«No ano em que eu era comido pelo escorbuto / chegavam as tuas enviadas com limões de oiro»
Memórias do Contencioso (1976)
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«No ano em que eu era comido pelo escorbuto / chegavam as tuas enviadas com limões de oiro»
Memórias do Contencioso (1976)
«e derramem-se-me os óleos / do coração e a / vista se me feche e cuspam / de longe neste gafo // se for para calar-me e não disser / o teu nome no fim, sempre o teu nome»
Memórias do Contencioso (1976)
«a palavra não vinha / eu sentia-me cobrir lentamente de / com esse bolor espesso o Inverno»
Memórias do Contencioso (1976)
«"Deste um nome de incêndio a certas palavras»
Cuidar dos Vivos (1963) - «Os amantes desencontrados»
«Com peso triste caminha na rua o Outono.»
Cuidar dos Vivos (1963) -- «Tentas, de longe»
«Quem sabe, amor, onde o amor se fere?»
Cuidar dos Vivos (1963)
«Eu vi as amantes ensandecerem / com esse peso de Outono. Perderem as forças / com o Outono masculino e sangrento.»
Cuidar dos Vivos (1963) - «Peso de Outono»
«acho tudo belo a Primavera no fim as árvores da praça / adormeceria aqui sentado / repleto com a minha meia idade atordoante»
Siquer Este Refúgio (1976) - «Quarto Bairro, Paris»
«Como são belas de facto as árvores na Place des Vosges! mas nesse dia / eu andava pelo Marais com a mais uma vez morte presa aos cabelos»
Siquer Este Refúgio (1976) - «Quarto Bairro, Paris»
«Saudades de Luísa que me queria para novio é Agosto "amor o muerte" com o assentimento de pai e mãe»
Siquer Este Refúgio (1976) - «Bouzas de Fondo, Orense: a muiñeira»
«não: era de noite àquela hora a alegria / das casas funde-se com um estalido cruel»
Siquer Este Refúgio (1976)
«cedo à "inspiração" para anotar o dístico há mais de um ano tentando a sua vez de ser um fecho aceitável» Siquer Este Refúgio (1976)
«acho tudo belo a Primavera no fim as árvores da praça / adormeceria aqui sentado / repleto com a minha meia idade atordoante» Siquer Este Refúgio (1976)
«Era de noite e eu pensava / não: era de noite uma outra noite mais antiga do que a narrativa deixa subentender» Siquer Este Refúgio (1976)
3:
e vá-se-me dos dedos toda a agilidade escrevente
que eu já possa ditar só metade de versos
e que ao oitavo dia se me fujam
as referências do mundo visível
que eu dure sem préstimo lá ao canto
ao pé da telefonia, "o da manta de lã"
e as filhas venham casadas e com filhos
tentar amar esse madeiro podre
se a maldição for tanta que na morte
do entendimento se me vá teu cheiro
Memórias do Contencioso (1976)
2:
em 1973 ponho de parte alguns
álibis a começar pelo da fealdade própria
que mais me serve e tu soubeste
sempre para fingir libertino
tento aprender um jogo
afinal simples: desnudar-me e logo depois um outro:
revestir-me em quatro segundos ao cronómetro
pensava eu na minha que se deve à amada
tudo inclusive o espectáculo íntimo
entretanto falhamos porque estas coisas batem
no plexo solar viciam o salto
vamos dar com os cornos tristemente
no sítio onde a piscina é mais baixa
a sopa, adiante, escalda; e rias-te
Memórias do Contencioso (1976)
Era um dos grandes escritores vivos, no que há crónica diz respeito. Fernando Lopes-Graça foi outro caso semelhante, um dos grandes do século passado, embora o próprio Lopes-Graça só se assumisse como músico e compositor, propositadamente, pois não queria contribuir para menorizar aquela que era a sua razão de ser, a música.
José Duarte, que morreu hoje, além de um ouvido sobredotado e uma capacidade nata de comunicar -- e não é nada fácil falar de música sem cair no oco lugar-comum --, foi um extraordinário escritor, como eu muitas vezes lho disse e até escrevi. Ele gostava, claro, e dizia-me que também Fernando Assis Pacheco lhe elogiava a forma, e esta, acrescento, não é menos importante que o fundo. Vai-se o homem com as suas imperfeições, ficam (não só) os livros.
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.