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terça-feira, outubro 25, 2022

"verdades essenciais"

 

Noutros tempos, quando o país era eminentemente rural, um almanaque era, depois do missal, o breviário que encontrava guarida em todos os lares, concentrando numa mesma publicação tudo quanto era necessário à travessia do ano sem percalços, da meteorologia aos dias santos a guardar. Eça de Queirós, que escreveu sobre o assunto como ninguém, na apresentação do Almanaque Enciclopédico para 1896, falava de como estes livrinhos singelos mas profusos guardavam as «verdades essenciais que a humanidade necessita saber, e constantemente rememorar».

André Oliveira (Lisboa, 1982) – um dos mais prolíficos argumentistas da BD portuguesa –, ao escolher para esta colectânea o título Almanaque, teve, por certo, a intenção de espelhar a diversidade de que o volume se compõe. São 24 «curtas de BD», algumas inéditas, outras publicadas na revista Cais, em parceria com outros tantos desenhadores: André Diniz, Rui Lacas, Phermad, Bernardo Majer, Pedro Serpa, João Lam, Nuno Frias, Afonso Ferreira, João Vasco Leal, Luís Louro, Patrícia Furtado, Miguel Andrade, Daniela Viçoso, Tiago Lobo Pimentel, Selma Pimentel, Filipe Andrade, Darsy Fernandes, Catarina Paulo, João Sequeira, David Cerqueira, Susana Resende, Susa Monteiro e Marta Teives. Parte destas narrativas caracterizam-se pelo humor, cujos melhores exemplos serão o nonsense garoto do díptico «Coisas que o t-rex não consegue fazer» e «Coisas que o dentes-de-sabre não consegue fazer», com desenhos de Pedro Serpa; ou ainda «Se Janeiro deixar» (com João Sequeira), a lembrar os Gato Fedorento.

Mas o melhor André Oliveira surge, quanto a nós, naqueles relatos em que perpassa uma melancolia fina, uma angústia existencial insistente, em confronto com o sentimento trágico da vida, a sua fragilidade, e que por isso mesmo procura valorizar o que é verdadeiramente importante para si, denunciando um romantismo que não vai bem com a modernidade suicidária que vivemos: a constância no amor, os vínculos familiares, a fidelidade a si próprio, a memória da inocência, quantas vezes ao sabor dos caprichos do acaso – outras verdades essenciais que Eça estava longe de desconhecer, mas que não tinham a primazia para o público, numa época que ainda não voltara costas ao campo e se orientava pela regularidade das estações. «Mesmo assim, abandonei-te» (com desenhos de Rui Lacas), «No meu lugar» (Filipe Andrade), «Saudade» (Darsy Fernandes), «Nina» (Catarina Paulo) ou «Narciso» (Susa Monteiro, também autora da capa), são alguns dos momentos inexcedíveis deste livro.


Almanaque

Argumentos: André Oliveira.

Desenhos: vários autores.

Bicho Carpinteiro, Lisboa, 2018

(2019)

sábado, setembro 10, 2022

quadrinhos

Marta Teives e Pedro Moura, Os Regressos (2018)

 

segunda-feira, setembro 05, 2022

uma apologia da ruralidade

 

Madalena regressa à aldeia onde viveu parte da infância com a avó paterna, havia pouco falecida, num reencontro com o espaço e o tempo em que foi feliz. Criança diferente, aberta aos sinais da Natureza, girando de médico para psicólogo, os pais decidem-se a deixá-la aos cuidados da avó, a única que não a punha em questão, fazendo perguntas dolorosamente incrédulas a respeito dos relatos da pequena, após as sortidas à floresta, nas imediações da casa. A partir daqui, tece-se uma narrativa de rememorização e perda, até Madalena se integrar no seu derradeiro lugar.

A capa, comecemos por aí, em que predomina a cor verde, dá-nos a imagem de uma jovem mulher à beira-rio, fumando e lendo um livro -- que no interior saberemos tratar-se dos contos de Julio Cortázar, Todos os Fogos, o Fogo, e que ocasionalmente se atravessam na narrativa. O reflexo da água dá-nos a mesma Madalena, mas ainda criança. A imagem prolonga-se para a contracapa, e o tom da clorofila cede aos castanhos de um grosso tronco, provavelmente um carvalho, ao centro do qual lemos o mote, como que inscrito na casca: "Nunca regresses ao lugar onde já foste feliz."
Numa BD, a prancha inicial é tão importante quanto a primeira frase ou o primeiro parágrafo de um romance. Em Os Regressos, quatro vinhetas (uma dela funcionando como duas) incidindo sobre a linha de caminho-de-ferro, condensam o tom da história: a partir da vista aérea panorâmica, a imagem vai fechando-se progressivamente até ao pormenor da máquina sobre os carris, à beira de trucidar um pequeno pássaro campestre. Mas a narrativa começa ainda antes da primeira página, em quatro vinhetas dispostas no frontispício e no verso deste -- recurso repetido no fim --, revelando um cuidado com o detalhe narrativo, sem dúvida um dos aspectos fortes do livro.
Trata-se, em suma duma apologia do mundo rural, com o que este pode revelar para lá das evidências. Texto de Pedro Moura (Lisboa, 1973) que respira muito bem nas pranchas de Marta Teives (Lisboa, 1977), com recurso sabiamente doseado quer à elipse quer ao pormenor, como requer uma narrativa desenvolta, lograda pelos autores. O trabalho da autora mereceu, aliás, o prémio para o álbum com melhor desenho do Amadora BD em 2018. Dito isto, o autor destas linhas, talvez por defeito seu, está longe das visões idílicas da ruralidade, muito distante da estesia pagã que o livro veicula, pois nem o campo se constitui necessariamente como lugar de harmonia em que o todo universal se funde nem a cidade forçosamente obriga ao império do gadget e do prozac. Cidade, idealmente, é sinónimo de civilização; o campo, sê-lo-á, ou não. (Polvo, Lisboa, 2018)
(2019)