domingo, novembro 27, 2005
Correspondências #23 - Luiz Pacheco a Serafim Ferreira
Serafim
fui aprendido. Corolário lógico: depois de encafuarem os livros, segue-se o Autor. Infelizmente, não tenho a sorte do Urbano (ainda ontem vi a sua máscara torturada n'A Capital em «crítica» duma antiga fanchona dele, a Felizarda Botelho) ou do Sttau: quando vou de cana ninguém chora nem ninguém protesta. Tão-pouco os meus crimes são nobres, ditos cívicos, de cidadania... mas delitos comuns, taras sexuais. Adiante. 2 pedidos ao Menino Serafim: a) tem por aí uma notinha para mim? (o fim do mês tá à vista!). Em carta simples c/as últimas novidades do milieu literato. b) Boulle: para a semana recupero (desempenho) uma das duas máquinas de escritura. Gostava de rever o texto, mesmo que VV. não o queiram editar (resgataria a tradução).
fui aprendido. Corolário lógico: depois de encafuarem os livros, segue-se o Autor. Infelizmente, não tenho a sorte do Urbano (ainda ontem vi a sua máscara torturada n'A Capital em «crítica» duma antiga fanchona dele, a Felizarda Botelho) ou do Sttau: quando vou de cana ninguém chora nem ninguém protesta. Tão-pouco os meus crimes são nobres, ditos cívicos, de cidadania... mas delitos comuns, taras sexuais. Adiante. 2 pedidos ao Menino Serafim: a) tem por aí uma notinha para mim? (o fim do mês tá à vista!). Em carta simples c/as últimas novidades do milieu literato. b) Boulle: para a semana recupero (desempenho) uma das duas máquinas de escritura. Gostava de rever o texto, mesmo que VV. não o queiram editar (resgataria a tradução).
Cumprimentos ao Abreu, Armando e irmão do Vítor
e para si abraços do
Luiz Pacheco.
Cartas na Mesa
(edição de Serafim Ferreira)
Etiquetas:
Fernanda Botelho,
luiz pacheco,
Serafim Ferreira,
Urbano Tavares Rodrigues
sábado, novembro 26, 2005
The Dreaming
Escrevendo sobre The Dreaming, o crítico da Rock & Folk Jean-Marc Bailleux comparou (R&F n.º 190, 1982) este álbum aos míticos Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band e The Dark Side of the Moon. Pois quanto a mim, o quarto disco de Kate Bush é melhor do que aqueles trabalhos dos Beatles e dos Pink Floyd. O Dark Side não resistiu ao tempo; ouve-se hoje mais por curiosidade que por necessidade; quanto ao LP dos Fab Four, conquanto eles não tenham feito discos maus, sequer medíocres, o Sgt. Pepper foi alvo dos maiores ditirambos, nem sempre justificados. Não é o melhor dos Beatles, embora lá exista -- como em todos os outros títulos -- um punhado de obras-primas: «With a little help from my friends», «She's leaving home» ou «A day in the life».
Regressando a Kate, já se viu, pelo que ficou escrito, que estamos a falar dum disco de excepção. Kate Bush -- que acabou de lançar um duplo CD, após anos de silêncio -- é, aliás, uma artista notável: compositora, letrista, cantora, instrumentista, coreógrafa, bailarina, actriz... Além disso, é muito bonita, o que torna tudo ainda mais agradável.
Os que lhe estudam a obra costumam referir-se ao que poderíamos chamar o estranho mundo de K. B. Ana Rocha, v.g., referiu-se, em artigo publicado há uns bons anos na saudosa Música & Som (n.º 61, 1981), à circunstância de «a fronteira entre o mundo adulto e o infantil [ser] frequentemente esbatida e diluída». E por mais evidente que surja o cosmopolitismo e a mundividência, existe esse ambiente de estranhamento, além de uma certa englishness que lhe povoa as canções.
Em termos musicais, The Dreaming revela o efeito provocado pelo terceiro LP de Peter Gabriel, em que Kate Bush participou -- como viria, dois discos mais tarde, em So, a fazer um inesquecível dueto com o ex-vocalista dos Genesis. Há composições em que essa inspiração me parece notória, sem subjugar a poderosa personalidade da autora de «Wuthering Heights».
É-me difícil destacar temas, de tal maneira estão conseguidos. A produção, também da sua responsabilidade, é um primor de contenção, bom-gosto, ideias bem arrumadas e, de novo, personalidade.
Uma referência para David Gilmour -- o músico que a revelou --, numa curta mas interessante participação em «Pull out the pin», uma das músicas soberbas deste disco.; e outra para o seu irmão, Paddy Bush, luthier e músico de grandes recursos, uma figura-chave no processo criativo de Kate.
Há vinte e tal anos que ouço The Dreaming regularmente, sem perda da capacidade de encantamento inicial -- a tensão e a estesia que nos proporcionam as obras de arte.
Etiquetas:
Ana Rocha,
da música,
David Gilmour,
Jean-marc Bailleux,
Kate Bush,
Paddy Bush,
Peter Gabriel,
Pink Floyd,
The Beatles
sexta-feira, novembro 25, 2005
Antologia Improvável #78 - Papiniano Carlos
O POETA
Seara e nuvem, barco e melodia
no coração das feras e das aves,
trazes a aurora em tuas mãos suaves
abrindo a noite, barco e melodia.
Lírio solar, estrada e cotovia
jamais sonhada pelas próprias aves,
a morte e a vida, a porta e as chaves
tudo em ti se confunde e anuncia.
Sonharam-te os abismos, e os morcegos
volvem-se em arcanjos e vêm, cegos
quando os fitas, pousar na tua mão.
Só em ti a beleza encontra forma.
Cantas! e logo a noite se transforma
no dia que faltava à Criação.
Caminhemos Serenos
Seara e nuvem, barco e melodia
no coração das feras e das aves,
trazes a aurora em tuas mãos suaves
abrindo a noite, barco e melodia.
Lírio solar, estrada e cotovia
jamais sonhada pelas próprias aves,
a morte e a vida, a porta e as chaves
tudo em ti se confunde e anuncia.
Sonharam-te os abismos, e os morcegos
volvem-se em arcanjos e vêm, cegos
quando os fitas, pousar na tua mão.
Só em ti a beleza encontra forma.
Cantas! e logo a noite se transforma
no dia que faltava à Criação.
Caminhemos Serenos
JornaL
1) Miguel Cadilhe, um dos piores pesadelos do cavaquismo, comparou -- provavelmente com aquela verve de autómato que lhe é reconhecível -- o antigo mentor a um eucalipto: seca tudo sua à volta. Talvez, mas é a esse euclipto que o ex-ministro deve a relevância pública. Foi feio.
2) A Igreja não quer homossexuais ordenados padres. Vasco Pulido Valente escreve hoje no Público: «não me entra na cabeça que se proteste contra o Papa, porque ele é o que é e não o que a maioria agnóstica, ateia ou indiferente gostaria que ele fosse.» Eu cá, que sou ateu, acho muito bem que ele seja assim como é. E também me pergunto: para que raio quereria um homossexual ser ordenado padre? Francamente, não joga.
3)A ler: O Inimigo Público de hoje.
4) A ouvir: Janis Joplin, Pearl - Legacy (Sony/BMG); Paul Weller, As I Know (V2/Edel); Souad Massi, Mesk Elil, (Wrasse/Harmonia Mundi).
Etiquetas:
Janis Joplin,
Miguel Cadilhe,
Paul Weller,
Souad Massi,
Vasco Pulido Valente
quinta-feira, novembro 24, 2005
Caracteres móveis #49 - J. W. Goethe
A nós não seduziram as majestosas fachadas, / Nem a varanda elegante, nem o sóbrio pátio. / Por elas passámos apressados, e foi uma porta baixa e estreita / Que acolheu o guia, que acolheu o desejoso.
Erotica Romana
(tradução de Manuel Malzbender)
Erotica Romana
(tradução de Manuel Malzbender)
Etiquetas:
J. w. Goethe,
Manuel Malzbender
JornaL
2) Manuel Alegre ao Público: «Se não aceitar ditaduras nem regimes totalitários, se lutar pela liberdade, se ter uma lógica independente e livre é ser romântico, então eu sou romântico.»
Etiquetas:
Augusto Pinochet,
da pólis,
do mundo,
Manuel Alegre,
Salvador Allende
Escrever na areia - A palavra
(Alterado)
Etiquetas:
da pólis,
Jorge Coelho,
José Sócrates,
José Vitorino,
Manuel Alegre,
Mário Soares
quarta-feira, novembro 23, 2005
Resignação
Estudos, ensaios de leitura crítica, antologias e recolhas epistolográficas -- tudo isso damos à estampa. Falta-nos, porém, o talento do criador.
JornaL
2) As cartas hoje publicadas pelo JL, de Fernando Assis Pacheco, Manuel Beça Múrias e Afonso Praça, mostram isso mesmo. Como há tanto material humano de primeira qualidade ainda a conhecer...
3) Miguel Real lança dois livros duma assentada: o ensaio O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa e um romance, a suceder ao excelente Memórias de Branca Dias: A Voz da Terra. Diz ele em micro-entrevista: «O romance histórico não deve reproduzir ficcionalmente a História, mas iluminá-la, abrindo-a a outras interpretações.»
4) A ler: Andrade Corvo, Perigos (Fronteira do Caos); Frederico Lourenço, A Odisseia de Homero adaptada para jovens; Graciliano Ramos, S. Bernardo (Cotovia); Miguel Real, A Voz da Terra e O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa (Quidnovi); Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Malva 62 (Quasi); Pedro Rodrigues, António Victorino d'Almeida Conta 50 Anos de Música (Quimera); Urbano Tavares Rodrigues, O Mito de D. Juan e Outros Ensaios de Escreviver (Imprensa Nacional); Paul Teyssier, A Língua de Gil Vicente (Imprensa Nacional); Miguel de Unamuno, A Vida de D. Quixote e Sancho (Assírio & Alvim).
5) A ouvir: Bach, Cantatas Profanas pelo Collegium Vocale de Gent, dirigido por Philippe Herreweghe (Harmonia Mundi); Mafalda Arnauth, Diário (Universal); António Chainho e Marta Dias, Ao Vivo no CCB (Movieplay); Clã, Gordo Segredo ((EMI-VC).
terça-feira, novembro 22, 2005
Antologia Improvável #77 - Fernando Pessoa / Álvaro de Campos
Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias illuminadas
E cada um sabendo do outro só que ha vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
Livro de Versos
(edição crítica de Teresa Rita Lopes)
Cada um a vida das linhas das vigias illuminadas
E cada um sabendo do outro só que ha vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
Livro de Versos
(edição crítica de Teresa Rita Lopes)
Etiquetas:
Alvaro de Campos,
Fernando Pessoa,
Teresa Rita Lopes
JornaL
1) E de repente, o Ariel Sharon torna-se(-me) personagem mais simpática. Será para durar?
2) Tomé Pinto em entrevista a Adelino Gomes, a propósito dos 30 anos do 25 de Novembro: «Quando se dá a ocupação das bases [aéreas], estamos num período insurreccional. Alguém sugere que se chame o Ramalho Eanes [.] Este diz a Costa Gomes que tem um grupo de oficiais que podiam tomar conta da situação. "Quem são"? Ele respondeu: "Estão comigo, eu sei quem é que são." Mas não revelou os nomes e ainda bem. O Presidente disse: "Então avance." Além dos Comandos, nós tínhamos outra unidade, muito esquecida, que é [o Regimento de Cavalaria de ] Estremoz. [...] Mas a primeira unidade que avançou não foi nenhuma destas, mas sim o CIAAC [de Cascais] do capitão Pinto Ramalho, hoje general. Foram de lá os primeiros pelotões a avançar.»
Etiquetas:
Adelino Gomes,
Ariel Sharon,
Cascais,
Costa Gomes,
do mundo,
Pinto Ramalho,
Ramalho Eanes,
Tomé Pinto
segunda-feira, novembro 21, 2005
Caracteres móveis #48 - Guy Debord
No reduzido número das coisas que me agradaram, e que soube fazer bem, aquilo que por certo fiz melhor foi beber. Embora tenha lido muito, bebi mais. Escrevi muito menos do que a maior parte das pessoas que escrevem; mas bebi muito mais que a maior parte das pessoas que bebem.
Panegírico
(tradução de Júlio Henriques)
Etiquetas:
Guy Debord,
Júlio Henriques
domingo, novembro 20, 2005
Andante maestoso
E pensar que em tempos umas nulidades críticas que, como de costume, não viam dois palmos à frente do nariz, acharam o bom do Piotr Ilich, acompanhado, de resto, do seu contemporâneo alemão Brahms, uns músicos dispensáveis. Parece que os pobres se aborreciam com a circunstância de alguma da música dele servir para bailes, se calhar de debutantes. Daí a classificarem-no em conformidade foi um passo...
Etiquetas:
Claudio Abbado,
da música,
Johannes Brahms,
Piotr I. Tchaikovski
Antologia Improvável #76 - José Carlos Ary dos Santos (2)
QUEIXA E IMPRECAÇÕES DUM CONDENADO À MORTE
Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.
Passo a passo os encontro no caminho
Que os Deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram
Com angústia e com lama.
Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.
Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.
Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu que me corto a mim mesmo no pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.
Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.
Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.
Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.
Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
De serem inúteis e ficarem vivos.
Liturgia do Sangue / Obra Poética
(edição de Francisco Melo)
Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.
Passo a passo os encontro no caminho
Que os Deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram
Com angústia e com lama.
Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.
Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.
Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu que me corto a mim mesmo no pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.
Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.
Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.
Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.
Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
De serem inúteis e ficarem vivos.
Liturgia do Sangue / Obra Poética
(edição de Francisco Melo)
Etiquetas:
Francisco Melo,
José Carlos Ary dos Santos
Subscrever:
Mensagens (Atom)