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terça-feira, julho 02, 2024

150 portugueses: 61-65

61. Duarte Pacheco Pereira (Lisboa, 1460-1533). Navegador, escritor, cosmógrafo, geógrafo, guerreiro, fidalgo da Coroa, há indícios de que chegado ao Brasil antes de Cabral. No Esmeraldo de Situ Orbis (1505), título misterioso e objecto de diversas interpretações, consagra por antecipação o "vi claramente visto" de Camões: «a experiencia he a madre das cousas por ella soubemos rradicalmente a verdade» -- ou  a face solar dos Descobrimentos. 

62. Fernão de Magalhães (1480-1521). O seu nome -- um dos muitos sinónimos para a palavra audácia --, baptizou duas galáxias, as Nuvens de Magalhães. Provou, em troca da vida, que a Terra é redonda.

63. Gil Vicente (c. 1465 - c. 1536). Digno pai do teatro português, pois usou do seu apurado espírito crítico para pôr em cena o drama do mundo. Se é o mesmo Gil Vicente da Custódia de Belém, o mestre foi duas vezes genial.

64. D. João IV (1604-1656). Duque de Bragança, trineto de D. Manuel I -- na verdade, as quatro dinastias foram apenas uma --, relutou antes de encabeçar a Restauração da Coroa ( reino continuara a existir na chamada Monarquia Dual). Depois, uma saga militar e diplomática que comandou. É um relevante compositor.

65. Luís de Camões (1524 -1580). Ano de centenário, o V. Li a alguém, há dias (creio que numa entrevista de Francisco José Viegas a Frederico Lourenço), qualquer coisa como isto: o leitor jovem rende-se ao lírico; mas o épico acaba por voltar, com força. Talvez seja o que me está a acontecer. De qualquer forma, Camões, grande Camões...

quinta-feira, junho 13, 2024

150 portugueses: 56-60

56. D. Manuel II (1889-1932). Sobe ao trono aos dezoito anos, o último rei de Portugal, que só o foi pelo assassínio do pai e do irmão mais velho, D. Carlos e Luís Filipe. Um reinado de acalmação, que serviu os conspiradores de 1908, republicanos e monárquicos. No exílio adquiriu livros antigos, incunábulos e manuscritos, que deixou ao país.

57. D. Pedro II (1648-1706). Uma personagem. Último filho de D. João IV, depôe Afonso VI, seu irmão, ficando-lhe com a mulher. No seu reinado começa a chegar o ouro de Brasil, mesmo a calhar quando pelo Tratado de Methuhen se estoira com a nascente indústria dos lanifícios.

58. D. Sancho I (1154-1211) Segundo rei de Portugal, extraordinário no co-governo com o seu pai, e ainda depois, pelas políticas de povoamento e reforço da moeda, nunca deixando de ser um rei medieval, batalhador, mas também poeta e apreciador da nossa poesia trovadoresca, que parece ter cultivado.

59. D. Afonso V (1432-1481) Chamam-lhe o último rei medieval, contrariando a política de centralização do seu tio e sogro, na regência -- o Infante D. Pedro acabará em Alfarrobeira; e também pelas pelejas na Península e conquista das praças de África. 

60. Carlos Paredes (1925-2004). Tinha o som do país na sua guitarra.

segunda-feira, outubro 21, 2019

diálogo sobre a questão catalã

Jaime Santos, cujas opiniões demoliberais prezo, pois não divergem muito das minhas,  comentou este post, levantando questões que me parecem úteis trazer para aqui, em vez de ficarem perdidas numa caixa de comentários. Para facilitar a leitura, intercalo as minhas observações com o seu comentário: o texto dele vai entre aspas e em itálico, o meu vai em redondo e a bold.

«Comparar, meu caro, Saddam, Assad ou o Estado Islâmico com o PSOE ou o PP é um bocadinho puxado, penso eu (mesma coisa a compará-los com Franco).»

Duas notas: 
1. Não estava a pensar em Saddam ou no Assad (duas personagens muito diferentes), mas simplesmente na Turquia e no PKK, cujo enfrentamento vai muito para além (e para trás) da era Erdogan. Aliás, o Saddam está aqui a mais, pois tratava-se de um psicopata; o Franco e o Assad são dois ditadores que mantêm o poder e a unidade territorial dos respectivos estados pela força que for precisa. Não sei por que razão quer há-de você ser benevolente para com o generalíssimo pela graça de deus...
2. Não se trata de uma questão de grau de repressão -- porque, gostemos ou não, a repressão, mais bárbara ou mais civilizada, está sempre presente --, mas do princípio elementar da autodeterminação dos povos, que aos catalães está vedada.
(Isto leva-me a falar na ignorância atrevida e crassa de muitos comentadores da questão: quando esta se levantou no ano passado, ouvi uma corifeia, a partir do palanque merdiático que detém, comparar o problema com uma eventual vontade de secessão do Porto ou coisa que o valha, para significar a absurdez da situação, no seu vesgo modo de ver. É não ter a mínima noção do que fala; mas como além de falta de noção também lhe mingua a vergonha, continua por aí a perorar, provavelmente não repetindo o dislate, pois alma caridosa provavelmente chamou-lhe a atenção para o disparate). Há dias, não um comentador mas um singelo director de informação, punha a questão secessionista ao nível do Açores e da Madeira, achando que podia comparar o incomparável, não percebendo nada (ou não querendo perceber), misturando autonomias  de natureza diferente). E o que ele devia perceber é que não há espanhóis; ou então: espanhóis somos todos, como lembrou D. João II aos Reis Católicos, os tipos que armaram este sarilho. Açorianos e madeirenses são tão portugueses como transmontanos e algarvios, e não se sentem outra coisa; a Espanha é uma entidade política artificial, imposta pela força das armas, ao longo dos séculos, uma unidade de que fizemos parte em várias situações e das quais saímos porque quisemos sair, ou não quisemos entrar, em várias ocasiões, sempre pela força das armas, em duas delas contra a legalidade, com D. Afonso Henriques e D. João IV (D. Afonso V também quis subjugar Castela e dela tornar-se soberano).

«Os meios devem ser ponderados à situação presente e a Espanha ainda não começou a meter pessoas indiscriminadamente na cadeia ou a torturá-las, ou o que seja (isso não impede as presentes condenações de serem exageradas e sobretudo injustas).»

Não, meu caro, as condenações não são exageradas; provavelmente as sentenças são impecáveis, porque de acordo com a legalidade do estado espanhol, mas profundamente ilegítimas, pois negam um direito básico de qualquer povo (daí a minha referência aos curdos), o tal da autodeterminação. E as leis mudam-se, é uma questão de bom senso, ou de força... 

«Quando alguém se levanta contra uma ordem constitucional (porque a presume ilegítima) deve estar preparado para sofrer as consequências. Nessa medida, Junqueras ou Forcadell merecem muito mais a minha admiração que Puigdemont. Escolhem como Gandhi (ou Mandela que mais tarde se converteu à solução política do conflito na África do Sul), sofrer pelas convicções.»

Sim, deve estar preparado, mas essas considerações implicam um julgamento que não só não adianta nada, como é bastante fácil de enunciar a partir do teclado. O exílio não deve ser um mar de rosas; em segundo lugar, não sabemos que articulação terá havido entre os protagonistas; e por fim, o Puigdemont serve a sua causa em Bruxelas, e não creio que haja catalão que não o apoie.
E, deixe-me que lhe diga, a conversa da constituição é uma treta, pois na transição todos queriam ver-se livres do regime e aceitaram todos os compromissos para acabar com o franquismo. Falar de constituição nesta altura do campeonato é de um grande cinismo (não seu, mas dos políticos de Madrid).

«Relativamente ainda à acção violenta, o insuspeito Camus disse um dia que entre a Justiça e a sua Mãe (que vivia na Argélia), ele escolheria a sua Mãe. Eu faria exactamente a mesma escolha...
E, chame-me cobarde ou reaccionário, não vou criticar nenhum Espanhol ou Catalão (Pied-Noir ou não) que faça também essa escolha. E cuidado com aqueles que a fizerem. O terror, como bem mostra a História, não é normalmente só a arma de um dos lados... A Guerra Civil de Espanha foi tudo menos um conflito entre os bonzinhos e os mauzinhos... Cuidado com o que se deseja...»

O Camus era um individualista, e bem; também eu me considero tal. As nossas opções são sempre sopesadas entre a ética e as convicções, por um lado, e os custos e danos por outro. Cada um deve ter a liberdade de agir em conformidade com a sua consciência, sem entrar no tropel da manada. Mas tenho a certeza de que faria suas as extraordinárias palavras do José Martí: «Si no luchas ten al menos la decencia de respetar a quien sí lo hace.»
O "terror". Chamar terroristas a quem pega em armas para defender-se é o que faz o Erdogan aos curdos do PKK e os que lutaram contra o Daesh, era o que o Salazar chamava aos movimentos de libertação das colónias. Não, meu caro, não faço esse favor aos opressores, mesmo que sejam opressores 'soft' ou 'light'. Se um comando catalão atacar pelas armas a sede da polícia espanhola, não serei eu quem levantará a voz para os condenar, era o que faltava. Embora, como escrevi, considere mais produtiva e inteligente um movimento de desobediência civil essencialmente pacífico e simbólico, mas eficaz. 
Terror é o que fez aquele islamita em Nice, que varreu dezenas de pessoas ao volante de um camião; ou os guerrilheiros da UPA, que massacraram colonos e indígenas, mulheres e crianças no norte de Angola, em 1961, ao contrário do MPLA, que assaltou uma cadeia onde estavam presos políticos nacionalistas / patriotas angolanos. Terror é condenar um líder político a 13 anos de cadeia.
Não, a Guerra Civil foi uma insurreição contra um governo democrático legítimo, chefiada por uma ratazana cujas ossadas vão ser despejadas daquele ignominioso Vale dos Caídos, o tipo que mandou fuzilar o Companys, presidente da Generalitat durante a II República. Não há mauzinhos nem bonzinhos; quando muito tipos do lado certo e outros do outro lado.


«Mas depois, existe um pequeno problema, aparte a falta de coragem dos Partidos Espanhóis que não querem abrir a caixa de Pandora dos referendos e se preparam para abrir a do separatismo porventura violento.»

Não querem, porque a direita espanhola é profundamente reaccionária e franquista, do aldrabão do Alberto Rivera (filho de colonos andaluzes que o Franco mandou para lá, que cortou o 'o' do nome para parecer catalão) ao gajo do Vox, a extracção é toda a mesma: o PP, o partido nascido do franquismo.  Fui um pouco injusto com o PSOE, que quis de facto dar um salto a tempo para outro patamar político, mas sempre bloqueado pelos franquistas do PP. É a minha embirração com o Sanchez, de que me penitencio, em período eleitoral, embora não dê nada por ele, como político ou indivíduo (um tipo que plagiou a tese, não é?...).

«A maioria dos catalães votou, nas últimas eleições, em Partidos Unionistas, a maioria presente no Parlement deve-se a um sistema eleitoral não proporcional e o mesmo se passou na anterior eleição que deu o Parlement que declarou a independência. Fazer um referendo sem sequer se dispor de uma maioria parece-me um bocadinho forçado...»

Creio que está a incluir nessa alegada 'maioria' o Podem, que em bom rigor não é unionista nem separatista (o que faz a propaganda...) E se é como você diz, não percebo por que razão os 'arriba españa' não viabilizam o referendo, gozando do seu triunfo em todas as frentes, e passam pela vergonha de serem desprezados em países civilizados. Aliás, tem-se visto quem vem para a rua em Barcelona, a defender a integração: aqueles embuçados de braço levantado em saudação fascista. Não era preciso ver, já se sabia, mas assim é mais eloquente.

«Quanto à vida ser feita de crises, bom, eu contrariamente àquele escritor francês, prefiro o aborrecimento à barbárie. O aborrecimento tem futuro, a barbárie não tem nenhum...»

Ora, somos dois! Mil vezes o aborrecimento da vida burguesa e medíocre dentro dos carris. Mas, lá está, não irei criticar quem se revolta contra a indignidade. Viver de joelhos deve ser muito aborrecido, e por vezes também deve custar a olhar para o espelho. Li já há uns bons anos uma entrevista dum escritor catalão que se assumia como independentista, e lembrava, com indignação, de como no seu tempo de criança e jovem, estava proibido de aprender a sua língua na escola. É realmente desagradável andar agachado.
Deus queira você tenha razão nesse optimismo quanto à falta de futuro da barbárie. Mas, como tenho dito, os catalães é que sabem. E note que não tenho nenhum preconceito contra os castelhanos, muito pelo contrário; mas as coisas são como são.

quarta-feira, dezembro 06, 2017

"Como és belo, meu Portugal"*

Não se admirem, por favor; quanto aos Painéis, quando Joaquim de Vasconcelos, na companhia de Ramalho Ortigão, deu com a obra de Nuno Gonçalves, em S. Vicente de Fora (que haviam já sido assinalados pelo monsenhor Elviro dos Santos), aqueles foram salvos de servirem como tábuas para andaimes, ou coisa que o valha. O Forte de Santo António, nem é tanto por lá ter caído o velho Botas, mas a memória da Restauração e da independência nacional que representa a quase totalidade das fortificações marítimas, mandadas erigir por D. João IV, para prevenir uma invasão espanhola, semelhante à do Duque de Alba, em 1580 -- função simétrica, aliás, às dos castelos da raia.
Coisas que não interessam nada a quase ninguém. É o tal défice de que falava Costa.



(* Luís Cília)

sexta-feira, julho 31, 2015

J de João IV, D.

João IV, D. - Adeste Fideles.

domingo, outubro 23, 2005

Correspondências #18 - Cristina da Suécia a D. João IV

Nós Cristina por graça de Deos Rainha eleita, e Princeza herdeira dos Suecos, Godos e Vandalos: Grande Princeza de Finlândia, Duqueza de Ethonia, e de Carelia, Senhora de Ingria, &c. Ao Serenissimo Princepe, Irmaõ, parente e amigo nosso muito amado D. Joaõ, o quarto do nome, Rey de Portugal, dos Algarves, daquem e dalem mar em Africa, Senhor de Guiné, e das Conquistas, navegaçaõ, e Comercio em Ethiopia, Arabia, Persia, e India, &c. Saude, e prosperos sucessos.
Serenissimo Princepe, Irmaõ, parente, e amigo muito amado, o Embaixador do Conselho de V. Magestade, o Illustre, Magnifico, e generoso, de nós sinceramente amado, D. Francisco de Souza Coutinho, ha pouco, que chegou, pera nos manifestar alguns negocios, que lhe foraõ cometidos. Nós pello grande parentesco, e amizade, que por muito seculos ouve entre nossos predecessores gloriosissimos, os Reys de Suecia, e de Portugal, e entre huma, e outra naçaõ, conhecendo o divino beneficio da restituiçaõ feita a V. Magestade de seu hereditario Reyno, retido por alguns annos injustamente dos Reys de Castella, recebemos de boa vontade, o dito Embaixador, e delle ouvimos com muito gosto, o que pareceo a V. Magestade cometerlhe, assi pera nos declarar a rezaõ, e pera explicar o modo de restituiçaõ na dita Coroa, como também pera que acabada toda a antiga inimizade, por cuja culpa até agora esteve suspensa a amizade, e o comercio, se restituisse de ambas as partes, a sincera confiança, e firme amizade, e tornassem à antiga liberdade, o trato, e comercio antigo. Todas estas couzas, e as que dellas se seguem, e as maes, que o Embaixador de V. Magestade com destreza, prudencia, e discripçaõ, nos propos, e mostrou por escrito, declaramos naõ só como pedia a rezaõ, e o bem de nossas couzas; mas tambem como pareceo, que convinha ao grande afecto, que temos a V. Magestade, e a toda a sua Real Caza. E como naõ duvidemos, que o mesmo Embaixador relatará a V. Magestade com igual destreza este nosso afecto, e animo muy sincero, amigavelmente pedimos, o queira V. Magestade bem entender do dito seu Embaixador, e persuadir-se, que nós pella amizade restaurada, e pello trato do comercio restituido entre os subditos, e vassallos de huma, e outra naçaõ, avemos de fazer por amor de V. Magestade quanto nos for possivel por consolidar, e augmentar toda a boa correspondência. No maes com muito affecto encomendamos à divina protecçaõ a V. Magestade. Feita em nosso Paço Real Hocholmense, aos 30 de Julho de 1641.
Os Tutores, e Administradores da Sacra, e Real Magestade, e do Reyno de Suecia.
Petrus. Cõde em Jacobo de la Guardie Carolo Gylde 'hielm
Wissingsborg. R. S. Manichus. R. S. Ammirantins.
R. S. Drotzetus.
Aurelius Erenstierna
R. S. Cancelario
Gabriel Exenstiern. L. B. in
Marebij, & Lindholm
R. S. Thesaurario.
In Luís de Freitas Branco, D. João IV, Músico

O Restaurador

domingo, junho 26, 2005

Correspondências #6 - Padre António Vieira a D. João IV

Senhor:

Com esta remeto a Vossa Majestade a relação do que se tem obrado na execução da lei de Vossa Majestade sobre a liberdade dos índios. Muitos ficam sentenciados ao cativeiro por prevalecer o número dos votos mais que o peso das razões. Vossa Majestade, sendo servido, as poderá mandar pesar em balanças mais fiéis que as deste Estado, onde tudo nadou sempre em sangue dos pobres índios, e ainda folgam de se afogar nele os que desejam tirar perigo aos demais. Contudo se puseram em liberdade muitos, cuja justiça por notória se escapou das unhas aos julgadores. Tudo o que neste particular, e nos demais se tem obrado a favor das cristandades, e em obediência da lei e regimento de Vossa Majestade, se deve ao governador André Vidal, que em recebendo as ordens de Vossa Majestade, se embarcou logo para esta capitania do Pará, a dar à execução muitas coisas, que sem a sua presença se não podiam conseguir. Se o braço eclesiástico ajudara ao secular, tudo se pusera facilmente em ordem e justiça; mas, como as cabeças das Religiões têm opiniões contrárias às que Vossa Majestade manda praticar, estão as consciências como dantes, e o que não nasce destas raízes dura só enquanto dura o temor. Já dizem que virá outro governador, e então tudo será como dantes era; e eu em parte assim o temo, porque todos os que cá costumaram vir até agora traziam os olhos só no interesse, e todos os interesses desta terra consistem só no sangue e suor dos índios.
De André Vidal direi a Vossa Majestade o que me não atrevi atègora, por me não apressar; e, porque tenho conhecido tantos homens, sei que há mister muito tempo para se conhecer um homem. Tem Vossa Majestade mui poucos no seu reino que sejam como André Vidal; eu o conhecia pouco mais que de vista e fama: é tanto para tudo o demais, como para soldado: muito cristão, muito executivo, muito amigo da justiça e da razão, muito zeloso do serviço de Vossa Majestade, e observador das suas reais ordens, e sobretudo muito desinteressado, e que entende mui bem todas as matérias, posto que não fale em verso, que é falta que lhe achava certo ministro grande da corte de Vossa Majestade. Pelo que tem ajudado a estas cristandades lhe tenho obrigação; mas pelo que toca ao serviço de Vossa majestade (de que nem ainda cá me posso esquecer) digo a Vossa Majestade que está André Vidal perdido no Maranhão, e que não estivera a Índia perdida se Vossa Majestade lha entregara. Digo isto porque o digo neste papel, que não há-de passar das mãos de Vossa Majestade, e assim o espero do conhecimento que Vossa Majestade tem da verdade e desinteresse com que sempre falei a Vossa Majestade, e do real e católico zelo, com que Vossa Majestade deseja que em todos os reinos de Vossa Majestade se faça justiça e se adiante a fé. A muito alta e muito poderosa pessoa de Vossa Majestade guarde Deus como a Cristandade e os vassalos de Vossa Majestade havemos mister. Pará, 6 de Dezembro de 1655.
António Vieira
Cartas
(edição de Mário Gonçalves Viana)