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sexta-feira, agosto 28, 2026

o que está a acontecer

«E, à quinta volta, uma corneta atirou-o para fora da cama, para o banho frio, para a parada escura, para o pão negro e o café-com-leite do colégio, e ele muito encolhido, já na regressão fatal que o faria aceitar tudo ou quase tudo... "que no es lo mismo pero es igual"... a ver, no oficial de dia, o perfeito imperfeito da submissão.» Abílio Teixeira Mendes, Henda'Xala (1984)

«A sua heróica e húmida tristeza animal não tardaria a colar-se também à parede das coisas. E, colada à parede das coisas, progrediu na sua humidade, atravessou mesmo a respiração das pedras e começou a devorar a paisagem.» João de Melo, O Meu Mundo não É deste Reino (1983)

«Num último desafio, arrumei para sempre os lençóis de linho, rasgados, poluídos de insónias, de ressacas, de quedas pela vida das quais nunca pensei reerguer-me. Trouxe, na bagagem, a saudade, as memórias do meu pai.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? (2026)

segunda-feira, agosto 24, 2026

o que está a acontecer

«A partir do revertério da situação política, com o fim do domínio da laia que assumira o mando após a morte dos Andrade, o pai e o filho, o fazendeiro mandou e desmandou na Intendência durante lustros, Intendente ele próprio ou preposto de sua escolha, parente ou compadre.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984) 

«A corrida ao último táxi, o nome do hotel dito apressadamente no meu cantonês já esquecido, esperando acertar com o tom correcto dentre os nove. Se a tempestade chegar ao sinal oito, o mundo ficará suspenso. Urge encontrar um porto seguro, uma cama onde amalhar o jet lag de um corpo amassado por tantas horas de voo.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençois de Linho? (2026)

«Jusqu'à ce que la Mort, ouvrant son aile immense, / Engloutisse à jamais dans l'éternel silence / L'éternelle douleur! // E Petrarca, tanto ano a chorar sonetos, aposentado num palácio dum doge, rodeado de servos, e de amigos, e de admiradores, naquela feiticeira Veneza, tudo a expensas da República! / E todos os outros mestres de bardos melancólicos? Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimejantes!» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861) 

domingo, agosto 16, 2026

o que está a acontecer

«O rio que acabei de cruzar no último ferry apanhado no aeroporto de Hong Kong, nesta tarde de tufão, já com o sinal três de tempestade tropical hasteado. Viagem de enjoo, sobressalto constante, a surfar as vagas, numa alucinada vertigem.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? (2026) 

«Que requintes de luxo para o corpo, e anelos de glória para a felicidade do espírito lhe não infloravam ao poeta de Elvira a dupla existência, quando ele escrevia: Héritiers des douleurs, victimes de la vie, / Non, non, n'espérez pas que sa rage assouvie / Endorme le Malheur,» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

«Ele olhava, bestificado, as camas de ferro, os armários a pedir cadeado, as lajes frias e os colegas a despirem-se com ares de condenados. / -- Qual Cavalaria? -- perguntou com um ar imbecil -- Isto até me parece muito asseado. / -- A gente depois conversa. -- rosnou o Zé puxando a manta até aos olhos.» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984) 

sexta-feira, agosto 14, 2026

o que está a acontecer

«1. O Regresso / Ainda os ouço, ainda os sinto, mesmo aqui, tão longe, do outro lado do mundo. Os seus passos a arrastarem-se, um restolhar de serpente ou de sombra no pasto seco. Mas não quero falar deles. Mais tarde, quem sabe? Agora, vou enterrá-los em sete palmos de silêncio, no lodo do Rio das Pérolas.» Dora Gago, Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? (2026)

«Sentado na borda da cama, ombros baixos, o beiço superior fazendo um muxoxo de amuo, o Zé, filho de oficial, deixou escapar:  / -- O meu velho tinha razão. Estamos quilhados. E logo nos havia de tocar a Cavalaria.» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984) 

«As comemorações dos setenta anos da fundação de Irisópolis e dos cinquenta de sua elevação a cidade, cabeça de comarca e sede de município, alcançaram certa repercussão na imprensa do sul do país. Se para tanto o dinâmico Prefeito despendeu de verba elevada, não incorre em crítica: tudo quanto se faça para para divulgar as excelências de Irisópolis, o passado de epopéia, o presente de esplendor, merece aplauso e elogio.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984)