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Deniz Cintra - Deniz Cintra (EP 1969)

terça-feira, 29 de abril de 2014



Deniz Cintra – Deniz Cintra (EP Philips 431932 PE, 1969).

Faixas/Tracklist:

01 – Manuel
02 – Pobre Velho
03 – Balada dos Homens e Mulheres Sentados
04 – Maria do Ó

(Todas os temas foram compostos por Deniz Cintra).

Deniz Cintra (n. 1952), irmão do actor e encenador Luís Miguel Cintra, foi um cantautor falecido precocemente em 1990, com 38 anos, um cantor de intervenção e baladeiro português e hoje praticamente esquecido da memória musical deste país.
Em 1972, a Orfeu indicou-o, sem sucesso, para o Festival RTP da Canção, nesse ano ganho por "A Festa da Vida", de Carlos Mendes.
Iniciou-se num Convívio de Medicina e depois num Convívio do liceu que frequentava interpretando canções suas e de Luís Cília. Enveredou pelo “folk”. A sua primeira balada, “O Homem”, tinha ainda muita influência de Cília. Publicou também poemas em vários jornais.
Em Junho de 1969 o “Zip” convida-o a actuar, o que vem a acontecer em Julho (“Testamento de um velho” e “Venho aqui exactamente”). Em Agosto desse ano grava o seu primeiro disco que só será lançado em Junho de 1970. Neste seu EP que aqui apresentamos, é acompanhado por orquestra.
Chegou a ser actor do Grupo de Teatro do Ateneu Cooperativo. 
Faleceu em 1990.


Da contracapa transcrevemos parcialmente o interessante texto escrito por Nuno Portas (adaptado de um depoimento publicado em “A Mosca” em 13 de Setembro de 1969):

“A balada, prenúncio de uma nova geração, não tem tido as mesmas condições de expressão de outras espécies de música dita ligeira mais ou menos comercial quer pelo desconforto temático que introduz, quer pela perturbação que poderia introduzir, quando atingida dimensão popular, nos interesses organizados da indústria e no clima passivo dos espectáculos musicais. Por este motivo interessa discuti-la – não na base das duas intenções mas antes nas potencialidades de comunicação-participação, ou de outro modo, na força que contenha ou possa desenvolver para a criação de um espaço cultural de gente nova acordada - em ritmo-comum. Daí a dívida que temos pelo arranque dado por um José Afonso ou um Adriano Correia de Oliveira.
Dylan, Baez, Gil ou deste lado os Beatles, são chefes de fila, ou melhor, interpretes privilegiados de movimentos culturais avassaladores que estão abalando relações sociais e valores tradicionais…(…).
Na nova canção (balada será termo demasiado particular de um género demasiado revivalista) o intérprete é a chave do elemento significante ao mesmo nível das palavras e do tema musical. A sua forma de cantar é já em si mesma parte decisiva da mensagem: a que nos permite perceber a autenticidade, o inconfundível. Por isso senti na força irresistível vocal do Deniz Cintra, quando o ouvi ao vivo, potencialidades para romper com a relativa passividade, talvez de ilustradores de poema, que me parece dominar na actual fase desta forma de comunicação, a que atribui uma importância cultural própria para além de uma intenção de alargamento do consumo da poesia-escrita que me parece bem secundária e mesmo esteticamente equívoca. O suporte poético usado (cantado) na nova canção não pode senão sofrer nela uma metamorfose, não pode senão ser traído, em nome de outra vontade e de outra forma e de outro tempo de comunicar. É a incessante re-descoberta da comunicação colectiva, feliz, que a todos importa.”

EP ripado do vinil e gentilmente cedido pelo nosso amigo e coleccionador, António Portela, a quem agradecemos. Masterização por Carlos Santos.