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quinta-feira, outubro 10, 2024

serviço público - Carlos Matos Gomes, quase lapidar: «O direito à "defesa de Israel" é o mesmo de qualquer guarnição romana nos confins do império.»

Uma grande frase em mais um grande texto do coronel Carlos Matos Gomes -- que, recordo, além de oficial comando na Guerra Colonial e historiador do período, é também o romancista que assina as suas obras literárias sob o nome de Carlos Vale Ferraz.

Análise sedutora e fina, à qual, não sendo um especialista, me permito levantar duas objecções: se a minha leitura não foi demasiado apressada (detesto ler no computador), o autor parece não valorizar a permanência contínua de população judaica nos territórios israelo-palestinos desde a segunda destruição do templo de Salomão, em Jerusalém; bem como o impulso do movimento sionista estabelecido por Theodore Herzl, no final do século XIX, aliás inspirado pelo Caso Dreyfus 

[-- uma das histórias de perseguição mais abjectas da história do nosso querido continente, em que do lado do supliciado e inocente capitão estiveram Zola (heróico), Octave Mirbeau, Anatole France, entre tantos mais, incluindo o nosso Eça de Queirós, sempre do lado certo; e, do outro lado a bestiaria selvagem protofascista e colaboracionista francesa -- os próprios ou os seus descendentes, em linha directa até ao presente na recauchutada Frente Nacional e outros -- rever, a propósito, o filme do grande Polanski];

outra ausência com que me deparo, apesar da referência ao xiismo e as suas razões, é o papel do sempre pestífero sectarismo religioso, que não devemos varrer para debaixo do tapete. A religião, quando sai da esfera individual, do núcleo familiar e do confinamento dos templos -- e passa para a esfera sóciopolítica, será sempre inimigo a abater, católica, xiita ou o raio que as partam a todas.

Do papel dos aiatolas no derrube do primeiro-ministro patriota Mohamed Mossaddegh, aqueles transformados em joguetes dos americanos, entre os quais circulava um tal Khomeiny -- que bem os gratificou -- agradecimentos à moda de bin Laden.

Como disse esse quase santo que deu pelo nome de Piotr (Pedro) Kropótkin, a única igreja que ilumina é a igreja que arde... -- experiências ensaiadas na Guerra Civil de Espanha -- e com razão, como se viu pelo comportamento da instituição durante o franquismo; e até recentemente, no Chile -- mas aqui devido a essa tendência que por lá teve guarida, a do abuso de menores.

Posto isto, que o governo israelita não passa de uma guarda avançada do imperialismo americano, entra-nos pelos olhos todos os dias -- não muito diferente, de resto, do que protagoniza o judeu-ucraniano de língua russa Zelensky.

quinta-feira, outubro 03, 2024

por aí


Félix Nadar, retrato de Piotr Kropótkin

 

domingo, fevereiro 28, 2021

caracteres móveis

Castidade: «Afinal o caso era banal, simples e puro como castidade de santo.» Ruben A., «Sonho de Imaginação», Páginas I (1949).   Comentário: Não há nada menos banal e complicado do que a castidade de um santo. A pureza é sempre dos que conheceram a sujidade.


Do eterno:
«O moderno é de sempre, o moderno é o eterno.» Fernando Lopes-Graça, Introdução à Música Moderna (1942). Comentário: O agora nunca vem com prazo de validade.


Matéria: «Exagerado em matéria de ironia e em / matéria de matéria moderado» Cacaso, apud Heloisa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1974). Comentário: o antidogmatismo, explicado com inteligência.


Misérias (1): «Sempre existiu esta tendência da arte para desculpar um certo tipo de pessoas imorais ou facínoras. É uma das misérias da arte, cobertas por uma auréola de glória.» Gregorio Marañon prefácio ao Lazarilho de Tormes,  (trad. Ricardo Alberty) Comentário: Sobre a novela picaresca e a glorificação de patifórios, em especial o Lazarilho, que considera magistral. Donde se conclui que a arte não se compadece com bons sentimentos.


Misérias (2): «a credibilidade da historiografia portuguesa dos Descobrimentos nunca foi grande» Luís de Albuquerque, Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses (1990). Comentário: Matemático de formação, é herdeiro, de certa forma do positivismo de Herculano; muito útil para desmontar as patranhas em que somos useiros e vezeiros. No entanto, falta-lhe o golpe de asa de um Cortesão, Jaime, com a sua doutrina do sigilo. Mas prefiro um positivista a um patranhioteiro.




Progresso: «Muito tem avançado a humanidade desde aquelas remotas idades em que o homem, talhando no sílex as suas ferramentas rudimentares, vivia das eventualidades da caça e apenas deixava como herança aos seus sucessores um buraco nos rochedos, alguns grosseiros utensílios de pedra -- e a Natureza imensa, incompreendida, com que tinha de lutar para manter uma existência miserável.» Piotr Kropótkin, A Conquista do Pão (1910, tradução de Manuel Ribeiro) Comentário: O ponto de vista que legitima o optimismo. Como racionalista, preciso de agarrar-me a ele.


Timidez. «A juventude que então arvorávamos não convencia ninguém e uma timidez desprotegida impedia-nos todos os passos em direcção aos empresários.» Ferreira de Castro, do «Pórtico» de A Curva da Estrada (1950). Comentário: Castro reporta-se ao início dos vinte anos, e de como a frustração de mil e uma dificuldades -- entre as quais a de uma timidez desprotegida (estava só e era novo na cidade) fazendo com que abandonasse a escrita de teatro, que ensaiava desde os tempos do Brasil. Ganhou-se, pelo menos, um romancista. 



segunda-feira, fevereiro 08, 2021

Kropótkin (1842-1921)



Anarquista, geógrafo emérito, príncipe, revolucionário preso e exilado, Piotr Kropótkin (9.XII.1942-21-II-1921) é uma das grandes vozes históricas das doutrinas acratas. O seu comunismo libertário, desde sempre oposto ao comunismo autoritário (ou totalitário), baseia-se na livre cooperação, ciente, como todos os anarquistas, de que tal só é possível à escala comunitária e na supressão do Estado e dos seus mecanismos de repressão. Kropótkin representa e encara o ser humano no melhor que ele tem, por isso os fundamentos da sua doutrina são não apenas a liberdade anti-autoritária e a cooperação mútua, mas também o amor.
Com influência notória nos círculos anarquistas portugueses, incluindo o talvez mais importante doutrinário, Neno Vasco (1878-1920), A Conquista do Pão (1892) foi traduzida por Manuel Ribeiro (1878-1941), o romancista de A Catedral; porém, na nossa literatura, o escritor em cujos romances essas mundividência teve maior alcance foi Ferreira de Castro (1898-1974).

Em tempo: uma editora das Astúrias apresanta hoje uma tradução da última obra de Kropótkin, póstuma e inacabada: Ética: origem e Desenvolvimento
(daqui) 

 

sexta-feira, setembro 27, 2019

na estante definitiva

Há tempos, a caminho do Museu do Aljube, deparo-me, à direita, com a Sé, aonde não vou há anos; e logo, voltado para o edifício medieval, vem-me à cabeça o formoso romance de Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) -- sinal de que perdurou na minha memória e confirmação do agrado com que o li pela primeira vez. É um romance realista, e não inova do ponto de vista do estilo ou da estrutura. Também o Concerto para piano n.º 2, de Rachmaninov, não o faz. No que não vem mal ao mundo, pelo contrário.
E depois, há todo o interesse da figura pública de Manuel Ribeiro (1871-1941), alguém que vai mudando de campo político, sem nunca (se) trair. Ferroviário de profissão, é como anarco-sindicalista que intervém enquanto publicista; a ele se deve a tradução de A Conquista do Pão, de Kropótkin. Nas duas primeiras décadas do século XX é uma das grandes referências do ideário anarquista. Entusiasmado pela revolução bolchevique de 1917, na Rússia, abandonada a Confederação Geral do Trabalho (CGT), funda em 1919 e torna-se o principal dirigente da Federação Maximalista Portuguesa, precursora do PCP, partido de que é um dos fundadores, em 1921. Alguns anos passados, em data que não apurei, converte-se, defendendo a ideia de uma igreja social, mantendo as mesmas convicções humanistas.
Data de posse: Dezembro de 1992.

Manuel Ribeiro, A Catedral [1920], Lisboa, Guimarães & C.ª Editores [1935?], 280 págs.

quarta-feira, setembro 26, 2018

os amores inúteis #19


O Kropotkin anarquista geógrafo príncipe revolucionário encarcerado evadido.

terça-feira, setembro 06, 2005

Caracteres móveis #35 - Kropotkin

Quando o nível moral duma sociedade baixa ao ponto em que está hoje, esperamos antecipadamente que a revolta contra esta sociedade tome por vezes formas que nos farão estremecer; mas não condenamos por isso a revolta.
A Anarquia. A Sua Filosofia -- O Seu Ideal
(tradução anónima)

Piotr Kropotkin

Posted by Picasa

quinta-feira, julho 14, 2005

A SELVA como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (3)

Eu devia êste livro a essa Amazonia longínqua e enigmática, pelo muito que fez sofrer os primeiros anos da minha adolescência e pela coragem que me deu para o resto da vida. E devia-o, sobretudo, aos anónimos desbravadores, gente humilde que me antecedeu ou acompanhou na brenha, gente sem crónica definitiva, que à extracção da borracha entrega a sua fome, a sua liberdade e a sua existência. Livro bárbaro, como a vida que enquadra, como o scenário que lhe serve de fundo, êle completa em muitos pontos, à margem do entrecho, o meu romance «Emigrantes».
Num, a paísagem ridente do sul do Brasil; noutro a paísagem magestosa do Norte. Em «Emigrantes», o exílio pelo estômago; neste, o destêrro pelo espírito. E nos dois, a uni-los indissoluvelmente, a luta pela vida, a conquista do pão, a miragem do oiro -- um oiro negro que é miséria, sofrimento e quimera com que os pobres se enganam. (...)
Do «Pórtico», 1ª edição
Nota: as naturais referências aos seringueiros, «à gente sem crónica definitiva», objecto das preocupações sociais do autor. A conquista do pão é um dos mais conhecidos e importantes livros do príncipe Piotr Kropótkin, uma das grandes figuras da história do anarquismo, influência decisiva em Ferreira de Castro, sobre quem, de resto, projectou escrever uma biografia, nos anos 30, a pedido do poeta brasileiro Martins Fontes, um devoto do libertário russo.