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quarta-feira, agosto 26, 2026

o que está a acontecer

«Também Juvenal nunca a contemplara com tanta opressão e tristeza. Das outras vezes que a Madeira lhe surgira da face verde do oceano, todo ele era alvoroço perante os cenários da meninice já longínqua. Mas, agora, doze anos esgotados sobre a última visita, os valores espirituais de então tinham-se alterado e tudo perdera a razão de ser, tudo adquiria um só sentido: Ela.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Eu ia a cismar nisto, quando me deu na vista um homem, companheiro de carruagem, o qual estava pendurando o chapéu no arame, e vestia a veneranda calva com seu barrete de troçal preto.» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

«Provas da capacidade administrativa do Coronel e de sua dedicação no exercício do poder ainda hoje são vistas e admiradas no perímetro urbano, inclusive a rua calçada com paralelepípedos ingleses -- importados da Inglaterra, sim senhores! --, orgulho da população irisopolense, enquanto as acusações de desvio dos dinheiros públicos desvaneceram-se no passar do tempo.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984)

sexta-feira, agosto 21, 2026

o que está a acontecer

Os primeiros machos haviam sido domesticados à força, uns pelo açaimo, outros pela inexorável castração, e carregavam agora em osso escassas moendas de fava e milho, com destino às azenhas da Achada e da Salga. Tinham o olhar mole e aflito de toda a natureza condenada à servidão dos homens.» João de Melo, O Meu Mundo não É deste Reino (1983)

«Ele deu três ou quatro voltas no colchão de palha fazendo a si próprio uma pergunta que o acompanharia durante todo o serviço militar: / "Por que raio é que os colchões de palha, aqui, não me fazem asma?"» Abílio Teixeira Mendes, Henda Xala (1984)

«Agora, a ilha maioral, a Madeira nativa, o imã que fascinava todas as pupilas errantes, ostentava-se mais além. Pardo como o do Porto Santo, o seu corpo, de linhas irregulares, parecia, visto assim de longe, totalmente despido de pompas vegetais, ninguém ousando profetizar os encantos que guardava para aqueles que lhe demandassem o encanto dos cumes e das vertentes.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

terça-feira, agosto 18, 2026

o que está a acontecer

«Além das matérias pagas, os jornais do Rio e de São Paulo divulgaram algum noticiário sobre os eventos principais que abrilhantaram os festejos, com destaque para as cerimônias, ambas solenes, da inauguração dos bustos do coronel Prudêncio de Aguiar e do doutor Inácio Pereira, erguidos um em cada praça, a da Prefeitura e a da Matriz.» Jorge Amado, Tocaia Grande - A Face Obscura (1984)

«As casas encardidas do litoral, com seus tectos de colmo e adobes de uma argamassa em tudo semelhante ao barro amassado em sangue, desciam em três fiadas até ao fundo do vale. Aí se enlaçavam umas nas outras, ao longo de canadas tortuosas, através das quais seria milagre a passagem de uma junta de bois atrelada ao tiro das carroças.» João de Melo, O Meu Mundo não É deste Reino (1983)

«As suas casitas estendiam-se junto à riba, branquejando entre a paisagem e sugerindo uma vida tão plena de claridade como modesta; mas haviam crescido em número, sim, pois Juvenal pudera contar muito mais do que na época, já distante, em que viera com a família passar o Estio na vila Baleira.»  Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

terça-feira, agosto 11, 2026

o que está a acontecer

«Naquele tempo, a freguesia de Nossa Senhora do Rozário da Achadinha não era mais do que uma caganita de mosca, à qual se apontasse um dedo acima do dorso quase sempre verdoso do Atlântico, e a memória dos povoadores escorria ainda do basalto das calçadas e dos musgos marinhos.» João de Melo, O Meu Mundo não É Deste Reino» (1983)

«O "Avelona Star", de boa singradura, trouxera para a direita do seu casco o vulto negrusco que até aí apresentava pela linha de proa. Porto Santo avolumara-se, perdendo em mistério o que dava em relevo orográfico.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Entrei numa das mais flácidas carruagens do comboio. / Vejam a egoísta e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma padecia tanto, se dispensou a ignóbil matéria dos regalos das almofadas! A angústia lamentosa; creio: mas em que recâmaras de asiática opulência se lamentava ele!» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

sábado, agosto 01, 2026

o que está a acontecer

«Apertava-se o coração do pobre pai, ao lembrar-se que os sóis ardentes de Julho ou os tufões regelados de Dezembro haviam de encontrar sem abrigo aquele débil criança, que mais se dissera nascida e criada em berços almofadados e sob cortinados de cambraia, do que no leito de pinho e na grosseira enxerga da aldeia.» Júlio Dinis, As Pupilas de Senhor Reitor (1867)

«Quase dois contos atirados por água abaixo! / No topo da escada, esbatendo-se na penumbra, surgiu o abdome e logo o rosto avermelhado de Macedo, proprietário da "Flor da Amazónia". / Então, senhor Balbino? / -- Nada!» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Quatro anos antes, o arcediago de Barroso, padre Leonardo Taveira, amigo velho do Sr. Silva, em expansiva conversa com o seu amigo, num domingo de tarde, nas hortas de Campanhã (onde semanalmente saturavam as respectivas massas adiposas com o excelente vinho verde de Cabeceiras de Basto), quatro anos antes, vinha eu dizendo, falava assim, com o seu amigo, o rubicundo arcediago: / -- Sabes tu, Silva, que me está dando bastante cuidado o futuro de Rosa!» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

domingo, julho 12, 2026

o que está a acontecer

«Que diria Juca Tristão, que o tinha por esperto e exemplar, quando ele lhe aparecesse com três homens a menos no rebanho que vinha pastoreando desde Fortaleza? E o Caetano, que ambicionara aquele passeio por conta do seringal e assistira, roído de inveja, à sua partida? Rir-se-iam dele...» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Bêbedos  extraordinários falam de tudo e descrevem parábolas no solo, com a sombra de seus corpos embrutecidos. Dois ou três embirram com a sombra./-- Mete-te comigo, cai nessa, minha tirana! / -- A velhaca, comentam, tem agora a mania de ir adiante de mim. Esta manhã era atrás. Mas não me larga! Bêbeda! / -- Era o que me faltava! Súcia de marmanjos!» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878)

«Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moça, e desculparemos a paixão fatal do infeliz negociante, que, no andar de baixo, está fumegando por todos os orifícios e destilando por todos os poros. / Como veio esta menina para a casa do negociante? / Da seguinte maneira.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854) 

domingo, julho 05, 2026

o que está a acontecer

«Ter andado de Herodes para Pilatos, batendo todo o sertão do Ceará no recrutamento dos tabaréus receosos das febres amazonenses e tranquilos sobre o presente, porque há anos não havia secas, e afinal, depois de tanto trabalho, de tantas palavras e canseiras, fugirem-lhe nada menos de três!» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do seminário. O seu nome era Amaro Vieira. Atribuía-se a sua escolha a influências políticas, e o jornal de Leiria, «A Voz do Distrito», que estava na oposição, falou com amargura, citando o Gólgota, no favoritismo da corte e na reacção clericalEça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/1880)

«O papagaio salta-lhe à mão, e esta mão não é pequena, dedos longos, rosados na extremidades, transparentes como o colo de sua dona, onde o próprio Lúcifer de Gautier choraria uma segunda lágrima, por se ver impossibilitado de armar às boas mulheres (quando é de supor que lhe não vão lá ter as piores.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854) 

domingo, junho 28, 2026

o que está a acontecer

«Fato branco, engomado, luzidio, do melhor H. J. que teciam as fábricas inglesas, o senhor Balbino, com um chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na "Flor da Amazónia" mais rabioso do que nunca.» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«Todas as noites a casa se enchia e o aspecto era sempre o mesmo. / Ao fundo, encostada ao balcão forrado de zinco, a tia Lauriana, mulher de grandes seios e arrecadas, que tinha a especialidade dos pastéis de bacalhau, e pernas másculas saídas de grosseiras saias de baetilha; ao canto o cego de chapeirão derrubado, a atitude fria, faminta, dolorida e apagada, a rebeca nos joelhos, a manta de riscas ao ombro, a eterna noite nas feições.» Fialho de Almeida, A Ruiva (1878) 

terça-feira, junho 09, 2026

o que está a acontecer

«Das maiores. -- Sonho premente desde a infância, não conseguira mais que arremedá-lo de cambulhada e, entre outros, com monas de trapos: uma saia velha, um atilho, apertado com força, a formar a cabeça, outro, a meio, a traçar a cintura» Assis Esperança, Servidão (1946)

«Pouco a pouco, entre ele e a paisagem foram-se interpondo novas visões: o baú de folha fechando-se sobre camisas e ceroulas; um comboio, rapa-terra, rapa-terra, até Lisboa; depois, o navio e o mar -- e o mar... Vinha, em seguida, uma nebulosa, "o não se sabe quê" -- "quem tem boca vai a Roma" e "um homem que trabalha nunca morre de fome"...» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) 

«Nas estações, quase todas isoladas na serra, as cargas e descargas faziam-se lentamente, mas em grande alvoroço, os carregadores a gritar e a correr numa pressa de teatro, temerosos de que o chefe os repreendesse ou o senhor maquinista se irritasse por ter de esperar.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

sábado, maio 30, 2026

o que está a acontecer

«Nestes corações, onde reinavam afectos ao mesmo tempo ardentes e profundos, porque neles a índole meridional se misturava com o carácter tenaz dos povos do norte, a moral evangélica revestia esses afectos de uma poesia divina, e a civilização ornava-os de uma expressão suave, que lhes realçava a poesia.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«O lume do cigarro chegava já aos lábios de Manuel da Bouça e ele continuava a contemplar a margem do rio, onde se expunham os campos cobiçados e onde a sua casa fumegava, indolentemente, na quietação da tarde.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Duma ponta a outra são cento e vinte quilómetros, mas quer para cima, quer para baixo, aquilo era viagem que durava de manhã à noite. O comboio levava de tudo, parava em toda a parte.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

terça-feira, maio 19, 2026

o que está a acontecer

«Para ele, sim, é que os campos estavam mesmo a jeito: ali à mão, bastava prolongar o muro junto ao renque dos pinheiros, pois do lado de baixo o Caima constituía vedação natural. E o senhor Esteves, bem falado e com um presente de trutas, devia estar pelos ajustes, porque, feitas as contas, sempre era melhor ganhar dez duma só vez do que cinco em toda a vida.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Que há[-de alguém] confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre do sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

«"O pai foi o inventor do bowling, é isso?", perguntou Mister DeLuxe. "O pai estava sempre bêbado e jogava bowling com as garrafas vazias", insistiu Austin, "Molero fixa-se nisto como no elo de uma cadeia, é o que ele diz."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

terça-feira, maio 12, 2026

revista de imprensa

«Para o lobo o povoado não é uma aspiração: -- é uma necessidade. E quantas vezes o lobo encontra o seu quinhão tragado pelos vermes.!»

Ferreira de Castro, «"Os novos" -- Conceitos de Zaratustra», A Hora #1, 12-III-1922

(da edição fac-similada, apresentada por Paulo Samuel)

quinta-feira, maio 07, 2026

o que está a acontecer

«Até parecia injustiça de Deus que aqueles campos tão férteis, tão vastos, estivessem quase ao abandono, porque o senhor Esteves, sendo rico, morava na vila, nunca vinha ali e o rendeiro, velho e sovina, preferia deixar a terra sem cultivo a pagar a alguém que o auxiliasse.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Invejo -- mas não sei se invejo -- aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho a dizer.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (póst., 1982)

«No meio, porém, da decadência dos Godos, algumas almas conservavam ainda a têmpera robusta dos antigos homens da Germânia. Da civilização romana elas não haviam aceitado senão a cultura intelectual e as sublimes teorias morais do cristianismo. » Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

quinta-feira, abril 09, 2026

o que está a acontecer

«não se preocupe, continuou, a conversa é mais para o distrair e, se ficar distraído sem reacção, também não lho levo a mal. é o que fez a liberdade, acrescentou. um dia estamos desconfiados de tudo, e no outro somos os mais pacíficos pais de família, tão felizes e iludidos, e podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Soriano ouvia, com interesse, o filho, enquanto utilizava a língua como um palito, ora empolando a face direita, ora a esquerda. Mas já Mercedes saía do quarto, sempre com movimentos apressados. Tinha avivado o pó-de-arroz e dado um jeito mais gracioso ao seu cabelo; no braço trazia uma pele de raposa.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

« -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: -- Vamos lá a falar baixo. // -- "Chouriço de carne em óleo de mendobi", que raio será esta mistela avermelhada?... -- interrogava-se o Torrão, um soldado lingrinhas, uns olhos escuros de pardal brilhando debaixo da pala do quico, lendo o papel amarelo onde estava escrita a ementa:» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

sexta-feira, abril 03, 2026

o que está a acontecer

«um povo assim, está a perceber. pousou a caneta. queria tornar inequívoca aquela ideia e precisava de se assegurar da minha atenção. não tenho muita vontade de falar, sabe, senhor, estou um pouco nervoso, respondi.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Soriano e o filho ergueram-se também. O taque-taque do relógio parecia mais nítido, mais corajoso, à medida que o iam deixando sozinho. Os dois detiveram-se no corredor. Paco comentava os numerosos palacetes que estavam a ser construídos em San Rafael, para elementos do Partido Radical.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

« -- O filho da mãe que fez as correias tão estreitas é que devia andar aqui no mato a amargá-las com um saco às costas -- resmungou um soldado. / -- De-de-ve ser pa-pa-ra pou-pou-par -- gaguejou outro em resposta. / -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: vamos lá a falar baixo.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

quarta-feira, abril 01, 2026

Vitorino Nemésio, escrever como se respira

Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o  mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.

Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico. 

segunda-feira, março 30, 2026

o que está a acontecer

«1. o fascismo dos bons homens - somos bons homens. não digo que sejamos assim uns tolos, sem a robustez necessária, uma certa resistência para as dificuldades, nada disso, somos genuinamente bons homens e ainda conservamos uma ingénua vontade de como tal sermos vistos, honestos e trabalhadores.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

« -- O que me importa e irrita é essa mania que tu tens de achar bom tudo quanto é estrangeiro e mau tudo quanto é espanhol. Mas não me admira nada; mesmo nada; todos os teus correligionários são assim... / Soriano contemplava-a com esse sorriso complacente e irónico de quem não está disposto a melindrar-se. Ela levantou-se da mesa e caminhou apressadamente para o seu quarto.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

«Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos entusiasmo; analisa-se mais e melhor; porém a própria análise é a prova de que se sente menos. Onde domina o sentimento e a imaginação, mal têm cabida a paciência e fleuma, necessárias aos processos analíticos. O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão à pátria com a carteira cheia de apontamentos; o entusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

terça-feira, março 24, 2026

o que está a acontecer

«Só pelo preço de muitas jornadas se compra o hábito de ficar impassível no meio dos episódios destas pequenas odisseias, que atormentam e exaurem o ânimo dos Ulisses novatos; mas ai, quando se adquire esse hábito, também nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as comoções do belo.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Porém, e este ponto de doutrina só raros o desconhecem, sobretudo se pertencerem à geração veterana, o cão Cérbero, que assim em nossa portuguesa língua se escreve e deve dizer, guardava terrivelmente a  entrada do inferno, para que dele não ousassem sair as almas, e então, quiçá por misericórdia final de deuses já moribundos, calaram-se os cães futuros para toda a restante eternidade, a ver se com o silêncio se apagava da memória a ínfera região.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)

«Ao ver a expressão da irmã, Soriano julgou adivinhar nela uma discordância que se continha por falta de tempo para discutir. / -- Há muitas excepções, é claro, e tu és uma delas... -- acrescentou ele a sorrir. / Não é isso o que me importa -- interrompeu Mercedes, pousando a chávena.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

segunda-feira, março 16, 2026

o que está a acontecer

«Outra coisa que igualmente não se sabe é por que mutações orgânicas teria passado o famoso e altissonante canídeo até chegar à mudez histórica e comprovada dos seus descendentes de uma cabeça só, degenerados.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986) 

«Em Espanha não só se come tarde, mas também se come demasiado. Provavelmente, o nosso carácter violento deve-se, em grande parte, ao excessivo trabalho que damos ao fígado... E é ver as nossas mulheres... Tão bonitas, tão sedutoras antes dos trinta anos! Mas, depois dos trinta, porque jantam tarde e se deitam, quase todas, em seguida ao jantar, começam a exibir umas ancas tão prósperas como se fossem mães de toda a Humanidade...» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

«A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre que se monta, o tempero ou destempero do heteróclito cozinhado com que se enche o estômago, a lama que nos incrusta até os cabelos, o pó que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o cérebro, tudo então nos desafina o espírito, que trazíamos na tensão necessária para vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868) 

quinta-feira, março 05, 2026

António Lobo Antunes, para mim

Apanhei o Lobo Antunes no início dos anos 80. Surge num período de renovação da ficção portuguesa, nos temas e modo de narrar, atingindo um público mais vasto (Dinis Machado,  João de Melo, Carlos Vale Ferraz), embora exemplos houvesse já de fuga ao rame-rame discursivo com Nuno Bragança e, antes de todos, Ruben A. Antes de todos, o que não era para todos. Sim, obviamente Memória de Elefante e Os Cus de Judas (ambos de 1979). Com Auto dos Danados (1985), tornou-se para mim evidente que estávamos diante de um grande. Depois distanciei-me, nem sei bem porquê -- necessidade de ler outras coisas e outros autores, provavelmente. Fui mantendo contacto com as crónicas, sempre de nível alto, embora outros cronistas tivessem a minha preferência, por exemplo Augusto Abelaira ou Vasco Pulido Valente. Por vezes era surpreendido pelas letras de canções para o esplêndido Vitorino. Aquelas diatribes com o Saramago irritaram-me, tornaram-.no mesquinho ao meus olhos. Se há coisa que não perdoo, sobretudo num escritor, é a mesquinhez. Lembro-me que o Ferreira de Castro, quando escreveu pela primeira vez sobre o Raul Brandão, afirmou que não o conhecia nem queria conhecê-lo, precisamente por isto. (É claro que viriam a relacionar-se.) Há poucos anos li o Sôbolos Rios que Vão (2010), que alguns apontam como o seu grande livro dos últimos anos. Não me parece, mas não serei taxativo sem uma releitura. Não trocaria uma página do Autos dos Danados por todo o Tôdolos; como não troco o Finisterra  pelo Uma Abelha na Chuva, do Carlos de Oliveira. Continuarei com livros do Lobo Antunes ao longo da vida, os mesmos livros e certamente outros. É o melhor que os escritores nos deixam; é só, na verdade, o que realmente interessa.