«Essa dor de sorrir bebendo o ar fino, / A esmorecer e desejando tanto...»
«A António Nobre», A Cinza das Horas (1917)
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«Essa dor de sorrir bebendo o ar fino, / A esmorecer e desejando tanto...»
«A António Nobre», A Cinza das Horas (1917)
O Panteão Nacional é demasiado acanhado para Eça de Queirós. Sim, é verdade, estão alguns dos muito grandes, por exemplo génios como Aquilino Ribeiro e Amália Rodrigues, a quem os portugueses devem tanto como ao grande romancista, enorme cronista e incomparável estilista. No entanto, para além de faltarem por lá muitos, outros há que não se percebe por que lá repousam, para além das comezinhas circunstâncias políticas, que, a propósito, o mesmo Eça detestava -- para não falar das comezainas dos novos-ricos hi-tech.
Mas nem é uma questão de companhias: quando Camilo passar ao Panteão, o que a partir de agora se torna obrigatório, ou Júlio Dinis -- e assim lá estarão reunidos os três grandes romancistas portugueses do século XIX --, não serei eu quem irá contestar a decisão. Mas os autores de Amor de Perdição e A Morgadinha dos Canaviais são outra loiça, e por sinal bem diferente entre si, felizmente -- e viva a diversidade...
O problema é que trasladar Eça de Queirós para o Panteão, além de ser ridículo, depois de há pouco mais de trinta anos os restos mortais estarem por um triz destinados à vala comum -- não fora o alerta da imprensa --, o seu espírito crítico e com pouca paciência para os arrivismos protagonizados pelo pessoal político, a politicalha monárquica ou a jacobinagem republicana, obrigaria a que se usasse de parcimónia no estadulho deputo-ministerial que se vai empoleirar no frágil esqueleto. Que parte da família em sequer o tenha percebido é quase grotesco, mas também não é de admirar -- refrão: "Como és belo, meu Portugal", canta, irónico e sarcástico, Luís Cília...
Há pessoas, há espíritos, há intelectos, há sensibilidades incompatíveis com tanto conselheirismo. Antero de Quental é outro caso de incompatibilidade com o Panteão (ainda por cima com o Teófilo por perto, o parvónio, como lhe chamava...) Ponham lá o Cesário Verde e o António Nobre, ainda maiores poetas do que o divinalmente furibundo Antero, que jaz em paz em Ponta Delgada.
Ou o José Afonso, outro para quem o edifício de Santa Engrácia seria como se jazesse no gavetão das luminárias nacionais. Como se poderia fazer do homem que revolucionou a nossa música, miscigenando-a, ele próprio um revolucionário limpo, num berloque da pátria?
Antes a vala comum, para onde deixaram ir o Bocage -- sabendo-se nessa altura quem e o que era Bocage, destino de que Eça se salvou, por um triz. ( refrão: "Como és belo, etc.)
Mas o povo fica feliz -- excepto os bairristas de Baião (ai o turismo...) -- e os acácios impantes, com o assuntozinho despachado, e ala que se faz tarde para a açorda.
Releio Os Canibais, de Álvaro do Carvalhal (Padrela, Valpaços, 1844 - Coimbra, 1868). É um daqueles muitos cuja morte precoce, trazida pela doença, foi um desperdício -- Cesário Verde, António Nobre, José Duro; mas também Henrique Pousão e Amadeu de Sousa-Cardoso, na pintura; António Fragoso, extraordinário compositor.
Os Canibais, que abre o volume póstumo de Contos (1868), embora seja apontada como obra-prima do gótico português, não creio que a sua sobrevivência se deva particularmente à definição como narrativa de terror, aliás bastante chocarreiro, antes aos atributos estilísticos do escritor, e um tipo de narrador intrometido, sentencioso, por vezes cheio de boa disposição, à maneira de Garrett ou sarcástico como Camilo, que certamente conhecia bem, culto e lidíssimo que era, como se comprova pelos apartes do referido narrador, por vezes com uma ironia de que não desdenhariam Machado de Assis e Eça de Queirós -- espírito crítico que transborda sem afectação ou aspereza inútil, porém frontal e assertivo, ou não estivera ele ao lado de Antero na Questão Coimbrã.
36. Domingos Sequeira (1768-1837). Pintor de transições: de estilos (do neoclassicismo para o romantismo) e de regimes (do absolutismo para o liberalismo, com as Invasões Francesas pelo meio). A pintura doméstica, os retratos familiares -- esplêndido.
37. D. Fernando II (1816-1885). O grande rei consorte, extraordinário na atenção ao património histórico e à arte do seu tempo. Com ele, Portugal ficou menos pobre.
38. Gaspar Corte-Real (c. 1450-1501). O destemor do desconhecido -- ou a coragem de vencer o temor... -- e a condição trágica de uma família desaparecida quase toda nos mares do Atlântico Norte.
39. Henrique Pousão (1859-1884). Único na nossa pintura, país com demasiados génios artísticos precoces na morte: Cesário (seu contemporâneo), António Nobre, Amadeu, António Fragoso, Mário Botas
40. D. João II (1455-1495). Uma das figuras-chave dos Descobrimentos e, principalmente, da expansão; centralizador do poder régio; herdeiro e vingador do avô, D. Pedro, o regente que fora o Infante das Sete Partidas.
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.