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quinta-feira, março 28, 2024

150 portugueses: 11-15

 

11. Leonor de Avis (1458-1525). Se calhar, a nossa maior rainha consorte.

12. M. Teixeira-Gomes (1860-1941). Um dos maiores escritores. Único chefe de estado que renunciou ao cargo e mandou as elites do país à fava.

13. Nuno Álvares Pereira (1360-1441). Guerreiro e monge, latifundiário e santo.

14. Passos Manuel (1891-1852). Governante liberal, uma das glórias das esquerdas.

16. Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905). Um génio que nos definiu, com o Zé Povinho

segunda-feira, maio 15, 2023

circunscrito no mundo & outros caracteres móveis

«Quando dei por mim, pela minha situação de dependência, de circunscrição no mundo (grandioso e imensurável, mas proibido) fiquei estupefacto e comecei a chorar.» José Marmelo e Silva, Sedução (1937) - «Falava com os olhos iluminados, um pouco em alvo, como quando recordava as delícias do último sonho...» M. Teixeira-Gomes, Maria Adelaide (1938) - «Avizinhavam-se da estação: cruzaram uma sentinela, de baioneta calada, à porta dum quartel; por detrás da grade uivava um cão.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

domingo, janeiro 29, 2023

a arte de começar

 «Maria Adelaide completara dezasseis anos quando lhe colhi as primícias, e, à semelhança do que sucede com frequência na terra onde habitávamos, os pais, que eram pobres, consentiam em que mantivéssemos relações coram populo, indo eu todas as noites dormir na sua companhia. Podia tê-la tirado logo da família, montando-lhe casa à parte, mas nem eu nem os pais sentíamos grande desejo de efectuar a separação: eles porque tendo-a em sua companhia melhor lhe exploravam os proventos da mancebia; eu para não dar mais solidez à ligação, esperando vagamente que fosse passageira...» M. Teixeira-Gomes (1860-1941), Maria Adelaide (1938)

quarta-feira, agosto 17, 2022

101 livros na mochila imaginária (sécs. XIX-XX), escritores que me alegram a existência - os primeiros 50

 Os que escrevem com as vísceras, como qualquer verdadeiro escritor.

Os que trabalham o idioma.

Os mortos, pois as baixezas que tenham cometido são já do outro mundo. (Uma excepção nesta lista.)

Os bravos, os que tomaram posição, fosse ela qual fosse.

 Os que me dão prazer, emocionam e divertem.

São alguns, só em língua portuguesa, um título para cada autor -- e só portugueses porque calhou.

Num próximo post, direi mais qualquer coisa; daqui a uns dias, mais 51 (chama-se a isto estar de férias).


1.      Almeida Garrett (1799-1854), Frei Luís de Sousa (1844) - 45 anos

2.      Alexandre Herculano (1810-1877), Eurico o Presbítero (1844) - 34 anos

3.  Camilo Castelo Branco (1825-1890), Amor de Perdição (1862) - 37 anos

4. Ramalho Ortigão (1836-1915), Rei D. Carlos, o Martirizado (1908) - 72 anos

5.  Júlio Dinis (1839-1871), A Morgadinha dos Canaviais (1868) - 29 anos

6.  Antero de Quental (1842-1891), Bom Senso e Bom Gosto (1866) - 22 anos

7 .  Eça de Queirós (1845-1900), A Cidade e as Serras (1901)

8.   Cesário Verde (1855-1886), O Livro de Cesário Verde (1887)

9.  M. Teixeira-Gomes (1860-1941), Agosto Azul (1904) - 44 anos

10.  António Nobre (1867-1900), (1892) - 25 anos

11.  Raul Brandão (1867-1930), Húmus (1917) - 50 anos

12.  Manuel Laranjeira (1877-1912),  Cartas (1943)

13.  Manuel Ribeiro (1878-1941), A Catedral (1920) - 42 anos

14.  Jaime Cortesão (1884-1960), Memórias da Grande Guerra (1919) - 35 anos

15.  Aquilino Ribeiro (1885-1963), Andam Faunos pelos Bosques (1926) - 37 anos

16.  Fernando Pessoa (1888-1935), Livro do Desassossego (1982)

17.  Fidelino de Figueiredo (1888-1967), Um Coleccionador de Angústias (1951) - 63 anos

18. Assis Esperança (1892-1975) - Servidão (1946) - 54 anos

19.  José de Almada Negreiros (1893-1970), A Cena do Ódio (1915) - 22 anos

20.  Ferreira de Castro (1898-1974), Emigrantes (1928) - 30 anos. 

21.  Francisco Costa (1900-1988), Última Colheita (1987) - 87 anos

22.  José Rodrigues Miguéis (1901-1980), Gente da Terceira Classe (1962) - 61 anos

23.  Vitorino Nemésio (1901-1988), Mau Tempo no Canal (1944) - 43 anos

24.  José Régio (1901-1969), Páginas de Doutrina e Crítica da «presença» (1977)

25.  João Pedro de Andrade (1902-1974), A Hora Secreta (1942) - 40 anos

26.  Saul Dias (1902-1983), Obra Poética (1980) - 78 anos

27.  Tomás de Figueiredo (1902-1970), A Toca do Lobo (1947) - 45 anos

28.  Armindo Rodrigues (1904-1983), Voz Arremessada ao Caminho (1943) - 39 anos

29.  Branquinho da Fonseca (1905-1974), O Barão (1942) - 37 anos

30.  António Gedeão / Rómulo de Carvalho (1906-1997), Poemas Póstumos (1983) - 77 anos

31.  Fernando Lopes-Graça (1906-1994), A Caça aos Coelhos (1940) - 34 anos

32.  Alberto de Serpa (1906-1992), Drama -- Poemas da Paz e da Guerra (1940) - 34 anos

33.  Carlos Queirós (1907-1949), Desaparecido (1935) - 28 anos

34.  Miguel Torga (1907-1995), Bichos (1940) - 33 anos

35.  Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979), Ana Paula (1938) - 30 anos

36.  Manuel da Fonseca (1911-1993), Cerromaior (1943) - 32 anos

37.  Alves Redol (1911-1969), Barranco de Cegos (1961) - 50 anos

38. Políbio Gomes dos Santos (1911-1939), A Voz que Escuta (1944)

39.  José Marmelo e Silva (1911-1991), Sedução (1937) - 26 anos

40.  Vergílio Ferreira (1916-1996), Para Sempre (1983) - 67 anos

41.  Manuel Ferreira (1917-1992), Hora di Bai (1962) - 45 anos

42. Fernando Namora (1919-1989), Retalhos da Vida de um Médico (1949) - 30 anos

43.  Jorge de Sena (1919-1978), O Indesejado (António, Rei) (1951) - 32 anos

44. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Contos Exemplares (1962) - 43 anos

45.   Ruben A. (1920-1975), O Mundo à Minha Procura (1964-66-68) - 44 anos

46.   José Saramago (1922-2010), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - 62 anos

47.   Dinis Machado (1930-2008), O que Diz Molero (1977) - 47 anos

48.    Rui Knopfli (1932-1997), Mangas Verdes com Sal (1969) - 37 anos

49.   Ruy Belo (1933-1978), Homem de Palavra[s] (1969) - 36 anos

50.   Maria Isabel Barreno (1939-2016), Maria Teresa Horta (1937),  Maria Velho da Costa (1938-2020), Novas Cartas Portuguesas (1972) - 33, 35 e 34 anos


em tempo: (17/VIII): 

prevalência evidente do romance e da poesia;

curiosidade: o autor mais velho à época de edição, Francisco Costa, 87 anos, esteve para ser o mais novo, com vinte, uma vez que hesitei entre o livro de estreia, o magnífico (1920), e o último.

domingo, outubro 25, 2020

"O Cânone" de quem? -- do que falta numa lista, passado a limpo

1.

Acabo de ver a lista de cinquenta nomes assinalados como o cânone literário português, na opinião de três académicos: António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen. Lista bastante defendida no anúncio da editora como nas declarações ao Observador. Antecipando-se à discussão que aí virá, espera-se.

As escolhas são sempre louváveis, desde que honestas e justificadas, porque representam (ou podem representar…) a coragem de escolher como a de excluir. O título, porém, é de menos, pois mesmo sem me pronunciar sobre o que ainda não li, já o posso fazer sobre as ausências. E há ausências de peso, que absolutamente não poderiam verificar-se numa obra que se arroga a pretensão de estabelecer o dito cânone, se o título é para levar a sério. Aliás, o mesmo Observador, com  desenvoltura jornalística, anunciara que o cânone viria aí, perguntando(-se): "Quem são os grandes escritores que formam o cânone da literatura portuguesa?"

Ora, enquanto leitor não totalmente destituído ou desinformado, considero que é um jogo de apostas avançar com nomes que tenham publicado há menos de cinquenta anos; mas o que me parece temerário é trazer para o cânone autores que tenham entrado por este século adentro. Diria até que todos quantos iniciaram a publicação da totalidade ou da parte mais importante das respectivas obras depois do 25 de Abril de 1974 deveriam estar ausentes dum livro que se arroga a pretensão com que se intitula.

Claro que podemos sempre arriscar nomes, percepções (eu tenho algumas, que apenas têm o valor dessa intuição, mais ou menos alicerçada nas minhas próprias qualidades de leitor, satisfatórias ou medíocres, para o caso é irrelevante). E, no fundo, é mesmo disso que se trata, com excepção para o século XIX, o único período que me parece (quase) incontroverso. Talvez, por isso, mais apropriado -- embora menos comercial e cintilante -- fora reconhecer isso mesmo com um título mais singelo, umas Propostas para a Fixação de um Cânone [Literário Português], ou coisa que o valha. Tenho pena, porque demasiada presunção ou falta de humildade envenenam-me a leitura; e tanto faz que venham agora dizer que se trata de uma mera lista como outras possíveis, o que se vê à vista desarmada. 

Começo por subscrever no texto da página da editora, certamente da autoria de um dos coordenadores: «Os grandes escritores não são escolhidos por consenso ou por votação popular, mas por terem sempre leitores, mesmo que poucos, ao longo do tempo.» Certamente que o livro desenvolverá o conceito. Eu acrescentaria  que Os grandes escritores de uma língua e de uma comunidade são aqueles que inauguram um modo de expressão cuja voz continua a fazer-se ouvir nas vozes de outros que lhe sucederam, tendo inscritos um conjunto de tópicos reveladores da pertença a uma nação e/ou a um território.

O mesmo texto informa que não se trata de “um guia neutro para a literatura portuguesa”. Se a neutralidade absoluta é impossível, não deve deixar de ser perseguida num trabalho desta natureza, sob pena de irremediavelmente o comprometer não digo na sua credibilidade, mas na utilidade que pode ter para quem não esteja muito interessado nas opiniões dos editores e respectivos colaboradores. 

Parece que o livro tem artigos sobre movimentos e revistas literárias (cuja dimensão desconheço), o que, à partida, tornará híbrida a natureza da obra, oscilando entre o ensaísmo e a historiografia cultural. [ver 5., adenda] Quanto a isso, talvez ainda não se fizesse melhor do que a História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes, pese embora as suas (poucas) omissões quanto a escritores relevantes: se a memória não me atraiçoa, lembro-me dos nomes do romancista, ensaísta e poeta Francisco Costa (1900-1988) e do poeta presencista Fausto José (1903-1975), mas haverá outros.

Uma nota marginal, incrédula e possivelmente preconceituosa sobre a inclusão numa obra deste teor de artigos sobre literatura feita por mulheres e por homossexuais: não são temas de somenos, mas não vejo grande utilidade numa obra que pretende definir o cânone. É o espírito do tempo que levará, em obras futuras, a escrever-se sobre escritores vegetarianos, por exemplo. Que interesse tem isso para o Cânone, a não ser marginalmente? Não vejo.


2.

São-nos servidos cinquenta autores, por ordem alfabética. Mais uma vez, o título peca por abusivo, para ser suave. Se a intenção fosse a de estabelecer o cânone só por coincidência chegaríamos a um nome redondo, cinquenta. O cânone será o que será, 47 ou 114. No entanto,  cinquenta nomes para novecentos anos de país parece-me modesto, por muito restritivo que se seja.

O cânone, cronologicamente, começa com Fernão Lopes e termina com uma única autora viva -- escritora extraordinária, aliás, Maria Teresa Horta (1937), arrolada nas "Três Marias". Vou seccionar os cinquenta nomes em três grupos: até ao século XVIII, séculos XIX e XX.

Escritores nascidos até ao século XVIII, são onze, ou seja, 22% do total: Fernão Lopes (c.1380-c.1460), D. Duarte (1391-1438), Gil Vicente (c.1465-c.1536), Sá de Miranda (c.1481-1558), Bernardim Ribeiro (c.1482-c.1552), Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583), Luís de Camões (c.1524- c.1580), Frei Luís de Sousa (1555-1632), o Pe. António Vieira (1608-1697), António José da Silva (dito O Judeu, 1705-1739) e Bocage (1765-1805). 

Comecemos por notar a estranha ausência da poesia trovadoresca, o que sem dúvida estará justificado [ver 5.]. O problema, mais uma vez: uma obra que se define como O Cânone não poderia deixá-la de fora, porque mais canónico que o trovadorismo não há. Fica a curiosidade pela justificação. Quanto ao resto, nada a dizer quanto às presenças, a não ser registar a boa surpresa de ver o rei eloquente, D. Duarte, que talvez não estivesse mal acompanhado do seu irmão, o infante D. Pedro (1392-1449),  príncipe das sete partidas, aliás um dos grandes portugueses destes quase 900 anos.

Sendo também restritivo, e sem querer alardear erudição que me fique curta nas mangas, a grande perplexidade é a ausência do Pe. Manuel Bernardes (1644-1710), prosador onde bebem Camilo e Aquilino. Não pertence ao cânone o Bernardes? Outra perplexidade, Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622), não apenas o poeta, mas também o prosador de A Corte na Aldeia (1619); também não?... 

Fico-me por estes dois, mas poderia lançar o António Ferreira (1528-1569) de A Castro (póstumo, 1587), o ascetismo bucólico do Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), os sermões do Frei António das Chagas (1621-1692).

Também a literatura dos Descobrimentos e da Expansão me parece subrepresentada, a não ser indirectamente, dos cronistas aos autores de relatos, o Gomes Eanes de Zurara (1410-1474) ou o Pero Vaz de Caminha (1450-1500). O meu conhecimento dos autores deste período é superficial, mas não me parece que o cânone literário português os possa deixar de fora.


3.

O século XIX é facílimo. Eles aí estão todos bem à mostra, à espera de quem os pique, excepto um, que ficou para trás, e não devia. Não há grandes dúvidas sobre os autores que integram o cânone oitocentista, onze também aqui, como o correspondente a toda a literatura escrita até ao século XVIII: Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1870), Camilo Castelo Branco (1825-1890), João de Deus (1830-1896), Júlio Dinis (1839-1871), Eça de Queirós (1845-1900), Oliveira Martins (1845-1894), Antero de Quental (1848-1891),Gomes Leal (1848-1921), Cesário Verde (1855-1886), António Nobre (1867-1900).

Apraz-me ver João de Deus e Júlio Dinis neste rol. Há trinta anos teriam sido varridos, certamente ainda se faria sentir sobre ambos o labéu da "ingenuidade", quando não, no caso do romancista d'A Morgadinha dos Canaviais, o de escritor cor-de-rosa. Há porém uma ausência que não compreendo, e ela é a de Fialho de Almeida (1857-1911). Nunca ninguém escrevera como ele e eventuais epígonos não atingem o seu nível, nem por vezes no mal-estar que provoca. Trata-se de uma falta significativa. Há um nome cuja não inclusão me levanta as maiores dúvidas, o de Ramalho Ortigão (1836-1915). Então e As Farpas?, deitam-se fora? Imitando a parcimónia: tenho também dúvidas de que o Guerra Junqueiro (1850-1923) seja arredado de ânimo leve, mas, dos três, é aquele cuja ausência menos me choca. E, já agora, lanço um nome para ponderação, o do exímio contista que foi o Conde de Ficalho (1837-1903). Não me parece que lá ficasse mal, mas precisaria de relê-lo para ter uma ideia mais segura.


4.

Quarenta e quatro nomes, 66% da lista para os escritores do século XX, em que os três primeiros começam a publicar ainda no século anterior, e a antepenútlima, em data de nascimento, felizmente ainda viva e a publicar: Camilo Pessanha (1867-1926), Raul Brandão (1867-1930),Teixeira de Pascoais (1877-1952), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de SáCarneiro (1890-1916), Irene Lisboa (1892-1958), José de Almada Negreiros (1893-1970), Florbela Espanca (1894-1930), José Régio (1901-1969), José Rodrigues Miguéis (1901-1980),Vitorino Nemésio (1901-1978), Miguel Torga (1907-1995), Jorge de Sena (1919-1978), Ruben A. (1920-1975), Carlos de Oliveira (1921-1981), Maria Judite de Carvalho (1921-1988), Agustina Bessa Luís (1922-2019), José Saramago (1922-2010), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986), Herberto Helder (1930-2015), Ruy Belo (1933-1978), Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Luiza Neto Jorge (1939-1969), As Três Marias: Maria Teresa Horta (1937), Maria Velho da Costa (1938-2020) e Maria Isabel Barreno (1939-2016). e Luiza Neto Jorge (1939-1989). Não discuto nenhum: mesmo os poucos que aqui estão que dificilmente podem ser considerados grandes têm o seu lugar no cânone literário português. Estranho algumas ausências, como as do António Botto (1897-1959) ou Vergílio Ferreira (1916-1996): porém, eu sei que daqui a cem anos o Aquilino será lido, não sei se com o V.F. sucederá, quem saberá dizê-lo?...

Continuando a ser restritivo -- poderiam estar aqui dezenas de nomes, não atirados a esmo, em especial na poesia --, avanço com nove escritores, cuja ausência dir-se-ia escandalosa se houvesse lugar a escândalos, num livro que se apresenta como o cânone. A constatação dessa ausência significa que o livro, com título pomposo e definitivo, serve para pouco, relativamente àquilo a que se propõe: M. Teixeira-Gomes (1860-1941), ou o primado da estética, sem par. Ninguém tem a mesma elegância informada, desassombrada, cultíssima. Manuel Laranjeira (1877-1912), uma escavação interior desapiedada, que vim a encontrar num Cioran; o tal que levou o Unamuno a qualificar-nos como povo de suicidas. Jaime Cortesão (1884-1960), porventura o maior historiador português do século (está para ele como Herculano para o anterior, portador de uma ideia de país que foi confirmá-la nas fontes. Ferreira de Castro (1898-1974), o romance português era uma coisa antes dele e foi outra depois; ninguém falara do país da maneira como o fez. Foi o pai do neo-realismo. A partir de Emigrantes (1928) não tem um só romance menor.  Tomaz de Figueiredo (1902-1970) é uma outra estética, não cosmopolita, à maneira do Teixeira-Gomes, mas castiça. É o nosso Lampedusa antes de O Leopardo, como se dos olhos de um príncipe criança. Saul Dias (1902-1983) -- o pintor Júlio [Maria dos Reis Pereira], irmão de Régio, poeta da palavra essencial, justa e definitiva. Alves Redol (1911-1969), ficcionista de sangue quente, duma têmpera  de romancista como poucos, de longe um dos grandes do século, como o século fará questão de registar. Manuel da Fonseca (1911-1993,) tão neo-realista e tão singular, ele é o Alentejo profundo e dramático, por vezes trágico, no romance, no conto, na poesia. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), como não?, a palavra decantada, o canto dos tópicos nacionais, o mar, as navegações, mas também a liberdade, a dignidade, que é o contrário da servidão e do aviltamento. E Rui Knopfli (1932-1997), uma expressão eloquente e desafiante, que se faz também de uma interpelação ao cânone. Poderia continuar, mas creio que será suficie.

Em conclusão: um título desastroso dum livro que certamente terá as suas virtualidades. Mas um título é o mais importante depois de tudo o que está lá dentro.  O organizador Miguel Tamen, em declarações ao Obervador: sustentou«Quem acha que certos nomes deviam estar lá, tem bom remédio, escreva um livro. É disso que precisamos.» Como não concordar?


5. Adenda. Folheado anteontem, verifiquei tratar-se de artigos breves. Há um dedicado à poesia trovadoresca e outro ao renascimento, bem como à crítica literária, prémios literários, memorialística, entre outros que não retive. Não vi na consagrado às narrativas de viagens, outra falha importante.

quarta-feira, outubro 21, 2020

"O Cânone" de quem? - do que falta numa lista (4)

(Continuação do comentário à lista de O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen).

Quarenta e quatro nomes, 66% da lista para os escritores do século XX, em que os três primeiros começam a publicar ainda no século anterior, e a antepenútlima, em data de nascimento, felizmente ainda viva e a publicar:Camilo Pessanha (1867-1926), Raul Brandão (1867-1930),Teixeira de Pascoais (1877-1952),Aquilino Ribeiro (1885-1963),Fernando Pessoa (1888-1935),Mário de Sá‑Carneiro (1890-1916),Irene Lisboa (1892-1958),José de Almada Negreiros (1893-1970), Florbela Espanca (1894-1930),José Régio (1901-1969),José Rodrigues Miguéis (1901-1980),Vitorino Nemésio (1901-1978) Miguel Torga (1907-1995), Jorge de Sena (1919-1978),Ruben A. (1920-1975), Carlos de Oliveira (1921-1981),Maria Judite de Carvalho (1921-1988), Agustina Bessa‑Luís (1922-2019),José Saramago (1922-2010), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986), Herberto Helder (1930-2015),Ruy Belo (1933-1978),Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Luiza Neto Jorge (1939-1969),  Ruy Belo (1933-1978), "As Três Marias": Maria Teresa Horta (1937), Maria Velho da Costa (1938-2020) e Maria Isabel Barreno (1939-2016). Não discuto nenhum: mesmo os poucos que aqui estão que dificilmente podem ser considerados grandes terão o seu lugar no cânone literário português. Estranho algumas ausências, como as do António Botto (1897-1959) ou Vergílio Ferreira (1916-1996), sem grande escândalo, porém: eu sei que daqui a cem anos o Aquilino será lido, não sei se com o V.F. sucederá o mesmo, quem saberá dizê-lo?...

Continuando a ser restritivo -- poderiam estar aqui dezenas de nomes, não atirados a esmo, em especial na poesia --, avanço com nove escritores, cuja ausência dir-se-ia escandalosa se houvesse lugar a escândalos, num livro que se apresenta como o cânone. A constatação dessa ausência significa que o livro, com título pomposo e definitivo, serve para pouco, relativamente àquilo a que se propõe: M. Teixeira-Gomes (1860-1941), ou o primado da estética, sem par. Ninguém tem a mesma elegância informada, desassombrada, cultíssima. Manuel Laranjeira (1877-1912), uma escavação interior desapiedada, que vim a encontrar num Cioran; o tal que levou o Unamuno nos qualificasse como povo de suicidas. Jaime Cortesão (1884-1960), porventura o maior historiador português do século (está para ele como Herculano para o anterior), portador de uma ideia de país que foi confirmá-la nas fontes. Ferreira de Castro (1898-1974), o romance português era uma coisa antes dele e foi outra depois; ninguém falara do país da maneira como o fez. Foi o pai do neo-realismo. A partir de Emigrantes (1928) não tem um só romance menor.  Tomaz de Figueiredo (1902-1970) é uma outra estética, não cosmopolita à maneira do Teixeira-Gomes, mas castiça. É o nosso Lampedusa antes de O Leopardo, como se dos olhos de um príncipe criança. Saul Dias -- o pintor Júlio [Maria dos Reis Pereira], irmão de Régio, poeta da palavra essencial, justa e definitiva. Alves Redol (1911-1969), ficcionista de sangue quente, duma têmpera  de romancista como poucos, de longe um dos grandes do século, como o século fará questão de registar. Manuel da Fonseca (1911-1993,) tão neo-realista e tão singular, ele é o Alentejo profundo e dramático, por vezes trágico, no romance, no conto, na poesia. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), como não?, a palavra decantada, o canto dos tópicos nacionais, o mar, as navegações, mas também a liberdade, a dignidade, que é o contrário da servidão e do aviltamento. E Rui Knopfli (1932-1997), uma expressão eloquente e desafiante, que se faz também de uma interpelação ao cânone. Poderia continuar, mas creio que será suficiente.

Em conclusão: um título desastroso dum livro que certamente terá as suas virtualidades. Mas um título é o mais importante de um livro, depois de tudo o que está lá dentro. 

O organizador Miguel Tamen, em declarações ao Obervador: sustentou«Quem acha que certos nomes deviam estar lá, tem bom remédio, escreva um livro. É disso que precisamos.» Como não concordar?

em tempo: vou passar a limpo e postar o texto completo



terça-feira, outubro 06, 2020

a arte de começar mais depressa

«Deus ex machina». «O Inverno de 1890 foi dos mais ásperos que flagelaram a Europa durante o século findo, e na Holanda, então -- onde eu o passei quase todo --, país relativamente temperado e malìssimamente preparado para as baixas temperaturas, morria-se de frio.»

«A cigana (Carta a António Patrício)». «Hammamet, Dezembro, 1930. / Meu caro amigo: / Com aquela mesma mulher cuja presença, anos depois de nos separarmos para sempre, adivinhei, "senti", num recinto imerso em profundas trevas e cheio de gente; e logo, porque fugi para a não ver, me sugeriu a explicação do mito de Orfeu e Eurídice; com essa mesma mulher, durante os nossos longos e atormentados amores, deu-se um caso de telepatia tão raro, que merece realmente ser arquivado.»

«Margareta». «Em matéria de viagens fui sempre, por instinto e reflexão, refractário a programas; contudo, na minha primeira ida a Itália, reconhecendo a necessidade de visitar com certo método país tão incomparável e infinitamente variado na paisagem e na arte, delineei um plano que me tolhesse as turbulências juvenis, sopeando-me a irrebatível mania das digressões, e executei-o sem repugnância nem arrependimento.»

«Cordélia». «As minhas relações com gente da Catalunha datam da infância, graças a uns negociantes de cortiça, de S. Feliú de Guixols, que se estabeleceram na minha terra e de que ainda hoje lá existe descendência.»

«?». «O meu quarto na hospedaria Fra Giaccomo, em Smirna, era uma gaiola de vidro suspensa sobre o mar, e isso concorreu muito para que eu aí me demorasse mais do que projectara.»

«O sítio da mulher morta». «Já totalmente impossibilitados de trabalhar, os Elisiários, meus velhos caseiros dos Pegos Verdes, tinham abandonado a propriedade recolhendo-se a um casebre que possuíam na povoação vizinha, a Figueira.»

M. Teixeira-Gomes (1860-1941), Novelas Eróticas (1935)


quarta-feira, janeiro 04, 2017

livros que me apetecem

Manuel Teixeira Gomes - Biografia, José alberto Quaresma (IN-CM)


terça-feira, maio 17, 2016

uma carta de M. Teixeira-Gomes


Dirigida a João Chagas, presidente do Ministério. A República no início, os aderentes, os adesivos, os do contra. 

(ler)

quinta-feira, agosto 29, 2013

M. Teixeira-Gomes, ou da estética à coisa

«O autor escreve para se entreter», afiança M. Teixeira-Gomes na nota final à peça  Sabina Freire (1905). Teixeira-Gomes, que é um dos Grandes. Descontando alguma pose do esteta que foi PR (1923-25), a quem chamavam Lorde Polainas, quem, com igual desprendimento e implícito auto-reconhecimento do seu real valor, se atreveria a dizê-lo desta forma? Nenhum grande escritor o faria hoje, a não ser como salutar provocação. Aliás, nem grande nem pequeno;  e refiro-me, naturalmente, a verdadeiros escritores, maiores ou menores,  não a coisos que publicam.  

MTG, embaixador em Londres (fonte:http://relogiodaguaeditores.blogspot.pt/2013/05/)

quarta-feira, agosto 28, 2013

cantante

Sabina Freire, a arguta e capitosa protagonista da peça homónima de Teixeira-Gomes, "é uma cantante!"

sexta-feira, julho 14, 2006

Figuras de estilo - M. Teixeira-Gomes

Do passado, só me interessa, em arte e literatura, a obra que conservou beleza actual. Assim, esse nome estupendo: «Cartago», no sítio próprio, pouco me diz, além da paisagem onde o lugar persiste. Na solidão do meu gabinete de trabalho, ou nas salas de uma biblioteca, ele parece ganhar em ressonância, e sacudir a poeira dos inúmeros cartapácios que lhe registram a crónica; das suas ruínas pulverizadas, nenhuma «substância» espiritual me assiste.
Miscelânea

Manuel Teixeira-Gomes

sábado, maio 06, 2006

Manuel Teixeira-Gomes
















Fonte

Correspondências #44 - M. Teixeira-Gomes a Manuel Mendes

Para Manuel Mendes

Túnis (posta restante) 4-7-1929


Meu caro camarada: Muitas e muitas vezes obrigado pelo postal que acompanhava o número da «Civilização», onde tive o gosto de ler o seu excelente artigo sobre o Columbano, com a lisongeira passagem que me dedica. Mas sou eu que lhe estou em dívida de uma longa carta, que não sei quando terei o vagar de escrever. Agravou-se-me a preguiça com este ardente verão cartaginês, que atirou comigo para uma pequena praia solitária, de impoluta areia verdadeira, fina e doirada, na qual durmo, sonho e passeio, sem outra preocupação além de casar à frescura da aragem salobra o perfume dos cravos malferidos... -- Até breve -- camarada e admirador,
M. Teixeira Gomes
In Urbano Tavares Rodrigues, M. Teixeira-Gomes -- O Discurso do Desejo

sábado, outubro 08, 2005

M. Teixeira-Gomes




















Retrato por Marques de Oliveira
(http://pinturaportuguesa.blogs.sapo.pt)

Correspondências #16 - M. Teixeira-Gomes a João Chagas

Londres, 11 de Agosto de 1911
Querido Amigo:
Cruzaram-se as nossas cartas de ontem. -- Antes de sair de Lisboa, falando ao Camacho na possibilidade de se lembrarem de mim, em qualquer aperto para a pasta dos Estrangeiros, declarei-lhe categoricamente que nunca a aceitaria, e a haver quem, por tal motivo, me acoimasse de mau patriota, eu recolheria definitivamente ao meu buraco, de onde não sairia mais. Ficou assim o B. Camacho com procuração bastante para decidir o assunto e dou-lhe também a você no mesmo sentido, acrescentando que essa pouca energia e o resto de saúde que eu ainda conservava em Lisboa, se esgotaram quase completamente, tendo hoje como certo que, posto na alternativa de aceitar a pasta dos Estrangeiros, ou dar um tiro na cabeça, preferiria, sem a mínima hesitação, o tiro. Isto é positivo e daqui não haverá influências humanas ou divinas que me demovam. Aceitando o posto que ocupo dei ao País muito mais do que podia e devia dar.
O homem que está indicado para os Estrangeiros é o A. de Vasconcelos. Fala-se nele; é que ele aceita e quer. Com as suas amarras ao Bernardino, ao Camacho e ao Costa, considere-o você já ancorado no Terreiro do Paço. É inteligente, activo e culto; fará portanto bom papel político e de quando em quando operação cirúrgica rendosa, o que também tem importância.
A situação aqui vai de mal a pior. Naturalmente a impressão que eu dou aos portugueses que passam pela Legação é optimista, mas a verdade é que a situação é péssima.
O F. de Andrade, que esteve aqui mais 15 dias e conversou com toda a gente que tem negócios connosco, é da mesma opinião.
Que quer, não se faz coisa alguma para nos aplanar o caminho. Se eu ainda não consegui que se nomeasse vice-cônsul um homem de grande influência e respeitabilidade, que tem aguentado a Câmara Anglo-Portuguesa (atacado por todos os lados pelos nossos inimigos) e nos tem prestado relevantíssimos serviços, entre eles a organização de representações ao Governo inglês para fazer o modus-vivendi no sentido em que o desejamos. Esse homem suspira por essa honra vertiginosa há 10 anos, mas o grande Batalha de todos os Reis, que lhe não convinha por motivos de pecúnia, a existência dum vice-cônsul -- sempre lhe deu para trás e continuará dando. A propósito desse nome faustoso: falei-lhe tempos atrás na esperança que ele acalentava (em família) de ir a ministro dos Estrangeiros. Riu-se você sem dúvida desdenhosamente. Pois riu-se fora de propósito. Ele aduz em favor dos seus direitos, além da brilhante carreira diplomática universalmente conhecida, a circunstância de, aí pelas alturas de 1520 (sic), quando se preparava uma das infinitas revoluções platónicas de que José Elias Garcia e outros tiraram privilégio de invenção, ter sido solicitado para entrar no primeiro Ministério, sobraçando aquela pasta, para o que, expressamente o viera a Londres convidar o nosso tão venerável quanto profético Junqueiro. Dessa vez recusou com a mesma nobreza com que agora a requer.
Queixa-se você do calor e que ainda tem banhas. Já derreti as minhas, de modo que não há perigo de ver a pena escorregar-me pelos dedos, que são verdadeiras tenazes de coiro batido.
Seu do coração
Correspondência I -- Cartas para Políticos e Diplomatas
(edição de Castelo Branco Chaves)

sábado, maio 21, 2005

Figuras de estilo #2 - M. Teixeira-Gomes

Era uma forte rapariga de seus quinze anos, com o desenvolvimento de mulher feita, embora vestindo saia curta; a tez levemente morena ou desse tom mate, que no Norte se contrapõe ao róseo nacarado das loiras e à luz meridional se capitularia, talvez, de alvura láctea; olhos imensos e pretos, da cor do cabelo que lhe caía, solto, sobre as costas, fartíssimo e ondeado como um velo de azeviche.
Deus ex machina - Novelas Eróticas
M. Teixeira-Gomes Posted by Hello