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quinta-feira, março 05, 2026

António Lobo Antunes, para mim

Apanhei o Lobo Antunes no início dos anos 80. Surge num período de renovação da ficção portuguesa, nos temas e modo de narrar, atingindo um público mais vasto (Dinis Machado,  João de Melo, Carlos Vale Ferraz), embora exemplos houvesse já de fuga ao rame-rame discursivo com Nuno Bragança e, antes de todos, Ruben A. Antes de todos, o que não era para todos. Sim, obviamente Memória de Elefante e Os Cus de Judas (ambos de 1979). Com Auto dos Danados (1985), tornou-se para mim evidente que estávamos diante de um grande. Depois distanciei-me, nem sei bem porquê -- necessidade de ler outras coisas e outros autores, provavelmente. Fui mantendo contacto com as crónicas, sempre de nível alto, embora outros cronistas tivessem a minha preferência, por exemplo Augusto Abelaira ou Vasco Pulido Valente. Por vezes era surpreendido pelas letras de canções para o esplêndido Vitorino. Aquelas diatribes com o Saramago irritaram-me, tornaram-.no mesquinho ao meus olhos. Se há coisa que não perdoo, sobretudo num escritor, é a mesquinhez. Lembro-me que o Ferreira de Castro, quando escreveu pela primeira vez sobre o Raul Brandão, afirmou que não o conhecia nem queria conhecê-lo, precisamente por isto. (É claro que viriam a relacionar-se.) Há poucos anos li o Sôbolos Rios que Vão (2010), que alguns apontam como o seu grande livro dos últimos anos. Não me parece, mas não serei taxativo sem uma releitura. Não trocaria uma página do Autos dos Danados por todo o Tôdolos; como não troco o Finisterra  pelo Uma Abelha na Chuva, do Carlos de Oliveira. Continuarei com livros do Lobo Antunes ao longo da vida, os mesmos livros e certamente outros. É o melhor que os escritores nos deixam; é só, na verdade, o que realmente interessa.  

sexta-feira, março 28, 2025

saiu no JL

De há  meses para cá tememos que o último JL seja mesmo o último Publica-se há 45 anos, sempre com o mesmo director (e fundador), José Carlos de Vasconcelos. Tem número óptimos, compensando largamente um ou outro menos conseguido. O seu previsível (embora ainda não anunciado) fim ser(i)á catastrófico. Duvido que possa ser substituído. Comecei a lê-lo ainda estava a acabar o liceu, e tenho o primeiro número que comprei. (Qualquer dia farei aqui uma resenha). E guardei muitos outros, sem falar nos recortes.

Enquanto se mantiver, passarei a arquivar aqui citações retiradas de cada número que entretanto se publique. Talvez possa levar alguém a comprá-lo.

«Camões viajou e viveu o seu próprio poema ao mesmo tempo que o escrevia.» Manuel Alegre

«[...] jornalismo, artes, literatura e compromisso social são colunas de um mesmo templo que, hoje, se redefine, correndo riscos de esboroamento porque a corrente da formatação desenfreada tudo parece levar à sua frente...» António Carlos Cortez 

«[...] (o mundo já foi criado para sempre.)» Carlos de Oliveira

«Perante a guerra, o que se espera de um intelectual é o exercício da sua capacidade analítica, antecipada pela procura dos dados empíricos que são as fontes primárias que alimentam o pensamento crítico.» Viriato Soromenho-Marques



JL #1421, 19-III-2025


segunda-feira, setembro 30, 2024

5 versos de Carlos de Oliveira

«No alto choupo torcido / da invernia e da seca, / enchiam de raiva os olhos / -- que os olhos vivem de raiva / na solidão da charneca.» 

«Gândara», Turismo (1942)

terça-feira, julho 30, 2024

4 versos de Carlos de Oliveira

«Meu corpo já não tem gritos. / Meu corpo já não tem voz / -- mataram-na os chicotes / na carne dos meus avós.» 

Turismo (1942)

quarta-feira, julho 24, 2024

4 versos de Carlos de Oliveira

«O sol e a selva / sem destroços. // -- A vida é fome / à flor dos ossos.» 

Turismo (1942)

quinta-feira, julho 11, 2024

4 versos de Carlos de Oliveira

«Emigração / Homens para o que vier. / Carne da selva, / carne de aluguer.»

Turismo (1942)

terça-feira, junho 04, 2024

6 versos de Carlos de Oliveira

«Amazónia. / O Negro e o Índio e o mais que me souber: / o fogo doutro céu, / o nome doutro dia / e tudo o que estiver / nos nervos que me deu.» Turismo (1942)

segunda-feira, março 04, 2024

caracteres móveis

«Declarara-se ali mesmo, com segurança e desenvoltura, falando logo em casamento, enquanto procedia a rápidos planos mentais para a casa do Vale Formoso, desabitada desde a morte do avô Jacinto, que tinha catorze divisões e um grande jardim onde Raquel poderia cultivar as suas preciosas begónias.» Helena Marques, O Último Cais (1992)

«Não faltou receio a Henrique, que supôs a estes bonacheirões quadrúpedes a índole travessa e bravia dos touros, a cuja chegada tantas vezes fora assistir em Lisboa.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«No exterior, a partir das paredes, há dois palmos de atmosfera lúcida, quase luminosa (intensifica-se pouco a pouco): halo a envolver a casa, a protegê-la (?) misteriosamente.» Carlos de Oliveira, Finisterra (1978)

quinta-feira, fevereiro 15, 2024

caracteres móveis

«Então reproduz de cór a paisagem que se vê da janela, cria os seres primordiais, mistura verão e inverno, atenua a cegueira (o excesso) do sol incidindo sobre a sílica, mica esmigalhada, vidro moído num almofariz (sabe-se lá), aumenta os grãos de areia até ao tamanho que parecem ter, de noite, quando o vento atira contra as vidraças as suas enormes pedradas.» Carlos de Oliveira, Finisterra (1978)

«O fervor com que ela falava de Alighieri acendia-lhe o cinzento dos olhos, habitualmente muito frio, e os movimentos da cabeça, virando-se para ele enquanto caminhavam pela Quinta da Saudade, captavam o sol do entardecer e revelavam reflexos, até aí insuspeitados, de mogno antigo ou malvasia velho.» Helena Marques, O Último Cais (1992)

«Tristes hortejos manifestavam a presença daquela gente em tão ermas paragens.» Romeu Correia, Calamento (1950)

quarta-feira, janeiro 31, 2024

caracteres móveis

«Calaram-se os dois, num silêncio incómodo, mas o ruído de um alguidar de água, que alguém despejava no saguão, pareceu reanimar subitamente a voz de Macedo:» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Depois, num Setembro muito quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu, tão quietamente, Deus seja louvado, como se cala um passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«O revérbero entre as nuvens colhe-o de surpresa e extingue-se, mas chega para abrir uma fenda (irreparável) na memória.» Carlos de Oliveira, Finisterra -- Paisagem e Povoamento (1978)

quinta-feira, janeiro 25, 2024

caracteres móveis

«A densidade calcária decresce tanto que podem ambos flutuar (a criança e o osso de baleia) sobre murgos biliosos, caules de gisandra, líquenes, doenças vagarosas.» Carlos de Oliveira, Finisterra -- Paisagem e Povoamento (1978)

«Acompanhava-o a restolhada dos passos, lenta e pesada, um soluço ou outro, irreprimido pelos familiares do defunto, e a nuvem de poeira que o cortejo deixava na estrada, encontrando-se ainda com a que fora levantada pelas carruagens postas à disposição da gente da cidade, incapaz de dar mais de dois passos pelo seu próprio pé.»  Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Vagueei pelas salas que teriam sido elegantes no tempo de Marcos e Raquel, mas que definhavam agora numa atmosfera de abandono e desolação, não porque Carlota estava morta, mas porque Carlota, que era filha da adolescente do retrato, se desinteressara de tudo, se fechara numa reclusão definitiva e magoada, só a grande estufa de begónias despertava os gestos dos seus dedos cobertos de anéis.» Helena Marques, O Último Cais (1992)

terça-feira, maio 30, 2023

em "pudica torção de virgem" & outros caracteres móveis

Aquilino Ribeiro: «Obedeceu a moça intimidada, quedando a meio da sala, nua como a mãe a deitou ao mundo, na pudica torção de virgem, surpreendida pelos olhos dum deslavado.» Andam Faunos pelos Bosques (1926) - Ferreira de Castro: «Nos ombros, luzia manta cromática, das que se fabricam em Barroso, e de um lado e outro do bucéfalo dançavam, ao sabor da marcha, as peles compradas nesse dia.» Terra Fria (1934) - Carlos de Oliveira: «Eu, Álvaro Rodrigues Silvestre, comerciante e lavrador no Montouro, freguesia de S. Caetano, concelho de Corgos, juro por minha honra que tenho passado a vida a roubar os homens na terra e a Deus no céu, porque até quando fui mordomo da Senhora do Montouro sobrou um milho das esmolas dos festeiros que despejei nas minhas tulhas» Uma Abelha na Chuva (1953) - José Luís Peixoto: «De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento, hão-de tornar-se pedra.» Nenhum Olhar (2000) - J. Rentes de Carvalho: «Quando cheguei ao apeadeiro o comboio não tinha ainda passado, mas não havia de estar longe, porque o seu arfar e o seu ranger ecoavam pelos montes.» A Amante Holandesa (2003)

domingo, agosto 02, 2020

livros que me apetecem

A Propósito de Nada,  de Woody Allen (Edições 70)
Kaputt, de Curzio Malaparte (Cavalo de Ferro)
Livro de Vozes e Sombras, de João de Melo (Leya)
O Caso Mental Português, Fernando Pessoa (Assirio & Alvim)
O Sexo da Musica, Étienne Liebig (Temas e Debates)

já cá cantam:

A Relíquia, de Eça de Queirós (Livros do Brasil) -- na edição da Lello
Eternidade, de Ferreira de Castro (Cavalo de Ferro) -- também na edição da Guimarães
Na Patagónia, de Bruce Chatwin (Quetzal)
O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós (Livros do Brasil)
Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira (Livros do Brasil) -- na edição da Sá da Costa 

sábado, abril 27, 2019

Da vantagem de um Presidente culto

Leio deleitoso, no último JL, o discurso do Presidente da República na sessão comemorativa do centenário de Fernando Namora, no dia 15 de Abril, na sua Casa-Museu em Condeixa -- evento que desafortunadamente foi ofuscado pela tragédia do incêndio de Notre-Dame. Não sei se o discurso teve mão fantasma, nem isso é muito importante, pois reconhece-se a caneta de Marcelo naquelas palavras, que além disso foram acrescentadas por vários improvisos do orador, reza a notícia; o que me interessa relevar é mesmo uma noção assaz nítida que o PR mostra do património literário português, parcela das mais relevantes do património cultural do país, no seu todo.
A propósito de Namora e da efeméride, o Presidente referiu-se a José Rodrigues Miguéis, Ruben A., Ferreira de Castro, Miguel Torga, Carlos de Oliveira e Vergílio Ferreira -- ou seja, cerca de um terço do cânone ficional português do século passado --, a que juntou os norte-americanos John Steinbeck e Erskine Caldwell, e Óscar Lopes, como referência de autoridade.
Não é um ensaio, que seria descabido, mas um discurso de circunstância. que não deixa de ser reconfortante em face do zero das elites políticas, com as honrosas e parcas excepções. E porquê reconfortante? Por se esperar que o Presidente não seja apenas a muralha contra o populismo de que falou Ferro Rodrigues, mas também contra a barbárie instalada que não conhece, e portanto não quer saber do património cultural em sentido lato, a não ser que o mesmo lhe possa dar umas medalhinhas da Unesco para trazer à lapela (que podiam ser essas como as do Guiness, tanto faz, desde que em estrangeiro).

domingo, março 10, 2019

vozes da biblioteca

«Na estação havia apenas um passageiro, esperando o comboio: era um mocetão do campo, que não se movia, encostado à parede, com as mãos nos bolsos, os olhos inchados de ter chorado duramente cravados no chão e ao lado sentadas sobre uma arca de pinho nova, estavam duas mulheres, uma velha, e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito desconsoladas, tendo aos pés entre si, um saco de chita e um pequeno farnel de onde saía o gargalo negro duma garrafa.» Eça de Queirós, A Capital! (póst., 1925)

«O barão circunvagou rápido em torno com a vista, a ver se alguém tinha ouvido, e rodou viscoso para longe, infiltrando-se, anulando-se na massa anónima daquela multidão turbulenta.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«O escritório do Medeiros, director da Comarca, era escuro e desconfortável; uma vulgar secretária de pinho, dois ou três cadeirões com almofadas de palha, um quebra-luz de missanga na lâmpada do tecto e montes de jornais aos cantos; cheirava a pó como num caminho de estio.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)

terça-feira, fevereiro 19, 2019

vozes da biblioteca

«A mesma expressão apavorada, mas agora baça e fria, abria-lhe os olhos para o tecto.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Ali estava no que dava uma vida daquelas: Lourenção, o senhor das terras, dos poisios e da gente do Covão, morto a cacete como um cachorro danado!» Carlos de Oliveira, Alcateia (1944)

«Fascinados pela presença do lugre, partir, não interessava de que modo, eis o último recurso a que poderiam deitar mão.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

quinta-feira, janeiro 10, 2019

vozes da biblioteca

«Depois aproximou-se do soldado ferido deitado no chão, com um dos pés transformado numa bola de massa onde se misturavam o coiro preto da bota, a terra castanha empapada em sangue e donde emergiam tendões brancos desligados dos ossos.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Encostando o ombro a uma esquina do velho Teatro Nacional, onde tantas vezes fora aplaudido e ovacionado, pôs-se a ouvir o movimento surdo e enrolado da cidade.» João de Melo, Lugar Caído no Crepúsculo (2014)

«O escritório do Medeiros, director da Comarca, era escuro e desconfortável; uma vulgar secretária de pinho, dois ou três cadeirões com almofadas de palha, um quebra-luz de missanga na lâmpada do tecto e montes de jornais aos cantos; cheirava a pó como num caminho de estio.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)

domingo, novembro 04, 2018

vozes da biblioteca

«Atravessou de novo a praça, batendo pausadamente o tacão das botas, deixando cair os últimos pingos de lama, e dirigiu-se à redacção da Comarca de Corgos, sempre no mesmo passo oscilante e pesado, como se o levasse a custo o vento que arrastava no chão as folhas quase podres dos plátanos.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)

«Como opinara depois João Fulgêncio, homem de muito saber, dono da Papelaria Modelo, centro da vida intelectual de Ilhéus, fora mal escolhido o dia, assim formoso, o primeiro de sol após a longa estação das chuvas, sol como uma carícia sobre a pele.» Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela (1958)

«Lilias salvou-se da carnificina porque, seis horas antes da batalha, viu o pai morto, como realmente ele haveria de morrer mais tarde.» Hélia Correia, Lilias Fraser (2001)

sexta-feira, junho 15, 2018

«Era ao entardecer, / na hora espessa, peganhenta e húmida, / em que um resto de luz no espasmo da agonia / geme nas coisas e empasta-as como goma.» António Gedeão, «Poema do cão ao entardecer», Poemas Póstumos (1983)

«É só a mim que procuro / e sou eu próprio o caminho.» Armindo Rodrigues, «Não sou escravo nem sou rei», Voz Arremessada ao Caminho (1943)

«Maré cheia, / árvores em parto, / ondas sobre ondas / dum inferno farto.» Carlos de Oliveira, «Amazónia», Turismo (1942) / Trabalho Poético (1978)

sexta-feira, maio 25, 2018

«Tão pequenas / a infância, a terra.» Carlos de Oliveira, «Infância», Turismo (1942) / Trabalho Poético (1978)

«E o luar, o luar magnífico e sereno, / Só ele compreende a minha dor / Porque me beija o rosto nazareno;» Duarte de Viveiros. «Parada dos ângulos agudos» Obra Poética (1960, póstumo)

«Nós, meninos, paralisados de medo / e espanto.» Rui Knopfli, «O monhé das cobras», O Monhé das Cobras (1997)