Por duas razões principais, creio.
A primeira tem que ver com as relações hierárquicas e de poder. Vamos considerar a possibilidade mais benigna: a de um impulso irreprimível. Passado o momento de euforia, o mínimo que se exigiria seria um forte acto público de contrição, ou até uma autopenalização. Isso sim, seria de homem. Um(a) "chefe" tem que se impor a inibição de tomar certas liberdades, caso contrário não passa de um dejecto. Foi para criaturas destas que se inventou o autoclismo.
A segunda, igualmente importante, mas ainda mais grave. A prevalência de um machismo alvar nos países latinos, cuja expressão mais dramática se traduz no número de mulheres assassinadas às mãos dos maridos/companheiros (sem falar nos traumas que incidem sobre as crianças), torna compreensível que um acto destes, nestas circunstâncias, seja intolerável numa sociedade decente e qualquer abuso fortemente sancionado.
No entanto, tal não autoriza o linchamento público, que foi o que ocorreu, mesmo com o presidente da federação espanhola pondo-se a jeito. E também não autoriza a utilização da jogadora como arma de arremesso pelo outro lado da barricada.
Em resumo: um caso lamentável, em que a principal vítima foi Hermoso, irònicamente não por causa do beijo que não terá pedido, mas pelo desprezo que o activismo woke mostra pelo indivíduo. Ou seja, estão-se nas tintas para a atleta, desde que útil para emblema de uma causa. Isto é puro totalitarismo, tão deletério e tanto para abater como o machismo larvar que ainda por aí grassa.