Em Moçambique há vários estilos musicais. No entanto, o ritmo que mais se destacou e percorreu o mundo foi a Marrabenta. Dança e género musical do sul de Moçambique e, em particular da antiga Lourenço Marques (hoje Maputo), que surgiu no início da segunda metade do século XX, nos meios urbanos. Este género surgiu de uma fusão da música europeia com os ritmos tradicionais de Moçambique. A palavra marrabenta vem do verbo "rebentar" ("arrebentar", em vernáculo local).
Orquestra Djambo
Moisés é o único sobrevivente dos primórdios da orquestra, banda ícone da música moçambicana, especialmente no que ao estilo da Marrabenta diz respeito. O ano do nascimento não sabe precisar com exactidão: “Só sei que foi na primeira metade da década de 50”, refere vasculhando no baú da memória. E continua: “Nessa altura era eu na viola, Mabombo, falecido, no piano; José Mondlane, falecido, na bateria, Assam, falecido, no trompete número um; José Manuel, falecido, no trompete número dois, Tiago Bila, falecido, no trombone e Ussufo, falecido, no saxofone.”
E assim se vai recordando de outros elementos da Orquestra Djambo, Clementina, Cecília, Magaia, Palma, Ema, Milagre, Policarpo, o decano, Moisés e ainda falta o Raimundo”.
“No princípio eu integrava um conjunto manjacaziano [de Manjacaze, Gaza]. Eu era o único daqui. Os outros cinco eram todos de lá.” Nessa altura, Moisés tocava sobretudo nas associações de classe como pintor, pedreiro, mainato, carpinteiro. “Era aos sábados e domingos. Foi aí que o Young Ussufo me convidou para tocar no Centro” refere Moisés.
Ussufo tinha quase todos os instrumentos necessários para actuação de uma banda e o Centro possuía piano. “Começámos a ensaiar em casa dele e a tocar no Centro.” O público começou a gostar das actuações da banda e os responsáveis do Centro propuseram-lhe um contrato. “Ussufo não quis. Disse que queria ser livre para decidir as coisas por si. Não queria estar agarrado a contratos”, conta Moisés. E acrescenta: “Depois disso zangou-se e levou todos os instrumentos consigo. Ficámos de mãos a abanar”, recorda.
Os músicos foram falar com a direcção e conseguiram obter financiamento para comprarem os seus instrumentos. “Comprámos tudo na mesma casa excepto a viola. Logo a seguir começámos a tocar.”
Nesta altura, o conjunto ainda não tinha nome. “Um dia, no final de um ensaio, resolvemos que todos tínhamos que puxar pela cabeça para dar um nome à orquestra. Mas das nossas cabeças não saiu nada. Até que Mabombo tinha um disco cubano com uma música intitulada Mambo Djambo e adoptámos por chamar Djambo ao conjunto.”
No início (anos 50) a Orquestra Djambo tocava música internacional. Portuguesa, espanhola e italiana, sobretudo. Policarpo, que entrou para a banda em 1962 como dançarino e que hoje é o principal vocalista, recorda-se de cantar músicas do Elvis Presley, Beatles, Cliff Richard, Cinco de Roma, etc. “Mais tarde começamos a tocar Marrabenta nos bairros.”
Em 1965, a Orquestra sofre novo revés: por ordens da PIDE (a polícia secreta do tempo colonial) o Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique encerra as portas. “Aquilo foi por razões políticas. Não foi por acaso que 70% dos dirigentes da Frelimo passaram pelo Centro”, esclarece Policarpo. Moisés recorda que “nem nos deixaram levar os instrumentos. Perdemos a nossa casa. A partir daí houve uma paragem.”
Em 1969, João Watt, após terminar o serviço militar, desafiou a banda para tocar com ele. “Nessa altura já era muito difícil reunirmo-nos porque muitos assumiram compromissos profissionais fora da capital, outros aventuraram-se para outras paragens”, conta Moisés. O Watt disse-nos que as pessoas já se tinham esquecido do Djambo por isso a partir dali a orquestra passava-se a chamar Djambo 70”, conta Policarpo.
Na época a Orquestra ensaiava muito em casa de Cecília Xavier. “Juntava-nos lá em casa e tocávamos uns batuques. O meu marido, José Mondlane, era o dançarino do grupo”, adianta Cecília. Os palcos eram casas particulares de gente endinheirada, casamentos e outras festas. Depois da independência veio a confusão.”
A independência, na ânsia de servir o povo, transformou o Centro em posto de saúde e a Orquestra continuou desabrigada. Os anos passaram e, com a guerra e as restrições, a actividade da banda foi pouco regular...