Raul Brandão: «O casebre não existe -- as paredes não têm limites, na escuridão remexem seres que esperam que se realize um sonho impossível no mundo. / O Fortunato que nunca comeu à sua vontade e que trabalha até à morte, a velha que não fala e nunca se queixou, a Rosa e o ladrão que anda a monte, o criado que os serve há tantos anos sem receber soldada, ouvem o Manco e deixam apagar o lume reduzido à ponta dum cigarro.» O Pobre de Pedir (póst., 1931) § Machado de Assis: «Não é que não rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo durante horas; mas tudo lhe saía informe, sem idéia nem harmonia. Nos últimos tempos tinha até vergonha da vizinhança, e não tentava mais nada. / E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto esponsalício, começado três dias depois de casado, em 1779.» Histórias sem Data (1884) -- «Cantiga de esponsais». § Fialho de Almeida: «Hão-de ter reparado que certas coisas têm fisionomias humanas conhecidas de nós, o traço dalguém que amámos, duma pessoa que nos impressionou em tal parte, ou por um qualquer detalhe, pequenino que fosse. Às vezes é uma nuvem que, por entre uns esboços de cara, guarda por momentos o doce sorriso de nossa irmã. Às vezes é uma flor, a do pilriteiro, que tem no desenho do cálice o modelo frágil da pobre criaturinha loura que morreu tísica ao escrever-nos a primeira carta.» O País das Uvas (1893) -- «Pelos campos» § Augusto Casimiro: «Há crimes que invocam o Amor da Pátria para se realizar. Há violências que se dizem por ele exigidas. Mentiras que dele querem viver e da sua força.» O Livro dos Cavaleiros (1922) § António de Cértima: .../... «E é entre estes dois pontos terminais da mais bela artéria urbanística do mundo que me parece dever fixar-se a verdadeira representação psico-fisiográfica de Paris -- que alguns pretendem deslocar para o território intelectual da Sorbonne, outros para a arte do Louvre, e ainda outros (ou outras) para os salões de Dior e Jean Dessès, na convicção de que só a inventiva dos grandes costureiros saberá definir perante o universo o poder criador da cidade.» .../... [14.VIII.1961], Doce França (1963) § Frei João Álvares ao monges do Paço de Sousa, 24-XII-1467: .../... «E assi de vós outros que vos deve nembrar como vos destes e oferecestes e consagrastes a Deus per vossos votos e vossa própria vontade, ca a mim não me prometestes nenhuma cousa, nem eu vos nom demando nem requeiro al senom o que deveis de pagar a Deus que o entregueis e deis a mim, que som seu procurador e mordomo que ele escolheu e me chamou à luz deste mundo do ventre da minha mãe, e me ungiu com o óleo da sua misericórdia e me pôs neste lugar antre vós, feito padre e abade, per a qual dignidade e ofício vós me nom elegestes nem me escolhestes, mas eu vos elegi e escolhi. E de como vos mantive e governei esse tempo que convosco estou, vós o sabeis e podeis delo dar testemunho.» .../... in André Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965/85)
quinta-feira, maio 08, 2025
sábado, abril 05, 2025
correspondências
(Frei João Álvares aos monges do Paço de Sousa, 1467) .../... «E esto podemos veer por exempro nas cousas naturais assi como é a cabeça, a qual, posto que seja a mais alta parte do corpo e a mais principal, nem pode porende estar sem o ofício e serviço dos outros nembros, e per essa mesma guisa os outros nossos nembros sem a sua cabeça se nom podem manter nem governar, assi que nem a cabeça aos nembros, nem os nembros à cabeça poderão dizer: "Eu poderei viver sem ti", porque será mintira, mas que um nom pode escusar o outro, como é verdade.» .../... in Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965)
sexta-feira, março 07, 2025
correspondências
(Frei João Álvares aos monges de Paço de Sousa, 1467) «Aos filhos amados em Deus, monjes do moesteiro de S. Salvador de Paço de Sousa, da ordem de S. Bento, saúde e bênção em Nosso Senhor Jesu Cristo. Certo é que Nosso Senhor Deus, por sua bondade e misericórdia, ordenou que todos assi fôssemos juntos, como somos, polo legamento da caridade, pola (qual) eu cá onde ando, e vós lá onde estais todos a reveses possamos gouvir de nossos benefícios e orações, e que eu convosco e vós comigo nos hajamos de salvar, e que todos juntamente, feitos executores do que prometemos, possamos receber a glória que nos é prometida se perseverarmos com boa obediência nos santos mandamentos da regra.» .../... in Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965)
(José da Cunha Brochado a desconhecido, 1696) .../... «Estas reverentes vozes na fé do indulto deste dia mereçam, meu Senhor, alguma dissimulação na graça de V. Ex.ª, a cujos preceitos quer a minha obediência ter a ousadia de resignar-se. Deus guarde a V. Ex.ª muitos anos / 7 de Maio de 1696.» Cartas**
(Eugénio de Andrade a Jorge de Sena, 1955) .../... «E, para que lhe não fique a menor dúvida, dir-lhe-ei só mais isto -- um dos poemas do livro, suponho que o intitulado Frente a frente, é-lhe dedicado -- bem assim como todo o livro à Sofia -- dedicatórias essas que retirei, por razões óbvias, nas cópias que mandei. Quando o livro for publicado você encontrará tais dedicatórias no seu lugar.» .../... Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena*
** ed. António Álvaro Dória, 1944
* ed. António Oliveira, 2015
terça-feira, junho 06, 2023
Fernando Pessoa
Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal
quarta-feira, dezembro 07, 2022
limites da igualdança
Uma carta enviada de Penela, a 6 de Janeiro de 1434, reflectindo o pensamento do Infante D. Pedro (1392-1449), já como homem do Renascimento, a propósito da sua concepção do lugar central e pinacular do soberano -- neste caso, o irmão, o rei D. Duarte (1391-1438) --, e que nos dez anos de regência, na menoridade do sobrinho (e genro), D. Afonso V, pretendeu exercer, limitando o poder senhorial e reforçando o da corte. Exercício que lhe custou a intriga e a inimizade do círculo real, o desterro e a morte, na batalha de Alfarrobeira, contra o exército desse D. Afonso V, o nosso último rei medieval
Monarca há pouco mais de meio, D. Duarte recebe conselho do irmão, a propósito do tratado de Cícero sobre a Amizade, que está a co-traduzir, dirigindo-se-lhe, obviamente, como vassalo fraternal, o que só o sangue permite, mesmo que observado o protocolo -- Muito alto e muito excelente Príncipe, e muito poderoso Senhor:
«[...] outorgando-vos Deus o estado real, de que, a meu juízo, sois mais digno que homem que eu conheça, tirou-vos nome de amigo ao menos com vossos sujeitos, ficando-vos outro mais alto que é bom e gracioso Rei e Senhor. Porque não sinto que as obras de amizade se possam em seu perfeito grau usar entre senhor e servidores, porque a amizade traz obras de coração voluntarioso e livre. Pois como caberá isto no sujeito que a seu bom senhor é tão obrigado que lhe deve si e quanto possui, em tal maneira que lhe não fica por que possa livremente mostrar sua amizade? Parece-me ainda, Senhor, que o nome de amizade requer igualdança nas pessoas, e cada um verdadeiro amigo deseja de igualar seu amigo em benfeitorias e agardecimentos, e ainda vencê-lo em isto se puder.»
In Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965)