeiro, ao audiovisual e aos curricula escolares, depois – encarregou-se de tornar o acervo literário de Camilo em elemento identitário dos portugueses, o que se verifica quando a cultura popular se deixa impregnar pela criação erudita, e vice-versa. Esse intercâmbio fecundo é a glória dos criadores: por um lado assegura a perenidade do seu nome e de parte da sua obra; por outro, acrescenta densidade à comunidade nacional em que o autor e os seus livros se fizeram.

O legado artístico camiliano constitui-se como património incomparável. O mesmo se passa com outras manifestações seculares equivalentes em importância: das cantigas de D. Dinis e os autos de Gil Vicente à obra romanesca dos nossos maiores escritores contemporâneos; das gravuras rupestres do Vale do Côa aos projectos de Siza Vieira, passando pelos painéis de Almada Negreiros; das sonatas de Carlos de Seixas às sinfonias de Luís de Freitas Branco e à guitarra de Carlos Paredes; dos retábulos da escola de Nuno Gonçalves às telas de Júlio Pomar, dos retratos de Columbano aos cartoons do seu genial irmão, Rafael Bordalo Pinheiro – a cultura portuguesa não é susceptível de ser apreendida sem estas, e outras, manifestações do espírito. Assim com Camilo Castelo Branco.


Texto inédito, datado de 31-V-2010

segunda-feira, fevereiro 10, 2025

a autobiografia de Eric Hobsbawm - .I impressões gerais

Terminei há pouco a leitura da autobiografia de Eric Hobsbawm (1917-2012), Tempos Interessantes -- Uma Vida no Século XX (2002). Nascido em Alexandria, filhos de um judeu inglês e de uma judia austríaca, a infância e adolescência decorrem na Viena pós-imperial, terminando na Alemanha hitleriana, onde se torna jovem comunista, e da qual se desterra para o seu país, a Inglaterra, onde tinha família que só então conhece, pouco depois da ascensão nazi.

Hobsbawm foi um dos grandes historiadores do seu tempo, aliando a análise marxista de base a um espírito simultaneamente crítico e criativo e não-dogmático. Pertencem-lhe ou desenvolveu conceitos como o da dupla revolução (Revolução Industrial e Revolução Francesa), "invenção da tradição", "o longo século XIX" (1789-1914) ou o "curto século XX" (1914-1991), nas suas obras mais emblemáticas: A Era das Revoluções: Europa 1789-1848 (1962), A Era do Capital: 1848-1875 (1975), A Era dos Impérios (1875-1914) (1987) e A Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991)  (1994). Foi também pela atracção pela cultura popular e pelo ethos dos marginais que escreve a esplêndida História Social do Jazz (1959) ou  Bandidos (1969), entre outros títulos.

Nestas memórias assume erros de avaliação, como observador-historiador e como político-intelectual. Crítico acérrimo do estalinismo, mas sem nunca cair na apologia do capitalismo ou inflectir para a direita, como sucedeu com tantos intelectuais, à medida que a leitura se desenrola estamos sempre à espera que ele anuncie a sua desvinculação do Partido Comunista da Grã-Bretanha, ao qual aderiu em meados da década de 1930: por exemplo, a tomada de Budapeste pelas tropas do Pacto de Varsóvia, em 1956 (que entre nós está na origem do abandono do PCP por Mário Dionísio). Quando verificamos que ele se mantém no PCGB -- a seu modo, é claro, e como intelectual de espírito objectivo -- por ocasião da Primavera de Praga e a repressão da liderança de Dubcek e do seu "comunismo de rosto humano", percebemos que ele nunca abandonará o Partido -- com maiúscula. No fundo, é o partido que se extingue (em 1991) com ele lá dentro. Percebe-se: velho comunista, renegar o partido seria, na minha interpretação, renegar-se a si próprio e ao trajecto em que consolidou o seu edifício historiográfico: mantendo-se marxista, mantém-se no Partido Comunista, no entanto com outra distensão, diferente da do jovem militante dos anos 30 a 50. Percebe-se também que se sente atraído pelo eurocomunismo de Berlinguer, criando fortes laços com o PCI, nomeadamente com Giorgio Napolitano, intelectual que viria a ser Presidente da República já neste século.

O meu desapontamento prende-se com ausência de referências a Portugal -- apenas duas, uma das quais certeiríssima, ao caracterizá-lo, num parênteses de um capítulo sobre a Espanha, como um "país enclausurado". Não aparecer o 25 de Abril e a revolução que se lhe segue é lastimável (nessa altura andava por outras paragens, mas ainda assim). Não aparece Cunhal, para o qual suponho não tivesse já grande paciência, mas duvido que não se entusiasmasse com Vasco Gonçalves e muito provavelmente com a Reforma Agrária. Há referências indirectas à Guiné Portuguesa e aos "criminosos da Unita"; o Brasil, com um pouco mais de sorte: Prestes, Kubitschek, Niemeyer e principalmente Lula, com quem priva, deliciado com a ascensão do PT. Também não aparecem os escritores, como os comunistas mais internacionalizados, Jorge Amado ou José Saramago, já Nobel e, pela igual ausência, parece que já não terá dado pelo Pessoa do Livro do Desassossego, cujas primeiras traduções na língua inglesa datam de 1991.

Judeu nascido no dealbar do seu short century, meio inglês-meio austríaco, e no olho do furacão nazi quando o extermínio começava, comunista num irrelevante PCGB, historiador assumidamente marxista e de largo alcance, excepto para lá da Cortina de Ferro, onde só foi traduzido na Hungria (sem esquecer a Iugoslávia, outra realidade, em esloveno), noutro post farei uma recolha de frases destes Tempos Interessantes. 

(ver também aqui, Hobsbawm a propósito de Louis Armstrong)


terça-feira, dezembro 31, 2024

o que está a acontecer

«Jantava sempre pouco, e acabava fumando tabaco de onça. Reparava extraordinariamente para as pessoas que estavam, não suspeitosamente, mas com um interesse especial; mas não as observava como que perscrutando-as, mas como que interessando-se por elas sem querer fixar-lhes as feições ou detalhar-lhes as manifestações de feitio. Foi esse traço curioso que primeiro me deu interesse por ele.» Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982) 

«Sob estas capas de vulgaridade há talvez sonho e dor que a ninharia e o hábito não deixam vir à superfície. Afigura-se-me que estes seres estão encerrados num invólucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.» Raul Brandão, Húmus (2017)

«Muito seu continua o jeito de como ao falar cerra os olhos em duas fendas chinesas, antes risonhas, agora insondáveis. / Sentado na relva à sombra dos castanheiros, o cajado entre as pernas, os cães dum lado, eu do outro, o rebanho espalhado pela ladeira, o murmúrio da água, o tilintar dos chocalhos.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

sábado, dezembro 28, 2024

o que está a acontecer

«Vi não sei onde, num jardim abandonado -- Inverno e folhas secas -- entre buxos do tamanho de árvores, estátuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puíra-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem à pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro; aqui se enterraram todos os nossos sonhos...» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Com meias frases, outras que ficam pendentes -- Há dias que pouco falta para que faça uma asneira -- eu à espera de detalhes que não vêm, ele assombrado pelas recordações, entre nós um silêncio incómodo. / Malgrado os anos continua ágil, desempenado, mas o rosto tornou-se-lhe papudo, roxo do vinho.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

«Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava -- parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982) 

quinta-feira, dezembro 26, 2024

o que está a acontecer

«-- Compreende? / Digo que sim, que compreendo, intrigado pela confidência e aquele olhar que mostra o desespero de quem anseia por absolvição. Mas custa a acompanhá-lo no emaranhado de casos e pensamentos, de mágoas, o comezinho misturado ao trágico, a indiferença de tornar simultâneos o passado e o presente.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (1903)

«A torre -- a porta da Sé com os santos nos seus nichos --, a praça com árvores raquíticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem imutáveis teias de silêncio e tédio e uma cinza invisível, manias, regras, hábitos, vai lentamente soterrando tudo.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Nessas sobrelojas, salvo ao domingo pouco frequentadas, é frequente encontrarem-se tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de apartes na vida. / O desejo de sossego e a conveniência de preços levaram-me, em um período da minha vida, a ser frequente em uma sobreloja dessas. Sucedia que quando calhava jantar pelas sete horas quase sempre encontrava um indivíduo cujo aspecto, não me interessando a princípio, pouco a pouco passou a interessar-me.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

segunda-feira, dezembro 16, 2024

o que está a acontecer

«O murmúrio alteou-se, alastrou no silêncio, depois ficou suspenso no mesmo tom percuciente de lamentação e de queixume. Eram muitas vozes em fio que uma espécie de capilaridade transformava em veia líquida de vozes, uma única voz laminada, em jacto monotonia fluente que a dicção verbal cortava em claros-escuros sónicos, de rolamentos surdos de onda. Começara no coro o ofício divino.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

«A VILA -- 13 de Novembro. / Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste... / Uma vila encardida -- ruas desertas -- pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva -- o castelo -- restos intactos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures.» Raul Brandão, Húmus (1917).

«Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto [em] que sobre uma loja com feitio de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios.» Fernando PessoaLivro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

sexta-feira, agosto 09, 2024

a estrada

 

Funerais com longos regressos de automóvel são sempre propícios à trama e à efabulação. Assim este Entre Cegos e Invisíveis, de André Diniz (Rio de Janeiro, 1975). O autor é um nome de referência dos quadrinhos brasileiros, como desenhador e argumentista, estando actualmente radicado em Portugal, onde tem vários livros publicados. O seu traço pontilhista é pessoalíssimo é facilmente identificável, como é apanágio duma forte personalidade artística. Para quem não está habituado, o melhor será citar livremente o Pessoa publicitário: pode estranhar-se primeiro, mas entranha-se rapidamente.

Esta é uma narrativa de estrada. O espaço é uma rodovia interurbana que liga dois aglomerados populacionais, percorrida por uma viatura em que viajam um casal, Jonas e Maitê, a irmã daquele, Leona, além de uma estranha figura cuja língua ninguém entende. Vêm do funeral do pai dos dois irmãos, figura nacional, militar com altas responsabilidades, chefe da polícia secreta; um pai ausente, pois os filhos são fruto duma ligação extraconjugal, e nunca foram reconhecidos. O tempo é 1971, no auge repressivo da ditadura militar. No rádio do carro, as notícias com maior destaque versam sobre o recém-falecido e a ocorrência nessa noite de um fenómeno astronómico: uma lua cheia mais próxima da Terra do que o costume, invulgar episódio celeste que terá repetição apenas em 2018.

Tudo sobre rodas, mesmo com a reserva do quarto passageiro, de cuja boca só saem sons que imaginamos guturais, até que o carro pára, por falta de combustível. Um automóvel imobilizado numa estrada interurbana em noite de lua cheia é uma circunstância que irá propiciar um sem número de diálogos e situações, com revelações inesperadas, temas sufocados, por vezes há muito tempo, e que vêm ao de cima. As interacções e focos de tensão marido-mulher, irmão-irmã e entre cunhadas são momentos fortes, complementados pelo estranhamento do suposto gringo que os acompanha e pelo aparecimento bem doseado doutros intervenientes, pontuando a narrativa: um cão abandonado, crianças sem eira nem beira, um casal de assaltantes, os empregados da área de serviço e da gasolineira, uma coluna militar, parentes (da família legítima) com quem penosa e acidentalmente se cruzam. E, sob a falsa quietação da noite, alguns espectros: a memória da mãe-amante do militar, uma adopção falhada, a lembrança do morto a pairar; e ainda outdoors enluarados, publicitários, mas também políticos, como o infame “Brasil – ame-o ou deixe-o”, àquela hora sem função.

André Diniz dá-nos um argumento bem urdido, intercalando diálogos e pausas, que vão ganhando uma densidade acrescida. Chegamos a ouvir o silêncio sob aquele luar tão próximo e pesado, em nocturno claro-escuro.


Entre Cegos e Invisíveis

texto e desenhos: André Diniz

edição: Polvo, 2019

(Setembro, 2019)







sexta-feira, maio 17, 2024

150 portugueses: 51-55

51. Egas Moniz (1874-1955). Médico neurologista genial (angiografia no cérebro) e controverso (lobotomia). Prémio Nobel da Medicina em 1949. Também escritor e político.

52. Fernando Pessoa (1888-1935). Um poeta do outro mundo, um dos maiores de sempre, e não apenas entre os portugueses, o que seria já muitíssimo.

53. Geraldo o Sem-Pavor (+c. 1173). Figura extraordinária de guerreiro e mercenário. Entre homem e lenda, figura no brasão de Évora, cidade que conquistou aos mouros.

54. D. João III (1502-1557). Conhecido na Europa como o "Rei da Pimenta", tudo (ou quase) nele foram becos sem saída. Associado para sempre à vinda da Inquisição 

55. D. Luís da Cunha (1662-1749). Diplomata de primeiro plano, académico e estrangeirado em cujo Testamento Político pensa o atraso do país, em especial dos malefícios para o seu desenvolvimento que acarretou a acção do Tribunal do Santo Ofício e a monomaníaca perseguição aso cristãos-novos.

domingo, abril 28, 2024

caracteres móveis

«A sua voz era baça e trémula, como a das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar.» Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego - por Bernardo Soares (póst., 1982) / «E tinham-lha dado sem reserva, confundidos com aquele amor, assombrados por tal fé, convictos, finalmente, de que só ele podia salvá-la, que se ele a não amparasse, a catedral se desagregava em pó, na derrocada irremediável que a deixaria rasa ao solo.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) / «Todas as palavras que se empregam têm, além da significação banal, uma significação que cada um pesa e calcula -- e outra significação superior.» Raul Brandão, Húmus (1917)

quinta-feira, abril 11, 2024

150 portugueses: 31-35

31. Salgueiro Maia (1944-1992). O operacional da tomada do poder na Revolução. Idealista e incorruptível, pagou cara a façanha de ser um homem sério num país que não presta. Está nesta lista por todos os militares de Abril.

32. Vasco Gonçalves (1921-2005). O seu nome liga-se a um epifenómeno revolucionário numa país de meias-tintas, bisonho e manhoso: o PREC, também conhecido por gonçalvismo. Um meteoro na História de Portugal, suficientemente incisivo  para lá permanecer.

33. D. Afonso III (1210-1279). Cabeça da oposição ao irmão, destituído pelo papa, Deixou-nos o rectângulo conquistado e um filho chamado Dinis.

34. Bocage (1765-1805). No liceu, foi-me apresentado como um dos poetas do pódio (com Camões e Pessoa). Pré-romântico instável, amoroso fulgurante e fescenino, excessivo e único.

35. D. Carlos I (1863-1908). Um rei "morto como um ladrão a uma esquina de Lisboa" (Raul Brandão). Diplomata, artista, oceanógrafo -- assassinado por uma conspiração em que políticos monárquicos manobraram uns simplórios republicanos exaltados.