Beatlemania Portuguesa, V/A (Compilação, 1964-1973).
Com esta compilação particular onde se encontram algumas versões consideradas raras, pretendemos homenagear todos os grupos e artistas portugueses que, cada um de sua maneira e no seu estilo peculiar, tiveram a coragem de se aventurar na senda e no espírito da Beatlemania.
Os Demónios Negros
"Beatlemania" é um termo criado inicialmente e originalmente para descrever o intenso frenesim dos fãs dos Beatles, demonstrado principalmente pela juventude adolescente, nos locais em que a banda se apresentava durante os seus anos iniciais de sucesso. O termo adquiriu um significado mais amplo, referindo-se ao forte interesse mundial pela banda. Acabou por se tratar de um movimento que cresceu na década de 60 com o advento da banda. Naquela época os figurinos e os cabelos usados pelos quatro rapazes de Liverpool eram novidade e constantemente copiados pela juventude. O estilo de música tornou-se viral, numa mania, porque ia na “contra-mão” das composições rebuscadas da época. A simplicidade era uma forma de linguagem e demonstração de rebeldia ao estilo da época.
A história dos Beatles é sobejamente conhecida por todos. Mas o grupo nunca tocou em Portugal. Isso deveu-se basicamente ao ambiente político e social que se vivia na altura. O estilo musical dos Beatles, a sua postura e o comportamento demonstrado em filmes, entrevistas e na comunicação social em geral, sugeriam alguma rebeldia, irreverência, contestação e contracultura que não viam com bons olhos ou não agradavam ao poder político instalado em Portugal nessa altura.
Os Sheiks
Como refere Luís Pinheiro de Almeida no seu livro “Beatles em Portugal”…”Assustada a rádio pouco ousava na sua divulgação. Apenas a elite universitária tinha acesso à mensagem e os jovens músicos nacionais, deslumbrados, inventavam todos os processos para assimilar o repertório. Apesar das dificuldades, há exemplos, à época, dessas tentativas de transformar as canções de Lennon/McCartney e de George Harrison em assunto nacional…”.
Night Stars (de Moçambique)
Com tudo isso e ainda acrescido dos parcos rendimentos da maioria da população na época e do custo excessivo dos instrumentos e aparelhagens de som, ainda assim houve muitos grupos e artistas que se aventuraram numa viagem pela Beatlemania (à portuguesa), através das suas versões adaptadas. O Duo Ouro Negro, o Conjunto Mistério com Fernando Conde, Os Inflexos (de Moçambique), Os Sheiks (os Beatles portugueses como alguns chamavam), os Álamos, Os Demónios Negros, Os Pop Five Music Inc., Os Night Stars (de Moçambique, com a versão de Renato Barros/Renato e seus Blue Caps) e muitos outros, tanto da chamada “metrópole” como das províncias ultramarinas (colónias), tentaram dentro das suas possibilidades, seguir a onda com as suas versões (covers), tanto vocais como instrumentais. Uns com discos editados e outros que não passaram de shows e apresentações próprias da época.
Os Diamantes Negros
Os Beatles acabaram por influenciar o ambiente musical em Portugal, especialmente as bandas da sua época, como já referimos. Foi o caso de um grupo português chamado Jotta Herre, (que animavam as noites do "Hotel Penina", no Algarve) tiveram o nome formado pelas iniciais de dois dos seus membros e foi fundado em 1963/64 no Porto. Tiveram o privilégio de em dezembro de 1968, estar em contacto com o músico Paul McCartney que passava férias no Algarve, quando numa noite de convívio, no bar do Hotel Penina, se juntou à banda que ali tocava (os Jotta Herre), e com a espontaneidade que o caracterizava compôs uma música que intitulou “Penina” e que acabou por oferecer aos músicos da banda portuguesa.
Os Jotta Herre gravaram o EP “Penina”, lançado em 1969. A mesma música viria a ser gravada posteriormente por Carlos Mendes.
Que nós tenhamos conhecimento, existe uma rara gravação (demo/bootleg) de um ensaio dos Beatles, em que o tema Penina é abordado nesse ensaio.
E a “Beatlemania” não parou, não estagnou no tempo. Ultrapassou fronteiras e os tempos até hoje, recheada de iniciativas e acontecimentos. É exemplo disso, a canção lançada por Luís Arriaga já em 1981, em homenagem a John Lennon, com o nome “So Long My Friend” e muitas outras iniciativas e eventos de cantores e grupos em Portugal que até hoje têm prestado tributo e homenageado os Beatles, através das suas músicas e versões.
Grupos de “covers”/revivalistas como é exemplo Vicky E os Seus Blue Jeans, mantêm até hoje nos seus repertórios versões dos temas dos Beatles nas suas apresentações e shows.
Os Inflexos (de Moçambique)
Simultaneamente, especialistas portugueses e do resto do mundo continuam a dedicar aos Fab Four as suas obras em livro, as suas teses, ensaios ou opiniões.
Como curiosidade, “a primeira entrevista dos Beatles a um jornalista português aconteceu na Suécia, em agosto de 1964, entre os Fab Four e o correspondente do Diário de Lisboa em Estocolmo.
Na conferência de imprensa na capital sueca, César Faustino perguntou aos Beatles qual seria o seu preço para atuarem em Portugal.
Mais tarde, num "encontro confidencial", "Mr. Taylor, chefe da comitiva e braço direito de Brian Epstein" deu a resposta ao Diário de Lisboa: "Duas mil libras (160 contos) por espectáculo e pagamento de todas as despesas de viagens e estadia.
Na altura, os Beatles admitiram poder vir a actuar em Portugal, "mas nunca antes de janeiro ou fevereiro de 65". O concerto nunca chegou a acontecer.
O repórter perguntava ainda se era verdade que os Beatles haviam passado por Lisboa, a caminho das Caraíbas, o que os britânicos confirmaram. Na altura, Paul McCartney ter-se-á registado no hotel como Manning e Ringo Starr como Stone.
Os Álamos
Para Luís Pinheiro de Almeida, a Beatlemania nunca foi uma realidade por cá. Como poderia, de resto? “Não foi um fenómeno global. Era limitado à juventude estudante, que ainda assim tinha algum poder de compra. Só ela tinha acesso à música e à informação que vinha de fora.” A influência fazia sentir-se de outra forma. Na cultura anglo-saxónica que começou a ganhar espaço à francesa. Na juventude que começou a calçar botas à Beatle e vestir à Beatle, principalmente “as bandas ié ié”, aponta Luís Pinheiro de Almeida. Carlos Mendes seria um bom exemplo: passou aqueles anos obcecado com John Lennon, vestindo como ele, andando como ele, cantando como ele. “O mundo era mais lento”, como diz David Ferreira, e Portugal um país fechado. Mas a amplificação da revolução aberta pelos Beatles chegou.
Alguém disse um dia que os Beatles foram causa e efeito do seu tempo. Foram respondendo ao que despoletavam no mundo e foram também alterando esse mesmo mundo. Sem programa definido. O efeito fez-se sentir mundo fora. Portugal, naturalmente, não escapou.
Estamos certos que muito mais haveria a dizer sobre o contexto e o conceito da Beatlemania em Portugal, os seus contornos, as suas vertentes, o seu impacto musical e os reflexos socioculturais.
Com esta compilação particular onde se encontram algumas versões consideradas raras, pretendemos homenagear todos os grupos e artistas portugueses que, cada um de sua maneira e no seu estilo peculiar, tiveram a coragem de se aventurar na senda e no espírito da Beatlemania.
Conjunto Renato Silva (de Moçambique)
Faixas/Tracklist:
01 - Os Cinco Bambinos - Eu Chamo Por Ti (I call your name) (66)
02 - Os Demónios Negros - Boys (65)*
03 - Night Stars - Eu Sei (I'll Be back) (66)
04 - Conjunto Mistério e Fernando Concha - Sem Ti Não Sei Viver (I’ll get you) (64)
05 - Duo Ouro Negro - Agora Vou Ser Feliz (I want to hold your hand) (64)
06 - Os Demónios Negros - No Replay (66)*
07 - Os Inflexos - Yesterday (Bootleg, 1967)*
08 - Os Álamos - Night Before (66)*
09 - Os Demónios Negros - Slow Down (66)*
10 - Duo Arco Negro - Ob-La-Di, Ob-La-Da (69)*
11 - Guitarras de Fogo - Seguirei o Sol (I'll follow the sun) (66)
12 - Os Álamos - Taste of Honey (66)
13 - Os Dardos - Yesterday (Bootleg, 64-65)*
14 - Os Diamantes Negros - Quero-te Sempre a Meu Lado (I don't want to spoil the party) (66)
15 - Jotta Herre - Penina (69)
16 - Conjunto Académico Os Espaciais - When I'm 64 (68)
17 - Conjunto Renato Silva - Day Tripper (Bootleg, 1966)*
18 - Os Demónios Negros – Hoje (66)
19 - Os Inflexos - Ob-La-Di Ob-La-Da (Verdes Anos -1969)*
20 - Sheiks - Michelle (66)
21 - Carlos do Carmo - Something (73)
22 - Sousa Pinto E Seu Conjunto - Here, There And Every Where (66)
23 - Os Álamos - Baby It's You (66)*
24 - Edmundo Falé - Estou Tão Só (Yesterday) (66)*
25 - Pop Five Music Incorporated - Blackbird (69)
26 - Conjunto Universitário Hi-Fi - I Call Your Name (67)
27 - Pop Five Music Inc. - Ob-La-Di Ob-La-Da (69)
28 - Valério Silva E Os Dinâmicos - Yesterday (66)
29 - Pop Five Music Inc. - Birthday (69)
* Nota:
As faixas 2, 6, 8, 9, 10, 19, 23, 24 e 28, foram masterizadas por Carlos Santos.
Faixa nº 7 – Bootleg – tema gravado ao vivo no Rádio Clube de Moçambique (R.C.M.), retirado de fita magnética e nunca editado.
Faixas 13 e 17 – Bootleg – temas nunca editados em disco.
Capa e contracapa da compilação idealizada e produzida por Carlos Santos.
Informação:
"Bootlegs" são gravações de áudio ou vídeo do trabalho de um artista ou banda musical, podendo ser realizadas directamente de um concerto ou de uma transmissão via rádio/televisão. Estes últimos podem eventualmente incluir entrevistas e materiais inéditos, que foram descartados por serem considerados inadequados para um produto comercial, bem como passagens de som, ensaios, etc.
(in Wikipedia).